24/09/2010

Injustiça em Dobro


Quer testar se alguém é um verdadeiro profissional na arte de persuadir? Dê-lhe um mesmo fato e lhe peça duas versões. A pessoa imergirá totalmente no personagem que eleger primeiro para enxergar daquele ponto de vista específico, alheando tudo o que não corroborar para a sua defesa. Procurará encontrar argumentos que os armazenará em seu íntimo, de forma que quando afirmar categoricamente, todo o seu ser esteja imbuído dessa certeza e o interlocutor titubeará em duvidar, tamanha a aura de veracidade que lhe é impingida. O expectador é seduzido pelo profissional da interpretação, pois ao fundamentar seu desempenho num arcabouço de conhecimentos acumulados, apropriou-se de conceitos que estão no inconsciente coletivo e a eles acrescentou um toque de criatividade, que é justamente sua contribuição imperceptível para a verdade que quer consolidar. Abstraindo-se totalmente de qualquer devaneio que não seja o do convencimento, ignora a face que não é a defendida na ocasião e cria a ilusão de que aquilo que defende é toda a verdade.

É claro que precisa inteirar-se do ideal de seu público e ser para com este um juiz implacável. Não lhe basta expor o que pensa. É preciso desmontar a crença do interlocutor, pedacinho por pedacinho, sem que ele perceba, levado pela aura de sedução do expositor. O esforço é hercúleo. Não pode restar um único grão de humilhação de quem está sendo convencido. Nenhuma vantagem ou sorte supera a sensação incômoda de ver seu raciocínio reduzido a um atestado público de ignorância. A sutileza em retirar os contras silenciosos é extremamente rápida, de forma que o interlocutor não perceba que foi surrupiado de sua verdade e que outra está penetrando em sua mente sem que se dê por conta. A compreensão é pensada no todo, para não se perder tempo de suprimir o mal-entendido nos detalhes, sob pena de gastar saliva inutilmente defendendo-se. O convencimento é avassalador e alcança inclusive, o pensamento inconsciente. Afinal, não há quem suporte ver o outro passar por cima dos seus brios, que a intuição alerta antes. Ela nos dá o sinal de que algo consolidado em nós está sendo invadido. A rede de defesa é acionada e precisa no mínimo que o encadeamento lógico que nos está sendo imposto, seja coerente o bastante para que nos consolemos em trocar nossa verdade pela do outro. Mesmo que isso dure um tempo infinitamente pequeno, nossa mente precisa deixar-se invadir para crer. Na relação íntima com a nossa consciência, a determinação férrea em satisfazê-la. Se ao mostrar a outra face da moeda o interlocutor nos decepcionar, a desculpa do verdadeiro que a nossa consciência representa. O que vulgarmente chamamos de botar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos, já que o nosso interior está apaziguado com as desculpas plausíveis que absorvemos.

Tira-se o chapéu para o habilidoso na arte de convencer, afinal, para chegar ao auge de sua maestria ele fez uso exaustivo da reflexão sobre qualquer idéia nova que lhe surgiu e pensou em cadeia. Amarrou todos os argumentos e convenceu-se primeiro. Ao expor a terceiros é tiro e queda: - o pensamento consolidado já lhe surge com um círculo que se completou, numa intuição induzida, que nada mais é que o cérebro vincado com a informação, porém arquivado em pastas. Destas, será retirado o conteúdo disponibilizado ao interlocutor e quando defender exatamente o oposto. O raciocínio compartimentado entrará em ação novamente, fechando o arquivo anterior e abrindo um novo e vestindo o personagem oposto ali contido. Toda e qualquer imagem anterior não será acessada. Haverá em sua mente um novo bloco de informações que constitui outra versão do mesmo problema, igualmente embasada adequadamente, disponível na sua memória de trabalho, apagando completamente a anterior.

Pensar é uma maneira de discernir. Não se trata da cega avidez de saber a qualquer custo. O instinto do conhecimento por si só não leva à verdade. Quando abusamos da capacidade de persuadir, roubamos momentaneamente as certezas de alguém, pois a reflexão só julga depois. Se isto é um exercitar das enganações a que o nosso cérebro pode ser induzido, a astúcia pode até ser considerada uma legítima defesa, porque pré-acordada entre as partes. O que não podemos é gerar uma dupla injustiça e mascarar o que defendemos ora de um jeito, ora de outro, pela incapacidade de “ver em conjunto e com isso ignorar ou negar a cada vez a outra face, com a ilusão de que aquilo que vemos é toda a verdade”.

