06/11/2010

A Beleza da Arte Chamada Escrita - Por Bridgit Baldavir

Brigit Baldavir, a BB, é escritora e colega do site onde ambas publicamos textos. Gentilmente ela nos cedeu o texto abaixo para publicação neste espaço. Ei-lo:




Algumas pessoas têm me perguntado por e-mail como fazer para exprimir suas ideias de maneira clara, coesa e que o interlocutor entenda o pensamento exposto? Muito mais do que isso, alguns têm me feito perguntas quanto ao uso da linguagem.

Eu sempre digo que o conteúdo é o mais importante, mas a apresentação e a forma não podem ser descartadas. Estou dizendo que primeiramente é preciso conhecer o objetivo do seu texto e para quem se destina. Por quê? É comum eu ler poesias, contos, crônicas e romances. Em minha graduação, devo ler relatórios, artigos técnicos e monografias, além dos livros-textos. Por que eu digo isso? Porque na escrita de cada um dos exemplos citados de textos existe um objetivo e, alguns deles, uma norma a ser seguida.

Já disse em outra oportunidade, mas volto a frisar que ser um bom leitor e assíduo é fundamental. Infelizmente, algumas pessoas ainda têm a ideia de que para escrever não é tão importante a leitura. Acham que não funciona bem assim. Sinto informar-lhes: hábito de leitura é fundamental. Numa conversa informal até dizem sobre a importância de ter contato com os principais autores e pensadores, mas quando lhes são feitas perguntas sobre o livro que estão lendo ou o último que leram, ou sobre o seu conteúdo, temem não saber lhe dar uma resposta convincente. Não falo em culpa ou punição, mas o fato de não estarem convencidas da leitura como parte da escrita, rapidamente o equívoco se percebe na apresentação de seus textos.

Antes de falar propriamente da arte da escrita e sua beleza, preciso dizer aos leitores que nem todos gostarão daquilo que você tem a dizer. Nem todos se identificarão com o seu conteúdo, assim, desde a beleza de um testemunho sobre a mudança de um paradigma que alguém encontrou depois de ler o seu trabalho, ou uma total falta de sentido e aplicação, você pode ouvir. O importante é executar o seu trabalho com a consciência de que fez o seu melhor, naquele momento, mas está aberto a sugestões, a críticas; está disposto a evoluir, a progredir. Pela leitura, volto a citá-la, surgem possibilidades de ousar em seu estilo e conduzi-lo a patamares ainda desconhecidos por você.

O primeiro ponto é entender que na arte propriamente dita não existe certo e errado. No máximo, saber se está adequada ou não ao objetivo. Por exemplo, numa novela que tratava a questão da escravidão, não vou citar o nome, o autor ao produzir as falas do escravo, utilizou um português extremamente culto. Ele estava errado? Não, porque é a intenção do texto que as coisas ditas sejam entendidas com clareza. Mas não estava adequado. Considerando o enredo, o contexto, o escravo que sempre viveu na senzala no período da escravidão, ele não teve contato com uma formação bancária, provavelmente não deveria saber ler ou escrever. Então, a sua comunicação deveria ser como a recebeu de seu meio familiar, de sua vida na lida do engenho, de seus hábitos. Portanto, mais voltada ao coloquial: linguagem simples pautada nos exemplos que ele tinha, com os chamados “erros”. Não era preconceito, era a realidade coerente.

Também a arte da escrita, enquanto arte, não recebe rotulações. Quando você ouve que algo foi escrito em prosa ou em poesia, a pessoa não está reduzindo ou limitando a intenção do seu texto, apenas, avaliou a apresentação dele. Quando você ouve que o texto é um conto, é uma crônica, poema etc., não significa que a pessoa está moldurando o seu trabalho, somente identificando o formato apresentado. Então, o conteúdo pode ser qualquer um, e ao invés de achar que rotulam sua expressão, faça da análise a oportunidade de arrancar o máximo das palavras, no estilo mostrado e no arranjo delas.

Bulindo palavras. É o ato de consertar, de brincar com os sentidos delas no texto. Eu adoro essa parte. São só dicas, não precisa seguir o que vou dizer.

