27/05/2011

Para Que Serve Isso mesmo?



            Nossa sociedade contemporânea consolidou os clichês para ratificar o que queremos encerrar peremptoriamente, dar um veredito, sem comportar maiores elucubrações. São armadilhas que lançamos mão num ímpeto de explicar qualquer coisa que apareça e para a qual não tenhamos tempo para um raciocínio mais amplo ou até por incapacidade mental nossa de fazê-lo.
            Fruto da nossa ignorância, toma corpo o descarte de tudo aquilo que não enxergamos aplicação imediata. Sinônimo também da impaciência característica dos nossos dias. Só nos serve o que é instantâneo, centrado no que está acontecendo agora e que precisa obrigatoriamente servir para alguma finalidade. Qualquer raciocínio um pouco mais complexo é doideira do interlocutor. O que serve é o aqui e agora.
            Na visão utilitária e imediatista há todo um culto ao presente. Passado e futuro perderam a importância e nós a capacidade de rever atos e pensar adiante. As tecnologias digitais forçam o uso do real-time (que também poderíamos traduzir por sincronia) e a medida de valor é a do presente. O on-line não admite ruídos, chiados de rádio ou mal entendidos. É proibida a pausa para o raciocínio. Só vale o que é útil e o uso de clichês. Taxa-se de prolixo, quando na verdade se quer apenas raciocinar e entender o contexto. Há momentos em que mesmo o ruído, o insólito, o aparentemente inútil é necessário para renovar processos, trazer idéias inovadoras e fugir da pasteurização e da mesmice.
            Na arte, também não vemos finalidade utilitária, aquilo que Kant chamou de “finalidades sem fim”, Ou seja, “o objeto belo tem a forma da finalidade – achamos que ele é o que devia ser – e, no entanto, não tem fim determinado, pois não nos é possível determinar o que é que devia ser”. Mas nem por isso nos privamos do despertar dos sentidos. O ser humano reage às interações com corpo e mente. Não há resposta isolada e cada um de nós necessita da sua porção de belo, respeitado o nível de entendimento de cada um. Não há como prescindir do necessário á sobrevivência, mesmo que num primeiro momento não identifiquemos onde isso vai dar.
            Quando um aluno rejeita informações que não estão dentro do seu leque de interesse, alimenta a pergunta fatídica: “Para que serve isto mesmo?”. Só que ele está repetindo um hábito que é da nossa sociedade como um todo: o conceito arraigado da utilidade das coisas.            O Sistema Educacional, por sua vez, cansado de ouvir isto do seu público alvo, se deixa levar pelo útil, alimentando no aluno a predisposição à raiva contra qualquer linha de pensamento que lhe busque ensinar um mínimo de como fazer bem determinada atividade, induzindo-o com algumas técnicas de pensar criativamente.
            Toda Filosofia é pensamento, mas nem todo pensamento é Filosofia, diz o filósofo e poeta Antônio Cícero em entrevista à revista Ciência e Vida Filosofia, nr. 25. E se definimos Filosofia como o pensamento abstrato e incisivo, aparentemente é inútil dentro do contexto do utilitarismo, porque então torná-la matéria do ensino médio? Mas é, sobretudo, por ser um pensamento crítico e radical, que a Filosofia pode e deve instrumentar nossos jovens a questionar pressupostos vigentes e fazê-los pensar de forma autônoma.
            Tempos pragmáticos, estes nossos, onde a velocidade da informação impõe uma urgência que pode até ser benéfica no presente, mas que foca apenas no ato em si e se esquece do desenvolvimento da capacidade de pensar, o que é prejudicial no longo prazo.       Ainda há tempo para não nos reduzirmos a meros repetidores de clichês impostos pela mídia, pela política, onde o fast-food intelectual é absorvido por nós sem que percebamos. O que não nos absolve do pecado da conivência.

24/05/2011

Desencanto


Para o filósofo argelino Albert Camus, “sem trabalho, toda vida apodrece. Mas sob um trabalho sem alma a vida sufoca e morre”.

