19/12/2010

Preparando o Terreno


Criar condições para que realizações à primeira vista impossíveis aconteçam é mérito de poucos. Geralmente são as pessoas conhecidas por preparar o terreno, removerem uma pedrinha aqui, outra ali, dando a impressão que a estrada está sempre limpa e que não há dificuldades que não se possa superar. Gente assim germina idéias, exercita a paciência na espera pelos frutos, uma vez que olhos mais incautos apostam que elas não surgirão. Não raro, são calculistas e não podem ser confundidos com os ingênuos, sonhadores, que apostam suas fichas traçando planos inexeqüíveis, metas difíceis de serem alcançadas ou entregam-se ao instinto deixando-os ao sabor do acaso, presas ao “algo me diz que acontecerá”. A intuição é uma arma poderosa, mas tem que se revestir do concreto para surtir o efeito desejado.

Quem se encarrega do durante, dificilmente usufrui depois. Após terminar uma etapa, lá vai sacudindo a poeira e partindo para outras realizações. Antecipar-se aos fatos é adotar postura e ação proativas, preparar a cama para que alguém possa dormir confortavelmente e quem vai adormecer nem sempre é quem a preparou. Mas isso não tira o mérito, não desmerece o resultado, nem deixa seqüelas em quem conscientemente optou por este caminho. Do contrário, tratou-se de fingimento e masoquismo por trás de uma personalidade aparentemente desprendida.

Efetivar projetos implica despojamento quanto á paternidade dos resultados. A quem os fez, basta a consciência do dever cumprido e a sede de conhecimento pacificada momentaneamente. Quem faz, precisa estar sempre aprendendo, para que possa ensinar e permitir que a obra tenha continuidade com as próprias pernas e sem a figura onipresente do idealizador. Além disso, deve permitir a incorporação de ajustes, sem a perda do objetivo original.

A humanidade caminha a passos muito mais lentos quando aliado a um interesse individual, não há um mínimo de altruísmo e um máximo de estratégia. Homens sozinhos não mudam um paradigma, mas aqueles capazes de mobilizar forças ao redor e concretizar seus propósitos, sim. E quando o fazem é porque se trata de um líder, alguém que soube vender suas idéias e manter cada um motivado e cônscio do papel a desempenhar. Parece coisa de messianismo, mas não é. Terminada uma construção, sempre há outra por iniciar.

13/12/2010

Indecifrável

Temos certa dificuldade em desvendar aqueles que “tem uns quantos por dentro”. Embora uma personalidade ás vezes se sobressaia ante as outras, as múltiplas facetas que este tipo de pessoa nos proporciona nos fascina e atordoa do mesmo tempo. São os indecifráveis a olhos incautos, cuja leitura limita-se ao que está sendo verbalizado e assim não se preocupa ou não, se desenvolveu pensamentos para entender as mensagens subliminares.

Adequar-se ao interlocutor é antes de tudo é uma forma de respeito. Toda profissão tem o seu vocabulário próprio. Cada ocasião também. Para o pensador polonês Zygmunt Baumann, os valores da sociedade ocidental dissolvem-se, cerceando a tolerância e o relacionamento. É o que Baumann denomina “era de liquidez”. Princípios diluídos na rapidez das mudanças. Em comum restou-nos a incapacidade de relacionarmo-nos com o outro de maneira plena, com respeito ao que cada um de nós tem de singular e subjetivo. A tendência é atribuir valor à figura do outro da maneira que ela se apresenta diante de nós e não nela mesma.

O avanço tecnológico dinamizou o tempo para que o aproveitássemos em atividades mais prazerosas. Porém, o uso adequado do nosso tempo não aconteceu. Ao invés de nos direcionarmos para atividades ampliadoras da nossa possibilidade de agir, tornando-nos mais criativos e solidários, paralelo ao desenvolvimento material nos diluímos enquanto seres humanos. Interagimos com outras pessoas somente naquilo que nos proporcionar vantagens imediatas.

“Se não posso me separar do meu tempo, que eu seja carne e unha com ele”, escreveu o argelino Albert Camus, filósofo preocupado em pensar os profundos e cotidianos problemas da existência. Para Camus, “verdade é tudo o que continua. Há uma época de viver e uma de testemunhar. É preciso escolher entre a contemplação e a ação. Chama-se a isto, tornar-se um homem. Homens que compreendem a existência humana do homem comum, que quer ser feliz e se interroga, têm como atitude essencial a lucidez. O tempo caminha com eles e eles não se separam do tempo. Levam-no para a sua vida.”

Quem se alia ao tempo na nossa era pós-moderna não limita suas experiências existenciais ao que julga conveniente, mediante critérios escusos de avaliação, onde a incapacidade de convivência com as diferenças é acobertada com preceitos politicamente corretos. Demonstramos adesão a princípios de responsabilidade social, mas por dentro mantemo-nos intolerantes, onde a perseverança nos nobres propósitos cai por terra no primeiro ato de desagravo que sofremos. Medo de exclusão, da proximidade com o outro pela visão distorcida que fazemos dele, medo de sermos deixados para trás.

Sabemos das nossas limitações, mas se somos o senhor do nosso tempo e caminhamos lado a lado com ele, sabemos que rumo seguir. Não importa a linguagem diferente em cada situação, as mensagens serão percebidas. Quem estiver sintonizado conosco saberá distinguir a farsa do politicamente correto da atitude de respeito pelo outro. Não seremos enigmas. Para entender que o nosso recado não é só feito de palavras, não é imprescindível que o outro seja intelectual, tenha instrução formal, seja do mesmo nível sócio-econômico. Quem tem princípios, enxerga a sinceridade implícita mesmo numa atitude dura. Basta a mente aberta e o espírito ainda não entorpecido pelos conceitos de sociedade líquida

Para finalizar, Citamos o Serginho Moah, que tem 46 anos e um amigo com a mesma idade do vocalista do Papas na Língua. O público do Serginho são os filhos do seu amigo, que também se identifica, adora as canções, ouvindo-as constantemente. Isto para dizer que não existe tempo de uns e outros, tempo disso ou daquilo. Existem homens e mulheres guardiões da linha do tempo e que por isso não envelhecem. Porque não há velhice, vida adulta ou infância. Não há essa dicotomia. Há vida, simplesmente.

Referências:
Tempos Líquidos - Zigmunt Baumann - Zahar Editores- 2007
Filosofia Ciência & Vida - Ano II - nr. 21 - Editora Escala

12/12/2010

Eu Não Choro



Eu não chorei quando a personagem Camila cortou os cabelos naquela antiga novela da TV Globo, por estar com leucemia. Por mais que a atriz Carolina Dieckmann tenha se esforçado em dar realismo à cena, as lágrimas não saíram.


A tradução do cotidiano para filmes, novelas, provoca empatia na maioria de nós. O desejo ou o medo de estar no lugar do personagem, leva-nos a indagar se o que se passa na tela não seria o retrato do que poderia acontecer conosco.

Adoro filme em que o mocinho não morre no final. Não vi “Coração Valente” até hoje, apesar de eu saber que é uma história e tanto. Mas como eu sei que tem cenas de violência, me nego a ver. Exatamente pela possibilidade do que está na tela ser o que de fato ocorreu ou até pior.

Confrontar-se com a dureza da realidade é um desafio que poucos suportam, mas que invariavelmente nos contaminam. Comodismo, negação? Pode ser. Fechar os olhos como se nada tivesse acontecendo pode não ser a melhor tática. Mas entre a alienação e envolver-se desnecessariamente com algo que vai mais me deprimir que ajudar, eu fico com a primeira opção.

Talvez o impacto visual me incomode; o meio escrito ainda me é mais amigável, mesmo sabendo que a imaginação pode nos criar imagens muito mais tenebrosas que as do cinema, se nos fixarmos na parte triste da história, já que este é o que tende a ficar gravado na memória.

Mesmo assim, consegui resistir e li até o fim “Vigiar e Punir”, do Michel Foucault, por crer conhecendo o universo das prisões, das penas, da disciplina, me ajudaria a entender o ser humano; embora seja uma leitura difícil, exceto para profissionais do direito ou afins.

Eu não choro quando um filho se machuca, porque ele precisa de mim consciente e lúcida. Uma vez acontecido, meu papel é cuidar para que ele tenha a assistência tempestiva e adequada. Eu não choro em velório de quem eu não tenha afinidade. Mas eu choro, sim, com gente alcançando objetivos, com movimentos de massa, com caminhões buzinando no desfile do dia do Colono e Motorista pelas ruas de Três Passos, mas ao vivo e a cores.


Mas ainda não consegui chorar com injustiça e incompreensão. Elas só me provocam um bolo na garganta. Talvez, porque de imediato me desencadeiem sensação de impotência.

