29/07/2010

Processo Decisório: Uma Reflexão para o Líder


A liderança impõe-nos decisões a todo instante e nem sempre bem recebidas pelos liderados, por mais que o terreno tenha sido preparado com cuidado. Mesmo o líder mais tarimbado, ressente-se das reações que as opções inexoráveis, que obrigatoriamente exigem mudanças profundas na postura da equipe daí em diante, provocam nas pessoas. Afinal, ele também é um integrante do time e sabemos como dói sermos temidos quando tomamos decisões que a nossa consciência entende adequadas, mas que não agradam a todo mundo e não é exatamente aquilo que nós mesmos gostaríamos de fazer, se tivéssemos alternativa melhor.

Buscamos a unanimidade mesmo concordando com quem disse que “toda unanimidade é burra”. Preferimos nos iludir e achar que somos queridos e amados, unicamente porque as pessoas envolvidas não nos deram feed-back, retorno, quando atingidos pela nossa resolução.

As regras de convivência recomendam que se evite a zona de atrito. Temos que ser diplomatas sempre, dizer somente aquilo que os outros querem ouvir? Claro que não. Até porque a fronteira entre a diplomacia e a hipocrisia é muito pequena. Idem, para o limite entre a franqueza e a grossura. Mas, não raro, engolir em seco, uma palavra recolhida quando estava prestes a escapar, pode nos dar um tempo para pensar se é realmente aquilo que queríamos dizer. Postergando um pouco, a cabeça refresca e podemos nos colocar no lugar do outro. Exercemos assim, a reversibilidade. Que nada mais é do que tentar averiguar o que é verdadeiro para o interlocutor. Implica em abrir mão do nosso conceito de certo, por mais convictos que estejamos dele, enxergar com os olhos da alma e interpretar pela ótica do outro.

Dói não sermos compreendidos. Mas fere mais ainda violentar-se ao invés de tomar a decisão adequada. Porque mesmo não sendo bem recebida, ela se torna correta quando no íntimo sabemos que após todas as precauções, foi a mais indicada.

Não vale a pena olhar para trás e desesperar-se pelas oportunidades perdidas, se a decisão tivesse sido diferente. Todos nós sabemos aquilo que é importante, aquilo que é imutável para nós, que faz parte do nosso núcleo. Uma vez resolvido, é melhor concentrar as energias nos ganhos que nos proporcionou. Mesmo que tenhamos que arcar com o ônus da indiferença, da cara feia daqueles que nos rodeiam e, não raro, amamos.

E se nos arrependermos? Bom, aí, resta usar a experiência como subsídio para as decisões futuras e tocar o barco. Lamentar-se? Jamais. Não engrandece, nem vale a pena.


14/07/2010

Dilemas da Liberdade de Escolha


Não ter medo, ser ousado, lidar com a adversidade e com as falhas humanas, - visto que, invariavelmente, em algum momento, erramos -, são atributos que entendemos necessários a àqueles que aspiram deter a tão propalada liberdade de escolha. Porém, qualquer autonomia esbarra na adesão forçada a que são submetidos aqueles que integram a base da pirâmide da nossa sociedade.

Os direitos pessoais têm como limite o direito alheio, com base nas regras delimitadas pelo Estado. A insegurança e a incerteza são sentimentos que sempre permearam o viver dos menos favorecidos. Num mundo onde a segurança dos direitos pessoais obrigatoriamente se alicerça na garantia dos direitos políticos, sem estes últimos, não se pode confiar nos primeiros. A liberdade se torna um sonho inalcançável. Os problemas são globais, repercutem nas questões locais e não admitem soluções gestadas no microuniverso, aqui em Pindorama.

O efeito dos acontecimentos econômicos mundiais, que privilegiam poucos e excluem muitos, une poder e política em escala planetária. O Estado impotente, não protege mais a sociedade. A força do mercado - amo e senhor – cujos agentes manipulam ao bel prazer uma enxurrada de capitais, qual tsunami passeando violentamente de um lado a outro do planeta; expõem a sua sagacidade ditando normas e impondo conseqüências que cabe ao Estado contornar. Na globalização negativa[i], são confiscados os meios de que precisariam para gerir seu destino, limitando a efetiva proteção aos seus habitantes. Não há mais ferramentas domésticas para garantir-lhes a segurança. As nações perderam a primazia na condução dos assuntos globais, restando-lhes administrar crises, trabalhar basicamente com medidas de emergência. Tais assuntos seguem seu curso independentemente do que façamos ou que possamos sensatamente pretender.

Nesse cenário, os direitos políticos são instrumentos de consolidação das liberdades pessoais calcadas no poder econômico. Quem não tem haveres, fica impossibilitado de exercê-los. Os recursos materiais e culturais que tornariam os integrantes das classes baixas aptos a serem “premiados” com os direitos políticos, são de difícil aquisição, pois a sua ascensão está condicionada a um equilíbrio de forças das quais os indivíduos são apenas peças da engrenagem.

