19/12/2010

Preparando o Terreno


Criar condições para que realizações à primeira vista impossíveis aconteçam é mérito de poucos. Geralmente são as pessoas conhecidas por preparar o terreno, removerem uma pedrinha aqui, outra ali, dando a impressão que a estrada está sempre limpa e que não há dificuldades que não se possa superar. Gente assim germina idéias, exercita a paciência na espera pelos frutos, uma vez que olhos mais incautos apostam que elas não surgirão. Não raro, são calculistas e não podem ser confundidos com os ingênuos, sonhadores, que apostam suas fichas traçando planos inexeqüíveis, metas difíceis de serem alcançadas ou entregam-se ao instinto deixando-os ao sabor do acaso, presas ao “algo me diz que acontecerá”. A intuição é uma arma poderosa, mas tem que se revestir do concreto para surtir o efeito desejado.

Quem se encarrega do durante, dificilmente usufrui depois. Após terminar uma etapa, lá vai sacudindo a poeira e partindo para outras realizações. Antecipar-se aos fatos é adotar postura e ação proativas, preparar a cama para que alguém possa dormir confortavelmente e quem vai adormecer nem sempre é quem a preparou. Mas isso não tira o mérito, não desmerece o resultado, nem deixa seqüelas em quem conscientemente optou por este caminho. Do contrário, tratou-se de fingimento e masoquismo por trás de uma personalidade aparentemente desprendida.

Efetivar projetos implica despojamento quanto á paternidade dos resultados. A quem os fez, basta a consciência do dever cumprido e a sede de conhecimento pacificada momentaneamente. Quem faz, precisa estar sempre aprendendo, para que possa ensinar e permitir que a obra tenha continuidade com as próprias pernas e sem a figura onipresente do idealizador. Além disso, deve permitir a incorporação de ajustes, sem a perda do objetivo original.

A humanidade caminha a passos muito mais lentos quando aliado a um interesse individual, não há um mínimo de altruísmo e um máximo de estratégia. Homens sozinhos não mudam um paradigma, mas aqueles capazes de mobilizar forças ao redor e concretizar seus propósitos, sim. E quando o fazem é porque se trata de um líder, alguém que soube vender suas idéias e manter cada um motivado e cônscio do papel a desempenhar. Parece coisa de messianismo, mas não é. Terminada uma construção, sempre há outra por iniciar.

13/12/2010

Indecifrável

Temos certa dificuldade em desvendar aqueles que “tem uns quantos por dentro”. Embora uma personalidade ás vezes se sobressaia ante as outras, as múltiplas facetas que este tipo de pessoa nos proporciona nos fascina e atordoa do mesmo tempo. São os indecifráveis a olhos incautos, cuja leitura limita-se ao que está sendo verbalizado e assim não se preocupa ou não, se desenvolveu pensamentos para entender as mensagens subliminares.

Adequar-se ao interlocutor é antes de tudo é uma forma de respeito. Toda profissão tem o seu vocabulário próprio. Cada ocasião também. Para o pensador polonês Zygmunt Baumann, os valores da sociedade ocidental dissolvem-se, cerceando a tolerância e o relacionamento. É o que Baumann denomina “era de liquidez”. Princípios diluídos na rapidez das mudanças. Em comum restou-nos a incapacidade de relacionarmo-nos com o outro de maneira plena, com respeito ao que cada um de nós tem de singular e subjetivo. A tendência é atribuir valor à figura do outro da maneira que ela se apresenta diante de nós e não nela mesma.

O avanço tecnológico dinamizou o tempo para que o aproveitássemos em atividades mais prazerosas. Porém, o uso adequado do nosso tempo não aconteceu. Ao invés de nos direcionarmos para atividades ampliadoras da nossa possibilidade de agir, tornando-nos mais criativos e solidários, paralelo ao desenvolvimento material nos diluímos enquanto seres humanos. Interagimos com outras pessoas somente naquilo que nos proporcionar vantagens imediatas.