10/12/2010

A Outra Face do Gênio



Tchaikovski aproveitou a peste que se alastrava pela Europa e tomou água contaminada, vindo a morrer de cólera. Filho de família tradicional, expert da música, teve uma vida até certo ponto normal. Casou-se, inclusive. Tudo bem se não tivesse um detalhe. Ele era homossexual e o casamento foi só para atender as convenções da sociedade, vindo a suicidar-se – embora indiretamente - quando não agüentou mais conviver com a situação.
É difícil encontrar entre aqueles ditos gênios, quem consiga equilibrar a genialidade nos diversos campos do conhecimento – seja música, ciência, escrita – com os padrões de comportamento que a convivência social exige. Trocando em miúdos, não é sempre que alguém com elevada capacidade mental criadora é sinônimo de bom pai, bom marido ou a nora que pedimos a Deus.
Gênios são espíritos iluminados, com energia direcionada ao processo criativo, maior foco de prazer também. Não entendem como isso não é percebido pelos outros mortais, indiferentes à importância do problema que ele busca solucionar. O direcionamento são os obstáculos a serem superados para se extrair a essência da arte, da ciência.
Há exemplos de quem consegue ser múltiplo. Johann Sebastian Bach teve 23 filhos. Morreram alguns, claro. Na época dele, passar dos dez anos de idade já era um feito e tanto. Ele sustentou sua família direitinho, viveu da música e ainda deixou dois bons músicos entre a prole. O Bach Filho e o Christian, ambos reconhecidos no meio musical por possuírem tanto talento quanto o pai. Talvez não com tanto ibope, porque a obra excepcional do velho Bach os ofuscou um pouco.
Diante disso, quem se habilita a um geniozinho? É fácil gostar do escritor, do cientista, do médico, do profissional espelho na sua área. Convenhamos. O companheiro das melhores mentes tem que ter um desprendimento de si muito grande para viver à sombra do outro. E nem precisa ser o virtuose de sua área. Basta olharmos ao lado, nas nossas cidades, quantas mulheres fazem das tripas o coração para viver à sombra dos bons profissionais, não raro, à custa de sufocar a genialidade latente que elas também possuem. Sorte que a medida da genialidade não é tão grande assim, a habilidade para a convivência vai aumentando também. J. S. Bach está aí para nos mostrar que é possível ser um ser humano completo, inclusive na outra face.


08/12/2010

As Mulheres e o Poder


A escritora americana Harriet Rubin sintetiza a relação das mulheres com o poder em seu livro Princesa – Maquiavel para Mulheres, Editora Campus – 2004, da seguinte forma: - As mulheres hábeis em manejar o poder preferem fortalecer seus opositores, cooptá-los como aliados, em vez de abrir uma guerra. – Mulheres contribuem para instalar um clima mais cooperativo e evitam o estilo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A habilidade para o trabalho em equipe, hoje tão apregoada é confundida com indecisão e fraqueza. Tacham-nos de inseguras no exercício do Poder. O fato é que minimizamos nossos acertos, enquanto os homens minimizam suas dúvidas. O que aparenta ser um baixo nível de confiança encobre apenas o desejo de não parecer esnobe. Valorizamos o trabalho coletivo em vez de cultuarmos nossos próprios méritos.

Homens conduzem negócios usando expressões como estratégia, tática e ofensiva. Voltemos um pouco no tempo e imaginemos ao longo da história os homens nas frentes de batalha. Eles consolidaram o poder conduzindo exércitos, enquanto que as mulheres o fizeram pela sabedoria, coragem, habilidade política e não raro, pela sedução.

Outro mito na nossa relação com o poder é o temor de correr riscos. Ocorre que preferimos ouvir, juntar argumentos antes de se decidir, o que se confunde com medo. Enquanto os homens centram suas preocupações nos resultados da decisão no curto prazo nós mulheres optamos por considerar as conseqüências dos nossos atos a longo prazo. Poucas de nós – reconhece-se – assumiram posições em que se possa decidir e assumir riscos abertamente. Na prática, a consolidação dos valores femininos no exercício do poder, só vai ocorrer com a escalada maior das mulheres nos postos de comando, seja no meio empresarial, político, seja na sociedade em geral. No futuro, o mais provável será a combinação do jeito feminino, com os valores tradicionais da competição.


02/12/2010

HAJA PACIÊNCIA!

Paciência é um dom e nascemos com ele. Se a afirmativa for verdadeira, pobre de quem não a tem. Qualidade das mais necessárias, não há um campo sequer das atividades humanas onde se possa abrir mão da paciência. Educa bem, ensina direito quem o faz o conhecimento fluir naturalmente. O professor com o qual mais se aprende, parece estar em casa deitado na rede ao invés de dando aula, demonstra dominar o ofício com maestria, sempre senhor da situação. Não é preciso ser supermestre, mas se não tiver o jogo de cintura como aliado para as nuances do ensinar, como lidar com a gama de informações dos alunos, a receita não dá certo e o bolo vai “batumar”.


Nosso mundo tornou os minutos contados e não há relógio que sincronize o tempo do outro com o nosso. E dê-lhe autoajuda a exigir um tempo para nós. Mas se não temos tempo nem para respirar direito, como meditar, se a condição para a placidez interior é a sintonia com o mundo externo, para daí captar os fluídos tranqüilizadores do nosso espírito inquieto? Engana-se quem acredita que na natureza existe folga. Ninguém nasceu folgado, alguém já disse. O universo funciona movido pelo cronômetro do princípio da lei e da ordem. Não há o porquê do inconformismo. É só lidar naturalmente com as demandas. É difícil, mas não vale a pena se amargurar com a carga disponibilizada. Há uma corda a nos mover e complicado mesmo é não encarar as incumbências desafiadoras como castigo dos céus.

Somos afeitos a não resistir às frustrações e com tendência a achar um réu. A responsabilidade está no outro e se não há um culpado, está nos céus, nunca nas nossas escolhas. Devidamente “psicanalisados” e com o nosso umbigo como o centro do planeta, viramos as costas para o resto e não admitimos sequer a hipótese de pensar no próximo. Todas as nossas ações são voltadas para as nossas necessidades, os demais estão aí para nos atrapalhar a vida. Com isto, dê-lhe conta de perdas e ganhos e reclamação com o suposto prejuízo! Esquecemos que o raciocínio não é privilégio nosso, todos estão igualmente sentindo-se lesados, daí sentimos um constante inquérito em nossa vida, reduzida à caça aos culpados pela nossa infelicidade.

Quanta energia perdida a deteriorar o nosso quinhão de paciência! O emocional é biológico, sim. A memória nos proporciona a crítica sobre as nossas ações e o universo ao redor. E o mundo emocional no cérebro faz feed-back com o cérebro racional. Há interação constante e desse equilíbrio resulta a maior ou menor qualidade de vida para o enfrentamento das demandas. É necessário buscar o foco central da vida e até orar ao Deus interior. Para quê? Para não se desligar das tarefas alinhavadas, instrumentos para alcançar objetivos, nem sempre claros quando reagimos diante de situações concretas, mas integrantes do pacto sagrado de todos nós. Não importa o conteúdo da promessa. Interessa não nos desviarmos dela. Aí estaremos sendo coerentes conosco, pacientes com nossas dificuldades e dando tempo para os nossos “cérebros” buscarem a solução mais adequada e fluir melhor, sem tanto desgaste, sem tanta sofreguidão e com um pouquinho mais de lucidez.

06/11/2010

A Beleza da Arte Chamada Escrita - Por Bridgit Baldavir

Brigit Baldavir, a BB, é escritora e colega do site onde ambas publicamos textos. Gentilmente ela nos cedeu o texto abaixo para publicação neste espaço. Ei-lo:




Algumas pessoas têm me perguntado por e-mail como fazer para exprimir suas ideias de maneira clara, coesa e que o interlocutor entenda o pensamento exposto? Muito mais do que isso, alguns têm me feito perguntas quanto ao uso da linguagem.

Eu sempre digo que o conteúdo é o mais importante, mas a apresentação e a forma não podem ser descartadas. Estou dizendo que primeiramente é preciso conhecer o objetivo do seu texto e para quem se destina. Por quê? É comum eu ler poesias, contos, crônicas e romances. Em minha graduação, devo ler relatórios, artigos técnicos e monografias, além dos livros-textos. Por que eu digo isso? Porque na escrita de cada um dos exemplos citados de textos existe um objetivo e, alguns deles, uma norma a ser seguida.

Já disse em outra oportunidade, mas volto a frisar que ser um bom leitor e assíduo é fundamental. Infelizmente, algumas pessoas ainda têm a ideia de que para escrever não é tão importante a leitura. Acham que não funciona bem assim. Sinto informar-lhes: hábito de leitura é fundamental. Numa conversa informal até dizem sobre a importância de ter contato com os principais autores e pensadores, mas quando lhes são feitas perguntas sobre o livro que estão lendo ou o último que leram, ou sobre o seu conteúdo, temem não saber lhe dar uma resposta convincente. Não falo em culpa ou punição, mas o fato de não estarem convencidas da leitura como parte da escrita, rapidamente o equívoco se percebe na apresentação de seus textos.

Antes de falar propriamente da arte da escrita e sua beleza, preciso dizer aos leitores que nem todos gostarão daquilo que você tem a dizer. Nem todos se identificarão com o seu conteúdo, assim, desde a beleza de um testemunho sobre a mudança de um paradigma que alguém encontrou depois de ler o seu trabalho, ou uma total falta de sentido e aplicação, você pode ouvir. O importante é executar o seu trabalho com a consciência de que fez o seu melhor, naquele momento, mas está aberto a sugestões, a críticas; está disposto a evoluir, a progredir. Pela leitura, volto a citá-la, surgem possibilidades de ousar em seu estilo e conduzi-lo a patamares ainda desconhecidos por você.

O primeiro ponto é entender que na arte propriamente dita não existe certo e errado. No máximo, saber se está adequada ou não ao objetivo. Por exemplo, numa novela que tratava a questão da escravidão, não vou citar o nome, o autor ao produzir as falas do escravo, utilizou um português extremamente culto. Ele estava errado? Não, porque é a intenção do texto que as coisas ditas sejam entendidas com clareza. Mas não estava adequado. Considerando o enredo, o contexto, o escravo que sempre viveu na senzala no período da escravidão, ele não teve contato com uma formação bancária, provavelmente não deveria saber ler ou escrever. Então, a sua comunicação deveria ser como a recebeu de seu meio familiar, de sua vida na lida do engenho, de seus hábitos. Portanto, mais voltada ao coloquial: linguagem simples pautada nos exemplos que ele tinha, com os chamados “erros”. Não era preconceito, era a realidade coerente.

