29/06/2011

POESIA VISUAL: De Simmias a Joan Brossa, Uma Conexão com o Cotidiano


POESIA VISUAL: Uma Conexão Com o Cotidiano
O olhar e o falar nas diversas formas de Arte
    Quando a transmissão de conhecimento era basicamente oral, a realidade era uma só para todos. Se todos diziam as mesmas palavras, não havia diferença. As palavras tinham o status de realidade, desbancando a visão particular. Logo, a verdade era algo sobre o quê a maioria dizia as mesmas frases.
 
    A palavra é a ferramenta básica da poesia, mas isto não impede que no feitio do poema - transcrição de um indivíduo de como ele enxerga a realidade aparentemente única – os poetas agreguem materiais e/ou maneiras de se exprimir diversas, que conferem peculiaridades à poesia, sem perder a essência.
 
    Isso também acontece nas demais espécies de Arte, este amplo território do sensível, materializado em pintura, música, filme, teatro, literatura, escultura e as múltiplas formas de espetáculo. Há sempre um novo fazer artístico sendo agregado.
    Na Arte contemporânea o artista usufrui como nunca do direito de pensar, interrogar e atribuir novos significados às imagens, tanto as tradicionais da história da arte quanto daquelas do cotidiano. Ele não cria novidades. Reprocessa linguagens, aprofunda a sua pesquisa e poética, tendo como instrumental um conjunto de imagens.
    Na Arte em forma de Poesia, deparamo-nos com a substância da linguagem. Poema é esmero e sentimento, aquilo que toca em cada um de nós. Para Júlio Braga, a poesia é arte gráfica, assentada num suporte neutro. "Uma vez descoberta, a essência da linguagem gráfica, ela reencontra seu instrumento autêntico, a palavra, com toda a sua extensão para o logos: verbal, escrita, visual, mímica, prática, filosófica, épica, dramática, coreográfica, mitogênica, cosmogônica, etc", conclui Braga.
De Simmias a Joan Brossa
    O homem ao longo do tempo acrescentou novos significados à escrita. Um exemplo é o poema Ovo, de Simmias de Rhodes, do século IV a.C, que conta o nascimento de Eros a partir do ovo primitivo. É tido como o primeiro modelo de Poesia Visual. A forma (ovo) traduz o sentido e a palavra se torna um atributo da imagem. (Figura 1)
Figura 1

Ovo - Reproduzido em versão tipográfica
    O poeta catalão Joan Brossa é um dos ícones da inquietude criativa, daqueles artistas que não se conformam com uma única vertente. Seja buscando a ordenação visual dos textos, sua conexão com o cotidiano, inserindo-a nos espaços públicos, seja fazendo uso dos objetos em si, rompendo com o padrão estabelecido, mas ainda assim, mantendo algo da estética tradicional. Ele sacudiu a poeira da Poesia Visual e a trouxe para a contemporaneidade. Antes dele, trilharam este caminho os autointitulados vanguardistas europeus do fim do século XIX e início do século XX, que traziam para si o papel de guias da cultura do seu tempo. Embora tenha bebido nesta fonte, Brossa trilhou o seu próprio caminho, tornando-se um artista multimídia.
Movimentos artísticos, políticos e literários dos séculos XIX e XX
    O Dadaísmo(1916-1922), movimento literário criado em 1916, por escritores e artistas plásticos exilados em Zurique, surgiu para demonstrar como, às vezes, nem a própria arte faz sentido no mundo. A arte perdera todo o seu norte, ante a irracionalidade da guerra. O Dadaísmo manifestava esta decepção Palavras desordenadas, sem sentido eram a tônica do movimento, revoltado com o capitalismo burguês e à literatura tradicional, com a pretensão de ir além do expressionismo, futurismo e cubismo. Ante uma Europa em frangalhos por uma guerra gratuita, desconstruir a arte foi maneira encontrada pelos dadaístas para demonstrar a insatisfação com a realidade incômoda.
    Movimentos posteriores inspiraram-se no Dadaísmo, como o Modernismo e o Concretismo. Este último, na década de 50, quis terminar com a diferenciação entre forma e conteúdo vigentes. No Concretismo, o pensamento é calcado na realidade. Influenciou a música, a poesia e as artes plásticas e seu expoente foi o poeta russo Vladimir Mayakovsky, que incorporou a temática social, inovando a linguagem nos anos 60, numa poesia planificada e racional. No Brasil, Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos foram os pilares do movimento. Aboliu-se o verso tradicional e a poesia composta basicamente de verbos e substantivos. A linguagem era concisa, espelhando a sociedade industrial, sem começo meio e fim. Na folha em branco, a palavra se transforma em objeto visual
e admite múltiplas leituras. Os aspectos geométricos passaram a ser incorporados na poesia, na música e nas artes plásticas. Surge a comunicação visual como carro chefe da poesia Concreta. No poema "beba coca cola", abaixo,
Décio Pignatari dá mostras do vigor de sua obra.
beba coca cola 
babe         cola 
beba coca 
babe cola caco 
caco 
cola 
         c l o a c a 