11/09/2010

Ele é o Cara. Ele é Tudo o que a Direita Sempre Quis


Normalmente, quando nos identificamos com o ideal de alguém, tornamo-nos discípulos dele, assimilando seus exemplos e virtudes. Na maioria das vezes no decorrer da vida, abandonamos antigos conceitos e seguimos outro rumo. Ocorre também, do protagonista se deter na periferia da história, disposto a manter suas idéias, implacável para que o círculo seja fechado. Tudo bem, caso se tratasse de apenas um dogma a ser quebrado. O outrora mestre seria olhado com desdém pelos ex-admiradores, por ter se imobilizado num ponto, enquanto tudo ao redor sinalizava que o conhecimento deveria moldar-se pelos acontecimentos e, mesmo se desviando do detalhamento inicial, preservaria a essência e não se refugiaria no sectarismo.

Quando o personagem cuja vida é o símbolo de um ideal, se desvencilha de seu passado como quem tira uma roupa que não gosta mais, direciona sua convicção ferrenha a serviço da vaidade pessoal. Incute em si que o poder só é poder mesmo, com vitórias esmagadoras. Constrói seu castelo sobre resultados que se devem mais à continuidade de um modelo já implantado. O que seria sua maior virtude, a humildade de reconhecer que em time que está ganhando não se mexe, o aprendiz de feiticeiro quer mais. Seu ego quer ser o protagonista e o primeiro passo é não aceitar objeções. Está regada a sementinha da ditadura. No momento em que o nosso herói, escancara suas contradições, coloca-as sob o guarda-chuva da necessidade e do aprimoramento. É uma tática tão elementar quanto certeira. Qualquer um que “reconhece” antecipadamente suas limitações critica-se primeiro para que ninguém tenha a primazia da objeção. A incoerência se torna conciliação. Manifesta as diferenças que separam seu caráter daquele do seu opositor, transmite a impressão de não gostar dele, quando na prática é uma tentativa de igualar-se ao desafeto e desvencilhar-se da inveja silenciosa.

Quem renegou um ideal com o único objetivo de chegar ao topo, foi porque este ideal exigia dele uma grandeza insuportável. O que era amor e honra se tornou um fardo, cabendo-lhe representar uma comédia do passado, usando a eloqüência a serviço do ideal que na prática se encarregou de deturpar, afinal, um pouco de benevolência com os seus admiradores faz parte do espetáculo. Todos precisam ser adequadamente afagados. É indiferente se o favor feito a alguém em detrimento de todos os outros, resulta em prejuízo à utilidade pública, oligarquizando o poder e as decisões. Faz parte da troca de favores. Não há espaço para submeter suas decisões ao exame e escolha de alternativas, mesmo entre os seguidores. Quem não aderiu incondicionalmente foi alijado das estratégias e transformado gradualmente em adversário, seja por maquinações de bastidores, seja induzindo ao partido a demonstrar publicamente a falta de apoio. Discutir determinações é muito mais malévolo aos interesses do mestre que a oposição radical.

Os grandes homens levam consigo as qualidades do período em que viveram ou governaram. Haja esforço e mentes obscuras para que se apague a excelência dos feitos. Para isso, não basta o detrator. Atrás dele, uma legião de seguidores comprometidos por uma teia inexpugnável de favores, aos quais só resta a aceitação incondicional. Não há do que se envergonhar em admitir a adoção da maneira de governar de outrem. Basta ser honesto com os alicerces que sustentam tudo aquilo a que deu continuidade. Quando queremos nos tornar superiores ao que aparentamos, atacamos com injúrias aqueles que são melhores que nós, certos que nessa primeira investida a vítima não vai se rebaixar e devolver a afronta. A pessoa agredida entende que está acima disso tudo. Mas as investidas continuarão até que seu objetivo se realize. O ato de não revidar, com o tempo, confunde-se com fraqueza. As bases são corroídas imperceptivelmente, que é tudo que o agressor quer: Desqualificar o criador. Minando o adversário, eleva-se à altura dele. O mérito do sucesso relativo, da competência deturpada, traduz-se numa virtude aparente, motivada pelo egoísmo, mas que por atingir aquilo que se pretende, enobrece seu autor. O sucesso canoniza as intenções. Mas a história se encarrega de registrar o papel dos líderes autênticos. Não há motivo em nossos dias para o plágio político.