“Se não posso me separar do meu tempo, que eu seja carne e unha com ele”, escreveu o argelino Albert Camus, filósofo preocupado em pensar os profundos e cotidianos problemas da existência. Para Camus, “verdade é tudo o que continua. Há uma época de viver e uma de testemunhar. É preciso escolher entre a contemplação e a ação. Chama-se a isto, tornar-se um homem. Homens que compreendem a existência humana do homem comum, que quer ser feliz e se interroga, têm como atitude essencial a lucidez. O tempo caminha com eles e eles não se separam do tempo. Levam-no para a sua vida.”

Quem se alia ao tempo na nossa era pós-moderna não limita suas experiências existenciais ao que julga conveniente, mediante critérios escusos de avaliação, onde a incapacidade de convivência com as diferenças é acobertada com preceitos politicamente corretos. Demonstramos adesão a princípios de responsabilidade social, mas por dentro mantemo-nos intolerantes, onde a perseverança nos nobres propósitos cai por terra no primeiro ato de desagravo que sofremos. Medo de exclusão, da proximidade com o outro pela visão distorcida que fazemos dele, medo de sermos deixados para trás.

Sabemos das nossas limitações, mas se somos o senhor do nosso tempo e caminhamos lado a lado com ele, sabemos que rumo seguir. Não importa a linguagem diferente em cada situação, as mensagens serão percebidas. Quem estiver sintonizado conosco saberá distinguir a farsa do politicamente correto da atitude de respeito pelo outro. Não seremos enigmas. Para entender que o nosso recado não é só feito de palavras, não é imprescindível que o outro seja intelectual, tenha instrução formal, seja do mesmo nível sócio-econômico. Quem tem princípios, enxerga a sinceridade implícita mesmo numa atitude dura. Basta a mente aberta e o espírito ainda não entorpecido pelos conceitos de sociedade líquida

Para finalizar, Citamos o Serginho Moah, que tem 46 anos e um amigo com a mesma idade do vocalista do Papas na Língua. O público do Serginho são os filhos do seu amigo, que também se identifica, adora as canções, ouvindo-as constantemente. Isto para dizer que não existe tempo de uns e outros, tempo disso ou daquilo. Existem homens e mulheres guardiões da linha do tempo e que por isso não envelhecem. Porque não há velhice, vida adulta ou infância. Não há essa dicotomia. Há vida, simplesmente.

Referências:
Tempos Líquidos - Zigmunt Baumann - Zahar Editores- 2007
Filosofia Ciência & Vida - Ano II - nr. 21 - Editora Escala

12/12/2010

Eu Não Choro



Eu não chorei quando a personagem Camila cortou os cabelos naquela antiga novela da TV Globo, por estar com leucemia. Por mais que a atriz Carolina Dieckmann tenha se esforçado em dar realismo à cena, as lágrimas não saíram.


A tradução do cotidiano para filmes, novelas, provoca empatia na maioria de nós. O desejo ou o medo de estar no lugar do personagem, leva-nos a indagar se o que se passa na tela não seria o retrato do que poderia acontecer conosco.

Adoro filme em que o mocinho não morre no final. Não vi “Coração Valente” até hoje, apesar de eu saber que é uma história e tanto. Mas como eu sei que tem cenas de violência, me nego a ver. Exatamente pela possibilidade do que está na tela ser o que de fato ocorreu ou até pior.

Confrontar-se com a dureza da realidade é um desafio que poucos suportam, mas que invariavelmente nos contaminam. Comodismo, negação? Pode ser. Fechar os olhos como se nada tivesse acontecendo pode não ser a melhor tática. Mas entre a alienação e envolver-se desnecessariamente com algo que vai mais me deprimir que ajudar, eu fico com a primeira opção.

Talvez o impacto visual me incomode; o meio escrito ainda me é mais amigável, mesmo sabendo que a imaginação pode nos criar imagens muito mais tenebrosas que as do cinema, se nos fixarmos na parte triste da história, já que este é o que tende a ficar gravado na memória.

Mesmo assim, consegui resistir e li até o fim “Vigiar e Punir”, do Michel Foucault, por crer conhecendo o universo das prisões, das penas, da disciplina, me ajudaria a entender o ser humano; embora seja uma leitura difícil, exceto para profissionais do direito ou afins.