"beba coca cola" (1957), Décio Pignatari

Joan Brossa e João Cabral de Melo Neto – Um vínculo literário fecundo
    A figura de Brossa(1919-1998) sintetiza, a nosso ver, o perfil da revolução estética do século XX. Seus textos literários e trabalhos verbo-visuais – Poesia Experimental – da década 40, consolidaram a transformação da palavra como objeto visual, ocorrida com o Concretismo, na década de 50. O termo Poesia Visual sequer existia. Sua extensa produção se constituía de livros, poemas visuais, poemas objeto, instalações, dentre outras. Era amigo do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, na época Vice-Cônsul do Brasil em Barcelona, que lhe propiciou o contato com o marxismo e a realidade latinoamericana. Seus dois primeiros livros - o Sonets de caruixa (1949) e En va fer Joan Brossa (1951) - foram feitos numa tipografia artesanal que João Cabral mantinha em casa. Brossa lutou na Guerra Civil Espanhola e sobrevivia vendendo livros proibidos pelo franquismo. Na década de 20 seus poemas já reivindicavam a liberdade da Catalunha. Na condição de diplomata, Cabral oferecia segurança às reuniões dos intelectuais da época perseguidos pelo regime do Generalíssimo Francisco Franco, bem como participava efetivamente da efervescência cultural espanhola.
    Merece aqui, um capítulo à parte, a consistente obra literária de João Cabral de Melo Neto(1920-1999), pernambucano do Recife. No fim da década de 50, já produzira, dentre outros, Pedra do Sono(1942), Os Três Mal-Amados (1943),O Engenheiro (1945), O Cão sem Plumas (1950) Sua obra magna de Cabral é "Morte e Vida Severina" encenada em 1969 pela Companhia Teatral de Paulo Autran:


"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
(Morte e Vida Severina)





    Um dos expoentes brasileiros da terceira fase do Modernismo(1945-1960), Cabral possuía um rigor estético obsessivo, uma antipoesia. Valia-se de antíteses como "dentro e fora", "fértil e desértico" e do uso sistemático de palavras como faca, esqueleto, vazio, fome, pedra, dentre outras. O resultado era uma poesia crua que paradoxalmente, estranha e atrai. Não há paixão, basta-lhe a construção pensada e elaborada da linguagem, para se extrair poemas concretos, poemas-objetos, fazer poesia com coisas, com o cotidiano, alimentando o mito de autor cerebral.
    O vínculo literário entre os poetas Joões - brasileiro e espanhol – foi profícuo. Com o pé na materialidade, ambos ligaram sua arte ao dia-a-dia, sedimentando a experimentação poética do Concretismo. De um lado, Brossa, artista precursor da multimídia, que batia pernas por Barcelona sem dinheiro e comendo pouco, dono de uma imaginação riquíssima e uma alegria incomum. Do outro, Cabral, diplomata, intelectual, para quem a vida era bela, porém sofrida, poeta que renegava a subjetividade. Em comum a inquietude artística, característica daqueles que não sossegam quando chegam os prêmios e o reconhecimento e mantém uma diversificada produção artística da juventude à velhice. Um enriqueceu o trabalho do outro.
Brossa e a Poesia Visual
    A poesia visual foi agregada à obra de Joan Brossa, na década de 60. Entre a concepção e a execução decorria longo tempo.(figuras 2a, 2b, 2c)
Figura 2a
Poema visual, concebido 1970 - realizado 1978 /serigrafía

Figura 2b
Solstici, 1989 / litografía.