Os problemas mundiais só são motivo de preocupação política quando provocam repercussões locais. A poluição em escala planetária do ar, da água, a exaustão dos recursos ambientais, só nos afeta quando alguém resolve construir um depósito de lixo tóxico perto da nossa casa, criando uma proximidade assustadora.[ii]A competição entre empresas farmacêuticas internacionais só é percebida, torna-se objeto de um olhar político, quando os serviços de saúde e suas instituições quedam-se defasados. Igualmente, o morador do continente europeu se sente receoso e ameaçado em sua segurança, quando o governo constrói moradias para refugiados no seu bairro, sinal que gente excluída bate às suas fronteiras, exigindo também para eles o mundo melhor que os primos ricos possuem.

As contingências do Estado e a tomada de decisões cada vez mais rápidas, ao sabor das quebras mundiais restringem o direito de escolha. Não se faz o que se quer, mas o que se pode. Esse imediatismo afetou o modo de legislar. Aqui no Brasil, o Executivo se arvorou no direito de fazer as leis ao abusar do recurso da Medida Provisória, sob o pretexto da urgência, transformando o Poder Legislativo em entidade que referenda atos que deveriam ser originados dele. Com isso, a sociedade se torna autoritária; reflexo dos esquemas políticos e econômicos pelos quais é regida. Sob a alegação de garantir preceitos morais ou de saúde, por exemplo, acabam impondo a maioria das regras às população.

O Estado que dita à exaustão o que o indivíduo deve fazer, invade a sua privacidade e não lhe deixa opções. As proibições reduzem o espaço de ação individual e só permite escolha dentro de um formato rígido, preestabelecido. Em conseqüência, a capacidade de influir no processo de elaboração das leis é quase nula. As determinações que são a espinha dorsal do poder, que influem direta e profundamente na vida das pessoas não estão ao nosso alcance. Confinam-se no âmbito governamental, que por sua vez se submete às contingências mundiais, para manter o seu status-quo.

A perspectiva de fazer a diferença enquanto indivíduo sucumbe ante a coerção dos currais econômico-eleitorais. Os direitos pessoais e os direitos políticos são exercidos assim, por uma minoria abastada da sociedade. O direito de voto é mero instrumento de submissão à vontade de outrem. A pobreza suga a energia na luta pela sobrevivência e a vontade das pessoas fica à mercê de promessas vazias e de fraude.

Algum tipo de escolha nos resta e as fazemos diuturnamente. Seja por ação, omissão, intuito ou negligência. Por decisão consciente ou apenas seguindo – cega e mecanicamente – os padrões costumeiros; por discussão ou deliberação conjunta ou apenas aderindo aos meios em que hoje se confia, por estar atualmente na moda ou ainda não terem sido desacreditados. Regras de convivência são estabelecidas, mas se trata apenas de um armistício. É nesse confronto que se desenvolve a dinâmica das nossas cidades modernas; onde as identidades locais se chocam e lutam para firmar um acordo satisfatório, que defina uma paz duradoura, mas que se sustenta apenas até que a urgência exija uma nova adaptação.[iii]



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[i]- Zygmunt Baumann – Tempos líquidos -, Zahar, 2007,.

[ii]Idem, pag. 88

[iii]Ibidem.

07/07/2010

A Lógica de Cada Um


Normalmente a lógica cai por terra quando se argumenta com alguém e o sujeito concorda de pronto. No pressuposto de que a concordância seja porque está convencido e não porque o vencemos no cansaço. Porque se foi a fadiga, estorna e segue o baile. O interlocutor está convicto de que a nossa argumentação é correta para que ele faça ou deixe de fazer determinada ação ou tenha certas atitudes. Prepare-se para o xeque mate: “É. Você tem está certo, mas eu não gosto. Eu não quero”.

Nessas circunstâncias, capitulamos. Contra a ausência de lógica ou de vontade, não há idéia ou procedimento que vá em frente. E o que é inconcebível para que se pauta pela coerência nas atitudes, para o outro é basicamente o predomínio do instinto. “Não estou com vontade de fazer”. O não fazer significa abrir mão das melhorias que o novo posicionamento traria. Mas se ele não aprecia a idéia ou não quer, significa que não está disposto a correr riscos para alcançar certos objetivos. Ou então, a última alternativa: Ele não está suficientemente persuadido dos benefícios que supostamente iria auferir. Não assimilou como verdade sua aquela proposição.

Outro argumento que dispensa qualquer réplica é: “Tudo bem, eu concordo contigo, você têm razão, mas por aqui é assim, dessa maneira que estamos acostumados a fazer”. Tradução: Você não foi esclarecedor a ponto de convencer, está enchendo a paciência de quem te ouve e ele está apelando porque não te agüenta mais e quer que dê o fora. Não tem jeito. Tire o time de campo e saia de fininho. Você entrou para a categoria dos chatos e dos indesejáveis. A pessoa que te ouve não quer mudar nada, está muito bem assim e você está sendo gentilmente convidado a não meter o nariz onde não é chamado e ponto final.

E os convencimentos aparentes? Aquele onde a pessoa fala, fala, mas alguma coisa lá no fundo não fecha. O argumento faz sentido, as provas se encaixam, mas o seu sinal vermelho acende. Intuição pura. Tire partido dela. As mulheres que o digam. Mas isto é outra história. Pensando bem, esta aqui já está ficando chata. Bye, bye.

03/07/2010

Don`t Cry for Maradunga