26/04/2011

Hora Certa


Qual é a hora certa de se tomar uma decisão, iniciar um projeto, sepultar rancores ou tentar reparar um erro? Não há diferença visível quando o tempo que se tem para realizações parece estar ali, ao alcance da mão, disponível para que o utilizemos na ocasião em que bem entendermos. É a tentação avassaladora que nos invade nestes momentos de postergar, deixar para depois. Oportunidades de resolução são momentos dolentes, que incomodam porque nos instigam a sair de um paradigma antigo, cômodo e é dolorido mudar.


Trocar posturas é desconfortável até que nos ajeitemos e a situação passe a transcorrer dentro do conceito que convencionamos chamar de normalidade. Aparente, diga-se de passagem, pois a segurança e o domínio de um processo são transitórios, face aos impulsos externos a que somos obrigados a responder, contrapor ou aceitar e adaptar-nos. Isto sem falar no nosso ímpeto interno que igualmente tem sustentabilidade frágil.

Depois eu dou conta disso, mais adiante eu penso como agir, mais tarde eu decido. Às vezes até que é bom postergar para que a idéia mature e possamos enxergar outros ângulos da questão. Mas via de regra, deixamos prevalecer o velho – deixa para depois – por pura preguiça física ou mental e em seguida não entendemos a razão de nada na nossa vida ir adiante. Tudo parece estar sempre na pequena área e porque não dizer, na linha do pênalti em fazer o gol.

Certeza inteira não existe; só que se morre um dia. Então, que nos agarremos àquilo que um pouco de certeza se tem, até por uma questão de ordem prática: - depois que se decidiu é uma tarefa a menos para ficar atravancando os pensamentos e gerando ansiedade desnecessária. Faça-se cedo o que se poderia fazer à tarde; é de manhã cedo que começa o dia; bordões que se ouve vida afora que ilustram com sabedoria a maneira próxima do ideal de se livrar das indecisões. Só não vale ficar remoendo as quatro opções que poderíamos ter seguido, ao invés da quinta situação que resolvemos aderir. Morto um problema, bola pra frente que tem mais jogo.

Existem aqueles que dariam tudo para voltar atrás e este é um sentimento que bate sempre na medida em que sentimo-nos envelhecendo, sendo que o próprio conceito de velhice é pessoal. E é penoso para quem está de fora entender a diferença que faz agora ou o tempo de um ano atrás. É que ao percebermo-nos envelhecidos, o tempo urge e as questões postergadas fazem fila para serem expurgadas na escala da memória.

Como diria o escritor José Saramago, “nesta altura da vida até um dia faz diferença, o que vale é parecer às vezes que foi para melhor”. Pensemos nisto.

09/04/2011

Cumplicidade No Lar


Quando as dificuldades do trabalho tornam-se o foco principal, a família passa a ser uma filial do escritório, fábrica ou repartição. Cada problema não fica no seu reduto, os do serviço confinados no prédio da empresa e os de casa no seu respectivo lugar, porque quem transita pelos dois ambientes é o mesmo ser humano.

Melhor falar de trabalho que não falar nada. Não compartilhar o que vai dentro da cabeça e também não conseguir esconder a dor do rosto é ajudar a diminuir a resistência, inclusive física. A sensação inicial de que o santuário do lar foi invadido ao trazermos o que nos afeta no trabalho para casa, perde importância frente às dificuldades enfrentadas pela pessoa. É ela que nos interessa e sabermos a causa das dores é o primeiro caminho para colaborarmos. Mesmo que seja para ficarmos quietos e respeitar a visão do outro, ou então, saber a parte que nos cabe naquela preocupação. Isto elimina de cara “o que será que eu fiz para ele estar assim” e foca direto no problema.

Quem gosta de nós tem o instinto primeiro de nos poupar. Certas circunstâncias são melhor administradas sozinhas. Transferir o assunto adiante pode não acrescentar nada.

O mutismo pode ser uma tática para a não invasão de privacidade, porém, é uma faca de dois gumes. Corremos o risco de não perceber que se está levando vidas paralelas, onde a intenção inicial era de uma vida em comum e não uma ocupação comum de espaço físico.

Atravessar períodos difíceis e superar-se, qual família não passa por isto? É uma batalha diária, que parece não dar trégua. Pior que isto é perder a chama do grupo familiar, a cumplicidade. Preferimos enlouquecer junto, a ter que conviver com o alheamento das questões que fazem parte de uma rota comum. É louvável quem lida com o trabalho como missão, sinal que está preocupado com a própria profissão, empresa, mas também com o contexto onde ela está inserida, com pessoas por detrás dos empregos. Nestas horas, vale lembrar que cúmplices são mais fortes. E a relação de parceria se estabelece nos ambientes de trabalho e na família. É onde buscamos força para fazer melhor como seres humanos, como cidadãos de uma aldeia global, construída diuturnamente.