12/01/2011

Queimando Livros


Um patrimônio em linguagem escrita de um povo foi arruinado em 1992, na Bósnia. Granadas incendiárias das forças sérvias destruíram um milhão e quinhentos mil de livros ali abrigados, 155 mil deles, manuscritos raros, abrigados no prédio da Biblioteca Nacional de Sarajevo. Desde então, bibliotecários do país usam a Internet para localizar manuscritos bósnios e repor o maior número possível de documentos perdidos. Para o diretor da biblioteca na época, “os sérvios da Bósnia, sabiam que para destruir aquela sociedade multiétnica, tinham que destruir também sua biblioteca”. Por mais que nos indignemos com a queima de livros, convém pensarmos o pano de fundo de tais episódios.

Do imperador romano Júlio Cesar a Mao Tsé-Tung, diversos líderes promoveram a incineração de livros, às vezes, manchando biografias célebres, mentoras de mudanças positivas para a humanidade. Não faltam exemplos, mas alguns deles são divisores de águas, pelo dano que causaram à continuidade do conhecimento. Foi assim com a legendária Biblioteca de Alexandria, cuja fundação é atribuída a Ptolomeu I, no séc. III a.C. A destruição foi gradativa. Começou em 88 a.C, com um incêndio provocado na cidade pelo faraó Ptolomeu VIII. Desde então foi alvo de sucessivos ataques até a sua extinção completa. Os imperadores Júlio Cesar em 47 a.C e mais tarde, Aureliano, em 391 d. C – embora inadvertidamente, provocaram com suas guerras a eliminação da maioria dos 120.000 papiros atribuídos ao acervo.

As divergências religiosas também fizeram a sua parte. Teófilo, arcebispo cristão, inconformado em ver a segunda biblioteca instalada num templo pagão ordenou o seu incêndio em 391 d. C, que destruiu parte dos 40.000 papiros remanescentes. Em 645 d.C, Alexandria foi conquistada pelo califa Omar. Ao ser indagado por um dos seus generais sobre o que fazer com os livros de Alexandria, teria respondido: “Se o conteúdo respeitar o livro de Alá não há necessidade deles, o Corão é o suficiente. Se contem idéias divergentes, não é preciso preservá-los. Destrua-os”. A queima do material aqueceu durante seis meses os banhos públicos de Alexandria. No séc. XVI, os missionários integrantes da conquista espanhola queimaram os códices maias.

Apagar o passado garante a visão particular de futuro de um grande líder? O imperador chinês, Shih Huang-ti, no século III a.C, Hitler e Mao Tse-Tung, entendiam que sim. Para o imperador, seu legado unificaria o mundo por dez mil gerações. Em seu reinado, construiu a grande muralha, padronizou os sistemas de medição e de linguagem escrita, durante quinze anos apenas. – 221 a 206 a.C. Passou à história como um vilão, o que não impediu que Mao Tsé-Tung, tentasse algo semelhante com resultados desastrosos. Em 1933, Hitler queimava livros declarando que “a forma alemã de vida está determinada pelos próximos mil anos. Não haverá outra revolução na Alemanha nos próximos mil anos”. Seu ministro da propaganda, Joseph Goebbels, dizia aos estudantes junto às fogueiras: “Estas chamas não iluminam apenas o fim de uma velha era; elas também acendem uma nova era”. Toda a atividade cultural estaria a serviço do Estado. O Reich durou 12 anos e a humanidade se lembra de Hitler como um monstro.

A biblioteca de Alexandria, fonte do renascimento grego helenístico, inspirou o renascimento europeu do século XV, mesmo restando um em cada dez clássicos gregos. Nada parecido com a Biblioteca de Alexandria surgiria nos mil anos seguintes. Os maias foram o mais intelectual dos povos americanos, que possuíam linguagem escrita, matemática avançada – que incluía o zero - e um calendário de maior precisão que qualquer outro da Europa. Dos trinta principais códices, só escaparam da fogueira, quatro livros, dos milhares contendo história, canções, mitos, astronomia, genealogia e profecias. A pressa do imperador chinês em apagar o passado o fez ordenar a queima de todos os livros do império, exceto os de agricultura, medicina e adivinhações. Poucos foram reescritos de memória. Os movimentos revolucionários que sonharam criar admiráveis mundos novos, também reciclaram a idéia de que só o saber contemporâneo, em sua pureza teórica, materializaria seus ideais de um mundo melhor.

Guerras, intransigência religiosa, censura ao passado, provocaram retrocessos absurdos no conhecimento ao longo da história da humanidade. Não se trata apenas da perda física do material. A necessidade de cortar laços políticos significa queimar pontes, não livros. Romper à força com o passado, nega a continuidade com as partes mais lentas da cultura de um povo, sem margem para recuar. Qualquer que seja o motivo para vedar o acesso ao saber obriga-nos desnecessariamente a retornar ao ponto zero. Desestimula a visão de longo prazo e nos faz perder oportunidade de aprender com erros e acertos, partir do ponto já pacificado pelas civilizações que nos precederam. É uma lição que insistimos em não aprender.



2 comentários:

  1. É, Rackel, nos tempos modernos não se queima mais livros, queima-se a memória pela disseminação de modismos e pirilâmpicas novidades.

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