30/03/2010

Perceber-se


A distração indica a incapacidade de lidar com o contexto e a dificuldade de se manter vigilante. Vigiar pode parecer sinônimo de policiar gestos, pensamentos, cortando aqueles que não estejam voltados para a nossa leitura da questão. Aliás, o verbo vigiar desperta em nós certa repulsa por lembrar-nos instintivamente de que se algo está sendo objeto de cuidados, não se está no livre exercício de sua vontade e, portanto, sendo manipulado, cerceado e condicionado a uma situação da qual não conseguimos nos livrar. Ledo engano. A vigilância consciente sobre o nosso intelecto é o nosso reduto íntimo de liberdade, pois só ali chegamos a um nível quase imune de não-interferência externa.

Perceber-se é um fenômeno inerente a quem mantém profunda sintonia com o seu eu interior e simbiose com o universo onde se insere. Sem fazer a troca intermitente com o meio ambiente, podemos focar ora em um, ora em outro e com isso não perceber as nuances sutis que fazem com que uma situação se transmute em outra e os nossos sentidos supostamente atentos não dêem conta da mudança. Uma fração de segundo é suficiente para que se modifique a realidade tornando mais difícil o processo de enfrentamento com esta nova circunstância, porque inesperada.

Direcionados que estamos a cercear atitudes para que os nossos propósitos se concretizem, tendo o leme das ações sob controle, dirigimo-nos convictos ao que buscamos. Assim, sentimo-nos tolos quando deparamo-nos com uma realidade que não concebemos, com um resultado diverso do almejado.

Dominamos ao extremo as variáveis que nos são disponibilizadas ao tempo em que respeitamos as respostas do meio, condição essencial para poder unir-se ao todo, sem perder a individualidade. O melhor lugar para se esconder é no meio da multidão. Soldados usam roupas camufladas quando em ação na selva. Se não queremos ser destacados, mas também não passar despercebido ao um olhar mais atento é preciso confundir-se com a paisagem. Nem de mais, nem de menos, apenas o necessário.

Quando atingimos o estágio de integração, fluímos. Quando estabelecemos a comunhão, permanecemos íntegros. Não há perdas. Somos parte do todo e cada um é autônomo por si, mas que interage, troca e se revitaliza com o que recebe e o que doa, oxigenando-se e permitindo o crescimento pessoal concomitante com o avanço dos seres que estão ao redor.

Não podemos prestar atenção só em nós. Um olho lá e o outro aqui. Existe vida à nossa volta e o universo não é o nosso umbigo. Com a troca evolui-se, transmite-se o conhecimento e permite a criação de novos paradigmas. Respeitando o passado, claro, mas fazendo um ponto necessário de corte para sepultar erros, rompendo com o que não se revelou adequado e permitindo-se que a vida flua a partir da harmonia que se conseguiu conquistar e amadurecer.

25/03/2010

Ritmo


Sentir vontade de ficar sozinho não significa falta de amor pelos entes queridos, síndrome do pânico ou personalidade antissocial. Precisamos nos isolar de vez em quando para curtir a nós mesmos. Dar uma de narciso esporadicamente faz bem. Existem pequenos rituais que são prazerosos somente na solitude, na frente dos outros jamais. Mesmo a presença de alguém muito próximo, inibe. Com o companheiro e os filhos é pior. A proximidade dificulta. Quanto mais íntimos somos de alguém, mais precisamos de uma reserva que seja só nossa. É difícil suportar a invasão de privacidade, a delegação implícita a outrem para gerir nosso tempo e por tabela inibir a nossa vontade de agir por conta própria, ser dono de si e livre. Se nos calamos, consentimos, diz o bordão.

Não se trata de prescindir das pessoas, mas precisamos nos alimentar para ter o que doar. Recompondo-nos internamente tornamo-nos mais capazes de ceder, sem que nos sintamos usurpados. Sermos roubados nos frustra e deixarmo-nos governar por forças externas, mesmo que conscientemente a decisão esteja sendo tomada também por nós. Iludimo-nos. As circunstâncias nos levam a certas escolhas, sim. São aquelas que nos obrigam sem palavras, cerceiam-nos com atitudes ou sinais imperceptíveis a quem está de fora, fazendo com que a nossa reação de rebeldia pareça desproporcional ao fato que a provocou.