Figura 2c 
Poema visual, concebido 1970 - realizado 1978 /serigrafía
Imagens: Fundació Joan Brossa – Barcelona-Espanha

    O próprio Brossa explicou como passou da poesia visual para o poema objeto: "Foi todo um processo. Eu comecei fazendo literatura com peruca, depois me concentrei na linguagem coloquial e depois passei ao objeto. Para mim a escrita e o trabalho com os objetos são ferramentas que me permitem colher a poesia, que como a eletricidade está em todas as partes, tem é que colhê-la. O poeta constrói pequenos veículos para transmitir a poesia. Eu gosto de alterar os objetos e fazer metáforas. Eu colho um fragmento da realidade mais comum, uma propaganda de um periódico, por exemplo, e gosto de tocá-lo um pouco, intervindo minimamente. Os objetos têm um sentido, eu o pego do cotidiano e lhe dou outro sentido, tratando de resgatá-lo dessa dependência funcional". (Figura 3a,b,c)
Figura 3a

Poema objeto-1969


Figura 3b








Paleta Poética-1989 


 Figura 3c

Senhor – 1975


Imagens: Fundació Joan Brossa – Barcelona – Espanha

    A partir do livro Poesia Rasa(1970), sua obra é publicada regularmente e consagra-se mundialmente em 1991, expondo no Centro de Arte Rainha Sofia, em Madri.
    No museu Nacional Pablo Picasso, em Paris, encontra-se a obra- "Tête de taureau" - (Paris, 1942), ilustrada abaixo, que traduz de forma ímpar a idéia de transformação da arte. Um selim e um guidão de bicicleta velha - símbolo da indústria – unidos se tornaram uma Cabeça de touro – Símbolo da Espanha. A mesma transformação que outros artistas também exercitaram, de Michel Duchamps a Andy Warol. Bastou pendurar na parede do tal museu e se tornou escultura. (figura 4)
Figura 4


"Tête de taureau"-Pablo Picasso – Paris-1942
Imagens: Museu Pablo Picasso – Paris-França


    Joan Brossa compôs um poema tipográfico com o mesmo tema de Picasso. Simplificou o desenho de uma cabeça de boi até que ele se tornasse a letra A. Pegou algo real – a letra A do alfabeto – e a transformou em um objeto – a cabeça de boi. O poema-objeto. (Figura 5)

Figura 5







Cap de Bou, concebido 1969 - editado 1982 / serigrafia



A obra de Joan Brossa visita o Brasil

    Visitamos no MARGS em 2006, a intrigante mostra de Joan Brossa, "De Barcelona ao Novo Mundo". Logo na entrada, correntes pendiam do teto e ocupavam uma sala inteira. Uma placa informava: Correntes de Dâmocles.(Figura 6)
Figura 6

subrossa3.files.wordpress.com2007/04/cadenes-damocles.jpg



     A instalação era parte da parte da retrospectiva de poemas visuais, poemas objeto, cartazes e livros produzidos pelo autor entre 1938 e 1998. Uma obra em particular surpreendeu-nos: Intermedi – cuja imagem está reproduzida abaixo e uma obra desta autora, um poema com o mesmo título em português. Não se trata releitura, pois não conhecíamos o autor ou sua obra. Apenas uma coincidência e um tema comum. Um - poesia visual. Outro - suporte tradicional.(Figura 7)

Figura 7
Intermedi – Joan Brossa – 1991


Fundació Joan Brossa – Barcelona - Espanha



INTERVALO

Eis que chega triunfal!

a cavalleria rusticana

intermezzo:

imobilizai-vos!

Dos rostos do povaréu

nenhum calor emana

faces gretadas

palidez mortal

puro pavor.

Mãos crispadas, calos atávicos

ancestral horror.

Sequer as pupilas movem

o inimigo imobiliza

allegro, ma non troppo

solta-se o primeiro músculo

o segundo...

o terceiro...