Onde se põe toda a própria força em jogo, deve-se encantar-se e não examinar e duvidar. Não passa pela cabeça do herói de mil faces que tanto o apoio quanto a crítica e até o combate são fundamentais quando se trata do bem público. Tampouco se exige que ao olhar para trás tenha uma veneração piedosa pelos antecessores, mesmo que se tratem dos seus adversários políticos. Não há problema nenhum em programas de distribuição de renda. O fim em si é virtuoso. O que não se pode é usar algo que não criou, não idealizou e arvorar-se de dono da criatura. O olhar condescendente aqui é para a população que clama pela proteção que infantiliza na esperança de que pelo menos uma fatia do bolo lhe caiba. Com o tempo, o pedinte pode adquirir o olhar desavergonhado de que falava Luiz Gonzaga: - Esmola mata de vergonha ou vicia o cidadão. O talento de outrora que despertava multidões apaixonadas, hoje, deixa em um batalhão de órfãos, a sensação de que as virtudes escorreram pelo ralo.

Se há novos donos do poder e eles se perpetuam a ponto de obscurecer as mentes, é porque há eficácia em atender o que esperam as cabeças que preferem não enxergar a luz. Gente para quem basta a afirmação, o olho no olho do dirigente pregado numa tela de TV, o que torna a adesão mais confortável. O personalismo nos domina, independente da nossa classe social. Não importa que ELE não discuta conosco. Argumentar para quê? Demonstrar demais alimenta a desconfiança. A verdadeira prestação de contas é feita nos bastidores. Nas medidas referendadas pelo Legislativo e garantidas pelo aparato estatal, nosso herói sacia o apetite da Direita, que, uma vez atendida de maneira exemplar em seus interesses, não reclama de nada e puxa a claque de palmas.

A estabilidade e o lucro garantidos aos setores da construção, automobilístico, telefonia, dentre outros, encabeçados pelo setor financeiro, permitiram que se tecesse uma rede de proteção ao “gênio dos desejos”. Suas malhas são fortes o suficiente para reter para si o quinhão maior de riqueza, mas se dão ao luxo de deixar passar os restos distribuídos perversamente ao grosso da plebe, cuja exigência se aplaca com pouco.

Ligamos nossa escolha à pessoa que irá corresponder às nossas expectativas particulares ou de quem nos decepcione menos. Dos males, o menor. Somos coniventes e votamos por imaginação. Aceitamos de bom grado quem nos vende a realidade melhor. Que meios e artifícios são utilizados não importa. Para isso o esquecimento nos é conveniente. E La nave va! O aplauso transmutado em voto nos diz que o show vai continuar. As marionetes se recolhem tímidas ao fundo da caixa. Até que daqui a quatro anos sejam retiradas de novo e um novo espetáculo seja montado. Até lá, a Direita educará quem se arvora a substituto do bem sucedido fantoche que se retira. Mas não nos enganemos. Outros fantoches já estão sendo gestados, seja para entrar em ação em caso de falha de quem ora é pretendente ao posto, seja para dar continuidade ao espetáculo dentro de quatro anos.

08/09/2010

O Prazer da Ausência de Dor

Embora a uniformidade aparente do ser humano, cada trajetória é única. Ao corpo que a genética nos deu, são acrescidos nome, sobrenome e uma vida de interação com o meio ambiente, que a partir do nascimento nos cabe administrar. No começo, com alguma ajuda, mas chega o momento em que seremos nós os responsáveis pelas alterações incutidas em nosso corpo e mente. Diferentemente dos animais, o homem possui natureza composta de razão e desejo, este último, se desprende das sensações provocadas pelos sentidos clássicos de visão, audição, olfato, gosto e tato. Um arsenal de sentidos que são as nossas primeiras determinações físicas, reflexo das eternas leis da natureza, onde cada ser procura o seu prazer e foge do desprazer .

Somatório de processos assimilados de longo tempo, o instinto se forma basicamente por imitação, garante a sobrevivência. É meio de civilização, artefato original que passamos boa parte de nossa vida tentando domar e adequar. A maioria dos homens subsiste sob o domínio do instinto, não repara em nada que acontece ao seu redor e por acreditar piamente no impossível, não deixa de ser um combustível de perpetuação da humanidade. Mesmo aqueles que usam satisfatoriamente sua capacidade de fazer abstrações, igualmente são subjugados pelo instinto de uma forma ou outra. Desperto ou não, o homem continua a perseguir o imperativo da felicidade, cuja tradução prática é a busca do prazer e a fuga da dor.