Antes de produzir um texto, eu investigo o tema e num rascunho, coloco minhas ideias principais. Esboço minhas opiniões e meus ideais sobre o assunto de meu desejo. Leio e procuro saber se não vou dizer alguma inverdade sobre o assunto. Depois de coletar informações suficientes e saber o que outros já falaram sobre o tema, me posiciono e produzo o meu texto.

Depois de escrever-lo, começo o trabalho de bulir. Mesmo depois de publicado em meu blogue, ou em redes que faço parte, acontece de querer mexer em meus textos. Colocar uma frase, consertar uma oração com erro despercebido antes da publicação. Com isso, reduzo as repetições, acabo com as informações desnecessárias, ou seja, as justificativas cansativas quando o próprio contexto é suficiente. Meu texto tende a ficar mais agradável de ler depois desse trabalho. O texto ganha ritmo. A estória tem seguimento, não fica presa num mesmo item, não há perda de sentido, não foge à abordagem. Arrancar o máximo de sentido em menos palavras.

Na arte de bulir, o poeta é especialista. É quase congênito, nasceu para fazer isso naturalmente. Os amantes de poesia e escritores conseguem em frases curtas, na métrica, no som, no arranjo, extrair o máximo de sentido. Cito Cassiano Ricardo:


Serenata Sintética

Rua

torta

Lua

morta

Tua

porta



Cassiano Ricardo conseguiu expressar com apenas seis versos e um arranjo proposital de palavras, as dificuldades encontradas num caminho tortuoso, difícil (Rua/torta). Numa noite escura, de trevas (Lua/morta). E só consegue vencer a noite e o difícil caminho ao chegar à porta da amada (Tua/porta).

Mesmo se houver repetições, a intenção justificou o uso e a beleza da escrita, a arte. Quem fez muito bem isso foi Carlos Drummond de Andrade, veja o exemplo abaixo:

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra

(Carlos Drummond de Andrade)

Como diria os autores do livro de literatura, produção de textos e gramática para o nível médio, Samira Campadelli Youssef e Jesús Souza Barbosa: “O escritor, com sua sensibilidade capta o mundo como se tivesse antenas. Pode ou não ter vivenciado determinada experiência – amor, ódio, fome, guerra, morte –, mas dela se apodera como se fosse sua. A matéria-prima da arte é a própria vida, transmitida em literatura por meio de palavras; em pintura, por meio das cores e dos traços; em cinema, por meio da imagem, do ritmo das palavras. Por isso, a literatura como arte é uma forma de representação do mundo. A literatura imita a vida por meio de palavras organizadas de modo tal que forma uma supra-realidade, isto é, uma realidade paralela ao ambiente que foi imitado. Escrever é dar forma as ideias. É organizar as palavras para traduzir um pensamento e transmitir mensagens, que possuem um modo singular de formar uma organização própria.”

(YOUSSEFF, S. C; E BARBOSA, J. S.. Literatura, Produção de Textos & Gramática. São Paulo, Saraiva, 1998.)

Mas não somente no texto em poesia, há vários exemplos de textos em prosa que o autor extraiu sentidos únicos e não há quem não enxergue a beleza da arte neles. Uma autora que gosto muito é Clarice Lispector. Acompanhe parte do conto “Os desastres de Sofia”:

“Qualquer que tivesse sido seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo que sabíamos dele. O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho: – Cale-se ou expulso a senhora da sala.

Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto de ódio daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem de ombros tão curtos. (...)”

(LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. São Paulo, Ática, 1977.)

Clarice com o conto, apresentado parte dele, conseguiu dizer ao leitor que a necessidade de seguir normas e regras na prática de viver o cotidiano, pode levar uma pessoa, no texto – o professor –, a reprimir suas emoções.

Então, qualquer que seja a apresentação do seu conteúdo e ele próprio; não se preocupe se o terma a ser tratado será do agrado de todo mundo. Não busque inibir o seu jeito para agradar alguém. Escreva com a sua identidade. Escreva com a sua arte. Nunca se esqueça que a escrita é uma bela manifestação artística. Continue lendo para ter mais recursos de apresentá-la, para conhecer outras formas de escritas, de pensamentos, ter mais conhecimentos. Existem muitos autores talentosíssimos e você pode se encantar com cada nova descoberta de sua impressão de mundo. E, assim, você ser o próximo a ser admirado e seguido.

