31/05/2010

As Diversas Maneiras de Amar


Os casais possuem códigos que só tem significado para eles. Óbvio demais. Fundamentais, diria Roberto Carlos, o romântico. “...detalhes tão pequenos de nós dois...”

Para quem olha de fora é pagar mico como diz a gurizada hoje em dia. Para o casal, pequenas relíquias que compõem a história de uma vida.

Uma amiga distante, me conta ao telefone das estrepolias do marido, que está se bandeando para outro relacionamento, depois de um casamento de décadas.

- Resolvi desprezar mesmo. Não separo mais as asinhas da galinha que ele gosta de comer. Ele que se vire!

Se não a conhecesse tão bem, diria que estava brincando. Pequenas gentilezas, alimentos do amor, tomam um sentido enorme, quando do rompimento.

Há atitudes que substituem as palavras. Imagine a cena: Depois de duas semanas sem se ver, a mocinha pede ao namorado:

- Diz que me ama.

- Mas eu te mandei flores na semana passada - Responde o rapaz com ar de surpreso.

- Ué, e isso quer dizer que me ama - Surpreende-se ela.

- Claro que sim - Retorna ele.

Depois que o casamento entra na convivência propriamente dita, os sentidos captam as mensagens a quilômetros de distância. Nós mulheres, queremos que o parceiro diga que nos ama como no tempo do namoro. E eles ali, monossilábicos, quando muito. Somos mesmo exigentes. Nem nós dizemos eu te amo com a mesma freqüência de antigamente, mas é como se disséssemos todos os dias, sob a forma dos gestos de carinhos que reservamos para o amado. Eles também fazem a mesma coisa. Aguçando os sentidos, vemos que aquilo que nos tornou especiais aos olhos do outro, continua presente. Tanto que se incorporou ao nosso dia a dia e não percebemos.

Detalhes. Que tal uma overdose daqueles eu só o parceiro conhece, no próximo dia  12, dia dos namorados.

29/05/2010

Queremos ser lembradas, sim. E daí?

Todas nós mulheres adoramos ser lembradas, principalmente quando se acorda de manhã e tem alguém entregando um ramalhete de flores na sua porta. Nestas horas, esquecemos o mau humor matinal e abrimo-nos em sorrisos. Fechando mais um numero na casa dos inta e chegando nos enta? Não importa. É o seu aniversário e aqueles que lhes são caros estão homenageando-a. Um presentinho, as flores e o abraço da família e dos amigos. Telefonemas daqueles amigos distantes, tudo contribui para que você passe o dia nas nuvens. Vamos, é seu aniversário, usufrua! Hoje é seu dia especial.


Anos atrás, nos dias que antecediam ao aniversário de um familiar, encontramos a aniversariante aflita com os “micos” e inúmeros telefonemas característicos da data. Intimamente ela até gostava, mas se constrangia em se ver no centro das atenções, quando o passar do tempo já lhe indicava não ser mais uma jovenzinha. Pouco tempo antes, chamou-nos a atenção uma entrevista na TV com um professor americano radicado no Brasil. Ele dizia que nos seus primeiros anos aqui no nosso país, espantou-se com alguém se desculpando por não ter lhe dado os parabéns pelo aniversário. Segundo o entrevistado, não era costume nos EUA esta lembrança, da forma como ela existe no existe no Brasil, estando restrita a familiares e amigos mais íntimos. Analisou que seria mais uma prova da afabilidade dos brasileiros.

Caso a teoria do professor americano esteja certa, graças a Deus que somos brasileiros. Nós espalhamos tudo. Levamos tudo para o coletivo e o resultado final é positivo. Algumas lembranças são apenas convenções sociais, mas mesmo assim entendemos válidas. É civilizado lembrar-se das pessoas que nos rodeiam. Faz bem saber que alguém se recordou da gente num dia que tem significado especial para nós.

Ninguém gosta de ser anônimo. As celebridades que o digam. Ficamos satisfeitos intimamente quando alguém destaca uma qualidade nossa, um trabalho bem feito, nossa capacidade de ouvir, seja lá o que for. Queremos os nossos momentos de intimidade sim, quando somos nós em frente ao espelho. Mas precisamos ser reconhecidos. É sinônimo de enxergar o outro. Que atire a primeira pedra, quem, lá no íntimo, não quer pelo menos por um dia, os holofotes sobre si? Foi essa pergunta que fizemos na conversa tida antes do aniversário da nossa amiga. E não é que deu para notar um sorriso no rosto a cada telefonema?

