26/10/2010

Isto Não Vai Dar Certo





Internamente carregamos a certeza da impossibilidade que algo flua. Movidos pelos instintos, todo o corpo corrobora pela insistência e manutenção dos desejos, pelo prazer que a busca proporciona. Lutar contra algo que suspeitamos quase impossível é agradável. Principalmente se é o que está posto, aquilo que as pessoas esperam e não será objeto de contestações.

Poucos enxergam além e é o desfecho óbvio para a maioria. É cômodo e porque não ceder ao bem estar? Fora isto, há a relação custo-benefício. Quantas pedras não haveríamos de rolar pirâmide acima para abdicar do que é confortável? Ele, o ideal desenhado está ali, à mão, embalado pelo sentimento e promessa de atendermos à nossa vontade, sentirmo-nos livres por estar seguindo o que o instinto determina. Sendo assim, não há porque ter caraminholas na cabeça, conjecturar conseqüências que podem mudar o rumo da nossa vida, unicamente porque uma voz interna nos diz que isto não vai dar certo. Não fecha com os nossos projetos de vida, nos alega o restinho de razão, mas também não nos aponta a saída. Se não é parte da solução, também não faça parte do problema. Dane-se a lógica que insiste em analisar as personalidades envolvidas e nos alerta que no longo prazo a coisa não vai funcionar! A menos que mudemos demais a nossa personalidade, e, fundamental, tornemo-nos outra pessoa, abracemos ideais diferentes daqueles que apregoamos até então e que as pessoas esperam de nós. Dane-se se temos outro por dentro! Até porque os decepcionaríamos se mostrássemos nossa verdadeira face. Precisaríamos trocar de cenário, arrumar outro público e porque não dizer, outra vida. Isto porque não suportaríamos a pressão que toda mudança abrupta provoca.

É muito fácil fazer esse raciocínio à distância, quando a nossa vida já transcorreu de maneira aparentemente inversa àquela que o curso dos acontecimentos e da nossa vontade supostamente ferrenha sinalizava. Todavia, mesmo a previsível, exigia a contrapartida da vontade alheia e quem nos garante que não faziam as mesmas conjecturas e não necessariamente nos incluiriam em seus planos?

Iludimo-nos, quando achamos que controlamos nossa vida e que há ignorância somente do outro lado. Nossos passos são igualmente monitorados. Não tínhamos a visão ampla que julgamos ter hoje e que apelidamos incautamente de sabedoria, mas que não deixa de ser apenas experiência e acomodação ao que escolhemos viver e aos bons frutos que a escolha e porque não dizer - o deixar-se levar - nos proporcionou.

No fundo, o desafio era o mesmo e o ambiente que nos instigava ao novo, impeliu-nos à amplidão e ao instinto desenfreado do saber que buscávamos. Não nos tornamos outra pessoa. Tiramos véus sobrepostos no nosso interior e tornamo-nos minimamente lúcidos, mas ainda assim, ignorantes, vaidosos e visionários.

25/10/2010

PARTIDAS

Enfrentar com dignidade a tempestade e refazer-se interiormente após sua passagem não é tarefa fácil. Temos necessidade de harmonia na mente para que o corpo fique em paz. Quando passamos por perdas há todo um desequilíbrio que não sabemos por onde começar para retomar a nossa vida. Principalmente quando se trata da partida de alguém que já cumpriu sua parte na vida terrena e vai embora quando chegou sua hora, dizem alguns, foi escolha, alegam outros. Mas não há resposta para o vazio que provocam em nosso íntimo tampouco conformidade com a perda. Choramos por aquele que se foi, mas no fundo nossas lágrimas são de autopiedade, coitadinhos de nós que vamos sofrer com a ausência física.

Sempre há alguém indo embora, seja inesperado ou como vela que se apaga serenamente. A inconformidade é idêntica em todos. Racionalmente sabemos que uma hora ou outra partiremos, é assim que caminha a humanidade, mas nossos pobres sentidos rendem-se ao mistério da vida e a pergunta permanece: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Nossas crenças nos ajudam a acalmar o coração, mas é preciso dar tempo ao tempo, diz a sabedoria ancestral, buscar serenidade. Tranquilidade que nada tem a ver com a preguiça ou descaso com a vida. Seu sentido é mostrar-nos o trabalho honesto, a continuidade da existência.

Paz imperturbável não parece ser inerente à condição humana. Seria prerrogativa de quem já atingiu um grau de elevação intelectual e espiritual e por isto transita incólume pelas adversidades que a vida certamente lhe impõe? É uma pista. Mas sua condição é a brandura permanente da alma que se alimenta de sentimentos nobres, o que o nosso egoísmo natural impede de tê-la presente. O orgulho é outro alimento das inferioridades e impeditivo da serenidade. Então, se quisermos alcançá-la, que busquemos o combate ao orgulho e egoísmo, estes moradores internos responsáveis pelos distúrbios de todas as manifestações do bem no caminho de quem ainda não se libertou deles. E muitas vezes passamos a vida inteira controlando-os e o máximo que conseguimos é prendê-los com correntes para que não se soltem e atrapalhem todo o trabalho de evolução.

A natureza é inteligente em todos os seus aspectos. O vento quando sopra o faz em direções variadas, purificando os lugares, alimentando vidas, distribuindo sementes, trazendo tempestade também, que é igualmente purificadora. É ponto de corte que acelera a transformação com um fenômeno que é pura fúria e que nos amedronta. Mas passa. E nos transmite a sensação de que todo o ambiente foi renovado e que este grande laboratório da vida que é a natureza se encarregou de executar para que o equilíbrio se restabeleça, a água da chuva purifique.

Nosso exemplo de paz interna dissemina-se para quem está ao nosso redor. Alimentando a corrente de equilibro e serenidade que se multiplica e ganhamos força para seguir em frente na tarefa individual que nos cabe, mas com muitos companheiros de jornada.