27/04/2010

Porta do Sol

Um jorro de luz
escapa por entre as nuvens,
espelha o mar,
clareia as montanhas adormecidas,
esgueira-se por entre os edifícios,
acordando-nos para um novo dia.
O amarelo se alastra
cobrindo cinzas e verdes
Tudo se torna dourado.
Um átimo a ser usufruído.
Momento único.
Em segundos,
outras paisagens, outros tons.
O milagre da criação
se repete a cada instante.
A vida reafirmando seu pacto
resistindo teimosa,
indiferente se o nosso coração
se abre ou não à luz
graciosa e benfazeja
e se negue a refleti-la.
Vivamos.
O espetáculo se renova a cada dia.
Em cada rincão
há uma porta para o sol.

21/04/2010

Perdas e Ganhos


Aquela amiga de longa data resolveu dar um basta nos trinta anos à beira do fogão, satisfazendo as vontades culinárias do marido e filhos, bem como dos convidados destes, independente de dia e hora em que a solicitassem. A reação foi imediata: “Você não é mais a mesma, não gosta mais de nós”. E ela ficou imaginando se tinha valido a pena estar disponível durante tanto tempo para alegrar as pessoas que amava e eles egoisticamente não perceberem sua doação. Talvez não tivesse valorizado o seu esforço como ela achava que deveria. Descompasso de importâncias, sentimentos sufocados, aflorando de repente.

As pessoas adoram que façamos sacrifícios por elas. Principalmente aquelas atitudes que tenham um algo mais, que estejam além do usual, que tenham um quê de transgressão, que demonstrem a elas que são distintas das demais. Não podíamos fazer, mas fizemos. Não queríamos nos violentar para realizar a vontade do outro, mas ficamos com medo de perder e com a ânsia de agradar. A última coisa que o benfeitor quer é propaganda de algo infringido. Mas mesmo assim, esforçamo-nos, quebramos regras para atender os desejos de alguém, até pela nossa dificuldade de dizer não.

Podemos passar a vida inteira fazendo concessões a alguém. Todavia, o algo mais que se faz, não raro, é arquivado em cantinho de perdas do nosso íntimo, na categoria dos favores concedidos. Se a cota que recebemos pesa igualmente na balança, respiramos aliviados porque sentimos que valeu a pena. Se o fiel desequilibra, sentimos que nos tiraram a essência do que nos era tão caro.

Neste contexto, vale ter sempre presente que a doação é uma via de mão única. Se optarmos por trilhar o caminho da disponibilidade, da presteza, de estarmos sempre prontos a resolver tudo, implica ter em mente que não podemos esperar retorno, sob pena de nos resumirmos a contabilizar perdas e ganhos. Desarmados, podemos enxergar com maior clareza o quanto recebemos das pessoas e não percebemos. O que obtemos é lucro e pode ser usufruído livremente, sem cobranças.

15/04/2010

Do lar (Ou profissão em vias de extinção)


Ainda vigora nos contratos comerciais e bancários o uso da expressão “do lar”, para se qualificar a mulher que não trabalha fora. Há mulheres que ao serem indagadas da profissão informam que não trabalham. Por não laborar, entenda-se serviço doméstico. Exatamente. Aquelas tarefas anônimas, executadas diuturnamente pelas mulheres. O apoio logístico delas permite aos homens exercer com liberdade as mais variadas profissões, já que o controle da prole e as múltiplas funções, que o ato de criar filhos implica, estão em boas mãos. Sob o pretexto de educarmos os filhos, acompanharmos o marido, muitas de nós se tornam reféns da família. É claro que o trabalho doméstico pode ser uma opção. Mas não pode em hipótese nenhuma, tornar-se uma obrigação.

Entre uma guerra mundial e outra, as mulheres pegaram no batente nas fábricas, nas escolas, nos escritórios e descobriram que podiam desempenhar tão bem quanto os homens as mesmas atividades que eles. Com os maridos na frente de batalha elas acumularam a dupla função de provedoras do lar e trabalhadoras do serviço doméstico.