28/05/2010

No olho do furacão


Heráclito dizia que nada é permanente, exceto a mudança. E o que falar então de um mundo onde a velocidade da comunicação faz com que o morador da barranca do Uruguai, com uma parabólica espetada, saiba que houve queda nas bolsas de Kuala Lumpur na Malásia, há poucos minutos? Ele visualiza, presencia os fatos em tempo real.

Mas será que é mesmo assim? O que buscamos para a nossa vida seja no sentido material, filosófico, religioso ou qualquer coisa que o valha é exatamente a constância. Pois é. Hoje estamos que nem cachorro tentando morder o rabo. Buscamos a estabilidade e para alcançá-la vivemos correndo atrás dela, sempre parecendo que quanto mais próxima está, mais ela se esvai.

O que seria deste nosso planeta se ele não estivesse estável nos eixos, naquele eterno movimento de rotação e translação, como nos ensinaram nos bancos escolares?

Aquecem ou esfriam as águas do Oceano Pacífico e lá vem El Nino ou La Nina tirar o nosso ao provocar a instabilidade do clima e coloca toda a nossa lavoura, feita a duras penas a perder.

Dizer que o universo funciona por princípios de lei e ordem transparece imperativo, dogma de alguma seita. Mas não é. Para se manter a normalidade está cada vez mais difícil seja nas oscilações dos fenômenos da natureza ou na nossa vida. Não está fácil preservar o emprego. Procurar emprego então, nem se fala. Eles existem, mas estão nos exigindo sempre mais, cobrando-nos mudança de atitudes, aprendizados adicionais.

Pode ser que a rede de comunicação global nos fez ficar muito perto dos fatos. Sabemos instantaneamente quem quebrou e os donos do chamado capital flutuante correm com o dinheiro de um lado para outro em questão de minutos. Tudo à procura de maiores lucros e menores riscos, indiferentes se quebram países, desvalorizem moedas, atrapalhem a vida dos que querem sair da crise e crescer o mais rápido possível.

Não acreditamos que a mudança seja algo assim, simplista. Mas que parece que alguém colocou o pé no acelerador da humanidade está obrigando-nos a andar mais rápido, ah, isto parece. E ai de nós que ficarmos para trás. Não há jeito. Temos que correr junto.

24/05/2010

Trabalhar não mata ninguém


Trabalhar não mata ninguém. O que mata mesmo é a ausência do trabalho. Quer desespero maior que a ociosidade? Quem nunca olhou nos olhos de um pai de família e enxergou dentro dele a dor que mata? A dor de não ser produtivo, de não contribuir para a manutenção dos seus.

Trabalho em sua essência é o que sentimos prazer em realizar. Aquele do qual gostamos e fazemos bem feito. E não é, necessariamente, sinônimo de trabalho intelectual. O jardineiro, por exemplo, que deixa o nosso jardim “um brinco” e que ao receber o pagamento pelo seu serviço faz questão de ir até sua casa, trocar de roupa e vir com uma roupa simples, porém limpa e asseada, realiza-se naquilo que faz e assim mostra o melhor de si.

Não medimos esforços quando temos um desafio, uma tarefa a cumprir. Principalmente quando encontramos sentido naquilo que fazemos. – Mas eu não gosto do meu trabalho, eu queria ser outra coisa e não o que sou hoje, não ganho o que acho que mereço – Podemos acalentar nossos sonhos, mas temos um compromisso com a nossa sobrevivência hoje. Sem o concreto o nosso sonho volta à estaca zero, torna-se cada vez mais distante e perdemos a oportunidade de ser feliz hoje.

Perguntemos então aos velhinhos de Veranópolis, no Rio Grande do Sul, a cidade com a população mais longeva do país, qual o segredo de viverem tanto tempo? Trabalho durante toda uma vida, responderão. Como diria o meu avô, que Deus o tenha! - enxada encostada é que enferruja – Só vive mais e bem vivido, quem cultiva a felicidade. Sem um trabalho, com certeza nós seríamos menos felizes.