Também a arte da escrita, enquanto arte, não recebe rotulações. Quando você ouve que algo foi escrito em prosa ou em poesia, a pessoa não está reduzindo ou limitando a intenção do seu texto, apenas, avaliou a apresentação dele. Quando você ouve que o texto é um conto, é uma crônica, poema etc., não significa que a pessoa está moldurando o seu trabalho, somente identificando o formato apresentado. Então, o conteúdo pode ser qualquer um, e ao invés de achar que rotulam sua expressão, faça da análise a oportunidade de arrancar o máximo das palavras, no estilo mostrado e no arranjo delas.

Bulindo palavras. É o ato de consertar, de brincar com os sentidos delas no texto. Eu adoro essa parte. São só dicas, não precisa seguir o que vou dizer.

Antes de produzir um texto, eu investigo o tema e num rascunho, coloco minhas ideias principais. Esboço minhas opiniões e meus ideais sobre o assunto de meu desejo. Leio e procuro saber se não vou dizer alguma inverdade sobre o assunto. Depois de coletar informações suficientes e saber o que outros já falaram sobre o tema, me posiciono e produzo o meu texto.

Depois de escrever-lo, começo o trabalho de bulir. Mesmo depois de publicado em meu blogue, ou em redes que faço parte, acontece de querer mexer em meus textos. Colocar uma frase, consertar uma oração com erro despercebido antes da publicação. Com isso, reduzo as repetições, acabo com as informações desnecessárias, ou seja, as justificativas cansativas quando o próprio contexto é suficiente. Meu texto tende a ficar mais agradável de ler depois desse trabalho. O texto ganha ritmo. A estória tem seguimento, não fica presa num mesmo item, não há perda de sentido, não foge à abordagem. Arrancar o máximo de sentido em menos palavras.

Na arte de bulir, o poeta é especialista. É quase congênito, nasceu para fazer isso naturalmente. Os amantes de poesia e escritores conseguem em frases curtas, na métrica, no som, no arranjo, extrair o máximo de sentido. Cito Cassiano Ricardo:


Serenata Sintética

Rua

torta

Lua

morta

Tua

porta



Cassiano Ricardo conseguiu expressar com apenas seis versos e um arranjo proposital de palavras, as dificuldades encontradas num caminho tortuoso, difícil (Rua/torta). Numa noite escura, de trevas (Lua/morta). E só consegue vencer a noite e o difícil caminho ao chegar à porta da amada (Tua/porta).

Mesmo se houver repetições, a intenção justificou o uso e a beleza da escrita, a arte. Quem fez muito bem isso foi Carlos Drummond de Andrade, veja o exemplo abaixo:

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra

(Carlos Drummond de Andrade)

Como diria os autores do livro de literatura, produção de textos e gramática para o nível médio, Samira Campadelli Youssef e Jesús Souza Barbosa: “O escritor, com sua sensibilidade capta o mundo como se tivesse antenas. Pode ou não ter vivenciado determinada experiência – amor, ódio, fome, guerra, morte –, mas dela se apodera como se fosse sua. A matéria-prima da arte é a própria vida, transmitida em literatura por meio de palavras; em pintura, por meio das cores e dos traços; em cinema, por meio da imagem, do ritmo das palavras. Por isso, a literatura como arte é uma forma de representação do mundo. A literatura imita a vida por meio de palavras organizadas de modo tal que forma uma supra-realidade, isto é, uma realidade paralela ao ambiente que foi imitado. Escrever é dar forma as ideias. É organizar as palavras para traduzir um pensamento e transmitir mensagens, que possuem um modo singular de formar uma organização própria.”

(YOUSSEFF, S. C; E BARBOSA, J. S.. Literatura, Produção de Textos & Gramática. São Paulo, Saraiva, 1998.)

Mas não somente no texto em poesia, há vários exemplos de textos em prosa que o autor extraiu sentidos únicos e não há quem não enxergue a beleza da arte neles. Uma autora que gosto muito é Clarice Lispector. Acompanhe parte do conto “Os desastres de Sofia”:

“Qualquer que tivesse sido seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo que sabíamos dele. O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho: – Cale-se ou expulso a senhora da sala.

Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto de ódio daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem de ombros tão curtos. (...)”

(LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. São Paulo, Ática, 1977.)

Clarice com o conto, apresentado parte dele, conseguiu dizer ao leitor que a necessidade de seguir normas e regras na prática de viver o cotidiano, pode levar uma pessoa, no texto – o professor –, a reprimir suas emoções.

Então, qualquer que seja a apresentação do seu conteúdo e ele próprio; não se preocupe se o terma a ser tratado será do agrado de todo mundo. Não busque inibir o seu jeito para agradar alguém. Escreva com a sua identidade. Escreva com a sua arte. Nunca se esqueça que a escrita é uma bela manifestação artística. Continue lendo para ter mais recursos de apresentá-la, para conhecer outras formas de escritas, de pensamentos, ter mais conhecimentos. Existem muitos autores talentosíssimos e você pode se encantar com cada nova descoberta de sua impressão de mundo. E, assim, você ser o próximo a ser admirado e seguido.

Numa outra oportunidade, eu falo do texto não artístico. São textos de opinião, em defesa de uma tese, na expressão de um conceito e, geralmente, trazem uma metodologia. Busca o conteúdo e a base de figuras de autoridade para sua descrição. Muito mais do que isso, eles seguem normas. São as teses, os artigos científicos, os relatórios técnicos de área. Pode não ser uma leitura agradável, mas servem como bons materiais de consulta e acho importante, ainda que não seja uma leitura tão aprazível, situar-se com eles.

Para finalizar o texto, deixo um pequeno texto para apreciação:

Discussão

Se você pretende sustentar opinião

E discutir por discutir
Só pra ganhar a discussão
Eu lhe asseguro, pode crer
Que quando fala o coração
Às vezes é melhor perder
Do que ganhar, você vai ver
Já percebi a confusão
Você quer ver prevalecer
A opinião sobre a razão
Não pode ser, não pode ser
Pra que trocar o sim por não
Se o resultado é solidão
Se em vez de amor, uma saudade
Vai dizer quem tem razão
(Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça)

Bbamormaisforte-Bridgit Baldavir, escritora

26/10/2010

Isto Não Vai Dar Certo





Internamente carregamos a certeza da impossibilidade que algo flua. Movidos pelos instintos, todo o corpo corrobora pela insistência e manutenção dos desejos, pelo prazer que a busca proporciona. Lutar contra algo que suspeitamos quase impossível é agradável. Principalmente se é o que está posto, aquilo que as pessoas esperam e não será objeto de contestações.

Poucos enxergam além e é o desfecho óbvio para a maioria. É cômodo e porque não ceder ao bem estar? Fora isto, há a relação custo-benefício. Quantas pedras não haveríamos de rolar pirâmide acima para abdicar do que é confortável? Ele, o ideal desenhado está ali, à mão, embalado pelo sentimento e promessa de atendermos à nossa vontade, sentirmo-nos livres por estar seguindo o que o instinto determina. Sendo assim, não há porque ter caraminholas na cabeça, conjecturar conseqüências que podem mudar o rumo da nossa vida, unicamente porque uma voz interna nos diz que isto não vai dar certo. Não fecha com os nossos projetos de vida, nos alega o restinho de razão, mas também não nos aponta a saída. Se não é parte da solução, também não faça parte do problema. Dane-se a lógica que insiste em analisar as personalidades envolvidas e nos alerta que no longo prazo a coisa não vai funcionar! A menos que mudemos demais a nossa personalidade, e, fundamental, tornemo-nos outra pessoa, abracemos ideais diferentes daqueles que apregoamos até então e que as pessoas esperam de nós. Dane-se se temos outro por dentro! Até porque os decepcionaríamos se mostrássemos nossa verdadeira face. Precisaríamos trocar de cenário, arrumar outro público e porque não dizer, outra vida. Isto porque não suportaríamos a pressão que toda mudança abrupta provoca.

É muito fácil fazer esse raciocínio à distância, quando a nossa vida já transcorreu de maneira aparentemente inversa àquela que o curso dos acontecimentos e da nossa vontade supostamente ferrenha sinalizava. Todavia, mesmo a previsível, exigia a contrapartida da vontade alheia e quem nos garante que não faziam as mesmas conjecturas e não necessariamente nos incluiriam em seus planos?

Iludimo-nos, quando achamos que controlamos nossa vida e que há ignorância somente do outro lado. Nossos passos são igualmente monitorados. Não tínhamos a visão ampla que julgamos ter hoje e que apelidamos incautamente de sabedoria, mas que não deixa de ser apenas experiência e acomodação ao que escolhemos viver e aos bons frutos que a escolha e porque não dizer - o deixar-se levar - nos proporcionou.

No fundo, o desafio era o mesmo e o ambiente que nos instigava ao novo, impeliu-nos à amplidão e ao instinto desenfreado do saber que buscávamos. Não nos tornamos outra pessoa. Tiramos véus sobrepostos no nosso interior e tornamo-nos minimamente lúcidos, mas ainda assim, ignorantes, vaidosos e visionários.

