17/01/2011

Expandindo o Presente


O mundo dos negócios é como um tanque de guerra que esmaga o cliente mais rápido que o blindado da concorrência. Somos todos fornecedores e clientes uns dos outros, cada um com a sua própria urgência. O melhor desafia o apenas bom. Sempre há alguém bebendo da mesma fonte e perder tempo aprimorando um produto, significa chegar atrasado ao mercado? É impressão nossa ou o tempo se acelerou? Nosso aqui e agora significa esta semana. Para muitos, aqui é da porta de casa para dentro, uma ilha onde seus habitantes não investem no futuro, exceto no seu próprio. Acorrentados aos desejos, sucumbimos se não os satisfazemos. Não importa se a vida útil será efêmera, o descarte é previsto como parte do ciclo. Não há tempo para discernir se é condicionamento ou opção. O aperfeiçoamento tecnológico trouxe a rápida capacidade de adaptação e recompensa, catapultou a visão de curto prazo e inibiu-nos de pensar no futuro. A rapidez conduz à obsolescência a tecnologia anterior e ai de nós se não acompanhamos o ritmo das transformações.

Talvez a humanidade precise repensar a sua noção de tempo. A civilização já dura dez mil anos. Não somos nem pioneiros, nem revolucionários; estamos no meio e devemos muito àqueles que nos antecederam. Civilizações e impérios ergueram-se e caíram, deixando um rastro de avanços e convergências. A aceleração do conhecimento nos últimos dois séculos não nos torna melhores que os primeiros humanos que plantaram suas sementes ao invés de comê-las. Eles incluíram o tempo em seu pensamento e os beneficiados fomos nós. Aquilo que foi preservado e chegou até nós permite que não voltemos às séries iniciais do saber. Todavia, parece que esquecemos a nossa responsabilidade para com o que acrescentamos à herança ancestral.

O desafio é mudar a forma como a nossa mente trabalha; de uma cultura imediatista para uma visão de longo prazo. Precisamos disponibilizar o que criamos no presente, sem tirar o olho do passado para não repetir os mesmos erros. As perspectivas mentais mudam aos saltos, não de degrau em degrau. Que tal pensarmos os últimos dez mil anos como se fossem a semana passada e os próximos dez mil como a semana que vem? Loucura? Pode ser. A pequenez do tempo humano em relação à vida, ao planeta, às galáxias, torna improvável que influenciemos a periodicidade das eras glaciais, mas não nos impede de expandir a idéia de presente. As transformações são lentas e irreversíveis e não a percebemos, se imersos na correria da realidade. Uma terra com uma camada de ozônio intacta tem mais opções que uma sem ela. Preservar as opções que nos foram legadas e aprimorá-las é um componente importante para um mundo capaz de salvar a si mesmo. Fazer disso um hábito responde em parte à indagação de como tornar o pensamento de longo prazo automático e comum, em vez de raro e difícil.

A história da civilização é a sucessão de novas formas de pensar e suas conseqüências. Não podemos saber como se desenvolverá. Não há certeza de nada, só o inesperado. A surpresa adicionada da memória é igual a sabedoria. Se o pensar for infinito, a memória cuidadosa, o saber também será infinito. Responsabilidade nos dias de hoje, significa dominar longas defasagens de tempo e as consequências ocultas das mudanças que vem se acumulando. Mesmo que não saibamos o que vai ser valorizado depois, estamos todos no mesmo barco. O mínimo que podemos oferecer é nossa disposição em assumir nossa parcela de responsabilidade a longo prazo.

Referência:
Stewart Brand, em “O Relógio do Longo Agora – Tempo e Responsabilidade” – Editora Rocco – 2000.

2 comentários:

  1. Temos algumas certezas sim, Rackel. Do jeito que estamos indo, não tem luz no fim do túnel não no quesito preservação. Mas mudar paradigmas não é tarefa fácil não. Nos acostumamos a um modo de viver e, o que a história tem nos mostrado é que a mudança só virá após muitos traumas, cicatrizes e enterros.

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  2. Olá minha querida Rackel.
    Antes, quero te agradecer pelas visitas e comentários em meu blog. É um grande incentivo, uma honra.
    Não é por nada não, que o nome do meu blog é o que é.
    O tempo, para mim, às vêzes não existe e noutras ele não tem fim.
    E a 'história se repete', somente se cometermos os mesmos erros do passado, e se, 'nada de novo sob o sol' ainda persisitir. é porque ainda buscamos a perfeição.
    Beijos em tua doce alma.

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