30/10/2009

Além das Aparências



Gente de caráter não se liga com quem emite baixas vibrações. Parece coisa de místico, mas pode traduzir por antipatia simultânea. “Não fui com a cara dele(a)”. Ou sentimentos bem mais terrenos como “não fecha comigo e pronto. Não vou perder meu tempo”.

Pode parecer prepotência, mas todos nós temos o direito de escolher com quem queremos nos relacionar, a menos que as circunstâncias nos obriguem. Nestes casos, apenas suportamos, com um esforço enorme da nossa parte, porque implica se violentar. A zona de atrito é maior quando estão em jogo não somente situações corriqueiras, mas quando por trás da aparente singeleza delas escondem-se caráter e valores incompatíveis com os nossos. A sensação é de desamparo. “Porque é que eu tenho de passar por isto?. O que eu fiz para merecer este castigo?”

A capa de civilidade às vezes ofusca as verdadeiras intenções. Com os broncos é mais fácil. A gente já sabe o que se espera deles. Eles já vão estourando, quebrando os pratos logo de cara. Mas quando a coisa não é nítida, não é mensurável e aparentemente não se tem justificativa lógica, aí é que mora o perigo. A delicadeza no tratamento, adotada para mascarar os verdadeiros propósitos, confunde os incautos. Mas sempre acende uma luzinha lá dentro que a gente não sabe o que é, mas sente que algo está errado. E ela fica piscando, emitindo sinais de alerta como uma onda de calor captada por um equipamento ultra-sensível, mas penosa de se alcançar.

Tudo o que não é aparente é complexo provar. Ficamos com o sentimento de sermos os únicos a enxergar um demônio por trás daquela capa de sedução. Tem que ter muita precisão para perceber que aquele(a) que gosta de “tirar casca de ferida”. Não há antídoto, já que a ausência de escrúpulos demonstra tratar-se de pessoas determinadas, que sabem muito bem o que querem.

Se a convivência não nos é tão dolorosa assim ou se precisamos mantê-la sob pena de outras perdas que nos causariam igual ou maior sofrimento, vale uma partida de xadrez. A gente pode até jogar, mas fica cuidando dos movimentos do outro para poder ver o lance ideal. Só não vale executar jogadas previsíveis, porque aí é xeque-mate na certa. Se a opção for não encarar o relacionamento, uma dica vem do Dalai Lama “Se você achar a pessoa tão desagradável, que seja impossível agüentá-la, talvez seja melhor sair correndo”.
 

26/10/2009

Primeira impressão



Ironicamente alguém comentou que ela era uma pessoa “espaçosa”. Queria dizer onde quer que fosse ocupava todos os lugares, inundava a todos com a sua presença. Uma pororoca visual e falante que não deixava ninguém incólume após sua passagem? Ou alguém do tipo “arrasa quarteirão?”. A semântica pode ser diferente e o sentido era o mesmo. Pessoas deste tipo fazem as coisas acontecerem. Incomodam, deixam todos irrequietos na cadeira e por detrás do sorriso, enxergamos ameaças. E elas dizem a que vieram, deixando-nos perplexos sem saber se são ingênuas demais; ou então se são boas estrategistas que largam de chegada a capa da autenticidade, mas não se afastam um milímetro sequer daquilo a que se propuseram. Provocam antipatia ao primeiro contato e deixam todos com o pé atrás.

É muito bom quando há uma reversão de expectativas em relação a pessoas com quem inicialmente havíamos nos antipatizado. Neste caso a inversão de posicionamentos é positiva e refere-se à síndrome da primeira impressão. Deixamo-nos levar precipitadamente pelo reflexo que o primeiro contato nos causou e por ele passamos a moldar todo o nosso comportamento em relação a alguém.

Vivemos numa gangorra, preocupados demais em não sermos volúveis e aí mantemos posições indefensáveis, pelo simples motivo de que a primeira impressão é que conta. Perdemos com isso a oportunidade de conhecer melhor, descobrir a verdadeira personalidade do recém-conhecido e os benefícios que poderíamos auferir do manancial de conhecimentos únicos que cada ser humano dispõe. Não descartamos o poder da intuição. Mas a proposta é depurar nossos sentimentos, identificar o componente emocional que na maioria das vezes constitui a visão negativa e procurar o que é verdadeiro em si, o que realmente reflete a índole da pessoa e o seu comportamento frente a vida. Olhando o fato em si, podemos racionalmente escolher se queremos compartilhar ou não, relacionarmo-nos ou não com aquela pessoa. Se a impressão continuar negativa, aí sim, podemos concluir que não vale a pena.