25/10/2010

PARTIDAS

Enfrentar com dignidade a tempestade e refazer-se interiormente após sua passagem não é tarefa fácil. Temos necessidade de harmonia na mente para que o corpo fique em paz. Quando passamos por perdas há todo um desequilíbrio que não sabemos por onde começar para retomar a nossa vida. Principalmente quando se trata da partida de alguém que já cumpriu sua parte na vida terrena e vai embora quando chegou sua hora, dizem alguns, foi escolha, alegam outros. Mas não há resposta para o vazio que provocam em nosso íntimo tampouco conformidade com a perda. Choramos por aquele que se foi, mas no fundo nossas lágrimas são de autopiedade, coitadinhos de nós que vamos sofrer com a ausência física.

Sempre há alguém indo embora, seja inesperado ou como vela que se apaga serenamente. A inconformidade é idêntica em todos. Racionalmente sabemos que uma hora ou outra partiremos, é assim que caminha a humanidade, mas nossos pobres sentidos rendem-se ao mistério da vida e a pergunta permanece: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Nossas crenças nos ajudam a acalmar o coração, mas é preciso dar tempo ao tempo, diz a sabedoria ancestral, buscar serenidade. Tranquilidade que nada tem a ver com a preguiça ou descaso com a vida. Seu sentido é mostrar-nos o trabalho honesto, a continuidade da existência.

Paz imperturbável não parece ser inerente à condição humana. Seria prerrogativa de quem já atingiu um grau de elevação intelectual e espiritual e por isto transita incólume pelas adversidades que a vida certamente lhe impõe? É uma pista. Mas sua condição é a brandura permanente da alma que se alimenta de sentimentos nobres, o que o nosso egoísmo natural impede de tê-la presente. O orgulho é outro alimento das inferioridades e impeditivo da serenidade. Então, se quisermos alcançá-la, que busquemos o combate ao orgulho e egoísmo, estes moradores internos responsáveis pelos distúrbios de todas as manifestações do bem no caminho de quem ainda não se libertou deles. E muitas vezes passamos a vida inteira controlando-os e o máximo que conseguimos é prendê-los com correntes para que não se soltem e atrapalhem todo o trabalho de evolução.

A natureza é inteligente em todos os seus aspectos. O vento quando sopra o faz em direções variadas, purificando os lugares, alimentando vidas, distribuindo sementes, trazendo tempestade também, que é igualmente purificadora. É ponto de corte que acelera a transformação com um fenômeno que é pura fúria e que nos amedronta. Mas passa. E nos transmite a sensação de que todo o ambiente foi renovado e que este grande laboratório da vida que é a natureza se encarregou de executar para que o equilíbrio se restabeleça, a água da chuva purifique.

Nosso exemplo de paz interna dissemina-se para quem está ao nosso redor. Alimentando a corrente de equilibro e serenidade que se multiplica e ganhamos força para seguir em frente na tarefa individual que nos cabe, mas com muitos companheiros de jornada.

24/09/2010

Injustiça em Dobro


Quer testar se alguém é um verdadeiro profissional na arte de persuadir? Dê-lhe um mesmo fato e lhe peça duas versões. A pessoa imergirá totalmente no personagem que eleger primeiro para enxergar daquele ponto de vista específico, alheando tudo o que não corroborar para a sua defesa. Procurará encontrar argumentos que os armazenará em seu íntimo, de forma que quando afirmar categoricamente, todo o seu ser esteja imbuído dessa certeza e o interlocutor titubeará em duvidar, tamanha a aura de veracidade que lhe é impingida. O expectador é seduzido pelo profissional da interpretação, pois ao fundamentar seu desempenho num arcabouço de conhecimentos acumulados, apropriou-se de conceitos que estão no inconsciente coletivo e a eles acrescentou um toque de criatividade, que é justamente sua contribuição imperceptível para a verdade que quer consolidar. Abstraindo-se totalmente de qualquer devaneio que não seja o do convencimento, ignora a face que não é a defendida na ocasião e cria a ilusão de que aquilo que defende é toda a verdade.

É claro que precisa inteirar-se do ideal de seu público e ser para com este um juiz implacável. Não lhe basta expor o que pensa. É preciso desmontar a crença do interlocutor, pedacinho por pedacinho, sem que ele perceba, levado pela aura de sedução do expositor. O esforço é hercúleo. Não pode restar um único grão de humilhação de quem está sendo convencido. Nenhuma vantagem ou sorte supera a sensação incômoda de ver seu raciocínio reduzido a um atestado público de ignorância. A sutileza em retirar os contras silenciosos é extremamente rápida, de forma que o interlocutor não perceba que foi surrupiado de sua verdade e que outra está penetrando em sua mente sem que se dê por conta. A compreensão é pensada no todo, para não se perder tempo de suprimir o mal-entendido nos detalhes, sob pena de gastar saliva inutilmente defendendo-se. O convencimento é avassalador e alcança inclusive, o pensamento inconsciente. Afinal, não há quem suporte ver o outro passar por cima dos seus brios, que a intuição alerta antes. Ela nos dá o sinal de que algo consolidado em nós está sendo invadido. A rede de defesa é acionada e precisa no mínimo que o encadeamento lógico que nos está sendo imposto, seja coerente o bastante para que nos consolemos em trocar nossa verdade pela do outro. Mesmo que isso dure um tempo infinitamente pequeno, nossa mente precisa deixar-se invadir para crer. Na relação íntima com a nossa consciência, a determinação férrea em satisfazê-la. Se ao mostrar a outra face da moeda o interlocutor nos decepcionar, a desculpa do verdadeiro que a nossa consciência representa. O que vulgarmente chamamos de botar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos, já que o nosso interior está apaziguado com as desculpas plausíveis que absorvemos.

Tira-se o chapéu para o habilidoso na arte de convencer, afinal, para chegar ao auge de sua maestria ele fez uso exaustivo da reflexão sobre qualquer idéia nova que lhe surgiu e pensou em cadeia. Amarrou todos os argumentos e convenceu-se primeiro. Ao expor a terceiros é tiro e queda: - o pensamento consolidado já lhe surge com um círculo que se completou, numa intuição induzida, que nada mais é que o cérebro vincado com a informação, porém arquivado em pastas. Destas, será retirado o conteúdo disponibilizado ao interlocutor e quando defender exatamente o oposto. O raciocínio compartimentado entrará em ação novamente, fechando o arquivo anterior e abrindo um novo e vestindo o personagem oposto ali contido. Toda e qualquer imagem anterior não será acessada. Haverá em sua mente um novo bloco de informações que constitui outra versão do mesmo problema, igualmente embasada adequadamente, disponível na sua memória de trabalho, apagando completamente a anterior.

Pensar é uma maneira de discernir. Não se trata da cega avidez de saber a qualquer custo. O instinto do conhecimento por si só não leva à verdade. Quando abusamos da capacidade de persuadir, roubamos momentaneamente as certezas de alguém, pois a reflexão só julga depois. Se isto é um exercitar das enganações a que o nosso cérebro pode ser induzido, a astúcia pode até ser considerada uma legítima defesa, porque pré-acordada entre as partes. O que não podemos é gerar uma dupla injustiça e mascarar o que defendemos ora de um jeito, ora de outro, pela incapacidade de “ver em conjunto e com isso ignorar ou negar a cada vez a outra face, com a ilusão de que aquilo que vemos é toda a verdade”.

11/09/2010

Ele é o Cara. Ele é Tudo o que a Direita Sempre Quis


Normalmente, quando nos identificamos com o ideal de alguém, tornamo-nos discípulos dele, assimilando seus exemplos e virtudes. Na maioria das vezes no decorrer da vida, abandonamos antigos conceitos e seguimos outro rumo. Ocorre também, do protagonista se deter na periferia da história, disposto a manter suas idéias, implacável para que o círculo seja fechado. Tudo bem, caso se tratasse de apenas um dogma a ser quebrado. O outrora mestre seria olhado com desdém pelos ex-admiradores, por ter se imobilizado num ponto, enquanto tudo ao redor sinalizava que o conhecimento deveria moldar-se pelos acontecimentos e, mesmo se desviando do detalhamento inicial, preservaria a essência e não se refugiaria no sectarismo.

Quando o personagem cuja vida é o símbolo de um ideal, se desvencilha de seu passado como quem tira uma roupa que não gosta mais, direciona sua convicção ferrenha a serviço da vaidade pessoal. Incute em si que o poder só é poder mesmo, com vitórias esmagadoras. Constrói seu castelo sobre resultados que se devem mais à continuidade de um modelo já implantado. O que seria sua maior virtude, a humildade de reconhecer que em time que está ganhando não se mexe, o aprendiz de feiticeiro quer mais. Seu ego quer ser o protagonista e o primeiro passo é não aceitar objeções. Está regada a sementinha da ditadura. No momento em que o nosso herói, escancara suas contradições, coloca-as sob o guarda-chuva da necessidade e do aprimoramento. É uma tática tão elementar quanto certeira. Qualquer um que “reconhece” antecipadamente suas limitações critica-se primeiro para que ninguém tenha a primazia da objeção. A incoerência se torna conciliação. Manifesta as diferenças que separam seu caráter daquele do seu opositor, transmite a impressão de não gostar dele, quando na prática é uma tentativa de igualar-se ao desafeto e desvencilhar-se da inveja silenciosa.