Todos!

a força injeta-se vital

entra de roldão

a dança flui, a dureza esvai

o populacho dança

o inimigo baila.

A música alcança

o cérebro, as veias,

o calor invade...

tece teias.

E a arena

vira uma festa

que a luz imensa clareia

amnésia para o sofrimento

refresco para o espírito

até que voltem as cadeias.


O fazer contemporâneo da poesia segue em construção.

    Na obra "Vaso Quebrado", da artista plástica Sandra Virginia Scheid. "Quando se fala que vaso quebrado não cola mais, não cola mais na forma que tinha, mas com os cacos quebrados você pode fazer um vaso mais bonito que antes" – diz Sandra.(figura 8).
Figura 8



Vaso quebrado – Sandra Virgínia Scheid – Porto Alegre – RS




Foto cedida pela autora


    Em outra obra - Coração em pedaços - "UM quadro é o recado do coração. Os cacos quebrados rearranjados e colados uns aos outros e na base, formam um coração mais forte, mais coeso, mais guerreiro, não sei se mais feliz, mais com
mais garra e vida, sim" – Reflete a artista. (figura 9)

Figura 9

Coração em Pedaços – Sandra Virgínia Scheid – Porto Alegre – RS



Foto cedida pela autora






    Em "Pulsar da Arte", da artista plástica Patrícia Lettiere,(figura 10) um coração estilizado, simboliza a união de Artes e Artistas.   O sangue que esse coração recebe e transporta é a Inspiração que corre nas veias dos artistas e que se transforma em Arte. Para contemplar a beleza da Arte não é preciso que os olhos procurem pelos detalhes, pois às vezes eles se escondem da visão. É precioso e gratificante sentir o Pulsar da Arte, sublime manifestação dos nobres e puros sentimentos, conclui Patrícia.



O pulsar da arte – Patrícia Lettiere – Petrópolis-RJ





Foto cedida pela autora



 A imagem toma conta do mundo outra vez

    A imagem tomou conta do mundo. Interagiu com a palavra, ganhou outras roupagens e suportes. Podemos dizer que uma arte é atual somente quando ela ganha as ruas, mesmo que o público olhe e diga – Mas afinal, o que é isto? Felizmente, as mostras de arte contemporânea ganham espaço em redutos ditos tradicionais, bienais, exposições, atualizando para as tecnologias do momento o modo de se fazer arte, disseminar literatura, transmitir sentimentos e conhecimento.

    Joan Brossa se dizia poeta, mas o seu conceito de poesia foi muito além do convencional. A arte é como a alta costura, que não é usável no protótipo da criação. Aquilo que é mostrado é o núcleo das idéias que serão discutidas, disseminadas em roupa/arte palpável e aceita/usada por crítica e público. Enquanto o novo paradigma não se impõe o artista sobrevive do suporte tradicional, até que um novo modelo assuma o papel de vanguarda.

Poesia Visual – Um conceito por criar – A Poesia Digital

    O termo poesia visual é controverso, conforme a professora Sheila Maués. Para ela, "uma vez que todas as mentes criativas tentaram atingir formas inventivas em função de poéticas diversas. Hoje se fala em poesia visual como resultante da interseção entre poesia e a experimentação visual pela utilização de signagens simultâneas. Essa dicção contemporânea atribui ao conceito de poesia visual falso ar atual. O conceito de poesia visual, ainda por criar, deve partir da revisão de apreciações históricas, para considerar o todo. Poesia visual é poesia livre, é dizer como nunca foi dito, sem pudores de invadir territórios artísticos vizinhos ou códigos impensados. Poesia visual é formar por formar; quer escreva, desenhe, cole, pinte, digite, publique ou emoldure; quer construa por cálculos, projetos ou acredite em inspiração, instinto, acaso. O essencial é que haja poesia".

Já se fala em nossos dias de Poesia Digital... E começa tudo de novo...

 

2 comentários:

  1. Gostei muito Rackel. Pra mim, uma descoberta o poema ovo datado do século IV a.C. Bom saber que os modernos foram os antigos.

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  2. Excelente postagem, parabéns pelo trabalho.Beijos

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