19/10/2009

Ausência de motivação ou de vontade?



Enquanto motivação é a ação de tudo o que pode impelir uma pessoa a um comportamento, a vontade é a tendência ou inclinação espontânea, agir livremente, querer fazer. Relutei em começar este texto, quando a idéia me veio à cabeça, mesmo sabendo que se não lhe desse forma o tema me fugiria. Falta de motivação ou de vontade?

Você trouxe frios do supermercado e não os acomodou logo, pois apareceu algo mais urgente. Raciocina que quem vá usar primeiro, guarde da forma habitual. Porém, a maioria dos nossos anjinhos deixa-os abertos, os plásticos escancarados, o presunto escorrendo à espera do nosso ataque de nervos. Mas é tão fácil. Frios no pote, plásticos no lixo seco e pronto. Mas cadê a vontade?

Você presenteou alguém com um processador de alimentos que só falta voar. Tem pecinha para tudo. “Que pena, sujar tanta peça... e eu moro só”, retruca a presenteada. Ponto para ela. Pouca gente se dispõe a enfrentar qualquer equipamento, sem que se faça a relação esforço-benefício.

Você está no trabalho e precisa daquele relatório que imprimiu, mas não sabe onde está e não lembra o nome do arquivo. Mesmo assim, prefere procurar no computador, imprimir um calhamaço de folhas, antes de dar uma olhadinha na gaveta. Mas isso é a impressora que faz...

Experimente pedir aos filhos para atar os cadarços dos tênis ou pisar dentro deles, ao invés de estragar a parte traseira de tanto pisar em cima. Eles vão discutir à exaustão a falta de importância do ato, quando seria muito mais fácil gastar menos de um minuto calçando o tênis direito e atando-o e poupar a sua paciência.

Territorializamos nossas vidas em cima do conhecido, do conveniente no momento. Para abrir mão de uma vontade ou da ausência dela, gastamos energia desnecessária e na prática deixamos de satisfazê-la. Não é jogando para debaixo do tapete ou postergando que resolvemos. Em contrapartida à nossa vontade, existem outras tão férreas quanto a nossa. Uma delas é a consciência e o remorso cobrando um tema perdido, como acontece sempre comigo. A continuidade é o drama de cada dia. A rotina é o desafio. Precisamos começar sempre e ter a desculpa para não terminarmos. Iniciar é estimulante. Continuar é entediante.

Questionado sobre seu imenso poder, o personagem principal de um filme infantil da década de noventa, O rei Leão diz: “Existem mais coisas que temos que fazer além da própria vontade”.

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