Eu não choro quando um filho se machuca, porque ele precisa de mim consciente e lúcida. Uma vez acontecido, meu papel é cuidar para que ele tenha a assistência tempestiva e adequada. Eu não choro em velório de quem eu não tenha afinidade. Mas eu choro, sim, com gente alcançando objetivos, com movimentos de massa, com caminhões buzinando no desfile do dia do Colono e Motorista pelas ruas de Três Passos, mas ao vivo e a cores.


Mas ainda não consegui chorar com injustiça e incompreensão. Elas só me provocam um bolo na garganta. Talvez, porque de imediato me desencadeiem sensação de impotência.

10/12/2010

A Outra Face do Gênio



Tchaikovski aproveitou a peste que se alastrava pela Europa e tomou água contaminada, vindo a morrer de cólera. Filho de família tradicional, expert da música, teve uma vida até certo ponto normal. Casou-se, inclusive. Tudo bem se não tivesse um detalhe. Ele era homossexual e o casamento foi só para atender as convenções da sociedade, vindo a suicidar-se – embora indiretamente - quando não agüentou mais conviver com a situação.
É difícil encontrar entre aqueles ditos gênios, quem consiga equilibrar a genialidade nos diversos campos do conhecimento – seja música, ciência, escrita – com os padrões de comportamento que a convivência social exige. Trocando em miúdos, não é sempre que alguém com elevada capacidade mental criadora é sinônimo de bom pai, bom marido ou a nora que pedimos a Deus.
Gênios são espíritos iluminados, com energia direcionada ao processo criativo, maior foco de prazer também. Não entendem como isso não é percebido pelos outros mortais, indiferentes à importância do problema que ele busca solucionar. O direcionamento são os obstáculos a serem superados para se extrair a essência da arte, da ciência.
Há exemplos de quem consegue ser múltiplo. Johann Sebastian Bach teve 23 filhos. Morreram alguns, claro. Na época dele, passar dos dez anos de idade já era um feito e tanto. Ele sustentou sua família direitinho, viveu da música e ainda deixou dois bons músicos entre a prole. O Bach Filho e o Christian, ambos reconhecidos no meio musical por possuírem tanto talento quanto o pai. Talvez não com tanto ibope, porque a obra excepcional do velho Bach os ofuscou um pouco.
Diante disso, quem se habilita a um geniozinho? É fácil gostar do escritor, do cientista, do médico, do profissional espelho na sua área. Convenhamos. O companheiro das melhores mentes tem que ter um desprendimento de si muito grande para viver à sombra do outro. E nem precisa ser o virtuose de sua área. Basta olharmos ao lado, nas nossas cidades, quantas mulheres fazem das tripas o coração para viver à sombra dos bons profissionais, não raro, à custa de sufocar a genialidade latente que elas também possuem. Sorte que a medida da genialidade não é tão grande assim, a habilidade para a convivência vai aumentando também. J. S. Bach está aí para nos mostrar que é possível ser um ser humano completo, inclusive na outra face.


08/12/2010

As Mulheres e o Poder


A escritora americana Harriet Rubin sintetiza a relação das mulheres com o poder em seu livro Princesa – Maquiavel para Mulheres, Editora Campus – 2004, da seguinte forma: - As mulheres hábeis em manejar o poder preferem fortalecer seus opositores, cooptá-los como aliados, em vez de abrir uma guerra. – Mulheres contribuem para instalar um clima mais cooperativo e evitam o estilo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A habilidade para o trabalho em equipe, hoje tão apregoada é confundida com indecisão e fraqueza. Tacham-nos de inseguras no exercício do Poder. O fato é que minimizamos nossos acertos, enquanto os homens minimizam suas dúvidas. O que aparenta ser um baixo nível de confiança encobre apenas o desejo de não parecer esnobe. Valorizamos o trabalho coletivo em vez de cultuarmos nossos próprios méritos.

Homens conduzem negócios usando expressões como estratégia, tática e ofensiva. Voltemos um pouco no tempo e imaginemos ao longo da história os homens nas frentes de batalha. Eles consolidaram o poder conduzindo exércitos, enquanto que as mulheres o fizeram pela sabedoria, coragem, habilidade política e não raro, pela sedução.

