03/06/2012

Sobre o ato de escrever cartas

        
            Escrever cartas hoje em dia é um ato totalmente anacrônico. Ninguém escreve estando próximo e a correspondência necessita da distância e da ausência para prosperar. Sendo este o motivo, tampouco se justifica a manutenção dessa forma de se comunicar. Basta uma tela de um celular para romper distâncias e uma tela de computador para visualizar o interlocutor do outro lado do mundo.

            Aqueles poucos que insistem em escrever o fazem por saudosismo e pelo desejo que o destinatário responda também da forma epistolar. Ou seja, cartas assim, se tornam uma camisa de força para quem recebe. Algo parecido com duplicatas, que se recebe e se deve. Pode ser uma alegria receber uma carta, principalmente se for de um amigo. Contudo, o remorso em não respondê-la fica ali, perturbando-nos ao longo dos dias como uma dívida inadimplente, mandando a satisfação da notícia por água abaixo. Se a obrigação é apenas implícita, não há porque se magoar, já que carta não é jogo de frescobol na praia, toma lá, dá cá. Mas que fica uma rusguinha, ah, isso fica.

            A linguagem se modificou ameaçando sepultar a língua culta nos diálogos escritos com o advento do e-mail; dando prosseguimento à primeira pá de cal na correspondência dada inicialmente com o telefone e seu sentido de urgência.   

            A correspondência em si mesma já é uma forma de utopia. Escrever uma carta é enviar uma mensagem para o futuro; falar a partir do presente com um destinatário que não se encontra ali, que não se sabe como estará — em que estado de espírito, com quem — enquanto lhe escrevemos e, principalmente, depois: ao ler-nos. A correspondência é a forma utópica da conversa porque anula o presente e faz do futuro o único lugar possível de diálogo.

            Uma imagem na tela do computador ou o uso do telefone exigem articulação imediata. A ansiedade que a distância física gera pela impossibilidade de contato; impede a tradução espontânea dos sentimentos acumulados.

            Cartas não substituem a convivência entre os amigos espalhados cada qual por lugares e cidades diferentes. Todavia, a palavra escrita tem a peculiaridade de estabelecer uma relação da presença daqueles que amamos. Na solidão da escrita, a conversa se faz acompanhar de fatos, locais, cuja descrição vivifica as palavras e quem recebe imagina o contexto e a emoção que as impregnou.  O testemunho de um amigo, um familiar, nos traz a sua existência inserido nesse lugar ausente e permite a partilha da sua intimidade, seus sentimentos. Mesmo que sejam cartas esporádicas e seu conteúdo, trivial, elas são o retrato da vivência em sua forma mais pura, retratando e compartilhando emoção do momento em que foi escrita, de forma ímpar, que nenhum outro meio pode captar. Um fragmento da vida da pessoa através do qual se pode vislumbrar o todo.

REFERÊNCIAS:

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre. L&PM, 2006

PIGLIA, Ricardo. Respiração artificial. São Paulo. Iluminuras, 2006