Quem renegou um ideal com o único objetivo de chegar ao topo, foi porque este ideal exigia dele uma grandeza insuportável. O que era amor e honra se tornou um fardo, cabendo-lhe representar uma comédia do passado, usando a eloqüência a serviço do ideal que na prática se encarregou de deturpar, afinal, um pouco de benevolência com os seus admiradores faz parte do espetáculo. Todos precisam ser adequadamente afagados. É indiferente se o favor feito a alguém em detrimento de todos os outros, resulta em prejuízo à utilidade pública, oligarquizando o poder e as decisões. Faz parte da troca de favores. Não há espaço para submeter suas decisões ao exame e escolha de alternativas, mesmo entre os seguidores. Quem não aderiu incondicionalmente foi alijado das estratégias e transformado gradualmente em adversário, seja por maquinações de bastidores, seja induzindo ao partido a demonstrar publicamente a falta de apoio. Discutir determinações é muito mais malévolo aos interesses do mestre que a oposição radical.

Os grandes homens levam consigo as qualidades do período em que viveram ou governaram. Haja esforço e mentes obscuras para que se apague a excelência dos feitos. Para isso, não basta o detrator. Atrás dele, uma legião de seguidores comprometidos por uma teia inexpugnável de favores, aos quais só resta a aceitação incondicional. Não há do que se envergonhar em admitir a adoção da maneira de governar de outrem. Basta ser honesto com os alicerces que sustentam tudo aquilo a que deu continuidade. Quando queremos nos tornar superiores ao que aparentamos, atacamos com injúrias aqueles que são melhores que nós, certos que nessa primeira investida a vítima não vai se rebaixar e devolver a afronta. A pessoa agredida entende que está acima disso tudo. Mas as investidas continuarão até que seu objetivo se realize. O ato de não revidar, com o tempo, confunde-se com fraqueza. As bases são corroídas imperceptivelmente, que é tudo que o agressor quer: Desqualificar o criador. Minando o adversário, eleva-se à altura dele. O mérito do sucesso relativo, da competência deturpada, traduz-se numa virtude aparente, motivada pelo egoísmo, mas que por atingir aquilo que se pretende, enobrece seu autor. O sucesso canoniza as intenções. Mas a história se encarrega de registrar o papel dos líderes autênticos. Não há motivo em nossos dias para o plágio político.

Onde se põe toda a própria força em jogo, deve-se encantar-se e não examinar e duvidar. Não passa pela cabeça do herói de mil faces que tanto o apoio quanto a crítica e até o combate são fundamentais quando se trata do bem público. Tampouco se exige que ao olhar para trás tenha uma veneração piedosa pelos antecessores, mesmo que se tratem dos seus adversários políticos. Não há problema nenhum em programas de distribuição de renda. O fim em si é virtuoso. O que não se pode é usar algo que não criou, não idealizou e arvorar-se de dono da criatura. O olhar condescendente aqui é para a população que clama pela proteção que infantiliza na esperança de que pelo menos uma fatia do bolo lhe caiba. Com o tempo, o pedinte pode adquirir o olhar desavergonhado de que falava Luiz Gonzaga: - Esmola mata de vergonha ou vicia o cidadão. O talento de outrora que despertava multidões apaixonadas, hoje, deixa em um batalhão de órfãos, a sensação de que as virtudes escorreram pelo ralo.

Se há novos donos do poder e eles se perpetuam a ponto de obscurecer as mentes, é porque há eficácia em atender o que esperam as cabeças que preferem não enxergar a luz. Gente para quem basta a afirmação, o olho no olho do dirigente pregado numa tela de TV, o que torna a adesão mais confortável. O personalismo nos domina, independente da nossa classe social. Não importa que ELE não discuta conosco. Argumentar para quê? Demonstrar demais alimenta a desconfiança. A verdadeira prestação de contas é feita nos bastidores. Nas medidas referendadas pelo Legislativo e garantidas pelo aparato estatal, nosso herói sacia o apetite da Direita, que, uma vez atendida de maneira exemplar em seus interesses, não reclama de nada e puxa a claque de palmas.

A estabilidade e o lucro garantidos aos setores da construção, automobilístico, telefonia, dentre outros, encabeçados pelo setor financeiro, permitiram que se tecesse uma rede de proteção ao “gênio dos desejos”. Suas malhas são fortes o suficiente para reter para si o quinhão maior de riqueza, mas se dão ao luxo de deixar passar os restos distribuídos perversamente ao grosso da plebe, cuja exigência se aplaca com pouco.

Ligamos nossa escolha à pessoa que irá corresponder às nossas expectativas particulares ou de quem nos decepcione menos. Dos males, o menor. Somos coniventes e votamos por imaginação. Aceitamos de bom grado quem nos vende a realidade melhor. Que meios e artifícios são utilizados não importa. Para isso o esquecimento nos é conveniente. E La nave va! O aplauso transmutado em voto nos diz que o show vai continuar. As marionetes se recolhem tímidas ao fundo da caixa. Até que daqui a quatro anos sejam retiradas de novo e um novo espetáculo seja montado. Até lá, a Direita educará quem se arvora a substituto do bem sucedido fantoche que se retira. Mas não nos enganemos. Outros fantoches já estão sendo gestados, seja para entrar em ação em caso de falha de quem ora é pretendente ao posto, seja para dar continuidade ao espetáculo dentro de quatro anos.

08/09/2010

O Prazer da Ausência de Dor

Embora a uniformidade aparente do ser humano, cada trajetória é única. Ao corpo que a genética nos deu, são acrescidos nome, sobrenome e uma vida de interação com o meio ambiente, que a partir do nascimento nos cabe administrar. No começo, com alguma ajuda, mas chega o momento em que seremos nós os responsáveis pelas alterações incutidas em nosso corpo e mente. Diferentemente dos animais, o homem possui natureza composta de razão e desejo, este último, se desprende das sensações provocadas pelos sentidos clássicos de visão, audição, olfato, gosto e tato. Um arsenal de sentidos que são as nossas primeiras determinações físicas, reflexo das eternas leis da natureza, onde cada ser procura o seu prazer e foge do desprazer .

Somatório de processos assimilados de longo tempo, o instinto se forma basicamente por imitação, garante a sobrevivência. É meio de civilização, artefato original que passamos boa parte de nossa vida tentando domar e adequar. A maioria dos homens subsiste sob o domínio do instinto, não repara em nada que acontece ao seu redor e por acreditar piamente no impossível, não deixa de ser um combustível de perpetuação da humanidade. Mesmo aqueles que usam satisfatoriamente sua capacidade de fazer abstrações, igualmente são subjugados pelo instinto de uma forma ou outra. Desperto ou não, o homem continua a perseguir o imperativo da felicidade, cuja tradução prática é a busca do prazer e a fuga da dor.

Sinal universal de que há algo errado com o corpo, imediatamente procuramos pela doença quando sentimos dor. Nem toda moléstia provoca dor, mas é um incômodo que se torna insuportável se algo nos dói. A cura pode ser o objetivo, mas a trégua na dor é o desejo maior nesse momento. Nosso querer se curva nessa direção a ponto de se congelar quando o tormento cessa. “Ela vem, finalmente, a hora que te envolve na nuvem dourada da ausência de dor: onde a alma desfruta de seu próprio cansaço, abandonando-se com alegria à lentidão de seus movimentos e, em sua paciência, semelhante ao jogo das ondas que, nas margens de um lago, num dia tranqüilo de verão, sob os reflexos multicoloridos de um céu do ocaso, sucessivamente murmuram e se calam sem saciedade e sem desejos – tranqüila e sentindo prazer no fluxo e refluxo que seguem um ritmo sob o sopro da natureza”. Depois da breve satisfação, o aborrecimento retorna. A vontade paralisada na ânsia de extinguir a dor, agora se volta para a doença em si e novamente nos domina ao sugerir um desejo após o outro.

A maneira como lidamos com a satisfação dos desejos, no apogeu da nossa vida, determina a postura na doença. Talvez a imobilização propicie a reflexão a quem viveu por muito tempo fora de si mesmo e finalmente se volta para a vida interior, como que numa retrospectiva de suas escolhas. A maneira como se pensa a morte na plenitude da nossa força, manifesta com vigor o nosso caráter . Aqueles que souberam equalizar vida exterior e interior quando no auge da saúde, compreendem melhor a cura do corpo e da alma. Quem adoeceu e sarou muitas vezes, identifica com clareza o maior prazer que a saúde lhe proporciona, do que as pessoas que são sadias durante a maior parte de sua existência. Os sentidos se aguçam e sabem distinguir em si e nos outros tudo o que é sadio ou mórbido.

O domínio da vontade, o ato de desejar coisas que retorna após o término da dor física pode ser a volta da perturbação, quando se estava entregue àquela sensação de cansaço, de não se importar com mais nada. Desejar de novo, todavia, é o sintoma da convalescença e da cura.

03/09/2010

Nas Ondas do Rádio

Uma amiga me contou esta. Foi passar férias de verão em Santa Catarina. Primeiro dia: Desfaz as malas e ainda sobra um tempinho à tarde para o sol abençoado. Segundo dia: Levanta cedo e vai direto para a praia. Sol para lá, banho de mar para cá, papo pro ar, cervejinha, almoço na beira do mar... E à tarde. Ah! À tarde a sesta merecida, aquela siesta especial, que nem se pensa em tirar no corre-corre do dia a dia. Lá pelo terceiro dia nota que está faltando alguma coisa e não se lembra do que é. Está tudo perfeito, ela planejou estas férias o ano inteiro. O que será?


- Deixa prá lá – pensa
– Depois eu descubro. Era só o que me faltava, procurar sarna para se coçar – finaliza ela e tenta dormir.

Na hora de dormir procura algo na mala. Lá no fundo, o radinho de pilha. Liga-o e tenta sintonizar alguma rádio. Era isso que estava faltando, o radinho!

Qual a babá que consegue trabalhar sem um radinho ligado? Quem nunca entrou no carro e não ligou involuntariamente o rádio, que atire a primeira antena.

