13/10/2012

Reflexões sobre cérebro e consciência. Parte III

 

Para a neurocientista e baronesa britânica Susan Greenfield, palestrante da conferência Fronteiras do Pensamento, de 22/09/2012, em Porto Alegre, com o tema o cérebro do futuro, o futuro do cérebro, “À medida que evolui, o cérebro humano consegue se libertar da tirania dos genes e se adaptar ao ambiente. A isso chamamos plasticidade, que vem do grego plastikos, que quer dizer ser moldado. Por cem mil anos, tempo em que o homem está no planeta, nenhum outro ser desenvolveu um cérebro como o seu”. 
 
Professora da Universidade de Oxford, a neurocientista dedica-se ao estudo da fisiologia das doenças de Alzheimer e de Parkinson, além de trabalhar como divulgadora científica. A baronesa é voz dissonante na comunidade científica e fora dela; por defender que e ambiente virtual afeta de forma negativa o cérebro humano. Ela, inclusive, levou para o parlamento britânico, do qual faz parte; a discussão sobre a regulação do uso da internet e possíveis efeitos nocivos de seu uso sobre crianças. 

Além desses temas, Susan Greenfield se destaca pelos seus estudos acerca das bases neurocientíficas da consciência. Sua teoria das assembléias neuronais é tida por cientistas como Jorge Martins de Oliveira, Professor da UFRJ, Diretor do Departamento de Neurociências do Instituto da Pessoa Humana (RJ); como a ideia mais coerente para a formulação de uma hipótese a respeito da formação da consciência.

Para Greenfield, as assembleias são unidades funcionais, de caráter transitório, compostas por neurônios "cedidos" por unidades anatômicas, de caráter permanente (as colunas neurais). Esse sistema embutido nas nossas estruturas cerebrais acontece, segundo a pesquisadora, nas fronteiras entre os neurônios sempre que o cérebro é ativado por algum estímulo. Manifestado sob a forma de disparos elétricos contínuos, são a fonte de energia necessária para que nas moléculas das membranas neuronais ocorra emissão de fótons. Quando essa emissão atinge uma frequência crítica, as moléculas das membranas de milhões de neurônios vibram em uníssono e entram numa fase condensada. Cria-se, assim, uma única identidade, pré-requisito fundamental para formação da consciência. Então, os neurônios de múltiplas colunas disparam simultaneamente; forma-se uma assembléia e, numa ínfima fração de tempo, a consciência explode.
 
Um grupo de físicos israelenses do Instituto Weizmann, chefiado Amiram Ginvald, trabalhou com contrastes sensíveis à voltagem elétrica, de modo a visualizar os neurônios se acendendo em larga escala. Verificou-se, então, que um mero estímulo visual não provoca uma simples resposta cerebral, e sim, uma que cresce à medida que mais e mais neurônios são recrutados: como Greenfield havia previsto quando propôs a teoria das assembléias neuronais.

Uma equipe Universidade Hebraica de Tel-Aviv, liderada por Eilon Vaadia, confirmou os achados do Weizmann, tendo observado que grupos neurais podem se organizar para realizar tarefas específicas e, depois, se reorganizar para formar novos grupos a fim de executar novas funções.

A ponte invisível entre a indetectável consciência e as detectáveis assembléias neuronais, consiste no ainda desconhecido, mas preciso mecanismo; através do qual, num período de tempo infinitamente pequeno, a vibração da matéria super condensada, formada pelas moléculas dos neurônios, libera a energia que vai se expressar sob a forma de um abstrato pensamento consciente.

Na busca “localizar” a consciência, cientistas como o filósofo britânico Derek Parfit, acreditam existir uma região executiva da consciência, para onde convergem todas as informações geradas no cérebro. Porém, trabalhos como o de Susan Greenfield e dos cientistas israelenses, entre outras evidências mostram que a consciência não está restrita a essa ou aquela área, mas se espalha pelo cérebro, de acordo com uma de suas principais características:
— Ser, simultaneamente, uni-temporal e múltiplo espacial.

De que forma coisas intangíveis, como pensamento e consciência são construídas a partir de elementos detectáveis e mensuráveis, como fases condensadas, atividade elétrica e neurotransmissores?

O que se passa nessa ínfima fração de segundo é tão insondável quanto o que ocorreu no instante inicial do big-bang, em que outra matéria, bilhões de vezes mais condensada, deu origem ao universo. De certa forma, tal proposição só reforça o epíteto de ser o cérebro a última fronteira do pensamento.
Revista Filosofia Ciência e Vida Nº 9, 2007. Artigo do Dr. João de Fernandes Teixeira;O livro do cérebro. Alberto P. Quartim de Moraes. Ed. Duetto, 2009. Jornal “O Sul”, de 22.09.2012
Jornal “Zero Hora”, de 22.09.2012.
 

