18/01/2011

Questão de Acessibilidade


Causou-nos surpresa saber que aquele renomado pesquisador de uma universidade federal usa a Internet para arquivar sua produção textual. Ele possui uma conta de e-mail que lhe dá armazenamento ilimitado. Então, envia um e-mail para si próprio e o conteúdo fica disponível ao toque de um clique. Simples, assim. A decisão foi tomada após constatar que muito do que produzira estava se tornando inacessível por mídia obsoleta. Ou seja, a fita cassete, o disquete, o CD, estavam ultrapassados como meio de arquivamento. Não havia hardware disponível com os requisitos indispensáveis à recuperação do conteúdo. Para não retroagir ao bom e velho meio “papel”, o que lhe tomaria um tempo indisponível com a realidade atual, aderiu ao arquivo on-line. Não que isso lhe garanta a acessibilidade infinita, mas pelo menos o horizonte de conservação é maior e dará tempo para se adequar às novas mídias.

O acesso físico àquilo que produzimos, aos papéis que atestam a propriedade, o cumprimento de obrigações, torna-se impalpável ao migrar para o arquivo virtual. Se eles estão supostamente ao alcance de um clique de mouse, porque razão o medo de perder as referências ainda nos incomoda? Assim como a informação, a humanidade está em movimento. Não existe mais um domicílio onde se possa concentrar nossa história particular, documentos, produção intelectual, da forma como se organizava antes do advento da Internet. A perda da acessibilidade que o meio “papel” nos proporcionava tirou do nosso controle aquilo que é de mais íntimo. É inevitável questionarmos até que ponto o virtual não é compartilhado de forma alheia à nossa vontade, mesmo que o local ou entidade objeto do arquivamento nos garanta a inviolabilidade das informações.

A velocidade com que as tecnologias avançam, acelerou junto o ritmo da civilização. Derrubou fronteiras, escancarou informações e as disseminou globalmente. As ferramentas estão nas mãos do cidadão comum, sob a forma de um telefone celular que se tornou um instrumento multifunção, capaz de registrar e acessar informações inimagináveis há poucas décadas. Essa acessibilidade assusta - que o diga Julien Assange e seu site Wikileaks, ao divulgar telegramas entre diplomatas mundo afora - pois ao mesmo tempo em que localizamos os outros, permite que sejamos igualmente acessados. Não há mais lugar para se esconder.

O tempo de mudanças tornou-se mais curto que aquele que o nosso cérebro precisa para consolidar as maneiras de agir sob a forma de hábitos e rotinas, diante da implacável série de reinícios impostos pela vida contemporânea. É inevitável que em algum momento pensemos a modernização por um viés pessimista; um processo de despir-se dos atributos que ultrapassaram o prazo de validade, uma corrida para não ser excluído. Ou ainda, uma aparente criatividade em adaptar-se que não é um acréscimo de saber, mas a destruição diuturna do modo de vida anterior. Essa mesma evolução, personificada pela internet que nos assusta à primeira vista, pode ser usada como ferramenta cultural por suas características de disseminação ampla, publicações, distribuição de serviços em tempo real. Trata-se de explorar tudo o que ajude a pensar, compreender e agir de maneira responsável por longos períodos de tempo. Mesmo que tenhamos que lidar com os infinitos acréscimos de dados na Internet, sua invasão indiscriminada de informações, num processo interminável de separação do joio do trigo. Vale, porém, recordar aqui o que disse a respeito, um dos fundadores da Web, Tim Berners Lee: - Sentir-se saturado pela existência de tantas coisas na rede é como se sentir saturado pela massa de magníficas paisagens no campo. Você não é obrigado a visitá-las, mas é agradável saber que elas estão lá. Especialmente pela liberdade e variedade.

O exemplo do início desse texto sinaliza-nos que a Internet pode estar nos mostrando como conviver com o saber do passado, reproduzido em detalhes e, ainda assim estimular a liberdade de inovar sem necessidade de recorrer a revoluções violentas. A responsabilidade de cada um de nós em partilhar nossos avanços, alimentada pela contribuição em rede, permite a manutenção da visão do conjunto do pensamento atual, tornando-o acessível às gerações futuras, para seu exame e aprimoramento.

3 comentários:

  1. Alguns escritores já anteviram o dia em que cada um de nós, via rede, poderemos compartilhar todo o conhecimento humano presente, passado e futuro. Desde que cada computador seja tb um servidor, a funcionar com um link de referências de acordo com o seu interesse e estudo. Penso que estamos caminhando para isto.

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  2. Obrigada, Paulo, pela compreensão e comentário.

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  3. Muito bom seu texto e bastante esclarecedor.Parabéns.

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