Acostumamos com o rádio, do mesmo jeito que alguém entra em casa e acende a luz porque tem um medo inexplicável do escuro, ligamos o radinho nosso de cada dia. É costume. É instintivo.

Rádio é como livro. Imaginamos as cenas, os lugares, as fisionomias dos personagens. Somos contagiados pela emoção do locutor, pelo universo que ele cria à testa de um microfone. Somos embalados pela música. Entramos em contato com o mundo, não importa onde estivermos. E se estivermos no trabalho, não precisamos parar o serviço. O rádio coexiste com a maioria deles.

E no meio rural ou nas camadas mais humildes da população? Ah! Já cedeu espaço para a televisão, dirão alguns. Os dois veículos são diferentes. O rádio é poético, mágico, amigo. É. Ele faz aquilo que mais esperamos do amigo: Que esteja presente, simplesmente, quando queremos alguém por perto.

01/09/2010

A Mais Pura Verdade


O semáforo fechou. O menor que dirigia o Corolla engatou uma ré o estrago estava feito no carro que esperava abrir o sinal. Fuga e substituição do inexperiente motorista e o chamamento da galera para restabelecer a “verdade” e o novo cenário. Alguém que estava numa esquina próxima viu claramente o adolescente dar ré e bater no carro de trás. A testemunha foi agredida pela ousadia de querer restabelecer o acontecido. O mais irônico foi ter que ouvir: “O velho, além de barbeiro, bateu atrás e acha que tem razão”; como consenso na multidão então formada com o acidente.

Quando algo parece evidente aos olhos da maioria, o autor passa a vítima num piscar de olhos. Ao embasar sua afirmação na aparência e induzi-la pelo que é comum em situações parecidas, carreia para si a prerrogativa da verdade e da razão. Daí em diante é quase impossível desenrolar o nó que se avoluma com base numa premissa falsa, mas com cara e elementos agregados que lhe conferem o viés de autenticidade.

A crença na verdade começa quando se duvida de tudo o que se acreditava até então. Quem não participou da origem, tende a rever posicionamentos e admitir probabilidades do outro ter razão. Preferimos a incerteza, já que odiamos um pouco a verdade por causa da idéia de precisão que lhe é inerente. Se não sabemos do que se trata, sustentar algo que aparenta o contrário é temeroso; pode trazer conseqüências indesejadas. O fato de não termos sido a causa ou os efeitos não chegarem até nós, conferem-nos uma imunidade material. Principalmente se somos indiferentes por opção ao que acontece ao nosso redor, acostumados que estamos ao lusco-fusco e se coisa clarear muito, a luz intensa interfe na nossa rotina incomoda-nos além do necessário e assusta a nossa mente.

Ante o recuo ou intimidação, o autor é beneficiado com a cumplicidade de quem está ao redor. A inexperiência com a mentira faz com que se tome a verdade aparente como antiga e conhecida e olham de soslaio, como quem quer roubar um bem comum a todos; as meias verdades são mais cômodas e seu autor, diante de tal manifestação e adivinha facilmente o que conseguiu elaborar bem e o que não.

Voltamos à pequenez quando fazemos recair a culpa nos outros; estamos no caminho da verdade quando só nos responsabilizamos a nós mesmos; “mas o sábio não considera ninguém como culpado, nem ele próprio, nem os outros” , disse Epicteto, filósofo grego há 1900 anos atrás. Continua atual e precisamos fazê-lo ao nosso ouvido, para que acreditemos primeiro. É um murmúrio solitário em meio à praça tumultuada.

Os sentidos nos enganam e nos fraquejam. Para nós só é verdadeiro o obstáculo contra o qual nos batemos e isto nos basta para se vangloriar de saber todo o contexto e donos da verdade e da razão. Mas nem sempre nossa inteligência entra em ação para entender e captar o todo. A primeira impressão é que fica, como se a realidade fosse imutável. Empédocles , filósofo pré-socrático diz que “Verdade é apenas o que pode alcançar a compreensão de um mortal. Não é uma verdade absoluta, mas proporcional à medida humana”. Verdade, que exigimos e utilizamos no comércio moral onde repousa toda a vida em comum, iniciando uma série de mentiras recíprocas. A visão de mundo que incorporamos ao aderir sistematicamente grupo vencedor leva-nos à convicção de que verdade e mentira são de ordem fisiológica. A essência da verdade é julgada segundo os seus efeitos e estes por sua vez conduzem à admissão de verdades não demonstradas. Ao combatê-las, mostramos a necessidade de encontrar outra via e a lógica é o caminho usual, porém inadequado como único guia, por restringir aquilo que é possível saber -segundo os efeitos - e assim, produz a mentira. A lógica tem dificuldade de denominar com exatidão, tornando-se incompatível com a veracidade.

Corroborando com a inverdade, pela obrigação de mentir segundo uma convenção firme, vale aqui a lembrança de refletirmos moralmente, sobre o modo como esquecemos as coisas que nos dizem respeito. Sim, mesmo agindo inconscientemente da maneira designada como verdade, mentimos.



26/08/2010

Convicção, Uma Luta de Todos Nós


Confiança, crença e convicção são atributos que se conquistam junto ao nosso interlocutor. Podem ser lógicos, cristalinos, mas precisa haver empatia para que se estabeleça a ponte par ao início de um processo de convencimento.

E o que fazer então com essa sensação de angústia permanente que nos ameaça e nos deixa impotentes, com falta de ar, cada vez que resolvemos esmiuçar tais conceitos? Porque a certeza vai sempre por água abaixo quando se trata do raciocínio sobre o universo, do prosaico quem somos, de onde viemos e para onde vamos? A ignorância é uma sensação consoladora. De posse dela, tudo se torna aparentemente fácil.

É pretensão demais da nossa parte querer achar respostas ou discutir aqui questões filosóficas que os sábios ao longo dos séculos vem teorizando a respeito. Há estudiosos do pensamento da atualidade capazes de defender suas teorias com veemência e fundamento. Mas não há de se contestar que o conhecimento não é passaporte para a tranqüilidade de ninguém. O pensar é característico dos seres inquietos, capazes de conciliar o prazer de absorver o que escreve um Umberto Ecco, não se descuidando de um prosaico caldo de feijão que estivermos cozinhando. O prazer da descoberta também é prazeroso. Quem não se dispuser a abrir mão dos prazeres fáceis, ganha em troca a placidez e o conformismo inerentes à ignorância.

Ao cercar-se de idéias de outrem tentando descobrir a sua própria, transformamo-nos e absorvemos o que o pensamento universal consolidou. Conhecendo mais temos mais escolhas. Mas a certeza, ah! Essa não vem. Atribui-se ao Galeano a frase: "Quando eu achava que tinha todas as respostas, mudaram as perguntas". É. Quanto mais aprendemos menos sabemos. Nossas convicções podem desmoronar-se na próxima investida de aprender. Abandonar o barco? Jamais. O verdadeiro prazer está exatamente na busca, em admitir a multiplicidade de facetas que compõem o universo e constatar que somos parte integrante dele.

12/08/2010

A música das Esferas


Quem de nós não se lembra do famoso Teorema de Pitágoras? Pois é. Mais conhecido como matemático, Pitágoras, passeava pelas diversas áreas do conhecimento, na ânsia de um entendimento da existência humana e do universo, que fugisse ao olhar mitológico do século 538 a.C. Conta a lenda que ao ouvir um ferreiro, identificou no golpear dos ferros com diversos martelos diferentes, sons harmônicos. Quis descobrir o que distinguia os tons e notou que a diferenciação não dependia da força do golpe, do feitio dos martelos ou dos variados tipos de ferro golpeados. Pesou os martelos e percebeu que o peso de quatro deles estava numa proporção de 12, 9, 8 e 6. Prosseguindo a experiência, fixou um prego na parede, amarrou quatro cordas idênticas em material e comprimento e pendurou na extremidade de cada uma, pesos iguais aos dos martelos do ferreiro. Tocou duas cordas ao mesmo tempo, ora um par, ora outro. O martelo mais pesado tinha o dobro do mais leve e lhe forneceu a oitava mais grave. Os princípios da aritmética e o conceito de média harmônica o fizeram compreender a razão pela qual os outros dois martelos produziam exatamente as demais notas da escala. Bingo! Tinha descoberto o fundamento matemático da música. Daí para frente o mundo conheceria o Pitágoras músico.

A música era vista pelos gregos como uma disciplina moral na educação, um freio nas partes físicas e agressivas da mente. Pitágoras purificava a mente de seus discípulos através da música, usando de melodias adequadas, no intuito de refrear angústias, compaixão, ciúme, traumas. Para ele, a psique humana era uma harmonia de razões que imitava a ordem e o restante do Cosmos. Ao descobrir os intervalos musicais visualizou uma correlação mística entre a aritmética, a geometria, a música e a astronomia. Estudando os planetas e as estrelas, associou-as a números e seus movimentos pareciam dotados de uma inteligência divina. Os corpos celestes movendo-se pelo espaço produziriam sons, a música cósmica ou música das esferas. Girando sem cessar, aconteceriam harmonias sem intervalo silencioso a partir do qual a música das esferas celestes pudesse ser percebida. O homem não seria capaz de ouvir tal música porque se habituara a ela, assim como os ferreiros se acostumaram com o barulho dos seus martelos

Mentes vigorosas, que se atiraram sem hesitação aos recursos disponíveis para revolucionar a consciência humana, floresceram em todos os tempos. Pitágoras, dono de um intelecto poderoso, mas essencialmente místico, usava a razão e o método empírico para justificar seus estudos, preenchendo lacunas que permitiriam o desenvolvimento da ciência e da filosofia grega. Assim como na matemática, na música, nossa compreensão das ciências em geral não nasceu de um dia para o outro; remonta a um passado longínquo, cujos fragmentos parecem ilógicos aos nossos olhos modernos, mas trazem pilares do conhecimento ainda vigentes, aperfeiçoados por gerações de pensadores.