Fazer a diferença é bom, satisfaz o ego e dá uma sensação de bem estar enorme, sem contar o sentimento genuíno da tão apregoada sensação do dever cumprido.

Até a gora, só clichê e citação, mas existem sentimentos que nos invadem em certos períodos da vida que são como um soco no estômago: Tem o poder de paralisar-nos, não sem antes fazer-nos sentir dor e ela persistir latente, incomodando-nos no físico e na alma. Um destes sentimentos é o desencanto. Ao contrário do encantamento, que presume enlevo num crescendo que resulta num ápice, o desencanto devolve-nos à realidade, deixando-nos sem vontade para nada. Acontece em situações corriqueiras até, mas quando percebemos, vimos que o monstro foi devidamente alimentado de forma sorrateira. E sem que notássemos, foi tomando conta de nós e de uma hora para outra, parece ter deixado nossa vida órfã de sonhos.

Quem de nós por algum momento não passou a se questionar sobre algum aspecto importante de sua vida? Se um parâmetro até então adotado vale a pena, como num projeto profissional, por exemplo? O que significa ir além, fazer mais, no trabalho? A troco de quê? De mais trabalho. O algo mais, inclusive aquilo que se aprende, faz-nos donos do conhecimento e da tarefa de materializá-lo. Não adianta, gruda em nós , não temos como nos livrar do fardo que passou a ser nosso.

É por isto que a maioria foge como o diabo da cruz, do ouro de tolo da eficiência. Elementar. É porque não está disposta a junto com os prometidos louros ao chegar lá, tenha que incorporar a carga de trabalho agregada. E aí não tem autoajuda que tire a pulga detrás da orelha, dizendo para não entrar nessa que tudo tem um preço.

Desencanto queima por dentro, pois significa a morte de um sonho ou coloca-nos cara a cara com o que passa a ter a alcunha de “real” e a sua afinidade com o concreto. Real é a nossa visão de mundo particular e por isso idealizada. E ela pode ter se concretizado até então pela afinidade da nossa “realidade” com a das pessoas envolvidas no nosso projeto pessoal ou profissional. Ou ainda, porque estas pessoas até aqui compactuaram com um objetivo final a ser alcançado. Em prol dele omitiram as chamadas “verdades desagradáveis”, que não trazem benefícios para ninguém, poupando-nos momentaneamente de visualizarmos facetas de nós que não contribuíam para o propósito almejado.

Quem nos acompanha poupa-nos. Ou por amar-nos ou para tirar empecilhos da sua própria trajetória. São assim, pessoas sábias o suficiente para deixar a nós o direito de descobrir nossa própria realidade, sem qualquer ingerência nos assuntos que pertençam à nossa vida somente.

O desencanto é pessoal e intransferível. E se ele ocorre é porque nossos planos não saíram como combinamos e nossa crença neles, fez-nos esquecer de incluir a reserva para o caso dos nossos planos não se efetivarem plenamente. Não são os outros ou a situação, os culpados. Somos nós que calculamos mal as perdas. Mas há sempre um recomeço. Adiante!


13/05/2011

Fidelidade é Tendência


Não. Fidelidade não caiu de moda, Senhoras e Senhores. Antes que alguém tenha a brilhante idéia de nos internar por ousar tal afirmativa, declaramos a quem interessar possa – ou não - que não se trata de loucura da autora. É a mais pura verdade. Talvez seja uma declaração tão antiga quanto o tratamento formal do início deste texto. Fidelidade é tendência. Aliás, esta sim, uma palavrinha moderna, enxuta e forte. Tendência. Soa bem, não é? Quando a ouvimos, sabemos que foi dada a largada para adquirirmos, usufruirmos ou adotarmos a nova tradução de estar na moda.