Na parada permitimos o compasso entre o ritmo natural do nosso organismo e aquele que o ambiente nos impõe. O estímulo externo também é útil. É necessário um filtro para interpretar o que à primeira vista parece agressão contínua, violência conosco. Sermos provocados nos faz crescer, vivenciar nossa capacidade de superar dificuldades e depois de conseguir, poder dizer: Ok. Eu venci esta. Agora vamos para a próxima. A inatividade pura e simples impede o aperfeiçoamento. Mesmo o ócio deve ser criativo, já disse alguém. É questão de usar o tempo para equilibrar ritmos interno e externo e exigir de si apenas aquilo que somos capazes de suportar no momento atual. Nem mais, nem menos.

Ficar só é uma forma de equilibrar sem pressões, de se reavaliar. Permitir-se para poder identificar sentimentos e frustrações de maneira a responder claramente o que é nosso e o que é do meio de forma consciente só cobrar dos outros a parte deles. Outra tentação é ficar com peninha de nós que nos deixamos ser coagidos. O papel de vítima é muito cômodo. Somos senhores dos nossos atos e não se pode mandar a conta para os outros. Mas também não nos cabe pagar a conta alheia.

Saber separar o meu do nosso é tarefa individual e só se consegue olhando para dentro. E este olhar rima com paz. Rima também com sossego e desapego. Tudo na vida tem cadência, movimento. As marés sobem e descem. Há primavera e verão. Há coração batendo mais rápido e mais devagar. Mas há momentos para cada um deles, como o instante de estar fisicamente só. Mas isso só é um prazer quando sabemos que aqueles pelos quais nutrimos afetos entendem o que acontece conosco. O metrômano muda o ritmo da música, nossos sentimentos ditam o pulsar do coração. Nós determinamos o compasso das nossas vidas e se conseguimos fazer os nossos queridos compreenderem a nossa opção pela solitudine, mas também entendermos a necessidade deles, todos saem ganhando com a renovação que se processa em nós.



23/03/2010

Azar

Era visível a exasperação daquele senhor diante do caixa eletrônico. Suas mãos tremiam ao tentar pagar um boleto bancário, cujo código de barras a máquina insistia em não ler. Ao lado da máquina havia uma pilha de papéis, extratos, documentos que ele aparentemente não conseguia processar.


- Precisa de ajuda, Senhor? – Indaga a funcionária.

-Ah, preciso sim. Você trabalha aqui? Eu não entendo nada destas coisas. Vocês complicam demais. Porque eu não posso ir até o caixa e lá ele faz tudo para mim? Eu deixo o meu dinheiro aqui, não deixo?

- Mas aqui é bem mais fácil e rápido. Eu oriento o Senhor - Atalha a atendente sorrindo.

- Eu não quero aprender nada. Não preciso disso nessa altura da vida. Eu pago, logo quero ser bem atendido. Quero um funcionário que me dê isto tudo pronto. Será que é pedir demais?

- Claro que não senhor. Vou processando aqui e o senhor me acompanha.

- Você faz tudo aqui para mim nesta máquina. E quando eu precisar de novo? Você está sempre por aqui?

- Sempre tem alguém aqui para orientar quem tem alguma dificuldade...

- A mocinha está insinuando que eu sou burro?

- Não senhor, nada disso, desculpe-me – Defende-se ela. Só quero dizer há um funcionário permanente, lotado aqui no autoatendimento pronto para auxiliar no processamento dos papéis. São muitas funções e é normal que não se saiba alguma delas. Algumas são mais simples, não é?

- Não. Eu não sei como é. Nunca fiz serviço de Banco e agora estou sendo obrigado. É uma humilhação. Mas não tem jeito mesmo. Está bem, vamos fazer isto logo, então - retruca nervoso.

O tom de voz era bastante elevado e ao perceber que tinha platéia abaixou o olhar, o semblante fechado a acompanhar a moça que, impassível, porém de forma amável seguia orientando-o.