Numa outra oportunidade, eu falo do texto não artístico. São textos de opinião, em defesa de uma tese, na expressão de um conceito e, geralmente, trazem uma metodologia. Busca o conteúdo e a base de figuras de autoridade para sua descrição. Muito mais do que isso, eles seguem normas. São as teses, os artigos científicos, os relatórios técnicos de área. Pode não ser uma leitura agradável, mas servem como bons materiais de consulta e acho importante, ainda que não seja uma leitura tão aprazível, situar-se com eles.

Para finalizar o texto, deixo um pequeno texto para apreciação:

Discussão

Se você pretende sustentar opinião

E discutir por discutir
Só pra ganhar a discussão
Eu lhe asseguro, pode crer
Que quando fala o coração
Às vezes é melhor perder
Do que ganhar, você vai ver
Já percebi a confusão
Você quer ver prevalecer
A opinião sobre a razão
Não pode ser, não pode ser
Pra que trocar o sim por não
Se o resultado é solidão
Se em vez de amor, uma saudade
Vai dizer quem tem razão
(Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça)

Bbamormaisforte-Bridgit Baldavir, escritora

7 comentários:

  1. Muito bom este texto, construtivo, amigável. Penso que para escrever é necessário, sim, ler e ler muito, até para que se tenha um interlocutor... não se tira idéias do nada. Precisamos sempre de um modelo. O verdadeiro escritor só aparece quando este caminho foi percorrido e finalmente o autor se liberta dos seus modelos anteriores e define seu próprio estilo.

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  2. Rackel,
    Escrever é um dom que todo ser humano possui, entretanto, saber expressar um sentimento e ter o domínio da narração de fatos e construção de histórias, poemas e muitos outros tipos de escrita, é que diferencia um autor de outro. A incorporação de sentimentos e fantasias pelo autor é tão ou mais importante do que a própria história a ser contada, uma vez que, conforme dito em seu texto "não existe o certo e o errado", existe a história e muita pesquisa anterior. Ler e construir sua própria assinatura é importante para a formação da personalidade do escritor.
    Seu texto é muito bem sacado.
    Parabéns, abraços e muito obrigado pela visita em meu blog.

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  3. Paulo Laurindo, também gostei desse texto que a BB nos cedeu para publicação aqui. Teu comentário me despertou algo que há muito tempo me intrigava. Sempre achei que literatura era só o que fosse totalmente ficcional. Quem criasse a partir de uma realidade, sua ou de outrem, seria um escrivinhador, apenas. Não enxergava talento ali. Como boa rata de biblioteca, não havia nada de novo, parecia que tudo já havia sido escrito ou era cópia de fato acontecido. As leituras da maturidade e a convivência em sites de literatura como o Autores, por exemplo, o advento dos blogs, forçaram-me a se reposicionar e começo a ver o processo com outros olhos. Até que se abandone os modelos, tu o dizes: É isto, Com o tempo, termina o ensaio e não precisamos mais de modelos. Bingo!

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  4. Lucélio,outra presença maravilhosa por aqui. Tu e o Laurindo vieram em meu socorro. A Brigit, com o mote. A escrita não é privilégio, é dom. Que bom que me alertas isto. Nossos sentimentos e fantasias temperam o texto, burilado pelo trabalho. Obrigada, amigo. Volte sempre.

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  5. Pois é menina!!!
    O hábito da leitura é de suma importância, como vc frisou, para o ato de escrever. Também o é para "o falar bem". Por mais que o falar e o escrever bem não estejam necessariamente relacionados ao eruditismo é muito importante que conheçamos palavras para prendermos a atenção do leitor ou ouvinte... falar ou escrever bem é conhecer o público ao qual se dirige e utilizar de códigos que possam ser decodificados com facilidade por esse público, ou seja, utilizar uma linguagem adequada ao perfil do público.

    Abraço!

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  6. Tem selos de presente pra você no meu blog, passe lá e pegue, beijos.

    Ventosnaprimavera.blogspot.com

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  7. Muito bom seu texto, sempre perfeitos.Parabéns.

    Tem selos no meu blog pra você, postagem MENINA DO RIO, passe lá e pegue
    ventosnaprimavera.blogspot.com

    Beijos

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