A casa ainda é o nosso reduto, quer trabalhemos fora ou não. Poucos maridos se dão ao trabalho de dividir as atribuições da casa conosco. E quando o fazem, cuidam para que seja ocasionalmente, para não configurar direito adquirido.

A pílula anticoncepcional permitiu à mulher o controle da sua sexualidade devolvendo-lhe o direito de procriar quando quisesse e se quisesse.

O desafio maior é a independência financeira, que é fruto do trabalho. Sem contar que a mulher presente no mercado, explora de maneira plena suas potencialidades e realiza-se como pessoa.

E o que se faz, quando já somos maduras demais para mudar o curso de nossas vidas? Neste caso, cremos que temos o dever de estimular as mulheres jovens a estudar e trabalhar. Autosustentando-se, elas tem liberdade par viajar ou não, casar ou não, terminar com um casamento se ele as fizer infelizes, enfim, ser dona do próprio nariz.



09/04/2010

Inquietude


Pobre dos inquietos! Tem a vida permeada por emoções, conseqüência do carrossel de perturbações que lhes aflige os dias. Sim. Emoção não é garantia de prazer ou plenitude. É antes de tudo sinônimo de esforço para estar sempre alerta para a velocidade que as mudanças impõem. Muitos invejam a vida repleta de experiências que essas pessoas geralmente têm. Isto porque não se dá tempo para sossegar uma indagação e já se enfileiram outras para serem respondidas. Deve ser eletrizante um estado mental assim, imaginam os mais incautos. Ledo engano.

Mergulhar de cabeça em quaisquer circunstâncias é extrair delas a essência que podem dar, independente da natureza desse núcleo. E não necessariamente é bom, como também nem sempre temos cabeça para poder voltar das experiências que vivenciamos. É por isso que alguns preferem nem entrar. “Só vou até onde posso voltar”. É coerente a afirmativa, já que as “pernas” que terão que nos fazer retornar ao ritmo normal do mundo são as nossas e não as alheias. Não podemos esperar que alguém nos ajunte caso caiamos pelo caminho. Bastar-se é o lema de quem quer evoluir. Por isto a escolha de dar o passo na medida do retorno. Não um passo para frente e dois para trás, mas um de cada vez.

O êxtase das experiências novas, da sede de viver cada minuto como se fosse o último é instigante. Mas será que a vida precisa de gozo permanente para que a chamemos de vida feliz? Ou será que o rótulo da busca da felicidade já está gravado em nós em passamos tanto tempo em busca dela que não percebemos quando chega? Parece que não há prazer na placidez. Serenidade cheira a tédio. Vida plena é vida corrida, vivendo cada dia como se fosse o último, sem passado ou futuro, só presente. É no que cremos. Já se tornou verdade para nós e não sabemos o que fazer com o silêncio, com o compasso mais leve. O binário já tomou conta. Tum. Tum... Que o digam as músicas das raves. Ritmo natural não condiz com o hoje, dá sono, mata de tédio. Alguém se esqueceu de dizer para o nosso cérebro acompanhar o mundo full time e ele entra em curto circuito ou continua rodando num moto contínuo até que ... plaf....páre de vez. E é para isso que vivemos? Para estarmos sujeitos a uma interrupção inesperada, com inquietações ainda por decifrar e vivenciar na vida terrena?