- O senhor coloca o seu cartão aqui neste lugar. Pagar um boleto, não é? Vamos lá. A máquina lê o código de barras...

Mais calmo, ele confidencia em tom mais baixo, como que se justificando pelo nervoso:

- Com tudo que eu tenho passado, só problema, só empecilho. Fiquei viúvo em dezembro, na virada do ano, erro do médico. Apendicite. Apareceu assim, do nada!

- Que estranho. Sempre soube que apendicite era algo simples - Diz a funcionária, enquanto segue fazendo o serviço.

- Pois é. Como eu disse, foi incompetência daquele infeliz.

- Meus sentimentos, senhor. Perder um ente querido assim de repente não é fácil.

- Quarenta anos de casado. Companheira para tudo. Sempre disposta. De uma hora para a outra, se foi.

- Pelo jeito vocês eram muito unidos.

- Éramos sim. Ela era muito prestativa, uma criatura de ouro. Nunca precisei pagar empregada já que ela fazia questão de cuidar de tudo sozinha. Excelente cozinheira. Tivemos três filhos. Minha roupa sempre estava ali, pronta. Não existe mais mulher como a minha falecida.

- O Senhor deve estar sentindo muito a falta dela...

- Nem me fala. Não era só em casa que ela era eficiente. Este serviço de banco era ela quem fazia. Eu nunca precisei me preocupar com nada. Resolvia estas pendências todas, controlava o orçamento doméstico e depois me prestava conta. Tudo certo. Sem tirar nem pôr. Era uma tranqüilidade.

- Mas agora eu vou ensinar direitinho ao senhor, pode deixar.

- E o prejuízo?

- ... Não estou entendendo, senhor – Espanta-se a moça.

- Pedi o melhor cirurgião, o melhor anestesista. Paguei à vista e tudo, para não correr risco. Nem plano de saúde eu usei, gastei todas as minhas reservas naquela cirurgia e aqueles dois me matam a mulher. Vai ser difícil encontrar outra como ela. Já não se fazem mais mulheres como antigamente. E agora estou eu aqui empenhado. É muito azar para um homem só!

12/03/2010

Piloto Automático


Quando externamos uma opinião que nos veio à tona e não temos na ponta da língua um arsenal lógico para explicar como chegamos àquela conclusão, ficamos numa encruzilhada se atribuirmos à intuição, apenas. Não há tempo para pesquisar no arquivo morto da memória e instantaneamente produzir uma resposta capaz de satisfazer o interlocutor. Só sabemos que ela existe e está lá, enclausurada no nosso cérebro, mas não temos como traduzir e transmitir a outrem. Não convence ninguém, mas não deixa de ser uma conclusão intelectual. Admitir comunicação com os bastidores da mente presume desligamento das questões externas. O ser humano tem um piloto automático ligado o tempo inteiro. De tanto repetir certos procedimentos, nem pensamos para agir. É a face boa da intuição, protegendo-nos de situações perigosas; linha direta com o conteúdo inconsciente que vasculha o conhecimento acumulado, racional, embora não passe pela análise, indo direto à síntese. Por outro lado, quando descamba para os temores intuitivos, perdemos o controle da nossa mente racional. O que não dominamos nos dá medo. Nada nos convence. Nem estatística, tampouco dizer que quando o trovão acontece o raio já caiu ou que avião é mais seguro que carro.

A intuição sempre foi tida como característica feminina, mas nem sempre teve esse nome. Feminina, porque neste atributo de conexão com o interior a mulherada deita e rola desde que o mundo é mundo. O problema é que para ser intuitiva é preciso estar atenta ao cenário, fazer contato visual, essencialmente. Para captar emoções se leva um tempo minúsculo, mas é indispensável que a pessoa olhe para nós e possamos executar a varredura rápida do semblante e desvendar o seu interior. Quem invade não pediu permissão e está sujeito a retaliação, se o observado perceber e não gostar. Quem age por subterfúgios não aguenta o peso de um olhar e a desforra é a punição.