É claro que ninguém pára para fazer elucubrações, filosofar, raciocinar e concluir se aquele motorista que nos deu uma fechada no trânsito, nos xingou, merece a nossa consideração ou se vamos riscá-lo do nosso mapa mental. A velocidade das interações não nos permite tais paradas, mas pelo menos podemos fazer um esforço para que o negativo não vinque no cérebro e nos estrague o dia. Principalmente quando a convivência é curta, porém intensa e nos assusta, como é o caso da nossa amiga “espaçosa”. A criatura pode ser alguém com personalidade, apenas. Um doce de pessoa, insegura ao se inserir num ambiente que não conhece, enfim. Só derrubando as barreiras, desarmados é saberemos realmente que tipo de ser humano existe detrás da fachada inicial.


24/10/2009

Gota D'água


“Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa. Que qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota dágua...Pode ser a gota dágua...”A repetição da última frase da música do Chico Buarque fica ecoando em nossos ouvidos. “pode ser a gota d`água...Pode ser a gota d`água...” Vá ser sensível assim mais longe, o Chico. Para perceber com tanta sutileza as nuances da alma feminina... Só pode ser mulher. Ou então travestir-se em sentimentos tipicamente femininos ou que assim transparecem ser. Talvez por isso aquele par de olhos verdes fique grudado na retina das mulheres cinquentinhas, um pouco mais, um pouco menos, anos a fio. Mostrando em canções os matizes dos inevitáveis sofrimentos da existência, como diz um amigo nosso.

Estamos resvalando aqui para o preconceito, ao intitular de feminina a prerrogativa da sensibilidade, mas é de caso pensado. O sentimento é intraduzível na maioria das vezes, por mais que nos esforcemos em transmitir aos parceiros, companheiros, a ponta de mágoa que um gesto, uma intervenção inoportuna provocou em nós. No fundo, é a famosa gota d`água. Represada, uma hora aparece a última gota. Como se houvesse a necessidade de esvaziar permanentemente o copo de mágoas e não deixar a cólera tomar conta.

Ah, Chico, você não pode ser real. Se fosse, estava junto com a Marieta e nosso raciocínio tosco, maniqueísta, iria por água abaixo. Amamos, logo, ficamos juntos. Se não estamos juntos, descuidamo-nos. Portanto, não amamos e em conseqüência nada do resto tem validade. A percepção quase irreal das emoções alheias beirando a perfeição, não passava de um blefe e de uma tacada só, invalidamos tudo. Se não foi perceptível ao outro, entendeu-se que ele não atribuiu a mesma importância que nós e, não raro, rotulou na coluna das bobagens.

A razão nunca tem um lado só. Mas a ótica do rancor é muito particular e não se desvanece com raciocínios lógicos. Ela nos fere e pronto. Se não conseguimos clarificar, transformar em palavras a “gota d´água”, por mais que o outro insista, resta-nos o passar da tempestade para saber se realmente dá para juntar os destroços.

22/10/2009

Ritos de Passagem



A indiazinha tikuna tinha a pele amarelada pela malária e não aparentava mais que doze anos. Mas o que lhe dava um ar mais estranho ainda, era a cabeça, coberta por uma penugem rala. Tivemos contato com ela na Casa do Índio, de Atalaia do Norte-AM, nos anos oitenta, quando trabalhávamos em Tabatinga-AM. Foi quando conhecemos o ritual de passagem da tribo, conhecido como festa da moça nova.


Os tikunas, tribo do alto Solimões, com grupos espalhados também pela Amazônia peruana e colombiana, tem entre seus hábitos, a festa da moça nova,  Quando a menina tem sua primeira menstruação é dado conhecimento á tribo que entre eles há uma nova mocinha, preparando-se para ser mulher. Ela então é retirada do convívio dos demais e levada para um lugar reservado sob a guarda das mulheres mais velhas, onde ficará confinada durante aproximadamente um mês, tempo normal até que venha a próxima regra.   Quando ela menstrua outra vez, há uma grande festa e é apresentada como uma nova mulher na aldeia. Durante as comemorações, seus cabelos são arrancados fio a fio pelas mulheres da tribo. Na ocasião, seu pai escolhe aquele que será seu marido. Há todo um ritual com bebidas e  danças com vestimentas feitas de casca de árvore e máscaras que identificam cada família, feitas de uma madeira muito leve a tingidas com pigmentos naturais.

