11/09/2010

Ele é o Cara. Ele é Tudo o que a Direita Sempre Quis


Normalmente, quando nos identificamos com o ideal de alguém, tornamo-nos discípulos dele, assimilando seus exemplos e virtudes. Na maioria das vezes no decorrer da vida, abandonamos antigos conceitos e seguimos outro rumo. Ocorre também, do protagonista se deter na periferia da história, disposto a manter suas idéias, implacável para que o círculo seja fechado. Tudo bem, caso se tratasse de apenas um dogma a ser quebrado. O outrora mestre seria olhado com desdém pelos ex-admiradores, por ter se imobilizado num ponto, enquanto tudo ao redor sinalizava que o conhecimento deveria moldar-se pelos acontecimentos e, mesmo se desviando do detalhamento inicial, preservaria a essência e não se refugiaria no sectarismo.

Quando o personagem cuja vida é o símbolo de um ideal, se desvencilha de seu passado como quem tira uma roupa que não gosta mais, direciona sua convicção ferrenha a serviço da vaidade pessoal. Incute em si que o poder só é poder mesmo, com vitórias esmagadoras. Constrói seu castelo sobre resultados que se devem mais à continuidade de um modelo já implantado. O que seria sua maior virtude, a humildade de reconhecer que em time que está ganhando não se mexe, o aprendiz de feiticeiro quer mais. Seu ego quer ser o protagonista e o primeiro passo é não aceitar objeções. Está regada a sementinha da ditadura. No momento em que o nosso herói, escancara suas contradições, coloca-as sob o guarda-chuva da necessidade e do aprimoramento. É uma tática tão elementar quanto certeira. Qualquer um que “reconhece” antecipadamente suas limitações critica-se primeiro para que ninguém tenha a primazia da objeção. A incoerência se torna conciliação. Manifesta as diferenças que separam seu caráter daquele do seu opositor, transmite a impressão de não gostar dele, quando na prática é uma tentativa de igualar-se ao desafeto e desvencilhar-se da inveja silenciosa.

Quem renegou um ideal com o único objetivo de chegar ao topo, foi porque este ideal exigia dele uma grandeza insuportável. O que era amor e honra se tornou um fardo, cabendo-lhe representar uma comédia do passado, usando a eloqüência a serviço do ideal que na prática se encarregou de deturpar, afinal, um pouco de benevolência com os seus admiradores faz parte do espetáculo. Todos precisam ser adequadamente afagados. É indiferente se o favor feito a alguém em detrimento de todos os outros, resulta em prejuízo à utilidade pública, oligarquizando o poder e as decisões. Faz parte da troca de favores. Não há espaço para submeter suas decisões ao exame e escolha de alternativas, mesmo entre os seguidores. Quem não aderiu incondicionalmente foi alijado das estratégias e transformado gradualmente em adversário, seja por maquinações de bastidores, seja induzindo ao partido a demonstrar publicamente a falta de apoio. Discutir determinações é muito mais malévolo aos interesses do mestre que a oposição radical.

Os grandes homens levam consigo as qualidades do período em que viveram ou governaram. Haja esforço e mentes obscuras para que se apague a excelência dos feitos. Para isso, não basta o detrator. Atrás dele, uma legião de seguidores comprometidos por uma teia inexpugnável de favores, aos quais só resta a aceitação incondicional. Não há do que se envergonhar em admitir a adoção da maneira de governar de outrem. Basta ser honesto com os alicerces que sustentam tudo aquilo a que deu continuidade. Quando queremos nos tornar superiores ao que aparentamos, atacamos com injúrias aqueles que são melhores que nós, certos que nessa primeira investida a vítima não vai se rebaixar e devolver a afronta. A pessoa agredida entende que está acima disso tudo. Mas as investidas continuarão até que seu objetivo se realize. O ato de não revidar, com o tempo, confunde-se com fraqueza. As bases são corroídas imperceptivelmente, que é tudo que o agressor quer: Desqualificar o criador. Minando o adversário, eleva-se à altura dele. O mérito do sucesso relativo, da competência deturpada, traduz-se numa virtude aparente, motivada pelo egoísmo, mas que por atingir aquilo que se pretende, enobrece seu autor. O sucesso canoniza as intenções. Mas a história se encarrega de registrar o papel dos líderes autênticos. Não há motivo em nossos dias para o plágio político.