Séculos atrás, intuição era sinônimo de bruxaria e aí, fogueira nelas. As “bruxas” da Idade Média usavam essa conexão com o inconsciente, tornando-se compilação viva da sabedoria popular. Adquiriam-na pela observação do mundo ao redor, do comportamento das pessoas, da relação íntima com a natureza e seus fenômenos. Sem médicos por perto, quando alguém adoecia, não tinha muita alternativa: Rezava para sarar; procurava a curandeira mais próxima; esperava a cura automática ou então que a doença o consumisse. Assim, essas mulheres aliviavam as dores do corpo com as ervas do seu quintal com aconselhamento nas demais complicações da vida, num tempo em que a Igreja era a única verdade aceita. Veio a Inquisição e queimou com as “bruxas”, parte do manancial de sabedoria e intuição da mulher.

Além do olhar, nosso mecanismo intuitivo também se manifesta pela observação do próprio corpo. Transformamos em aprendizado as limitações que menstruação, gravidez e menopausa provocam em nós. É um rebuliço interior, tal, que nem nós nos reconhecemos. Como não dá para se livrar e nem para explicar, driblamos os altos e baixos, ignoramos a dificuldade e a gangorra hormonal incorporou-se ao “Kit básico Mulher”.

Mulheres podem se revelar mais hábeis para descobrir mentiras. A maioria de nós permanece conectada às famílias e às nossas origens e com isso assimilamos mais informações sobre nós mesmas. Somos peritas em leitura de ambiente e abastecemos de informação o homem naquilo que ele não percebe nas relações familiares. Ele se distancia do reino da galinha choca que põe todos debaixo das asas e se concentra em criar o seu próprio espaço.

Cientificamente, nada está provado se mulheres são mais intuitivas que os homens. O psiquiatra Carl Gustav Jung, dedicou-se ao estudo do tema e legou-nos os conceitos de intuição objetiva - ligada aos fatos e percepção das sutilezas no seu entorno, sentimentos envolvidos, pensamentos subliminares que a provocaram -; e intuição subjetiva – que ocorre nos indivíduos mais ligados à compreensão de acontecimentos psíquicos inconscientes. (Tipos Psicológicos- Jung-1921).

Hoje, intuição não é bruxaria ou coisa só de mulher, mas ferramenta de busca na caixa de ressonância que é o inconsciente. Assunto em moda, já se fala em treinar percepção dentro da visão objetiva, mais compatível com o cérebro que quer saber “como funciona”, de características masculinas. O advento da mulher no trabalho em igualdade de condições amplia o uso do arsenal intuitivo, calcado também no cérebro feminino, mais habituado à empatia e à compreensão dos sentimentos alheios. Os saberes se completam e o cuidado a se tomar é que este “boom” da intuição não explore apenas a faceta do treinamento da mente, do piloto automático.


11/03/2010

A arte de escrever Sonetos


Texto de Paola Rhoden, publicado no site Autores.com em 05 de novembro de 2009

Em primeiro lugar, não se ensina um poeta a escrever. Ele tira da alma o que sua mão escreve. Porém, a tarefa de escrever um soneto, uma obra considerada pelos intelectuais de símbolo da poesia, não é fácil. Não é fácil porque aqueles que cultuam essa técnica, não arredam pé de que é essencial para um soneto seguir as regras. Mas, para quem gosta e quer seguir por esta árdua estrada, abaixo seguem algumas delas:

Um soneto é uma obra curta que transmite uma idéia completa.

Para se escrever um soneto perfeito, ou clássico, como é chamado pelos profissionais de literatura, deve seguir as regras mundialmente utilizadas, que são: métrica, ritmo e rima. Um soneto clássico é formado por quatorze (14) versos decassílabos, dispostos em quatro estrofes, da seguinte maneira:

