31/07/2011

A Ambiguidade da Riqueza


Nenhum de nós sabe precisar em que momento o dinheiro se insidia na nossa vida como facilitador dos relacionamentos.  O dinheiro torna as pessoas mais contentes com quem o proporcionou e nos sentimos mais a vontade com quem está satisfeito conosco. Seja sob a forma de um presente, um agrado, ou quando damos uma boa gorjeta a quem nos prestou um serviço. Uma vez, tendo a chave da confiança, relaxamos. Fixamos um ponto de corte. Somos objeto do agradecimento de alguém pela nossa gentileza inata. Uma afeição sincera, porque repousada em bases sólidas.
             O dinheiro, funcionando como mecanismo tradutor da nossa vontade, das nossas emoções, descomplica os vínculos que mantemos ao nosso redor. A amizade é estabelecida, consolidada sem que prestemos atenção a eventuais motivos obscuros. É às claras, respaldada pelo nosso desapego às qualidades financeiras _ estas impronunciáveis _ mas presentes o tempo todo, conferindo solidez às conexões.
            Quando exageramos na gentileza e generosidade, na ânsia de colecionarmos amigos, convém pensar se os queremos sempre perto de nós, elegendo aqueles dos quais esperamos lealdade. Como todo instrumento de atração, o dinheiro e suas manifestações não funciona isoladamente.
            Podemos desmistificar um pouco, ter uma relação sincera com o uso que fazemos do dinheiro. Um raciocínio mais direto, menos fantasioso, não é tão cínico assim. O que não evita o nosso amedrontamento só de pensar em encará-lo sem rodeios, esquecendo-se que nós, humanos, somos o pai da criança. Nós o inventamos como base das infinitas trocas que realizamos pela nossa sobrevivência. Ok. Quando nascemos, o dinheiro já existia, era tarde demais para reinventar a roda. Tudo bem. Só que ninguém, ao longo da história da humanidade conseguiu barrar o dinheiro como energia reguladora das relações humanas. Como mantenedora dos vínculos entre pessoas e povos, sejam esses, elos culturais, religiosos, de sobrevivência ou financeiros, propriamente ditos. 
            Não dá para recuar. Não nos tornamos mais desumanos por usufruir dele. Talvez seja necessária uma precaução quando à ambiguidade da riqueza, do poder, do manejo com o dinheiro. Essa ambiguidade é a fonte última. É a face palpável de uma relação de escravidão, que, como nos primórdios da civilização, permanece dividindo-nos em dominadores e dominados. Essa imprecisão nos desafia à racionalidade. Quem sabe, não seja o nosso desafio maior, a prova final que nos outorgaria o direito de nos denominarmos seres morais, éticos e humanos.

13/07/2011

Seria o pessimismo mais inteligente?

 

            O filósofo Luiz Felipe Pondé, professor da PUC-SP e da FAAP, autor de inúmeros livros, sendo o mais recente, O Catolicismo Hoje, (Benvirá) é tido como polêmico no meio intelectual. Pondé não se furta ao contato com o público de fora da Academia; lança mão dos meios que a mídia lhe dispõe para divulgar suas idéias, seja como colunista da Folha de São Paulo, seja como palestrante da FLIP-Feira Literária de Paraty-RJ, seja nas páginas amarelas da Revista VEJA desta semana.

            Pondé foi o conferencista do ciclo de palestras “Fronteiras do Pensamento”, desta semana  na capital gaúcha, onde se propôs a responder à pergunta que foi o título da sua exposição: “Seria o pessimismo mais inteligente? Trazemos aqui as respostas de Pondé a algumas das perguntas da platéia, após a palestra, realizada por ele no salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, na noite de 11 de julho de 2011:


Pergunta: O avanço das ciências, por possibilitar o conhecimento das nossas limitações, não colabora com o pessimismo, com o nosso desencanto com o mundo?

Pondé: A ciência desencanta o mundo, sim. A angústia de fundo está ligada à tristeza cotidiana. Quando alguém pergunta ao médico por que o seu filho de quinze anos tem câncer, por exemplo, o profissional dá as razões técnicas. Na prática, o que se procura é conforto. Quem nos dá o consolo são os religiosos. A ciência tem o seu próprio otimismo. Ela avança na saúde, oferece o remédio, mas não consegue dar sentido para a vida. O pessimismo tem uma função de vigília na filosofia e nas ciências humanas. O debate filosófico aqui é sobre o mal estar, a tentativa de reencantamento, de divindade. A ciência, de vez em quando, produz uma espécie de solidão.


Pergunta: O pensamento pessimista está relacionado com o fomento dos movimentos fundamentalistas?

Pondé: O fundamentalismo religioso é fenômeno disputado pelos cientistas da religião. Religião é um sistema de sentido que reúne pensamentos, prática cotidiana, narrativa histórica e que funciona para muitas pessoas. Fundamentalismo é um termo da década de 20, reação protestante, crítica ao darwinismo. Em nossos dias ganhou conotação negativa. É tido como reação à modernização, que teria provocado o distanciamento dos valores originais. A modernização em si é uma experiência de desencanto. O fundamentalismo é um olhar negativo que se alimenta do desencanto e oferece outro encantamento da vida, uma sensação de pertencimento.


Pergunta: Existem razões para ser otimista ou pessimista nesse início de século?

Pondé: Tanto o otimismo como o pessimismo exigem doses equilibradas de uso. Tudo é contraditório.  É difícil ser pessimista o tempo todo. Ser alegre, ser triste, tem um sentido mais largo. Somos mais livres agora, temos sucesso, tecnologias. Ser pessimista para quê? Por outro lado, os vínculos ficam mais difíceis, acredita-se em si e não nos outros. O sucesso desumaniza, nos tira a paciência com quem chora demais, reclama demais. O otimismo assim é um perigo.  Cabe a reflexão do pessimismo como parceiro do maior cuidado com o ser humano, quando estamos apaixonados demais por nossas potências. É terrível esperar a redenção. A maturidade tem a ver com o mundo despedaçado, fora e dentro de nós.


Pergunta: Qual o grande problema do Pensamento Politicamente Correto?

Pondé: O Pensamento Politicamente Correto se origina na corrente filosófica pragmática americana. É um constrangimento invisível, ideológico, típico da nova esquerda americana. A função de estabilização da sociedade, antes centrada no proletariado, hoje se estende a outras minorias. Há mudança do foco dos grupos sociais, abrangendo as franjas da sociedade. O melhor lado do politicamente correto é a educação doméstica, a convivência com os diferentes. Na prática, o pensamento politicamente correto torna-se um controle, um patrulhamento que só se destina a destruir o outro; As pessoas tem medo de escrever. Há uma série de grupos que patrulham quem escreve. O politicamente correto é um modo de constrangimento, controle e ameaça do Pensamento Público, tolhendo a reflexão sobre uma série de discussões necessárias ao mundo atual. É covarde, simplifica a discussão, deixa o Pensamento Público burro, medroso e covarde.  A despeito disso, temos avançado em diversas questões no pensamento público. Como não ser otimista?