Onde se põe toda a própria força em jogo, deve-se encantar-se e não examinar e duvidar. Não passa pela cabeça do herói de mil faces que tanto o apoio quanto a crítica e até o combate são fundamentais quando se trata do bem público. Tampouco se exige que ao olhar para trás tenha uma veneração piedosa pelos antecessores, mesmo que se tratem dos seus adversários políticos. Não há problema nenhum em programas de distribuição de renda. O fim em si é virtuoso. O que não se pode é usar algo que não criou, não idealizou e arvorar-se de dono da criatura. O olhar condescendente aqui é para a população que clama pela proteção que infantiliza na esperança de que pelo menos uma fatia do bolo lhe caiba. Com o tempo, o pedinte pode adquirir o olhar desavergonhado de que falava Luiz Gonzaga: - Esmola mata de vergonha ou vicia o cidadão. O talento de outrora que despertava multidões apaixonadas, hoje, deixa em um batalhão de órfãos, a sensação de que as virtudes escorreram pelo ralo.

Se há novos donos do poder e eles se perpetuam a ponto de obscurecer as mentes, é porque há eficácia em atender o que esperam as cabeças que preferem não enxergar a luz. Gente para quem basta a afirmação, o olho no olho do dirigente pregado numa tela de TV, o que torna a adesão mais confortável. O personalismo nos domina, independente da nossa classe social. Não importa que ELE não discuta conosco. Argumentar para quê? Demonstrar demais alimenta a desconfiança. A verdadeira prestação de contas é feita nos bastidores. Nas medidas referendadas pelo Legislativo e garantidas pelo aparato estatal, nosso herói sacia o apetite da Direita, que, uma vez atendida de maneira exemplar em seus interesses, não reclama de nada e puxa a claque de palmas.

A estabilidade e o lucro garantidos aos setores da construção, automobilístico, telefonia, dentre outros, encabeçados pelo setor financeiro, permitiram que se tecesse uma rede de proteção ao “gênio dos desejos”. Suas malhas são fortes o suficiente para reter para si o quinhão maior de riqueza, mas se dão ao luxo de deixar passar os restos distribuídos perversamente ao grosso da plebe, cuja exigência se aplaca com pouco.

Ligamos nossa escolha à pessoa que irá corresponder às nossas expectativas particulares ou de quem nos decepcione menos. Dos males, o menor. Somos coniventes e votamos por imaginação. Aceitamos de bom grado quem nos vende a realidade melhor. Que meios e artifícios são utilizados não importa. Para isso o esquecimento nos é conveniente. E La nave va! O aplauso transmutado em voto nos diz que o show vai continuar. As marionetes se recolhem tímidas ao fundo da caixa. Até que daqui a quatro anos sejam retiradas de novo e um novo espetáculo seja montado. Até lá, a Direita educará quem se arvora a substituto do bem sucedido fantoche que se retira. Mas não nos enganemos. Outros fantoches já estão sendo gestados, seja para entrar em ação em caso de falha de quem ora é pretendente ao posto, seja para dar continuidade ao espetáculo dentro de quatro anos.

2 comentários:

  1. O rei está sempre nú, Rackel, não importa quem seja o rei. Contudo, a democracia ainda é o melhor regime político inventado pelos imperfeitos seres humanos.

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  2. Sim, Laurindo. A democracia ainda é o melhor regime político e cabe a nós cidadãos, a tarefa de defendê-la, mesmo que pareça quase impossível. O avanço pode ser milimétrico, mas não se pode desistir. Obrigada por comentar.

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