01/09/2010

A Mais Pura Verdade


O semáforo fechou. O menor que dirigia o Corolla engatou uma ré o estrago estava feito no carro que esperava abrir o sinal. Fuga e substituição do inexperiente motorista e o chamamento da galera para restabelecer a “verdade” e o novo cenário. Alguém que estava numa esquina próxima viu claramente o adolescente dar ré e bater no carro de trás. A testemunha foi agredida pela ousadia de querer restabelecer o acontecido. O mais irônico foi ter que ouvir: “O velho, além de barbeiro, bateu atrás e acha que tem razão”; como consenso na multidão então formada com o acidente.

Quando algo parece evidente aos olhos da maioria, o autor passa a vítima num piscar de olhos. Ao embasar sua afirmação na aparência e induzi-la pelo que é comum em situações parecidas, carreia para si a prerrogativa da verdade e da razão. Daí em diante é quase impossível desenrolar o nó que se avoluma com base numa premissa falsa, mas com cara e elementos agregados que lhe conferem o viés de autenticidade.

A crença na verdade começa quando se duvida de tudo o que se acreditava até então. Quem não participou da origem, tende a rever posicionamentos e admitir probabilidades do outro ter razão. Preferimos a incerteza, já que odiamos um pouco a verdade por causa da idéia de precisão que lhe é inerente. Se não sabemos do que se trata, sustentar algo que aparenta o contrário é temeroso; pode trazer conseqüências indesejadas. O fato de não termos sido a causa ou os efeitos não chegarem até nós, conferem-nos uma imunidade material. Principalmente se somos indiferentes por opção ao que acontece ao nosso redor, acostumados que estamos ao lusco-fusco e se coisa clarear muito, a luz intensa interfe na nossa rotina incomoda-nos além do necessário e assusta a nossa mente.

Ante o recuo ou intimidação, o autor é beneficiado com a cumplicidade de quem está ao redor. A inexperiência com a mentira faz com que se tome a verdade aparente como antiga e conhecida e olham de soslaio, como quem quer roubar um bem comum a todos; as meias verdades são mais cômodas e seu autor, diante de tal manifestação e adivinha facilmente o que conseguiu elaborar bem e o que não.

Voltamos à pequenez quando fazemos recair a culpa nos outros; estamos no caminho da verdade quando só nos responsabilizamos a nós mesmos; “mas o sábio não considera ninguém como culpado, nem ele próprio, nem os outros” , disse Epicteto, filósofo grego há 1900 anos atrás. Continua atual e precisamos fazê-lo ao nosso ouvido, para que acreditemos primeiro. É um murmúrio solitário em meio à praça tumultuada.

Os sentidos nos enganam e nos fraquejam. Para nós só é verdadeiro o obstáculo contra o qual nos batemos e isto nos basta para se vangloriar de saber todo o contexto e donos da verdade e da razão. Mas nem sempre nossa inteligência entra em ação para entender e captar o todo. A primeira impressão é que fica, como se a realidade fosse imutável. Empédocles , filósofo pré-socrático diz que “Verdade é apenas o que pode alcançar a compreensão de um mortal. Não é uma verdade absoluta, mas proporcional à medida humana”. Verdade, que exigimos e utilizamos no comércio moral onde repousa toda a vida em comum, iniciando uma série de mentiras recíprocas. A visão de mundo que incorporamos ao aderir sistematicamente grupo vencedor leva-nos à convicção de que verdade e mentira são de ordem fisiológica. A essência da verdade é julgada segundo os seus efeitos e estes por sua vez conduzem à admissão de verdades não demonstradas. Ao combatê-las, mostramos a necessidade de encontrar outra via e a lógica é o caminho usual, porém inadequado como único guia, por restringir aquilo que é possível saber -segundo os efeitos - e assim, produz a mentira. A lógica tem dificuldade de denominar com exatidão, tornando-se incompatível com a veracidade.

Corroborando com a inverdade, pela obrigação de mentir segundo uma convenção firme, vale aqui a lembrança de refletirmos moralmente, sobre o modo como esquecemos as coisas que nos dizem respeito. Sim, mesmo agindo inconscientemente da maneira designada como verdade, mentimos.



2 comentários:

  1. Oi Rackel, ótimo texto, como sempre. Tem selos de presente pra você nos meus blogs
    haikainosventos.blogspot.com
    palavrasnosventos.blogspot.com
    passe la e pegue
    beijos

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, Arnold, pelos selos e por prestigiar meus textos. Abraço fraterno

    ResponderExcluir

Por favor, deixe aqui sua opinião sobre o texto.