O turbilhão de informações da atualidade nos leva a pensar que nada há para ser descoberto. A física explica como ondas sonoras se propagam, suas freqüências e amplitudes, mas a maneira como afetam o nosso inconsciente é única e isto é pacífico em nossos dias. A música das esferas é uma bobagem? Se não se sabe que algo existe, é preciso saber o que estamos procurando. Para Pitágoras, música era o reflexo de uma atividade espiritual interior usada para criar estados alterados de consciência, cujo modelo se repetia no Universo. Talvez exista apenas um véu mais ou menos espesso cobrindo certas verdades aceitas pela maioria e isto nos basta para justificar o comodismo e que nada mais há para ser pensado.

Paradigmas existem para serem quebrados. A harmonia do viver, paradoxalmente complexa e simplificada, exige de nós a aparente simplicidade da percepção e o rigor da disciplina para alcançar o estado mental necessário à abertura dos sentidos. Somos responsáveis por legar conhecimento às gerações futuras. A busca precisa existir sempre em nós, enquanto seres em construção, pois lembrando aqui Demócrito, filósofo grego do século V a.C: “Nem a arte, nem a sabedoria é algo acessível, se não há aprendizado”

02/08/2010

Palavra Proibida


Ela está aí, presente. Muda de cara conforme a densidade populacional, mas ameaça entrar pela nossa porta. Não sabemos ao certo se confiamos nos índices que dizem que a criminalidade aumentou ou se são os meios de comunicação que nos fazem senti-la próxima. Por mais que se queira crucificar a mídia, não há como tirá-la da convivência conosco. É claro que a exposição é maior quando se trata de pessoas influentes, ligadas ao meio artístico, como aconteceu nas últimas semanas. Atropeladores que não socorrem e querem se safar, policiais recebendo propina para livrar o envolvido, assassinatos, corpos sumidos, numa avalanche de notícias ruins, onde a agressão ao ser humano foi a tônica.

Compadecemo-nos pelo sofrimento da humanidade e ao mesmo tempo acionamos o medo quando não sabemos se o desconhecido que vem em nossa direção, vai nos pedir uma informação ou sacar um revólver. Não adianta. A adrenalina dispara, preparamo-nos para o ataque ou para a fuga, se as nossas pernas o permitirem. Pertencendo a uma instituição de caridade, este mesmo anônimo pode ser objeto da nossa ajuda. Fora disso, nossos instintos avisam que ele pode nos agredir.

Um amigo jornalista, o Adelar, já falecido, bradava na coluna de um jornal em que ambos escrevíamos: “sabemos que muitas leis não atingem a universalidade popular... Dêem leis claras e objetivas ao Judiciário que as sentenças serão equânimes”. Lá se vão dez anos e nada mudou. Se o criminoso sabe que os bens do seqüestrado estão indisponíveis por lei, a exemplo do que ocorre na Itália, por exemplo, vai pensar duas vezes antes de seqüestrar alguém. A objetividade das leis irá demandar menos tempo da justiça em resolver questões, atingindo uma maior parcela da população. A quase certeza da impunidade é uma das molas propulsoras da criminalidade.

Andamos eretos há bastante tempo. Teoricamente evoluímos. Na prática, continuamos a agir de forma tão rudimentar quanto os nossos antepassados mais remotos. Há que se ter a capacidade de evoluir também, gestando leis efetivas que contribuam para diminuir a violência contra o ser humano.

Neste milênio que esperávamos como aquele que iniciaria a era de Aquário e nos traria paz esperada, ainda não fizemos a nossa parte e estamos atordoados por não sabermos como dar o pontapé inicial na efetivação dessa paz.

Violência. Esta é a palavra proibida. Bani-la do nosso dicionário é o grande desafio da humanidade.



29/07/2010

Processo Decisório: Uma Reflexão para o Líder


A liderança impõe-nos decisões a todo instante e nem sempre bem recebidas pelos liderados, por mais que o terreno tenha sido preparado com cuidado. Mesmo o líder mais tarimbado, ressente-se das reações que as opções inexoráveis, que obrigatoriamente exigem mudanças profundas na postura da equipe daí em diante, provocam nas pessoas. Afinal, ele também é um integrante do time e sabemos como dói sermos temidos quando tomamos decisões que a nossa consciência entende adequadas, mas que não agradam a todo mundo e não é exatamente aquilo que nós mesmos gostaríamos de fazer, se tivéssemos alternativa melhor.

Buscamos a unanimidade mesmo concordando com quem disse que “toda unanimidade é burra”. Preferimos nos iludir e achar que somos queridos e amados, unicamente porque as pessoas envolvidas não nos deram feed-back, retorno, quando atingidos pela nossa resolução.

As regras de convivência recomendam que se evite a zona de atrito. Temos que ser diplomatas sempre, dizer somente aquilo que os outros querem ouvir? Claro que não. Até porque a fronteira entre a diplomacia e a hipocrisia é muito pequena. Idem, para o limite entre a franqueza e a grossura. Mas, não raro, engolir em seco, uma palavra recolhida quando estava prestes a escapar, pode nos dar um tempo para pensar se é realmente aquilo que queríamos dizer. Postergando um pouco, a cabeça refresca e podemos nos colocar no lugar do outro. Exercemos assim, a reversibilidade. Que nada mais é do que tentar averiguar o que é verdadeiro para o interlocutor. Implica em abrir mão do nosso conceito de certo, por mais convictos que estejamos dele, enxergar com os olhos da alma e interpretar pela ótica do outro.

Dói não sermos compreendidos. Mas fere mais ainda violentar-se ao invés de tomar a decisão adequada. Porque mesmo não sendo bem recebida, ela se torna correta quando no íntimo sabemos que após todas as precauções, foi a mais indicada.

Não vale a pena olhar para trás e desesperar-se pelas oportunidades perdidas, se a decisão tivesse sido diferente. Todos nós sabemos aquilo que é importante, aquilo que é imutável para nós, que faz parte do nosso núcleo. Uma vez resolvido, é melhor concentrar as energias nos ganhos que nos proporcionou. Mesmo que tenhamos que arcar com o ônus da indiferença, da cara feia daqueles que nos rodeiam e, não raro, amamos.

E se nos arrependermos? Bom, aí, resta usar a experiência como subsídio para as decisões futuras e tocar o barco. Lamentar-se? Jamais. Não engrandece, nem vale a pena.


14/07/2010

Dilemas da Liberdade de Escolha


Não ter medo, ser ousado, lidar com a adversidade e com as falhas humanas, - visto que, invariavelmente, em algum momento, erramos -, são atributos que entendemos necessários a àqueles que aspiram deter a tão propalada liberdade de escolha. Porém, qualquer autonomia esbarra na adesão forçada a que são submetidos aqueles que integram a base da pirâmide da nossa sociedade.

Os direitos pessoais têm como limite o direito alheio, com base nas regras delimitadas pelo Estado. A insegurança e a incerteza são sentimentos que sempre permearam o viver dos menos favorecidos. Num mundo onde a segurança dos direitos pessoais obrigatoriamente se alicerça na garantia dos direitos políticos, sem estes últimos, não se pode confiar nos primeiros. A liberdade se torna um sonho inalcançável. Os problemas são globais, repercutem nas questões locais e não admitem soluções gestadas no microuniverso, aqui em Pindorama.

O efeito dos acontecimentos econômicos mundiais, que privilegiam poucos e excluem muitos, une poder e política em escala planetária. O Estado impotente, não protege mais a sociedade. A força do mercado - amo e senhor – cujos agentes manipulam ao bel prazer uma enxurrada de capitais, qual tsunami passeando violentamente de um lado a outro do planeta; expõem a sua sagacidade ditando normas e impondo conseqüências que cabe ao Estado contornar. Na globalização negativa[i], são confiscados os meios de que precisariam para gerir seu destino, limitando a efetiva proteção aos seus habitantes. Não há mais ferramentas domésticas para garantir-lhes a segurança. As nações perderam a primazia na condução dos assuntos globais, restando-lhes administrar crises, trabalhar basicamente com medidas de emergência. Tais assuntos seguem seu curso independentemente do que façamos ou que possamos sensatamente pretender.

Nesse cenário, os direitos políticos são instrumentos de consolidação das liberdades pessoais calcadas no poder econômico. Quem não tem haveres, fica impossibilitado de exercê-los. Os recursos materiais e culturais que tornariam os integrantes das classes baixas aptos a serem “premiados” com os direitos políticos, são de difícil aquisição, pois a sua ascensão está condicionada a um equilíbrio de forças das quais os indivíduos são apenas peças da engrenagem.

Os problemas mundiais só são motivo de preocupação política quando provocam repercussões locais. A poluição em escala planetária do ar, da água, a exaustão dos recursos ambientais, só nos afeta quando alguém resolve construir um depósito de lixo tóxico perto da nossa casa, criando uma proximidade assustadora.[ii]A competição entre empresas farmacêuticas internacionais só é percebida, torna-se objeto de um olhar político, quando os serviços de saúde e suas instituições quedam-se defasados. Igualmente, o morador do continente europeu se sente receoso e ameaçado em sua segurança, quando o governo constrói moradias para refugiados no seu bairro, sinal que gente excluída bate às suas fronteiras, exigindo também para eles o mundo melhor que os primos ricos possuem.