As comunidades católicas e algumas evangélicas realizam cerimônias de primeira eucaristia para crianças, geralmente pré-adolescentes. Participamos há tempos, de um destes rituais e presenciamos o desfecho de uma preparação que dura de dois a três anos, conforme a comunidade. Elementos como a oração, estudo dos evangelhos, temas como o sal da terra, a luz do mundo, são reforçados nas celebrações, que não deixa de ser um rito de passagem dentro da religião. A criança é apresentada à sua igreja e está verbalizando para todos que está apta a receber o Cristo em seu coração, através do rito da comunhão. Comum união. Passa a fazer parte de uma grande família que defende os mesmos princípios, valores e crenças.



Outros povos têm os seus ritos. Eles são estranhos e até cruéis a quem não conhece o contexto, como no caso da tribo tikuna. Não existem fronteiras físicas na Amazônia a não ser o Rio Solimões e marcos isolados ao longo da fronteira, que são guardados pelas nossas Forças Armadas, mas de resto, se estende pela Colômbia e pelo Peru, indiferente ao traçado dos mapas.

Não existem fronteiras para o ser humano dizendo claramente que uma fase terminou e que se iniciou outra. Mesmo que internamente saibamos quando a mudança se deu, precisamos comunicar aos nossos comuns, o que está acontecendo conosco e para isto criamos os ritos. São cerimônias que nos marcam, fortalecem-nos e nos dão identidade. Quando os perdemos é porque não precisamos mais deles ou porque os substituímos por outros que melhor nos tocaram, preencheram-nos, fazendo rever nossas crenças e buscar outros caminhos para dar sentido à vida.


21/10/2009

Projetos



É bom iniciar projetos, buscar soluções que ninguém pensou antes, que nos diferenciam frente aos nossos pares, à nossa comunidade.

Mas existem aqueles projetos que transcendem ao individual, ao ambiente de trabalho e envolvem a coletividade. Estes padecem de um problema crônico: a falta de continuidade na sua execução quando o autor da idéia passa o cargo adiante. A maioria não resiste a uma troca de diretoria, de mandato. Rei morto, rei posto. Quando se trata do setor público, temos o hábito de atribuir-lhe todas as mazelas de uma comunidade. Raciocinamos como se o Poder Público fosse uma entidade etérea, composta só por seus governantes e os edifícios que os abrigam.

Como se não houvesse cérebros, pessoas que se encarregassem de dar forma às ações. Eles lá e nós cá, quando é o contrário. Há um todo do qual fazemos parte e no qual temos que oferecer nossa contribuição enquanto cidadãos. É fácil ter algo incorpóreo para atribuir a culpa. A empresa, a escola, a prefeitura, a direção. Ao invés de nominarmos a quem se responsabiliza ou deveria fazer o quê, atiramos para o impessoal. Mesmo na personalização a tendência é sempre para o abstrato: “Eles não querem que se faça assim”. Eles quem? É a medida da sociedade às escuras, onde indicar responsáveis significa antes de tudo a possibilidade de atribuir culpados. Resquícios da ditadura, preocupação com o réu e não com a tarefa de sanar o erro corrigir os rumos e seguir em frente.

A maioria dos bons projetos não está à espera de ser criado. Já existe e precisa tão somente que mais alguém entre no barco e ajude a remar. O próprio Poder Público não existe sem uma coletividade que o apóie, que coadune com suas propostas, que esteja alimentando-as com suas idéias. E principalmente, que esteja atento àquilo que foge dos propósitos globais, que não surtiu os efeitos desejados e que precisa ser reavaliado. Criar o novo demanda esforço, convencimento e dinheiro para erguer toda a nova estrutura. Examinar pelo menos aquilo que o antecessor fez é no mínimo questão de bom senso. Às vezes, encampar uma idéia e aperfeiçoá-la conferindo-lhe uma roupagem mais solidificada, preservando o objetivo inicial, poupa tempo e desgaste. Sem contar que por não ser habitual, forja imagem de altruísmo e coerência de quem, antes da paternidade de um feito, quer saber se ele é viável ou não, à luz da racionalidade e do bem comum.

20/10/2009

MATRIX - Qual realidade você quer?