Tendência quer dizer que pouca gente possui, algum privilegiado deu o sinal, caiu no twitter, milhares retuitaram, conferindo ao produto status de novidade novíssima – perdoem-nos a redundância, mas é proposital. Como o casquete, chapeuzinho, enfeite – sei lá o quê mais – da agora Princesa Catherine, a noiva mais vista do planeta. Tudo o que orbitou em volta do casamento do século gerou uma onda avassaladora e não temos outra alternativa senão se deixar levar. Se o dito chapeuzinho da Kate bombar, não vai ter senso de ridículo que nos impeça de sair com um deles na rua, na chuva, na fazenda e na balada; mesmo que que nossos olhos tupiniquins enxerguem o tal enfeite como um papagaio plantado na cabeça de cada uma de nós. Mulheres. Mas não somos só nós, não, rapazes. Os homens também fazem das suas.

Kate prometeu ser fiel? Parece que não. Cartas serão  bem vindas. Ajudem uma pobre colunista a exterminar uma dúvida cruel. Aliança ela usou, sim. Só ela, o príncipe William não. Na realeza britânica só os homens usam. Uma deixa para a infidelidade? Nem tanto. Seria cruel manchar um conto de fadas desse, mesmo que os pais do noivo não tenham sido exatamente um modelo de fidelidade. Com eles vai ser diferente. Prova disso é a adesão maciça à compra de bugigangas de tudo que se refira ao casal. Injeção de ânimo na economia britânica. Com direito a beijo em dobro.

Desse lado do Atlântico a fidelidade continua bombando. Pelo menos no que se refere às dúzias de cartões fidelidade que andam abarrotando as carteiras de todas as classes sociais brasileiras, de uma forma absolutamente democrática. Aplausos. Excercitemos a possibilidade de um anúncio sem letra miúda: “Cartão Fidelidade da loja tal, banco tal. Seja fiel, você só tem a ganhar – a nossa empresa também. Você acumula pontos para usar... tchan, tchan, tchan... Na próxima compra. Em troca, nós lhe prometemos cartão de felicitações no seu aniversário, no natal, na páscoa e em todas as oportunidades que tivermos de estimular você a gastar seu rico dinheirinho conosco. Seja você mesmo. Escolha. Seus dados cadastrais serão incluídos no nosso serviço de telemarketing para que uma voz de gente o parabenize nessas datas. Não importa a que hora do dia ou da noite, você ficará com os olhos marejados pela lembrança, oportunidade em que será informado das últimas... tendências e será convidado a passar na loja e tomar um cafezinho conosco. E não é só isso. Você receberá diretamente no seu e-mail as mesmas informações. Tudo para a sua comodidade. Vale a pena ser fiel. Se você tem um desejo, nós realizamos até que a morte nos separe. Ops, perdão, até que se esgotem os limites da sua gama de cartões”.

Nesse ponto, caro leitor, você se tornou um infiel. Pecado mortal. Você pulou a cerca. A sua fidelidade era com a empresa em questão e com o resto da praça. Tsc. Tsc. Você não soube administrar seus relacionamentos financeiros. É um traidor que se aproveitou da boa vontade da empresa. Que pena. O casamento terminou, infelizmente.

Ironias à parte, o processo de fidelização de clientes é uma tendência no mercado. A palavra fidelidade foi um achado ímpar do marketing. E se encontrou tanto apelo entre nós, consumidores, é porque tocou num ponto frágil, fundamental para nós: Nossos valores, nossa necessidade de confiança em quem está ao nosso lado. Trocamos de cenário mas não podemos trocar de vida. Vivemos sobre a areia movediça da contingência, da rapidez. Para Zigmunt Baumann, em Tempos Líquidos – Zahar – 2007 – O progresso nos fez correr atrás das utopias, não de sua realização. A velha regrinha de causa e efeito continua valendo. E citando também Sartre: “Somos o resultado das nossas escolhas”. Fidelidade – creiamos – precisa se tornar uma tendência. Nem que seja para preservarmos um tantinho de humanidade