a) dois quartetos ( ou quadras );
b) dois tercetos ( ou terças);
c) a métrica deve seguir as normas. Cada um dos 14 versos deve ser decassílabo na quantidade das sílabas fonéticas ou poéticas;
d) os quartetos devem ter as rimas em número de duas e amarradas. (a-c; b-d) ou (a-d; b-c);
e) nos tercetos, deve haver também amarração entre as rimas, porém com maior variação. Primeiro terceto (a-c) vinculando com o segundo terceto, também (a-c), que resultaria o verso ‘b’ do primeiro terceto rimando com o ‘b’ do segundo terceto. Mas, pode haver variações como (a-b) 1º terceto com (a-b) 2º terceto, e assim por diante.
f) o ritmo deve ser cadenciado no soar das sílabas em cada verso, a tônica cai obrigatoriamente na 6ª e na 10ª sílaba. São o que chamamos de sílabas tônicas. Exemplo: os 8816 versos de Camões em "Os Lusíadas", muito conhecidos, pois nesses decassílabos, as tônicas caem sempre na sexta e na décima sílaba. São chamados de versos heróicos.
g) os sonetos alexandrinos possuem doze sílabas fonéticas, sempre, e a tônica cai na 6ª e 12ª sílaba.

Exemplo de decassílabo:

Alma minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
(Luís de Camões)


Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.
( Luís de Camões)


"Busque amor, novas artes, novo engenho..." (Luis de Camões)

Lendo devagar, como se fosse uma só palavra, conta-se quantas pausas existem até a última sílaba tônica.


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9
10

Bus quea mor, no vas ar tes, no voen ge nho

São dez sílabas poéticas ou fonéticas. A expressão "busque amor", aos invés das quatro sílabas comuns bus-que-a-mor, no soneto ficam apenas três sílabas. A sonoridade é importante, por isso, deve-se prestar atenção no som que se ouve.

Decassílabos de Camões: quartetos (a-d) ( b-c); tercetos (a-c) (b-b)

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Luís de Camões)


Decassílabo de Machado de Assis: quartetos (a-d) (b-c); tercetos (a-c)(c-c)

A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
(Machado de Assis)

Soneto dodecassílabo:


Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.

De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.

Longos dias sem sol! noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!

E árvore, acabará sem nunca dar um fruto,
E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!
(Olavo Bilac)

Aqui, nosso agradecimento à Paola, que gentilmente nos cedeu seu texto para publicação neste espaço.

08/03/2010

Mulher, Ser Humano Plural

Quando nos seguram os obstáculos
Que o nosso imaginário nos impõe
No fundo damos guarida
Ao sentimento que nos afasta
Da intimidade com a mãe natureza.
Relação tão estreita
Com o todo que hoje somos
Tem algo de tempos idos
De herança das ancestrais.
Permanece este querer
De ser sujeito na construção
De um mundo melhor.
Se outrora fomos guerreiras
Hoje buscamos paz
Continuamos transpondo barreiras
E há campo para nós.
Somos guardiãs da vida
Precisamos ser atuantes
Lado a lado, do nosso jeito
No nosso ritmo, na nossa visão
Porque do espaço que nos cabe
Não podemos abrir mão.

07/03/2010

Poetrix ou Haicai?




TÍTULO:
O haikai não admite título. No Poetrix ele é obrigatório e, na maioria das vezes, complementa o texto.

MÉTRICA:
No haikai - 5-7-5 sílabas. No poetrix, máximo de 30 sílabas poéticas.

FIGURAS DE LINGUAGEM:
O haikai não admite. No poetrix, metáforas e neologismos são bem-vindos.

AUTOR:
No haikai, o autor não influi no fato observado. Já no poetrix, ele interage com o fato e, mesmo, com o leitor, através de mensagens subliminares.


CONCISÃO:
O haikai é descritivo. Já o poetrix é minimalista; busca a síntese. Dizer muito com poucas palavras.


TEMPO:
No haikai: presente. No poetrix: passado, presente e futuro, como uma só dimensão.

ESPAÇO:
No haikai, a cena é rural, sobre a natureza; estações do ano, flores, frutos, animais, tempo, clima, etc. É como um flash fotográfico onde o autor apresenta a inspiração que captou ao observar a cena. No poetrix, admite-se todos os espaços, mais especificamente o urbano, e o autor pode falar de si, aparecer, interferir, expor os sentimentos...



Texto publicado no site AUTORES.COM.BR, gentilmente cedido pela autora ANAKATERINE, para publicação neste blog.