Outro mito na nossa relação com o poder é o temor de correr riscos. Ocorre que preferimos ouvir, juntar argumentos antes de se decidir, o que se confunde com medo. Enquanto os homens centram suas preocupações nos resultados da decisão no curto prazo nós mulheres optamos por considerar as conseqüências dos nossos atos a longo prazo. Poucas de nós – reconhece-se – assumiram posições em que se possa decidir e assumir riscos abertamente. Na prática, a consolidação dos valores femininos no exercício do poder, só vai ocorrer com a escalada maior das mulheres nos postos de comando, seja no meio empresarial, político, seja na sociedade em geral. No futuro, o mais provável será a combinação do jeito feminino, com os valores tradicionais da competição.


02/12/2010

HAJA PACIÊNCIA!

Paciência é um dom e nascemos com ele. Se a afirmativa for verdadeira, pobre de quem não a tem. Qualidade das mais necessárias, não há um campo sequer das atividades humanas onde se possa abrir mão da paciência. Educa bem, ensina direito quem o faz o conhecimento fluir naturalmente. O professor com o qual mais se aprende, parece estar em casa deitado na rede ao invés de dando aula, demonstra dominar o ofício com maestria, sempre senhor da situação. Não é preciso ser supermestre, mas se não tiver o jogo de cintura como aliado para as nuances do ensinar, como lidar com a gama de informações dos alunos, a receita não dá certo e o bolo vai “batumar”.


Nosso mundo tornou os minutos contados e não há relógio que sincronize o tempo do outro com o nosso. E dê-lhe autoajuda a exigir um tempo para nós. Mas se não temos tempo nem para respirar direito, como meditar, se a condição para a placidez interior é a sintonia com o mundo externo, para daí captar os fluídos tranqüilizadores do nosso espírito inquieto? Engana-se quem acredita que na natureza existe folga. Ninguém nasceu folgado, alguém já disse. O universo funciona movido pelo cronômetro do princípio da lei e da ordem. Não há o porquê do inconformismo. É só lidar naturalmente com as demandas. É difícil, mas não vale a pena se amargurar com a carga disponibilizada. Há uma corda a nos mover e complicado mesmo é não encarar as incumbências desafiadoras como castigo dos céus.

Somos afeitos a não resistir às frustrações e com tendência a achar um réu. A responsabilidade está no outro e se não há um culpado, está nos céus, nunca nas nossas escolhas. Devidamente “psicanalisados” e com o nosso umbigo como o centro do planeta, viramos as costas para o resto e não admitimos sequer a hipótese de pensar no próximo. Todas as nossas ações são voltadas para as nossas necessidades, os demais estão aí para nos atrapalhar a vida. Com isto, dê-lhe conta de perdas e ganhos e reclamação com o suposto prejuízo! Esquecemos que o raciocínio não é privilégio nosso, todos estão igualmente sentindo-se lesados, daí sentimos um constante inquérito em nossa vida, reduzida à caça aos culpados pela nossa infelicidade.

Quanta energia perdida a deteriorar o nosso quinhão de paciência! O emocional é biológico, sim. A memória nos proporciona a crítica sobre as nossas ações e o universo ao redor. E o mundo emocional no cérebro faz feed-back com o cérebro racional. Há interação constante e desse equilíbrio resulta a maior ou menor qualidade de vida para o enfrentamento das demandas. É necessário buscar o foco central da vida e até orar ao Deus interior. Para quê? Para não se desligar das tarefas alinhavadas, instrumentos para alcançar objetivos, nem sempre claros quando reagimos diante de situações concretas, mas integrantes do pacto sagrado de todos nós. Não importa o conteúdo da promessa. Interessa não nos desviarmos dela. Aí estaremos sendo coerentes conosco, pacientes com nossas dificuldades e dando tempo para os nossos “cérebros” buscarem a solução mais adequada e fluir melhor, sem tanto desgaste, sem tanta sofreguidão e com um pouquinho mais de lucidez.