09/10/2012

Reflexões sobre cérebro e consciência. Parte II




A consciência é uma qualidade da mente. Abrange outras designações, tais como subjetividade, autoconsciência, sapiência, e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente. É objeto de pesquisa no âmbito da ciência cognitiva e suas especialidades, médicas ou não, que vão desde a neurologia, a psicologia, a antropologia, passando pela filosofia da mente, além da inteligência artificial. Descobrir se estados mentais são estados cerebrais é dúvida antiga. O divisor de águas é o pensamento do filósofo e médico, Renè Descartes ao afirmar que estados mentais e estados cerebrais não são a mesma coisa. Ao defender a existência de um centro cerebral da consciência na glândula pineal e que, através dela, a alma se comunicaria com o soma (corpo), Descartes respondeu de forma original para o século XVII, à pergunta que sempre inquietou os humanos: — Quem somos nós?

Três séculos depois, o filósofo da mente, Daniel Dennett contesta a validade da teoria de Descartes. Para Dennett, nosso cérebro pode ser comparado a uma espécie de computador e a consciência – enquanto uma propriedade funcional – a certo tipo de software, uma “máquina virtual” em nosso cérebro. A consciência é, portanto, um fenômeno de terceira pessoa e, por isso mesmo, passível de ser analisado cientificamente. Sua teoria, de caráter reducionista, busca definir e explicar os estados e processos mentais conscientes em termos de atividade funcional específica (não necessariamente exercida pelo cérebro enquanto um órgão biológico). Ou seja, a capacidade de um sistema de receber estímulos ambientais, processar um conjunto de informações e exercer uma resposta comportamental para qual seja requerida algum nível de inteligência.
 
A Dennet se contrapõe o também filósofo John Searle, ao afirmar que os estados de consciência só podem ser revelados do ponto de vista da primeira pessoa. Por ter acesso privilegiado às suas experiências sensoriais, pensamentos, o indivíduo jamais poderia estar errado quanto ao estado de consciência em que se encontra em determinado momento. Conforme Searle, no que se refere à consciência, aparência é igual à realidade e nada que ocorre dentro de um cérebro dá indícios do tipo de pensamento que está ocorrendo. A experiência consciente é intrinsecamente subjetiva e quanto esse aspecto, irredutível a qualquer explicação de caráter científico, cuja formulação se vale do ponto de vista da terceira pessoa. O ato de examinar um eletroencefalograma ou uma neuroimagem, por exemplo, não permite que esse alguém de fora descreva o que acontece dentro do cérebro observado. Um computador recebe uma informação, processa e a devolve, sem em nenhum momento "entender" nada do que está acontecendo. Mudar o programa significa apenas alterar as regras, já que o entendimento continuaria nulo, e a inteligência artificial, impossível. De acordo com Searle, falta à inteligência artificial a intencionalidade intrínseca, elemento essencial à consciência. Ao conferir primazia às qualidades subjetivas da experiência consciente, Searle exclui a possibilidade do erro.
Ao contestar Searle, Dennett e afirma a necessidade de se distinguir aparência e realidade. O ser humano provou ser capaz de aprender com a experiência. Não fazer tal distinção significa estar certo sempre e não aprender com o feed-back negativo, algo que tornaria a própria evolução da vida e da inteligência impossíveis.

Não há, até o momento, nenhuma explicação, plenamente satisfatória, para o mecanismo de formação da consciência. O modelo do computador pode explicar a memória, mas não esclarece a questão da consciência. A máquina, não cria nem sente, tampouco preenche os requisitos necessários para explicar a característica unitária da consciência, a qual se expressa pela fusão, durante um período variável de tempo, de todas as nossas percepções, pensamentos e emoções. Sem essa unidade, a pessoa não experimenta, à medida que "vivencia" as múltiplas experiências do dia a dia, a sensação de individualidade, de ser um ser uno e indivisível.

A consciência representa nossa individualidade e subjetividade. É essa última que confere ao ser humano a possibilidade de refletir, conhecer-se, viver em sociedade e receber dela informações sobre si, além de permitir ao ser humano a capacidade de agir.

 

Referências:


Revista Filosofia Ciência e Vida Nº 9, 2007. Artigo do filósofo da USP, Dr. João F. Teixeira.