Só a MATRIX cria ilusões para a maioria dos humanos. No mundo real muitas vezes também somos levados a escolher em qual realidade queremos acreditar: Real ou virtual? A pílula azul ou a vermelha, como no filme MATRIX Reloaded. Admitir, mesmo que em tese mais de uma realidade é cutucar com vara curta conceitos já vincados em nosso cérebro e para os quais o defensor antes de ser identificado como pretendente a criação de um novo conceito é simplesmente rotulado de louco. Não é compreensível defender junto aos incautos a idéia de contrapontos consolidados. Não existem “metades”. Há “metade” e pronto. É raciocínio pacífico. Fugir disto é inventar outro modelo e partir em direção a raciocínios de multidimensionalidade, ramo hoje mais entregue aos místicos, mas secretamente pesquisado, exaustivamente estudado pela ciência. Como o modelo atual da ciência é fisicalista, o próprio resultado da pesquisa só é divulgado por aqueles cientistas de vanguarda ou pelos claramente dispostos a quebrar o paradigma vigente. Foi assim com Einstein e a teoria da relatividade, embora ela não seja exatamente um exemplo novo, porque se valeu dos conceitos da ciência atual.

Quando se trata de definir o que é a verdade, os limites da polêmica já estão mais maleáveis. Dá até para se valer de Einstein, quando se admite cientificamente que o tempo é relativo, dependendo do espaço e da “realidade”, onde nos encontramos. Verdade pode ser admitida como mais de uma, dependendo de quem a defende. É uma questão de ângulo, de enfoque, diretamente ligada à existência de fato para aqueles que a sustentam.

Por isso, é admissível crer que é possível escolher a realidade em que queremos acreditar e viver o nosso mundo particular. Nossas crenças são os valores que construímos. Nossa MATRIX pessoal se conecta à grande MATRIX. E a escolha da pílula a tomar é nossa. Vai uma pílula azul, da realidade normal e glamourosa ou a vermelha, do real e da dificuldade? Escolhamos. Mas será que não deveria haver um meio termo?







19/10/2009

Ausência de motivação ou de vontade?



Enquanto motivação é a ação de tudo o que pode impelir uma pessoa a um comportamento, a vontade é a tendência ou inclinação espontânea, agir livremente, querer fazer. Relutei em começar este texto, quando a idéia me veio à cabeça, mesmo sabendo que se não lhe desse forma o tema me fugiria. Falta de motivação ou de vontade?

Você trouxe frios do supermercado e não os acomodou logo, pois apareceu algo mais urgente. Raciocina que quem vá usar primeiro, guarde da forma habitual. Porém, a maioria dos nossos anjinhos deixa-os abertos, os plásticos escancarados, o presunto escorrendo à espera do nosso ataque de nervos. Mas é tão fácil. Frios no pote, plásticos no lixo seco e pronto. Mas cadê a vontade?

Você presenteou alguém com um processador de alimentos que só falta voar. Tem pecinha para tudo. “Que pena, sujar tanta peça... e eu moro só”, retruca a presenteada. Ponto para ela. Pouca gente se dispõe a enfrentar qualquer equipamento, sem que se faça a relação esforço-benefício.

Você está no trabalho e precisa daquele relatório que imprimiu, mas não sabe onde está e não lembra o nome do arquivo. Mesmo assim, prefere procurar no computador, imprimir um calhamaço de folhas, antes de dar uma olhadinha na gaveta. Mas isso é a impressora que faz...

Experimente pedir aos filhos para atar os cadarços dos tênis ou pisar dentro deles, ao invés de estragar a parte traseira de tanto pisar em cima. Eles vão discutir à exaustão a falta de importância do ato, quando seria muito mais fácil gastar menos de um minuto calçando o tênis direito e atando-o e poupar a sua paciência.

Territorializamos nossas vidas em cima do conhecido, do conveniente no momento. Para abrir mão de uma vontade ou da ausência dela, gastamos energia desnecessária e na prática deixamos de satisfazê-la. Não é jogando para debaixo do tapete ou postergando que resolvemos. Em contrapartida à nossa vontade, existem outras tão férreas quanto a nossa. Uma delas é a consciência e o remorso cobrando um tema perdido, como acontece sempre comigo. A continuidade é o drama de cada dia. A rotina é o desafio. Precisamos começar sempre e ter a desculpa para não terminarmos. Iniciar é estimulante. Continuar é entediante.

Questionado sobre seu imenso poder, o personagem principal de um filme infantil da década de noventa, O rei Leão diz: “Existem mais coisas que temos que fazer além da própria vontade”.

