13/11/2009

Mau Humor Matinal



Tem dias que achamos que estamos fazendo mais pelos outros do que aquilo que julgamos que eles sejam capazes de merecer. Parece que a nossa cota de gentileza esgotou-se e aqueles que nos rodeiam estão em débito conosco.

Há dias em que acordamos com a cara feia e que temos de concordar que o nosso bom dia sai meio azedo. Não é um bom dia de boca escancarada, acompanhado de um sorriso que vem de dentro. É um balbucio, que preferiríamos até não esboçar, mas que a cortesia do dia a dia nos impõe. O mínimo que esperamos é que o outro enxergue o nosso mau humor matinal, respeite-nos e fique quieto também. Embora nos levantemos às sete da manhã, nosso corpo só vai dar por conta que já está de pé lá pelas dez horas. Aí sim é que vamos entrar no ar como se a inércia sumisse repentinamente e nos invadisse a vontade de cantarolar: “...deixa vida me levar, vida leva eu...” Ô Zeca Pagodinho filósofo que só. O rádio a estas alturas já está ligado ou o fone de ouvido e então abrimos o melhor sorriso para quem estiver em volta. Simples, assim. Tão fácil de entender, pensamos.

É difícil ser gentil sempre, seja em casa, no trabalho ou com os amigos. Quanto mais íntimos, mais cremos que eles são capazes de nos entender nos momentos difíceis, que estamos “fechados para balanço” ou que são traços da nossa personalidade, peculiaridades do nosso funcionamento. Aí é que a coisa pega. O outro lado também espera o mesmo de nós e o que dizemos abruptamente nessas horas, sem pensar, magoa e fica remoendo. Tira o sabor dos bons momentos compartilhados.

Lembro-me de uma cena de um filme de desenho animado da Disney, onde coelhinho de nome Tambor faz troça das pernas desengonçadas do Bambi que está aprendendo a andar. É quando mamãe coelha diz mais ou menos assim: - Tambor, lembre-se do que seu pai lhe disse: Se não puder dizer uma coisa agradável, então é melhor que não diga nada – Pode ser uma boa saída.

06/11/2009

A medida da vaidade




A vaidade é um dos elos indesejáveis na corrente do bem. Para que as pessoas sejam estimuladas a engajar-se numa boa ação é preciso que elas saibam que esse modelo existe para que possam empenhar seu tempo e esforço agregando valor a essa cadeia possibilitando que o bem se expanda. Mas o pecado está na vaidade. Ao se expor, mesmo que com a melhor das intenções estamos dizendo ao mundo que somos bonzinhos, que fazemos isso e aquilo e cá prá nós, traz uma satisfação ímpar ao nosso íntimo. Esta fogueira de estímulos se propaga ao ponto de inviabilizar ações benéficas se duradouras, pois o que era para ser um trabalho altruísta acaba se tornando uma guerra de egos.


Todos gostamos do aplauso, faz parte da nossa natureza de ser social estar buscar sinais de aprovação onde quer que eles estejam, mesmo que sutis e que o nosso íntimo possa exultar e sentir: "alguém me viu". Vaidade misturada com poder, a dupla que anda sempre junta na demarcação do espaço que julgamos ter direito.


Na esfera institucional, virou moda a responsabilidade sócio-ambiental nas empresas, que combina o binônimo natureza e relacionamento social. A instituição ou empresa que não explicita sua preocupação com o meio ambiente e com as pessoas que interagem com ela está fadada à exposição pública, taxada de politicamente incorreta. A alternativa é fazer, simplesmente, mas dê-lhe mídia para divulgar que está realizando e não raro, gasta mais com a publicidade do que com a atividade em si. “Puxa, mas o que quer então a turma da patrulha? Se não faz é cão danado e se faz é exibida, vaidosa?”. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. O que se defende é o cuidado com o brilho e não se deixar ofuscar por ele. É instintivo, inocente até. "Mas como eu não estou fazendo nada? Eu faço isto, isto e isto. É pouco?". Cada um faz o que pode, o que está ao seu alcance e a visibilidade também faz parte do encadeamento. O difícil é acertar a dose e ser sincero. Podemos calcular racionalmente todos os benefícios que um produto irá proporcionar ao consumidor, mas se não encontrarmos uma forma de atingir o consumidor no seu lado emocional, ele pode até emplacar, mas antes dele vai ter muito produto pior porém mais focado na divulgação que vai cair no gosto do mercado muito antes ou até o ofusque ou destrua quem não teve tanto cuidao assim com a propaganda.


Mesmo ícones do altruísmo, com um histórico incontestável de atitudes de vida voltada para o próximo não escapam dela. Um exemplo nos é trazido na entrevista concedida à jornalista Marília Gabriela por Marcel Souto Maior, biógrafo do falecido médium Chico Xavier. Indagado se havia algo que o incomodava em Chico Xavier, ele afirmou: "Sim. A vaidade. Nos últimos anos da vida dele, aqueles mutirões de caridade e cura seduziam multidões e os meios de comunicação divulgavam maciçamente tais eventos. Mesmo com a saúde frágil, tais ocasiões lhe eram muito agradáveis".


Refletir sobre a vaidade não é suficiente para que sejamos "perdoados" do pecado de conviver com ela admitir que a temos e que de certa forma até, ela faz parte do contexto das boas ações. O próprio ato de repensá-la para saber se está na medida certa para com os propósitos do bem, embora bem intencionado não deixa de ser apenas uma constatação. Significa assumir que somos vaidosos não só no que se refere à imagem como também quando se trata de ações, por mais altruístas que pareçam. Todos nós estamos sujeitos mesmo quando não divulgamos explicitamente o bem que fizemos, não resistimos e avisamos em pensamento ao Deus da nossa crença: "Olha lá, estás vendo que eu fiz uma boa ação, não está?. Vê se põe na minha contabilidade do bem”.