09/10/2009

Vida de Novela




Existem características e posturas que se incorporam à pessoa e formam a visão que temos dela, até os mais íntimos. Há quem saiba ser sedutor em público, passar uma imagem maravilhosa e ser um desastre na intimidade. Passamos a vida representando então? Buscando o melhor para si no intuito de construir um personagem para representar? Seria simplista concordar que conscientemente o ser humano possa fazer isso. Mas sabemos que não é difícil nos emaranharmos nas teias que construímos e passamos a incorporá-las, acreditamos nelas e vendemos essa imagem para os outros.
Uma novela de TV tem de 30 a 50 personagens, exceto a figuração. Se a história acontece no interior, há um bar, uma farmácia, uma religião, uma determinada loja, um salão de beleza, deixando o resto dos personagens para a imaginação do telespectador. Está implícito. Na vida real são os familiares, os amigos, os colegas de trabalho, a padaria, o supermercado de sempre. O resto é figuração, não tem importância para nós. Só nos chama a atenção quando precisamos deles. O hospital X, por exemplo.
Olhamos para as pessoas e acontecimentos ao redor do nosso mundo com lentes desfocadas. O acidente, o casamento, o vestibular além das fronteiras que delineamos, são elementos de uma vitrine na qual os nossos sentimentos não ultrapassam, exceto se nos ameaçarem. Da mesma forma, elaboramos um “eu” fictício, que com o tempo passa a fazer parte de nós. Construímos um mundo ideal, para o qual fixamos limites que nos confortam e tranqüilizam.
Enquanto não consolidado, o halo de força pode ser rotulado de hipocrisia, duas caras, falsidade, por incorporarmos um papel que não somos nós por inteiro. Após absorvido pode significar uma mudança de personalidade, uma pessoa diferente daquela que as pessoas conheceram há tempos atrás.
Quando revemos alguém após muito tempo e retomamos o convívio, percebemos que a mudança não foi só externa. Não permanecemos os mesmos por tanto tempo. Quando mudamos, não se trata de assumirmos papéis que foram criados ao longo da vida, mas da incorporação gradativa de um ideal que sempre fomos. O convívio propicia as trocas e com elas mudamos. Se nos modificamos radicalmente é porque sempre fomos aquilo que nos tornamos. Apenas invertemos o iceberg.

Um comentário:

  1. Descobri este espaço nas andanças pelo google. Adorei as crônicas. Voltarei mais vezes. Pelo menos uma frase sua estará na próxima postagem do nosso blog: http://alfabetizacaoemfoco.blogspot
    Com os devidos créditos é claro. Se não estiver de acordo, basta um comunicado e retiraremos. Seu espaço é muito interessante.

    Abraços.

    Lenira.

    ResponderExcluir

Por favor, deixe aqui sua opinião sobre o texto.