21/05/2010

Pena é um sentimento dispensável


Alguém passa à frente de um lar de idosos numa manhã de outono. Alguns conversam, mas a maioria está calada, olhar distante, como se fitasse o infinito. Esta aparente desconexão com o mundo leva quem passa a dizer "coitados!". A cena se repete com frequência e alguns dos internos já não querem mais tomar o banho de sol ali na frente. Uns pouco escutam, outros não enxergam direito e muitos cuja dificuldade é a locomoção, preservam os sentidos em dia e são os que se aos poucos se recolhem ao fundo do pátio. "Coitado, uma ova", revelam-nos depois. "Eu estou muito bem aqui. Não preciso da pena de ninguém". Velhos todos seremos e mais dia menos dia alguma função do corpo, vital ou não irá se degenerar, mas isso não é motivo para se fazer de vítima. O papel de vítima é confortável, embora como tudo na vida tenhamos que pagar um preço por ele. É louvável o arroubo de dignidade em não se prestar a tal papel.

As dificuldades físicas são um prato cheio para a acomodação. É a desculpa perfeita para justificar o desejo que os outros tenham peninha de nós. Qualquer um reage diante do sentimento de pena. Não gostamos de nos sentir um traste inservível. O resgate da dignidade se impõe ante a simples menção de que estamos sendo incapazes de resolver sozinhos alguma situação ou tomar determinadas atitudes. Queremos igualdade na restrição. Ainda que tolhidos por doença, idade, dificuldade de enfrentamento das situações, não abrimos mão do direito de escolha quando nos convém mostrar-nos excluídos.

A auto-exclusão é uma resposta àquela que o meio nos impõe por estarmos fora do padrão, um recurso que usamos quando alguém quer que façamos algo por ele mas que para realizá-lo precisamos lançar mão de algum sacrifício. Esta demanda de força extra torna o ato não-natural, deixando de ser espontâneo aquilo que fazemos com algum dano físico ou emocional a nós. É claro que nada se faz seja em proveito próprio ou de terceiros que não vá gerar uma carga de vontade ou de trabalho e em consequência, esforço. Mas gastar nossa reserva de energia ou contrariar nossa vontade em prol de outros, quando até para nós mesmos iríamos pensar duas vezes antes de se empenhar, já é demais.

Por mais que se tente o altruismo, sempre se cobra algo em troca seja em que "moeda" for. Assim, faz parte do treino para o NÃO, evitar auto impingir-nos posturas que fomos "convencidos" a adotar. É até perdoável promover a auto-exclusão em benefício próprio, baseado em uma dificuldade real de atender a determinados pedidos. Difícil é caracterizar a limitação das pessoas. Ou ela é ostensiva ou seu portador é um coitadinho e não se pode esperar nada.

Não é difícil perceber quando alguém está se esforçando para fazer o "seu" melhor e não custa valorizar sem apelar para a piedade o trabalho de quem faz o "seu" máximo. Não é sacrifício algum respeitar o direito de calar-se ou de não ser incomodado.

Se queremos de verdade ajudar este público que primeiro entendamos o seu mundo, visitá-los sem impor nossa presença, sem gerar expectativas que não possamos cumprir, para a partir daí interagir e colaborar de igual para igual. Limitação não é sinônimo de pena e de solidão. Quer ajudar? Seja voluntário. Use a sensibilidade para descobrir como fazê-lo e ao encontrar o caminho, seja constante. O primeiro ímpeto é fácil mas as pessoas se afeiçoam a nós. Abandonar porque cansamos ou perdemos a graça, nem pensar. Todos nós temos os nossos defeitinhos de fábrica e ninguém está no padrão. O processo de inclusão e exclusão que nos é impingido é diuturno. É fácil exercitar. Experimente.

20/05/2010

Lidando com opiniões não solicitadas


“Obrigado(a), mas quando eu quero ou preciso de opinião, normalmente eu peço”. Conta-se nos dedos quem tem coragem de dizer a frase acima àquele que resolveu emitir seu parecer sem ter sido consultado, com a fleuma de um súdito da rainha da Inglaterra. Convenhamos, uma resposta dessas ou similar encerra a questão e, se houver, termina também com a amizade ou qualquer relacionamento.

Sentimo-nos inclinados a expressar nosso juízo sobre aquilo acontece ao redor, sobre o bate-papo que estamos participando... Até aí tudo bem. Se alguém está abrindo uma questão num grupo presume-se que saiba de antemão que está se expondo e em conseqüência, deve ter capacidade de absorver as argumentações que virão. Do contrário, é melhor nem provocar o assunto. Poucas pessoas se mostram receptivas a críticas quando em público. E se há dificuldade em administrar isso, a tendência da maioria é se esconderem sob o rótulo da timidez. Ou ainda, sob o direito que cada um tem à sua privacidade e reparti-la somente quando achar necessário.