Sinal universal de que há algo errado com o corpo, imediatamente procuramos pela doença quando sentimos dor. Nem toda moléstia provoca dor, mas é um incômodo que se torna insuportável se algo nos dói. A cura pode ser o objetivo, mas a trégua na dor é o desejo maior nesse momento. Nosso querer se curva nessa direção a ponto de se congelar quando o tormento cessa. “Ela vem, finalmente, a hora que te envolve na nuvem dourada da ausência de dor: onde a alma desfruta de seu próprio cansaço, abandonando-se com alegria à lentidão de seus movimentos e, em sua paciência, semelhante ao jogo das ondas que, nas margens de um lago, num dia tranqüilo de verão, sob os reflexos multicoloridos de um céu do ocaso, sucessivamente murmuram e se calam sem saciedade e sem desejos – tranqüila e sentindo prazer no fluxo e refluxo que seguem um ritmo sob o sopro da natureza”. Depois da breve satisfação, o aborrecimento retorna. A vontade paralisada na ânsia de extinguir a dor, agora se volta para a doença em si e novamente nos domina ao sugerir um desejo após o outro.

A maneira como lidamos com a satisfação dos desejos, no apogeu da nossa vida, determina a postura na doença. Talvez a imobilização propicie a reflexão a quem viveu por muito tempo fora de si mesmo e finalmente se volta para a vida interior, como que numa retrospectiva de suas escolhas. A maneira como se pensa a morte na plenitude da nossa força, manifesta com vigor o nosso caráter . Aqueles que souberam equalizar vida exterior e interior quando no auge da saúde, compreendem melhor a cura do corpo e da alma. Quem adoeceu e sarou muitas vezes, identifica com clareza o maior prazer que a saúde lhe proporciona, do que as pessoas que são sadias durante a maior parte de sua existência. Os sentidos se aguçam e sabem distinguir em si e nos outros tudo o que é sadio ou mórbido.

O domínio da vontade, o ato de desejar coisas que retorna após o término da dor física pode ser a volta da perturbação, quando se estava entregue àquela sensação de cansaço, de não se importar com mais nada. Desejar de novo, todavia, é o sintoma da convalescença e da cura.

03/09/2010

Nas Ondas do Rádio

Uma amiga me contou esta. Foi passar férias de verão em Santa Catarina. Primeiro dia: Desfaz as malas e ainda sobra um tempinho à tarde para o sol abençoado. Segundo dia: Levanta cedo e vai direto para a praia. Sol para lá, banho de mar para cá, papo pro ar, cervejinha, almoço na beira do mar... E à tarde. Ah! À tarde a sesta merecida, aquela siesta especial, que nem se pensa em tirar no corre-corre do dia a dia. Lá pelo terceiro dia nota que está faltando alguma coisa e não se lembra do que é. Está tudo perfeito, ela planejou estas férias o ano inteiro. O que será?


- Deixa prá lá – pensa
– Depois eu descubro. Era só o que me faltava, procurar sarna para se coçar – finaliza ela e tenta dormir.

Na hora de dormir procura algo na mala. Lá no fundo, o radinho de pilha. Liga-o e tenta sintonizar alguma rádio. Era isso que estava faltando, o radinho!

Qual a babá que consegue trabalhar sem um radinho ligado? Quem nunca entrou no carro e não ligou involuntariamente o rádio, que atire a primeira antena.

Acostumamos com o rádio, do mesmo jeito que alguém entra em casa e acende a luz porque tem um medo inexplicável do escuro, ligamos o radinho nosso de cada dia. É costume. É instintivo.

Rádio é como livro. Imaginamos as cenas, os lugares, as fisionomias dos personagens. Somos contagiados pela emoção do locutor, pelo universo que ele cria à testa de um microfone. Somos embalados pela música. Entramos em contato com o mundo, não importa onde estivermos. E se estivermos no trabalho, não precisamos parar o serviço. O rádio coexiste com a maioria deles.

