20/01/2010

Ivete Sangalo, a baiana de "Hamelin"


Ao todo, participamos de quatro edições do Planeta Atlântida(O festival de música que acontece todo fevereiro na praia de Atlântida, litoral norte do Rio Grande do Sul), como acompanhante dos adolescentes da família. Se dependesse deles não iríamos junto. Poderíamos curtir a sonzeira pela MTV, no conforto do lar. Optamos por agüentar firme, sem reclamar da chuva, do calor, do excesso de decibéis; ao que os nossos quase-adultos saltavam com a resposta pronta e a cara mais inocente do mundo: “Não precisa se sacrificar. Basta levar e buscar a gente”. Ou então, “alugamos uma van, que é melhor ainda. Estás indo sem vontade mesmo. Fica em casa que é mais tranqüilo”. Argumento redondo, mas que não nos convenceu. Ainda não era hora de deixá-los sozinhos num festival que dura a noite inteira, mesmo que o evento seja considerado seguro.

Já o evento de 2008 selou o rito de passagem e foi o que nos assustou mais. Dessa vez não tivemos companhia adulta para acompanhar a galera como nos anos anteriores, quando as “velhas” se agrupavam num local pré-combinado – embaixo de uma prosaica plaquinha indicativa de uma das tendas de alimentação, onde se lia: Bar do Surubão – Era o cúmulo do ridículo, mas fazer o quê? Era para ali que eles voltavam para abastecer após os shows e assim sabíamos que estavam bem. De conforto, uma almofada e os pertences deles ao redor. Dessa vez, chegamos cedo, às dezesseis horas e até os primeiros acordes às dezoito horas, tínhamos lido até os classificados dos dois jornais que levamos para passar o tempo. Uma chuvarada revelou que após a leitura, periódicos dobrados sobre uma ilha de brita, são ótimos para sentarmos sem umidade mesmo que os pés apertados nos tênis ficassem no molhado à espera de uma micose qualquer.

São cerca de 80 mil pessoas em média e os palcos alternativos também lotaram. O inesperado foi que quando anunciado o espetáculo da cantora Ivete Sangalo e aos primeiros acordes da banda, levas de jovens enfeitiçados saídos de todos os cantos encheram todos os espaços ao redor do palco central. Qual flautista de Hamelin, a baiana os atraiu com o hipnotismo do seu canto e os outros locais praticamente se esvaziaram. Carismática, ela os seduziu e os fez obedecer em uníssono ao seu comando. Dominou-os até o fim do espetáculo, com a diferença em relação à lenda, que Ivete libertou-os ao final, mesmo que a contragosto deles.

Então, começou a debandada. Desta vez rumo à praça de alimentação, exauridos de tanto pular e com a garganta seca de tanto cantar. O espaço entre a nossa “ilha” e as pessoas foi ficando cada vez menor e não deu outra: pernas para que te quero. Fugimos do ponto de encontro antes que a turba nos pisoteasse. Quem diria que um dia pularíamos uma cerca com a agilidade dos dezoito anos, para o meio do posto da Polícia Militar, uma área reservada. Antes que nos dissessem que ali não podia, já saltávamos outro obstáculo, rumo ao espaço aberto, sem dar tempo para o pânico. Ufa! O resto da noite transcorreu dentro de um nível razoável de normalidade, se é que se pode chamar de normal ficar acordada a noite inteira, à custa de energético com guaraná. Os demais shows foram tranqüilos, até certo ponto, comparados ao do furacão baiano e a turma voltou para suas tocas.

No dia seguinte, ainda ecoava em nossos ouvidos o refrão hipnótico: “Ô maluquete, de quem você é tiete?” cutucava a baiana. E a galera respondia: “Eu sou tiete, sou tiete da Ivete”. E não é que nós também? Em 2009, ninguém foi. Em 2010, mesmo que eles queiram, já não bate mais a vontade de ir ao Planeta. Seja porque já vimos e ouvimos suficiente para aplacar a saudade dos tempos de pop-rock, o ato de não querer ir, não deixa de ser egoísta, já aplacamos o encantamento. Para contemporizar medos remanescentes, lembramo-nos que alguns tem dezoito anos. Corroborando com a idéia de alforria que eles tanto nos argumentaram, legalmente ficamos desobrigados de “vigiar”, podendo passar a bola para que cuidem uns dos outros. E que voem sozinhos e com segurança. Fui!

13/01/2010

Sementes


Só nós conhecemos nossa funcionalidade. Se não admitimos a existência de outras formas de enxergar que não a nossa, sempre bateremos de frente com quem interpretar a vida, ter atitudes diferentes daquelas que entendemos corretas.

Quem não sabe, esforça-se para entender se tiver um mínimo de bom senso, se der valor a quem está tendo determinado posicionamento que julga incorreto.

Não é só uma maneira toda própria de se expressar. É também uma forma de não se importar com o outro. Alegações como: “você não deveria se melindrar com a maneira que eu falo, é só um modo de dizer, não tem a intenção de ofender”. Intenção nem sempre se traduz em palavras. A linguagem corporal é um componente poderoso que não pode ser dissociada do conteúdo das falas. A boca pode estar dizendo uma coisa e o corpo expressando outra. Foge ao nosso controle a entonação específica que diferencia sentimentos de raiva, revolta, tristeza, indignação.

Também é impossível não perceber quando uma revelação dura, que não admite recuo, é dita com palavras firmes, porém calmas, acompanhadas do olhar luminoso e do semblante sereno. Traduzir emoções por um único veículo dos sentidos é tarefa inglória, quando todos os outros estão lutando contra. Exercer a reciprocidade, colocando-nos no lugar do outro, a cada momento em que as situações conflitantes acontecem, requer esforço hercúleo. Não nos monitoramos o tempo todo, sob pena de nos tornarmos robôs, radares ambulantes, represa para as próprias emoções, colocando-as de bandeja à mercê dos que nos rodeiam.

Plantamos o que colhemos, diz a parábola dos evangelhos cristãos. Diuturnamente lançamos a semente que selecionamos. Pode ser da sabedoria, do conhecimento, do entendimento. Ou da dúvida, da discórdia, das verdades construídas. Tudo depende da nossa disposição interna. As primeiras boas sementes, os nossos pensamentos precisam vencer os nossos demônios internos para serem depuradas, escolhidas, filtradas e se traduzirem em palavras, para em seguida se transformar em vivências. Depurar internamente não é ser hipócrita. É assumirmos a responsabilidade que nos cabe em tirarmos nossas próprias conclusões, sem imputar aos outros o custo disso. Em suma, ruminar primeiro, eliminar dúvidas possíveis, que são nossas. É muito cômodo esparramá-las. É honesto depurá-las. Falando o que queremos, podemos ouvir o que não pedimos. O que sai da boca são sementes de vida. Ou de morte aos poucos, de afetos, relacionamentos e amizades, conforme o uso que fizermos dela.