Quem é cioso de sua intimidade não entrega o jogo tão facilmente. Como reagiríamos se estivéssemos numa loja, por exemplo, trocando idéias com algum amigo e alguém resolvesse entrar na conversa sem ser convidado? Tem os dois lados da moeda. Se o assunto é segredo, não deveríamos falar em um lugar onde outras pessoas podem ouvir. Se não é, e ainda assim alguém resolveu opinar, no mínimo tem como característica a ousadia.

Enfim, se a nossa resistência a opiniões contrárias não é lá das maiores e a nossa capacidade de resistir é pequena, é melhor não se expor. Se a palavra está presa na garganta e um bom ouvido se faz necessário, o critério de escolha é fundamental. Os melhores ouvintes são sempre os nossos amigos mais fiéis. Eles fazem o esforço de entender o problema pela nossa ótica, colocando-se no nosso lugar, mesmo tendo opinião contrária, porque nos conhecem suficientemente bem, gostam de nós incondicionalmente e a última coisa que querem é nos magoar.

19/05/2010

Desencontro de Expectativas


São quase 13:30 horas e o comércio ainda está fechado. Se estivesse aberto compraríamos a meia que está faltando. Não podemos sair do trabalho durante o expediente, seria bom para quem precisa do horário, atenderia às suas necessidades. Que bom se as nossas expectativas fossem acolhidas e ambas as partes saíssem satisfeitas.

No terreno das relações interpessoais esperamos dos outros mais do que eles julgam que somos merecedores. Resulta em conflito e pelo simples motivo das pessoas não adivinharem o que pensamos. Passamos então para o jogo dos sinais. Recolhemos pistas, tentamos montar o quebra-cabeças interminável que é conseguir que todos fiquem satisfeitos e com o mínimo de rusgas possíveis. Trata-se de política de boa vizinhança, sabemos, mas nem sempre podemos dizer o que queremos. Não dá para rotular como hipocrisia. Estratégia, apenas. Na pretensão de sermos autênticos, magoamos o interlocutor, simplesmente porque não era a hora certa para tocar no assunto. Precisamos de vez em quando engolir em seco e esperar o momento oportuno, mesmo que seja verdade para nós. Verdade é uma questão de ângulo. Muitas vezes ouvimos alguém dizer que “falei aquilo tudo porque era o certo”. Certo para quem? E a verdade do outro? O contexto em que ele foi criado, sua cultura, suas crenças, não contam para o que o enfoque dele seja também “a verdade”? Não somos obrigados a concordar com princípios que não são os nossos. Mas é sinal de respeito ouvir e, se mudará o nosso posicionamento frente ao assunto é outra estória. No mínimo, exercitaremos o respeito pela pessoa humana.

Quando procuramos saber as razões do comerciante pelo fechamento do meio dia, podemos provocar nele a semente da mudança, se a pretensão individual também for uma necessidade dos outros clientes. Talvez tenhamos que nos adaptar se ela for isolada, se a relação custo-benefício não compensar. Pode haver alguma convenção legal, alguém teria que estar presente para o atendimento, o que pode não ser bom para o dono do negócio.

Posicionando-nos do outro lado, vemos os fatos, sob a ótica de quem os defende e, se não concordamos, pelo menos compreendemos as suas razões.

18/05/2010

Aparência

No impulso não nos importaríamos de sair com a tinta no cabelo e ir comprar aquelas balas de coco que desmancham na boca de tão macias. Se não nos importamos é porque a vontade de comer as balas é mais importante que o cabelo lambuzado. Por outro lado, não temos direito de impor aos outros a nossa feiúra e esquisitice de comportamento. Imagine o pandemônio que seria se nos déssemos ao luxo de dar vazão a todos os nossos impulsos.

O mundo possui espelhos e não tem como passar na frente de um deles sem nos olharmos. Se pudéssemos, pintaríamos os cabelos só na frente, já que atrás nós não enxergamos que eles estão ficando brancos e, portanto, não precisamos nos preocupar.

Só nos damos conta das nossas imperfeições, dos “defeitos de fabricação”, quando estamos de cara com eles ou quando alguém nos avisa. Não gostamos que ninguém apontando-nos o dedo. É preciso ser muito íntimo para que aceitemos racionalmente uma observação dessa natureza. E ainda assim, dói mais. Porque a opinião mais importante para nós é a de quem nós queremos bem. Dos outros é fácil ignorar, se a autoestima não estiver muito em baixa.