12/10/2009

Pedidos a Deus



Se a personificação de Deus tivesse uma agenda, ele teria um trabalho danado para atender os nossos pedidos de todos os dias. Não há nome tão lembrado e, diga-se de passagem, em vão. Qualquer sustozinho que tenhamos, lá vem um Oh! Meu Deus!. Parece até que copiamos dos filmes americanos a mania do Oh! My god e por pouco não saímos por aí dizendo I love you, já que este é outro bordão que não falta em filme made in USA. Sim, porque americano diz Oh! My god e I love you para tudo, o que não quer dizer que quando usam estas expressões estejam lembrando sinceramente de Deus ou que estejam amando de fato alguém ou ao supremo.


Pedidos na cultura religiosa estão diretamente ligados à oração à comunhão com o ser supremo, que o homem em desespero implora e eleva as mãos aos céus pedindo, apoio e satisfação de suas necessidades. O Deus da nossa crença é um repositório de tudo aquilo que a nossa natureza humana considera insolúvel ou que embora contido na partícula divina que temos conosco, não descobrimos direito o código fonte. Necessitamos então, de uma mãozinha do sagrado para descriptografar a mensagem que sabemos que está dentro de nós, mas que no fundo não nos sentimos tão Deus assim e apelamos para a Porção Maior. E exemplos é que não faltam a nos estimular. Vejamos Cristo ao secar a figueira, mostrando aos discípulos o quão poderosa é a fé em si e no sagrado. Mas a Bíblia nos diz para pedir direito, senão a gente corre o risco de não receber porque não pediu, ou não receber porque não mereceu ou ainda, não receber porque pediu mal. Até para fazer requerimento ao Divino a gente precisa saber o que quer. Não há como perder o sacrossanto tempo com quem não atinou para que lado vai, não está fazendo uso do livre arbítrio e quer pôr nas mãos do Senhor a responsabilidade por um destino que é de cada um de nós. Deus não está a postos para providenciar tudo. Queremos mão beijada e não fazemos a nossa parte. A gente também tem que dar uma mãozinha e acreditar que somos imagem e semelhança Dele. Senão o Todo Poderoso terá desperdiçado a chama sagrada que incutiu em nós. “Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.”, está em na Epístola de Tiago, 4-3. E se Deus é refúgio e fortaleza, socorro presente na angústia, é natural que o procuremos na hora do aperto. Por isso, nossa cota de pedidos é sempre maior que a de agradecimentos.

Todos os povos invocam o Divino na necessidade de ajuda e todos eles também o fazem para agradecer. É uma forma de comunhão, é uma forma de conversar, que pode ser com ou sem intermediários. Mas seja como for, profundamente válida quando sozinhos não somos realmente capazes de resolver nossas mazelas do cotidiano e lidar com o inevitável sofrimento da existência.

O que você não pode pedir



Há pedidos que não podem ser feitos. São os que constrangem a quem são dirigidos e não deixam nenhuma alternativa senão a concordância. Pedido assim é ordem dissimulada.


Você trabalhou o ano todo, em todos os momentos em que foi demandado, mesmo que fosse fora de hora. Mas agora surgiu o convite de bodas de prata daquele amigo, que sequer pensa na possibilidade de uma negativa da sua parte. Seria normal se o local do acontecimento não fosse Curitiba, uma semana antes do carnaval e você não fosse gerente de eventos de um clube da Capital, famoso por seus carnavais. Quem está constrangendo quem? O seu amigo, quando marca a festa quando você não pode ir? Sua mulher lembrando as inúmeras vezes que o clube precisou de você e você compareceu, mesmo abrindo mão de compromissos particulares? Ou você, indo para cima do presidente do clube, dizendo que pelo menos uma vez na vida, você pode deixar de lado o trabalho e fazer algo que no fundo, também quer? Você sabe que não vai perder o emprego por isso, portanto sua posição é cômoda. Poder, você pode. Mas será que deve, que tem este direito?

Tudo o que cria teias que levam os outros a ter que “optar” sob coação é desagradável. Amigo que não se coloca no lugar do outro para saber se vai conseguir o que quer sem subterfúgios não é amigo, é opressor. Empregado que se aproveita das circunstâncias inegáveis é aproveitador. E a premissa vale para o patrão também. Mas se você passou a vida servindo de burro de carga para o chefe, filho, marido/mulher, amigo, eles vão ficar ofendidíssimos com uma negativa sua, mesmo que tenha aquiescido todo esse tempo a contragosto. É sinal que ninguém olhou para a sua cara antes ou se preocupou em saber se estava agradando.

