31/12/2009

Trato


Então fica assim.


Está combinado.

Está tudo combinado,

plagiando aquele rap.

Para 2010 não vale tristeza,

não adianta desesperança.

Só conta cada sorriso,

verdadeiro, feito criança.

Marca ponto ser autêntico,

ou pelo menos tentar sê-lo.

Rende ao relacionamento,

um mero afago no cabelo,

daquele que a gente ama,

do que é companheiro.

E se der aquela vontade

de cantar no banheiro,

e que por um momento,

sejamos estrelas no chuveiro.

Não. Não quero sorriso forçado,

quero algo natural.

Não quero camuflar a boca

e olhar fugir sorrateiro,

denunciando-me a angústia,

instalando-se por inteiro.

Que a brisa seja sentida

e não apenas vislumbrada.

Que a contemplação seja engolindo

o ar puro pelas narinas

e quando menos se esperar,

impregnar na retina,

aquele cheiro de mar.

E não se possa fazer nada

que não integrar-se ao todo,

deixar vir aos borbotões

a energia que emana

da divindade, presente

em cada um de nós.

Não, eu não quero ouvir,

que a paz não é possível,

que verdades podem ser construídas,

que utopia é perda de tempo.

A construção de cada humano

revestido de ternura

implica na parte de Deus,

inscrita em cada criatura.

Que se insere todos os dias,

sem que se possa perceber.

A evolução sai devagarinho

e não dá para saber

qual foi o momento exato

da alma prevalecer,

sobrepujar o instinto,

recobrir-se da matéria pura,

tão leve que não imaginamos.

Tão sutil que não percebemos.

Tão límpida que não sentimos

o transcorrer da evolução.

Terra, eu te peço

para 2010 e entre tantos que virão,

mais paciência conosco,

mais resistência com os ataques

que a humanidade te impõe.

Seja na violência contigo,

seja com seus habitantes.

Que se inicie o caminho de volta,

ao paraíso de antes.

29/12/2009

Um lugar para conhecer antes de morrer


Um frio de 10 graus positivos nos recebeu em Bogotá. Para Marluce e eu, oriundas do calor amazônico, o ventinho acolhedor era de gelar os ossos. Ceci, nossa anfitriã, era dona do El Goce Pagano, uma casa noturna de música caribenha. Um mojito preparado por ela pôs fim à tremedeira e nos deu as boas vindas.


A época da viagem era explosiva. Literalmente. Os guerrilheiros do M-19 haviam invadido e incendiado o Palácio da Justiça. No episódio, morreram quase todos os integrantes da Suprema Corte de Justiça do País. No dia anterior à nossa chegada havia explodido o vulcão de Armero, há pouco mais de cem quilômetros da capital. O medo não impediu que perambulássemos pela cidade e conhecêssemos as choperias, usufruíssemos dos belíssimos concertos na Universidad Nacional, da mostra de cinema cubano em pleno isolamento, inclusive cultural da ilha de Fidel. Por toda parte, capacetes sobre os telhados indicavam a presença de franco-atiradores e a Ceci não largava do nosso pé.

A delicada situação impediu que visitássemos o outro destino da nossa viagem: Cartagena. A Colômbia que eu amo não tem cartéis. Tem salsa, tem gente como a Ceci. Nos traços ríspidos da minha amiga colombiana sobressaem-se os olhos. É como se ela emergisse do universo mágico de Gabriel Garcia Marques e enxergássemos dois poços de um verde infindo, como as esmeraldas de lá. Olhos ancestrais, intermináveis. Sós. Tem também o que restou do Museo Del Oro. E olha que sobrou bastante. Imaginemos o que os espanhóis carregaram para o continente europeu? Tem as rosas mais bonitas que eu já vi e a magnífica Catedral de Sal de Zipaquirá, subterrânea, esculpida numa mina desativada de sal mineral. São tantas belezas que guardo na retina, difícil de enumerá-las todas, sem fazer injustiça àquela que porventura ficasse de fora. Mas tem uma que não dá para esquecer: A minha sonhada Cartagena das Índias, com seu mar e seus fortes, protegendo-a dos piratas de outrora, que povoam a minha imaginação e impulsionam o desejo de estar lá. Já se decorreram mais de vinte anos. O sonho permanece e me enche de saudade. Da aventura, da irresponsabilidade em não desmarcar uma viagem mesmo sabendo dos acontecimentos. Dos ímpetos peculiares a quem tem vinte e poucos anos e da atmosfera mágica que parecia cercar aquilo tudo. Talvez os olhos de hoje não sintam a mesma magia, mas Cartagena das Índias ainda é um lugar que eu quero conhecer antes de morrer.

09/12/2009

Não é preciso




Tem certas coisas que até podem acontecer, mas não é preciso que passemos por elas ou que as suportemos. Não é preciso ir de carro até a praia se você está há dois quilômetros dela e pode muito bem aproveitar para caminhar mais este trecho e assim obter melhor condicionamento físico. Afinal, caminhar faz bem em qualquer sentido seja ele estético ou de saúde. Mas podemos usufruir igualmente dos benefícios da caminhada extraindo dela o que ela puder lhe oferecer de melhor. E o melhor pode ser deixar para caminhar na beira da praia que é mais prazeroso e saudável, longe do vaivém dos carros e suas descargas. Nós já enfrentamos stress e buzina o ano inteiro e se pudermos ter a areia do mar, porque se contentar com o cimento?

Não há necessidade de sentir dor física. Sabemos que ela é o sinal de alerta do organismo, que precisamos dar-lhe a atenção necessária para que a doença não se alastre. Se não sentíssemos dor, nosso corpo se deterioraria sem que percebêssemos e não haveria como evitar a morte. A medicina nos mostra que as piores doenças são aquelas em que entre os seus sintomas não se encontra a dor, como o diabetes, por exemplo.

Almejamos sentir o mínimo possível de dor, se viável isto fosse. Mesmo com o físico na idade madura, queremos a vitalidade dos verdes anos e a quase ausência de dor que eles nos proporcionam. Passamos longos anos em busca do bem estar físico e quando vamos refazer a contagem percebemos que os momentos de cansaço ou sofrimento físico foram os companheiros mais fiéis da jornada. Tão presentes, que nos acostumamos com eles e não queremos que vá embora. Geramos assim um círculo vicioso que redunda em mais doença e menos satisfação. Com isto, perdemos a capacidade de usufruir da sensação de bem estar crescente que pode existir em cada momento, em cada atitude positiva nossa.

Não adianta olhar para trás e constatarmos que o instante anterior era melhor que o atual e que ameaçadoramente é o que acontecerá no período seguinte. As dores não podem ser o pretexto para se fechar para a vida. Porque aí alimentamos a dor mais perigosa: A que mina os nossos sentimentos, a nossa mente e nos deixa incapazes de extrair da existência a sensação de plenitude. Envelhecer é preciso. Deixar-se invadir pela dor, não.