E no meio rural ou nas camadas mais humildes da população? Ah! Já cedeu espaço para a televisão, dirão alguns. Os dois veículos são diferentes. O rádio é poético, mágico, amigo. É. Ele faz aquilo que mais esperamos do amigo: Que esteja presente, simplesmente, quando queremos alguém por perto.

01/09/2010

A Mais Pura Verdade


O semáforo fechou. O menor que dirigia o Corolla engatou uma ré o estrago estava feito no carro que esperava abrir o sinal. Fuga e substituição do inexperiente motorista e o chamamento da galera para restabelecer a “verdade” e o novo cenário. Alguém que estava numa esquina próxima viu claramente o adolescente dar ré e bater no carro de trás. A testemunha foi agredida pela ousadia de querer restabelecer o acontecido. O mais irônico foi ter que ouvir: “O velho, além de barbeiro, bateu atrás e acha que tem razão”; como consenso na multidão então formada com o acidente.

Quando algo parece evidente aos olhos da maioria, o autor passa a vítima num piscar de olhos. Ao embasar sua afirmação na aparência e induzi-la pelo que é comum em situações parecidas, carreia para si a prerrogativa da verdade e da razão. Daí em diante é quase impossível desenrolar o nó que se avoluma com base numa premissa falsa, mas com cara e elementos agregados que lhe conferem o viés de autenticidade.

A crença na verdade começa quando se duvida de tudo o que se acreditava até então. Quem não participou da origem, tende a rever posicionamentos e admitir probabilidades do outro ter razão. Preferimos a incerteza, já que odiamos um pouco a verdade por causa da idéia de precisão que lhe é inerente. Se não sabemos do que se trata, sustentar algo que aparenta o contrário é temeroso; pode trazer conseqüências indesejadas. O fato de não termos sido a causa ou os efeitos não chegarem até nós, conferem-nos uma imunidade material. Principalmente se somos indiferentes por opção ao que acontece ao nosso redor, acostumados que estamos ao lusco-fusco e se coisa clarear muito, a luz intensa interfe na nossa rotina incomoda-nos além do necessário e assusta a nossa mente.

Ante o recuo ou intimidação, o autor é beneficiado com a cumplicidade de quem está ao redor. A inexperiência com a mentira faz com que se tome a verdade aparente como antiga e conhecida e olham de soslaio, como quem quer roubar um bem comum a todos; as meias verdades são mais cômodas e seu autor, diante de tal manifestação e adivinha facilmente o que conseguiu elaborar bem e o que não.

Voltamos à pequenez quando fazemos recair a culpa nos outros; estamos no caminho da verdade quando só nos responsabilizamos a nós mesmos; “mas o sábio não considera ninguém como culpado, nem ele próprio, nem os outros” , disse Epicteto, filósofo grego há 1900 anos atrás. Continua atual e precisamos fazê-lo ao nosso ouvido, para que acreditemos primeiro. É um murmúrio solitário em meio à praça tumultuada.

Os sentidos nos enganam e nos fraquejam. Para nós só é verdadeiro o obstáculo contra o qual nos batemos e isto nos basta para se vangloriar de saber todo o contexto e donos da verdade e da razão. Mas nem sempre nossa inteligência entra em ação para entender e captar o todo. A primeira impressão é que fica, como se a realidade fosse imutável. Empédocles , filósofo pré-socrático diz que “Verdade é apenas o que pode alcançar a compreensão de um mortal. Não é uma verdade absoluta, mas proporcional à medida humana”. Verdade, que exigimos e utilizamos no comércio moral onde repousa toda a vida em comum, iniciando uma série de mentiras recíprocas. A visão de mundo que incorporamos ao aderir sistematicamente grupo vencedor leva-nos à convicção de que verdade e mentira são de ordem fisiológica. A essência da verdade é julgada segundo os seus efeitos e estes por sua vez conduzem à admissão de verdades não demonstradas. Ao combatê-las, mostramos a necessidade de encontrar outra via e a lógica é o caminho usual, porém inadequado como único guia, por restringir aquilo que é possível saber -segundo os efeitos - e assim, produz a mentira. A lógica tem dificuldade de denominar com exatidão, tornando-se incompatível com a veracidade.

Corroborando com a inverdade, pela obrigação de mentir segundo uma convenção firme, vale aqui a lembrança de refletirmos moralmente, sobre o modo como esquecemos as coisas que nos dizem respeito. Sim, mesmo agindo inconscientemente da maneira designada como verdade, mentimos.