As contingências do Estado e a tomada de decisões cada vez mais rápidas, ao sabor das quebras mundiais restringem o direito de escolha. Não se faz o que se quer, mas o que se pode. Esse imediatismo afetou o modo de legislar. Aqui no Brasil, o Executivo se arvorou no direito de fazer as leis ao abusar do recurso da Medida Provisória, sob o pretexto da urgência, transformando o Poder Legislativo em entidade que referenda atos que deveriam ser originados dele. Com isso, a sociedade se torna autoritária; reflexo dos esquemas políticos e econômicos pelos quais é regida. Sob a alegação de garantir preceitos morais ou de saúde, por exemplo, acabam impondo a maioria das regras às população.

O Estado que dita à exaustão o que o indivíduo deve fazer, invade a sua privacidade e não lhe deixa opções. As proibições reduzem o espaço de ação individual e só permite escolha dentro de um formato rígido, preestabelecido. Em conseqüência, a capacidade de influir no processo de elaboração das leis é quase nula. As determinações que são a espinha dorsal do poder, que influem direta e profundamente na vida das pessoas não estão ao nosso alcance. Confinam-se no âmbito governamental, que por sua vez se submete às contingências mundiais, para manter o seu status-quo.

A perspectiva de fazer a diferença enquanto indivíduo sucumbe ante a coerção dos currais econômico-eleitorais. Os direitos pessoais e os direitos políticos são exercidos assim, por uma minoria abastada da sociedade. O direito de voto é mero instrumento de submissão à vontade de outrem. A pobreza suga a energia na luta pela sobrevivência e a vontade das pessoas fica à mercê de promessas vazias e de fraude.

Algum tipo de escolha nos resta e as fazemos diuturnamente. Seja por ação, omissão, intuito ou negligência. Por decisão consciente ou apenas seguindo – cega e mecanicamente – os padrões costumeiros; por discussão ou deliberação conjunta ou apenas aderindo aos meios em que hoje se confia, por estar atualmente na moda ou ainda não terem sido desacreditados. Regras de convivência são estabelecidas, mas se trata apenas de um armistício. É nesse confronto que se desenvolve a dinâmica das nossas cidades modernas; onde as identidades locais se chocam e lutam para firmar um acordo satisfatório, que defina uma paz duradoura, mas que se sustenta apenas até que a urgência exija uma nova adaptação.[iii]



--------------------------------------------------------------------------------


[i]- Zygmunt Baumann – Tempos líquidos -, Zahar, 2007,.

[ii]Idem, pag. 88

[iii]Ibidem.

07/07/2010

A Lógica de Cada Um


Normalmente a lógica cai por terra quando se argumenta com alguém e o sujeito concorda de pronto. No pressuposto de que a concordância seja porque está convencido e não porque o vencemos no cansaço. Porque se foi a fadiga, estorna e segue o baile. O interlocutor está convicto de que a nossa argumentação é correta para que ele faça ou deixe de fazer determinada ação ou tenha certas atitudes. Prepare-se para o xeque mate: “É. Você tem está certo, mas eu não gosto. Eu não quero”.

Nessas circunstâncias, capitulamos. Contra a ausência de lógica ou de vontade, não há idéia ou procedimento que vá em frente. E o que é inconcebível para que se pauta pela coerência nas atitudes, para o outro é basicamente o predomínio do instinto. “Não estou com vontade de fazer”. O não fazer significa abrir mão das melhorias que o novo posicionamento traria. Mas se ele não aprecia a idéia ou não quer, significa que não está disposto a correr riscos para alcançar certos objetivos. Ou então, a última alternativa: Ele não está suficientemente persuadido dos benefícios que supostamente iria auferir. Não assimilou como verdade sua aquela proposição.

Outro argumento que dispensa qualquer réplica é: “Tudo bem, eu concordo contigo, você têm razão, mas por aqui é assim, dessa maneira que estamos acostumados a fazer”. Tradução: Você não foi esclarecedor a ponto de convencer, está enchendo a paciência de quem te ouve e ele está apelando porque não te agüenta mais e quer que dê o fora. Não tem jeito. Tire o time de campo e saia de fininho. Você entrou para a categoria dos chatos e dos indesejáveis. A pessoa que te ouve não quer mudar nada, está muito bem assim e você está sendo gentilmente convidado a não meter o nariz onde não é chamado e ponto final.

E os convencimentos aparentes? Aquele onde a pessoa fala, fala, mas alguma coisa lá no fundo não fecha. O argumento faz sentido, as provas se encaixam, mas o seu sinal vermelho acende. Intuição pura. Tire partido dela. As mulheres que o digam. Mas isto é outra história. Pensando bem, esta aqui já está ficando chata. Bye, bye.

03/07/2010

Don`t Cry for Maradunga

28/06/2010

Compulsão por Compras


O seu cartão de crédito não comporta mais nem compras no R$ 1,99, mas você continua ali, hipnotizada na frente da vitrine ante aquele suéter maravilhoso. Não adianta esfregar as mãos, rapazes, que a analogia vale para os homens também. Troca só a vitrine e lá está você. Imóvel, frente àquele acessório (in)dispensável para o carro que há tempos não sai da sua cabeça.


Analise a situação. Você está convencido de que precisa dominar os instintos. Tem certeza dos aborrecimentos que a atitude irá lhe trazer, mas ainda assim, alguma coisa lá no fundo diz eu quero. E quando se quer, parece que tudo o mais se anula. E se o lado negativo da ação fica zunindo na cabeça, tenta-se não pensar nele. Esquecer é temporário. Se o assunto é importante para nós, vamos nos deparar com ele novamente logo, logo.

Que instrumento poderoso é o querer! É ele quem nos move. Quando aspiramos muito por algo, não tem quem nos segure. Passa a ser a coisa mais importante para nós e concentramos todos os esforços em concretizá-lo. Mas tem um detalhe. Não vale a pena canalizar todo o nosso potencial criativo a serviço do querer, se ele estiver desprovido de lógica, se as coisas não fizerem sentido, não tiverem coerência. Aí é compulsão pura e simplesmente.

Existem as ocasiões em que ficamos em cima do muro, há chances de dar certo o que nos deixa indecisos. Tiremos partido da hesitação para respirar fundo e nos indagar com sinceridade se é a melhor alternativa. Se acender o sinal vermelho, desistamos. Intuição pura. As mulheres que o digam.

Mas se o caso é de compulsão mesmo, saia imediatamente da frente da vitrine. O prazer que o objeto adquirido vai te proporcionar não compensa o desespero que vem depois.

20/06/2010

A Resposta


Eles até podem fazer com as pessoas o que quiserem e a opção de não responder, opinar, negar ou manifestar qualquer reação no ato, exceto a aceitação, não significa que realmente tenham feito o que desejaram com outrem. Quer dizer apenas que seus alvos se reservaram o direito de não reagir. O que as “vítimas” vão fazer com o ocorrido, com a informação, bem como os posicionamentos que venham a adotar ou decisões que porventura tomarão em conseqüência das ações que lhe foram provocadas é algo que lhes cabe somente e igualmente se dão ao luxo de dar conhecimento ou não à parte que lhes afrontou. Se o fizerem, será no momento adequado, com a forma de comunicação que lhes for conveniente. E, talvez agora, os autores também não esbocem a reação esperada quando lhes for dado conhecer, simplesmente por não perceber a resposta que lhes está sendo dada.

Como diria o magnífico escritor José Saramago - recentemente falecido – em sua obra A Caverna: “O importante é o caminho que se fez, a jornada que se andou, se tens consciência de que estás a prolongar a contemplação é porque te observas a ti mesmo ou pior ainda, é porque esperas que te observem. Comparando com a velocidade instantânea do pensamento, que segue em linha reta até quando parece ter perdido o norte, cremo-lo porque não percebemos que ele, ao correr numa direção, está a avançar em todas as direções, comparando, dizíamos, a pobre da palavra está sempre a pedir licença a um pé para fazer andar o outro, e mesmo assim tropeça constantemente, duvida, entretém-se a dar voltas a um adjetivo, a um tempo verbal que lhe surgiu sem se fazer anunciar pelo sujeito”.

Aquilo que não queremos ouvir é a nossa maior dificuldade a enfrentar. Os outros podem até ter alguma pontinha de razão, mas nos ofendem mortalmente se nos atiram o que julgam verdades na cara, mas decididamente, não tem esse direito. Não podem inferir no nosso livre arbítrio, arrombar uma porta sem esperar que a abríssemos de livre e espontânea vontade e remexer assim no más no nosso lixo adormecido, onde é que já se viu? Ignoram deliberadamente os percalços e o esforço hercúleo para chegar até aqui. É fácil cobrar de nós o nós o resultado, a conseqüência, quando só nós sabemos, como apropriadamente ilustra Saramago no texto anteriormente transcrito, o que realmente nos importa é o caminho que percorremos e nos incomoda deveras sermos pegos de surpresa. Também nos perturba perceber que as pessoas estão nos notando, exigindo respostas que não temos condição de dar e atrapalhando o vagar todo próprio do nosso pensamento solto e livre que é, mas sob o nosso domínio pessoal e não à mercê de um atropelado qualquer de palavras que não tenham saído da nossa própria boca. Exigem-nos a perfeição. Não. Esse território é nosso. Somos senhores do nosso crescimento por mais arrogante que isto possa parecer. A contemporização da resposta é só o tempo necessário para metabolizarmos o que serve e expelir o resto. Eles podem até não esperar, mas que a resposta vem, ah! isso vem.