Duvidamos que seja só coisa de mulher. Talvez verbalizemos mais o nosso eterno inconformismo com a aparência. Os homens tradicionalmente se fecham em copas e dizem que não estão nem aí. Ponto para eles. O primeiro a ser convencido é a gente mesmo. Mas os rapazes estão avançando rumo aos redutos ditos femininos de vaidade, apuro nas roupas, implante de cabelos, freqüência às academias, enfim.

Não é reprovável querer ser belo. O que não dá é deixar a questão estética infernizar a nossa vida e nos privarmos de outra ginástica imprescindível: A do cérebro.

Almejar uma boa aparência, se cuidar, também é sinal de deferência com quem vai conviver conosco todos os dias, no trabalho, em casa, na rua. Isto não significa atrelarmo-nos e não nos permitir certos prazeres, como o prosaico ato de comprar balas. Ah, mas sem a tinta no cabelo, claro.

06/05/2010

A Espera


A espera tem medidas diferentes conforme o lado da situação em que nos encontramos. Pode durar um segundo ou uma eternidade. Quando esperamos nem sempre estamos preparados física e psicologicamente para enfrentar o tempo. O preparo implica direcionar-se por inteiro àquilo que se quer conseguir. Estar em sintonia com nossos objetivos, mas depender de condicionantes externas, como a atitude de um profissional, por exemplo, tira de nós o controle da situação. A perda do domínio imobiliza-nos, provocando aquela situação insuportável de desamparo. Ficamos de mãos atadas, impossibilitados de tomar qualquer atitude que melhore a situação de desconforto.

A fila é o modelo clássico: traumatiza-nos e é sinônimo de impotência. Fila de banco, do INSS, do consultório médico, do cabeleireiro, do emprego... Se for em pé então, nem se fala. Pior só se for ao sol, com calor, com frio, enfim. Somos movidos a necessidades básicas, dificilmente ficamos em estado de relativa normalidade emocional com fome, sede, temperatura inadequada. Em condições de plena saúde, a ausência de conforto físico já é suficiente para nos tirar do prumo. Com dor é desgastante aguardar principalmente se estamos falando das filas em busca de atendimento médico. Quanta espera na saúde pública por uma consulta rápida, delimitada e massificada a fim de atender um número maior de pacientes no menor tempo possível.

Ao subirmos na escala da independência financeira, achamos que o nosso tempo de espera tem que ser menor que o daquele que tem menos dinheiro que nós. Neste raciocínio ou ausência dele, não serve como medida de prioridade a gravidade do caso. Nada nos tira as justificativas, quando cremos piamente que a prioridade no atendimento é um direito que conquistamos junto com a ascendência profissional, porque ela sequer nos passa pela cabeça quando nós a reivindicamos. É automático e não queremos nem pensar nisso para não abrir espaço a concessões emocionais piegas. Galgando degraus nessa escada de valores, “adquirimos” o direito de esperar menos do que quem não teve o mesmo esforço, sucesso ou sorte. Contra quaisquer sentimentos de culpa que possam nos invadir, sacamos mão da propalada individualidade, do “primeiro eu” e do nosso próprio sofrimento. Cada um sente a sua dor e por mínima que seja é com ela que devemos nos preocupar primeiro, pensamos. Afinal, nem todo mundo nasceu altruísta como Madre Tereza de Calcutá e outros abnegados. Somos egoístas sim e lutamos primeiro pela nossa sobrevivência e pelo espaço que julgamos que nos cabe. Os demais que lutem pelos deles e é cada um para si e Deus para todos nós.

E assim acostumamo-nos à medida que o tempo passa. O ato de aguardar incorpora-se a este nosso cotidiano povoado de mil compromissos, com tantas pessoas igualmente absorvidas por milhares de atividades, todos ávidos por se encaixar nas brechas das ocupações alheias. Engrenagens presumem a expectativa e a boa vontade de muitos para que a vida diária continue a girar e funcionar. Resta não nos acostumar tanto e não nos deixarmos levar pela passividade quando somos nós o objeto. Igualmente, não nos julgar tanto no direito de gerir o tempo alheio quando formos nós o sujeito da espera dos outros.

Muitas mãos tornam o trabalho mais leve. Um pouquinho de consideração de cada um de nós faz com que a vida do semelhante flua mais rapidamente e não tranque demasiado ao ponto de lhe impingir sofrimento desnecessário.