Podemos até não perceber, mas oportunizamos a parada abrupta se não fizermos da nossa inquietude um instrumento de evolução. Desde que não deixemos aquilo que não compreendemos no momento, acumular-se e, ao invés de motor de crescimento, tornar-se um saco de desespero a ser arrastado vida afora, numa sucessão de crises não resolvidas, de conhecimentos não pacificados. Aquilo que passamos atabalhoadamente por ele tende a ser um mero flash-back, sem significado, nem aproveitamento para nós. Tudo tem sua hora de aprender e entender. Talvez tenhamos que deixar parte de nossas dúvidas hibernadas para que possamos aproveitar no momento certo. Dúvida contida não é acomodação. Trata-se de ruminar conscientemente e aproveitar a substância no momento da maturidade da idéia. É ter convicção ao identificar quando se pode usufruir plenamente do exercício de pensar. Ter paciência para aprender a lidar e entender o contexto, admitindo que nem sempre ocorre no momento em que a inquietação se instala. E se o raciocínio não caiu como uma luva, certamente não está pronto. O que apreendemos permanece, ajuda a sincronizar sem que percebamos, nossos ritmos com os da natureza. Mas não nos iludamos. O aprendizado é constante e com o tempo pegamos o jeito, sem sofrer tanto com as inquietações e fazer delas nossas parceiras.

01/04/2010

A resposta



Eles até podem fazer com as pessoas o que quiserem e a opção de não responder, opinar, negar ou manifestar qualquer reação no ato, exceto a aceitação, não significa que realmente tenham feito o que desejaram com outrem. Quer dizer apenas que seus alvos se reservaram o direito de não reagir. O que as “vítimas” vão fazer com o ocorrido, com a informação, bem como os posicionamentos que venham a adotar ou decisões que porventura tomarão em conseqüência das ações que lhe foram provocadas é algo que lhes cabe somente e igualmente se dão ao luxo de dar conhecimento ou não à parte que lhes afrontou. Se o fizerem, será no momento adequado, com a forma de comunicação que lhes for conveniente. E, talvez agora, os autores também não esbocem a reação esperada quando lhes for dado conhecer, simplesmente por não perceber a resposta que lhes está sendo dada.

Como diria o escritor português José Saramago, na obra A Caverna: “O importante é o caminho que se fez, a jornada que se andou, se tens consciência de que estás a prolongar a contemplação é porque te observas a ti mesmo ou pior ainda, é porque esperas que te observem. Comparando com a velocidade instantânea do pensamento, que segue em linha reta até quando parece ter perdido o norte, cremo-lo porque não percebemos que ele, ao correr numa direção, está a avançar em todas as direções, comparando, dizíamos, a pobre da palavra está sempre a pedir licença a um pé para fazer andar o outro, e mesmo assim tropeça constantemente, duvida, entretém-se a dar voltas a um adjetivo, a um tempo verbal que lhe surgiu sem se fazer anunciar pelo sujeito”.

Aquilo que não queremos ouvir é a nossa maior dificuldade a enfrentar. Os outros podem até ter alguma pontinha de razão, mas nos ofendem mortalmente se nos atiram o que julgam verdades na cara, mas decididamente, não tem esse direito. Não podem inferir no nosso livre arbítrio, arrombar uma porta sem esperar que a abríssemos de livre e espontânea vontade e remexer assim no más no nosso lixo adormecido, onde é que já se viu? Ignoram deliberadamente os percalços e o esforço hercúleo para chegar até aqui. É fácil cobrar de nós o nós o resultado, a conseqüência, quando só nós sabemos, como apropriadamente ilustra Saramago no texto anteriormente transcrito, o que realmente nos importa é o caminho que percorremos e nos incomoda deveras sermos pegos de surpresa. Também nos perturba perceber que as pessoas estão nos notando, exigindo respostas que não temos condição de dar e atrapalhando o vagar todo próprio do nosso pensamento solto e livre que é, mas sob o nosso domínio pessoal e não à mercê de um atropelado qualquer de palavras que não tenham saído da nossa própria boca. Exigem-nos a perfeição. Não. Esse território é nosso. Somos senhores do nosso crescimento por mais arrogante que isto possa parecer. A contemporização da resposta é só o tempo necessário para metabolizarmos o que serve e expelir o resto. Eles podem até não esperar, mas que a resposta vem, ah! Isto vem.