26/08/2010

Convicção, Uma Luta de Todos Nós


Confiança, crença e convicção são atributos que se conquistam junto ao nosso interlocutor. Podem ser lógicos, cristalinos, mas precisa haver empatia para que se estabeleça a ponte par ao início de um processo de convencimento.

E o que fazer então com essa sensação de angústia permanente que nos ameaça e nos deixa impotentes, com falta de ar, cada vez que resolvemos esmiuçar tais conceitos? Porque a certeza vai sempre por água abaixo quando se trata do raciocínio sobre o universo, do prosaico quem somos, de onde viemos e para onde vamos? A ignorância é uma sensação consoladora. De posse dela, tudo se torna aparentemente fácil.

É pretensão demais da nossa parte querer achar respostas ou discutir aqui questões filosóficas que os sábios ao longo dos séculos vem teorizando a respeito. Há estudiosos do pensamento da atualidade capazes de defender suas teorias com veemência e fundamento. Mas não há de se contestar que o conhecimento não é passaporte para a tranqüilidade de ninguém. O pensar é característico dos seres inquietos, capazes de conciliar o prazer de absorver o que escreve um Umberto Ecco, não se descuidando de um prosaico caldo de feijão que estivermos cozinhando. O prazer da descoberta também é prazeroso. Quem não se dispuser a abrir mão dos prazeres fáceis, ganha em troca a placidez e o conformismo inerentes à ignorância.

Ao cercar-se de idéias de outrem tentando descobrir a sua própria, transformamo-nos e absorvemos o que o pensamento universal consolidou. Conhecendo mais temos mais escolhas. Mas a certeza, ah! Essa não vem. Atribui-se ao Galeano a frase: "Quando eu achava que tinha todas as respostas, mudaram as perguntas". É. Quanto mais aprendemos menos sabemos. Nossas convicções podem desmoronar-se na próxima investida de aprender. Abandonar o barco? Jamais. O verdadeiro prazer está exatamente na busca, em admitir a multiplicidade de facetas que compõem o universo e constatar que somos parte integrante dele.

12/08/2010

A música das Esferas


Quem de nós não se lembra do famoso Teorema de Pitágoras? Pois é. Mais conhecido como matemático, Pitágoras, passeava pelas diversas áreas do conhecimento, na ânsia de um entendimento da existência humana e do universo, que fugisse ao olhar mitológico do século 538 a.C. Conta a lenda que ao ouvir um ferreiro, identificou no golpear dos ferros com diversos martelos diferentes, sons harmônicos. Quis descobrir o que distinguia os tons e notou que a diferenciação não dependia da força do golpe, do feitio dos martelos ou dos variados tipos de ferro golpeados. Pesou os martelos e percebeu que o peso de quatro deles estava numa proporção de 12, 9, 8 e 6. Prosseguindo a experiência, fixou um prego na parede, amarrou quatro cordas idênticas em material e comprimento e pendurou na extremidade de cada uma, pesos iguais aos dos martelos do ferreiro. Tocou duas cordas ao mesmo tempo, ora um par, ora outro. O martelo mais pesado tinha o dobro do mais leve e lhe forneceu a oitava mais grave. Os princípios da aritmética e o conceito de média harmônica o fizeram compreender a razão pela qual os outros dois martelos produziam exatamente as demais notas da escala. Bingo! Tinha descoberto o fundamento matemático da música. Daí para frente o mundo conheceria o Pitágoras músico.

A música era vista pelos gregos como uma disciplina moral na educação, um freio nas partes físicas e agressivas da mente. Pitágoras purificava a mente de seus discípulos através da música, usando de melodias adequadas, no intuito de refrear angústias, compaixão, ciúme, traumas. Para ele, a psique humana era uma harmonia de razões que imitava a ordem e o restante do Cosmos. Ao descobrir os intervalos musicais visualizou uma correlação mística entre a aritmética, a geometria, a música e a astronomia. Estudando os planetas e as estrelas, associou-as a números e seus movimentos pareciam dotados de uma inteligência divina. Os corpos celestes movendo-se pelo espaço produziriam sons, a música cósmica ou música das esferas. Girando sem cessar, aconteceriam harmonias sem intervalo silencioso a partir do qual a música das esferas celestes pudesse ser percebida. O homem não seria capaz de ouvir tal música porque se habituara a ela, assim como os ferreiros se acostumaram com o barulho dos seus martelos

Mentes vigorosas, que se atiraram sem hesitação aos recursos disponíveis para revolucionar a consciência humana, floresceram em todos os tempos. Pitágoras, dono de um intelecto poderoso, mas essencialmente místico, usava a razão e o método empírico para justificar seus estudos, preenchendo lacunas que permitiriam o desenvolvimento da ciência e da filosofia grega. Assim como na matemática, na música, nossa compreensão das ciências em geral não nasceu de um dia para o outro; remonta a um passado longínquo, cujos fragmentos parecem ilógicos aos nossos olhos modernos, mas trazem pilares do conhecimento ainda vigentes, aperfeiçoados por gerações de pensadores.

