13/05/2011

Fidelidade é Tendência


Não. Fidelidade não caiu de moda, Senhoras e Senhores. Antes que alguém tenha a brilhante idéia de nos internar por ousar tal afirmativa, declaramos a quem interessar possa – ou não - que não se trata de loucura da autora. É a mais pura verdade. Talvez seja uma declaração tão antiga quanto o tratamento formal do início deste texto. Fidelidade é tendência. Aliás, esta sim, uma palavrinha moderna, enxuta e forte. Tendência. Soa bem, não é? Quando a ouvimos, sabemos que foi dada a largada para adquirirmos, usufruirmos ou adotarmos a nova tradução de estar na moda.

Tendência quer dizer que pouca gente possui, algum privilegiado deu o sinal, caiu no twitter, milhares retuitaram, conferindo ao produto status de novidade novíssima – perdoem-nos a redundância, mas é proposital. Como o casquete, chapeuzinho, enfeite – sei lá o quê mais – da agora Princesa Catherine, a noiva mais vista do planeta. Tudo o que orbitou em volta do casamento do século gerou uma onda avassaladora e não temos outra alternativa senão se deixar levar. Se o dito chapeuzinho da Kate bombar, não vai ter senso de ridículo que nos impeça de sair com um deles na rua, na chuva, na fazenda e na balada; mesmo que que nossos olhos tupiniquins enxerguem o tal enfeite como um papagaio plantado na cabeça de cada uma de nós. Mulheres. Mas não somos só nós, não, rapazes. Os homens também fazem das suas.

Kate prometeu ser fiel? Parece que não. Cartas serão  bem vindas. Ajudem uma pobre colunista a exterminar uma dúvida cruel. Aliança ela usou, sim. Só ela, o príncipe William não. Na realeza britânica só os homens usam. Uma deixa para a infidelidade? Nem tanto. Seria cruel manchar um conto de fadas desse, mesmo que os pais do noivo não tenham sido exatamente um modelo de fidelidade. Com eles vai ser diferente. Prova disso é a adesão maciça à compra de bugigangas de tudo que se refira ao casal. Injeção de ânimo na economia britânica. Com direito a beijo em dobro.

Desse lado do Atlântico a fidelidade continua bombando. Pelo menos no que se refere às dúzias de cartões fidelidade que andam abarrotando as carteiras de todas as classes sociais brasileiras, de uma forma absolutamente democrática. Aplausos. Excercitemos a possibilidade de um anúncio sem letra miúda: “Cartão Fidelidade da loja tal, banco tal. Seja fiel, você só tem a ganhar – a nossa empresa também. Você acumula pontos para usar... tchan, tchan, tchan... Na próxima compra. Em troca, nós lhe prometemos cartão de felicitações no seu aniversário, no natal, na páscoa e em todas as oportunidades que tivermos de estimular você a gastar seu rico dinheirinho conosco. Seja você mesmo. Escolha. Seus dados cadastrais serão incluídos no nosso serviço de telemarketing para que uma voz de gente o parabenize nessas datas. Não importa a que hora do dia ou da noite, você ficará com os olhos marejados pela lembrança, oportunidade em que será informado das últimas... tendências e será convidado a passar na loja e tomar um cafezinho conosco. E não é só isso. Você receberá diretamente no seu e-mail as mesmas informações. Tudo para a sua comodidade. Vale a pena ser fiel. Se você tem um desejo, nós realizamos até que a morte nos separe. Ops, perdão, até que se esgotem os limites da sua gama de cartões”.

Nesse ponto, caro leitor, você se tornou um infiel. Pecado mortal. Você pulou a cerca. A sua fidelidade era com a empresa em questão e com o resto da praça. Tsc. Tsc. Você não soube administrar seus relacionamentos financeiros. É um traidor que se aproveitou da boa vontade da empresa. Que pena. O casamento terminou, infelizmente.

Ironias à parte, o processo de fidelização de clientes é uma tendência no mercado. A palavra fidelidade foi um achado ímpar do marketing. E se encontrou tanto apelo entre nós, consumidores, é porque tocou num ponto frágil, fundamental para nós: Nossos valores, nossa necessidade de confiança em quem está ao nosso lado. Trocamos de cenário mas não podemos trocar de vida. Vivemos sobre a areia movediça da contingência, da rapidez. Para Zigmunt Baumann, em Tempos Líquidos – Zahar – 2007 – O progresso nos fez correr atrás das utopias, não de sua realização. A velha regrinha de causa e efeito continua valendo. E citando também Sartre: “Somos o resultado das nossas escolhas”. Fidelidade – creiamos – precisa se tornar uma tendência. Nem que seja para preservarmos um tantinho de humanidade

2 comentários:

  1. Esta moda só não pega no Congresso Nacional. Bah, mas o congresso não faz parte do nosso mundo.

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  2. Nossa Rackel, quanta gente pecisaria ler teu texto!!!!!
    Expresso a felidelidade tal qual a honradez.
    Mas como nossa sociedade está bastante 'machucada', a tal fidelidde tem novas nuances...
    Comportamentos e conceitos absurdos surgem, mas não acredito que consigam embalar a fidelidade em seus ninhos. Algo está se perdendo...
    Bjs

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