O turbilhão de informações da atualidade nos leva a pensar que nada há para ser descoberto. A física explica como ondas sonoras se propagam, suas freqüências e amplitudes, mas a maneira como afetam o nosso inconsciente é única e isto é pacífico em nossos dias. A música das esferas é uma bobagem? Se não se sabe que algo existe, é preciso saber o que estamos procurando. Para Pitágoras, música era o reflexo de uma atividade espiritual interior usada para criar estados alterados de consciência, cujo modelo se repetia no Universo. Talvez exista apenas um véu mais ou menos espesso cobrindo certas verdades aceitas pela maioria e isto nos basta para justificar o comodismo e que nada mais há para ser pensado.

Paradigmas existem para serem quebrados. A harmonia do viver, paradoxalmente complexa e simplificada, exige de nós a aparente simplicidade da percepção e o rigor da disciplina para alcançar o estado mental necessário à abertura dos sentidos. Somos responsáveis por legar conhecimento às gerações futuras. A busca precisa existir sempre em nós, enquanto seres em construção, pois lembrando aqui Demócrito, filósofo grego do século V a.C: “Nem a arte, nem a sabedoria é algo acessível, se não há aprendizado”

02/08/2010

Palavra Proibida


Ela está aí, presente. Muda de cara conforme a densidade populacional, mas ameaça entrar pela nossa porta. Não sabemos ao certo se confiamos nos índices que dizem que a criminalidade aumentou ou se são os meios de comunicação que nos fazem senti-la próxima. Por mais que se queira crucificar a mídia, não há como tirá-la da convivência conosco. É claro que a exposição é maior quando se trata de pessoas influentes, ligadas ao meio artístico, como aconteceu nas últimas semanas. Atropeladores que não socorrem e querem se safar, policiais recebendo propina para livrar o envolvido, assassinatos, corpos sumidos, numa avalanche de notícias ruins, onde a agressão ao ser humano foi a tônica.

Compadecemo-nos pelo sofrimento da humanidade e ao mesmo tempo acionamos o medo quando não sabemos se o desconhecido que vem em nossa direção, vai nos pedir uma informação ou sacar um revólver. Não adianta. A adrenalina dispara, preparamo-nos para o ataque ou para a fuga, se as nossas pernas o permitirem. Pertencendo a uma instituição de caridade, este mesmo anônimo pode ser objeto da nossa ajuda. Fora disso, nossos instintos avisam que ele pode nos agredir.

Um amigo jornalista, o Adelar, já falecido, bradava na coluna de um jornal em que ambos escrevíamos: “sabemos que muitas leis não atingem a universalidade popular... Dêem leis claras e objetivas ao Judiciário que as sentenças serão equânimes”. Lá se vão dez anos e nada mudou. Se o criminoso sabe que os bens do seqüestrado estão indisponíveis por lei, a exemplo do que ocorre na Itália, por exemplo, vai pensar duas vezes antes de seqüestrar alguém. A objetividade das leis irá demandar menos tempo da justiça em resolver questões, atingindo uma maior parcela da população. A quase certeza da impunidade é uma das molas propulsoras da criminalidade.

Andamos eretos há bastante tempo. Teoricamente evoluímos. Na prática, continuamos a agir de forma tão rudimentar quanto os nossos antepassados mais remotos. Há que se ter a capacidade de evoluir também, gestando leis efetivas que contribuam para diminuir a violência contra o ser humano.

Neste milênio que esperávamos como aquele que iniciaria a era de Aquário e nos traria paz esperada, ainda não fizemos a nossa parte e estamos atordoados por não sabermos como dar o pontapé inicial na efetivação dessa paz.

Violência. Esta é a palavra proibida. Bani-la do nosso dicionário é o grande desafio da humanidade.