Circunstâncias como pedir esmola, solicitar emprego a político, ou favor, inferiorizam quem solicita e, coagem quem concede. Ficam duas pessoas em situação incômoda. Uma delas, impelida por uma espécie de necessidade que a leva a depender da boa vontade de alguém e outra que é pega de surpresa e fica obrigada a decidir em prol do pedinte, mesmo que não seja essa a decisão que tomaria.

Mas uma estrela cadente rasgando o céu num clarão fugaz, também evoca pedidos. Saúde, sorte no amor, dinheiro, vale o que a nossa carência estiver necessitando mais. Pedir ao incorpóreo, ao Deus de nossa crença é comum, intrínseco, automático. Aliás, este é assunto para outro artigo. Pedidos a Deus.



09/10/2009

Vida de Novela




Existem características e posturas que se incorporam à pessoa e formam a visão que temos dela, até os mais íntimos. Há quem saiba ser sedutor em público, passar uma imagem maravilhosa e ser um desastre na intimidade. Passamos a vida representando então? Buscando o melhor para si no intuito de construir um personagem para representar? Seria simplista concordar que conscientemente o ser humano possa fazer isso. Mas sabemos que não é difícil nos emaranharmos nas teias que construímos e passamos a incorporá-las, acreditamos nelas e vendemos essa imagem para os outros.
Uma novela de TV tem de 30 a 50 personagens, exceto a figuração. Se a história acontece no interior, há um bar, uma farmácia, uma religião, uma determinada loja, um salão de beleza, deixando o resto dos personagens para a imaginação do telespectador. Está implícito. Na vida real são os familiares, os amigos, os colegas de trabalho, a padaria, o supermercado de sempre. O resto é figuração, não tem importância para nós. Só nos chama a atenção quando precisamos deles. O hospital X, por exemplo.
Olhamos para as pessoas e acontecimentos ao redor do nosso mundo com lentes desfocadas. O acidente, o casamento, o vestibular além das fronteiras que delineamos, são elementos de uma vitrine na qual os nossos sentimentos não ultrapassam, exceto se nos ameaçarem. Da mesma forma, elaboramos um “eu” fictício, que com o tempo passa a fazer parte de nós. Construímos um mundo ideal, para o qual fixamos limites que nos confortam e tranqüilizam.
Enquanto não consolidado, o halo de força pode ser rotulado de hipocrisia, duas caras, falsidade, por incorporarmos um papel que não somos nós por inteiro. Após absorvido pode significar uma mudança de personalidade, uma pessoa diferente daquela que as pessoas conheceram há tempos atrás.
Quando revemos alguém após muito tempo e retomamos o convívio, percebemos que a mudança não foi só externa. Não permanecemos os mesmos por tanto tempo. Quando mudamos, não se trata de assumirmos papéis que foram criados ao longo da vida, mas da incorporação gradativa de um ideal que sempre fomos. O convívio propicia as trocas e com elas mudamos. Se nos modificamos radicalmente é porque sempre fomos aquilo que nos tornamos. Apenas invertemos o iceberg.

08/10/2009

Amar-se


Amar-se é tentar ser livre, o mais livre que puder. Pode ser pintar o cabelo, da cor que bem lhe aprouver. Ou deixá-lo branquinho, se assim lhe convier. Mesmo que depois de algum tempo der vontade de desassumir os brancos, possamos fazê-lo com a serenidade de quem sabe o que quer. Uma coisa a cada tempo, coerente apenas com a vontade interior. Mesmo que em determinados momentos a correnteza nos conduza para outros caminhos, que se possa conscientemente optar por correr riscos desde que se tenha a certeza de só até onde se possa voltar.
Amar-se é dar vazão à verdade inconsciente, ao intuitivo ancestral que mora em nós e dar-lhe ouvidos quando ele começa a bater o sininho de alerta, quase que imperceptivelmente, chamando-nos à razão, que não pode ser a dos outros, mas a nossa. É aquela razão que se preocupa principalmente com a nossa natureza essencial e nos cerca de todos os meios para que evitemos violentá-la. Ir de encontro à natureza selvagem que habita em nós é matar os resquícios do primitivo, do caldo original que se encastela em nós e que se encarrega de manter coeso o nosso núcleo vital.
Amar-se é acreditar em nossos propósitos e nos mantermos firmes nas crenças e valores que cultivamos e fizemos amadurecer. Porque eles aderem a nós como a casca protege a árvore e vão se consolidando ao longo da nossa existência protegendo o nosso conteúdo. Como um vinho de boa cepa cuja qualidade começa a ser estampada no material de que é feita a rolha que o protege. Ao invés de retalhos de cortiça aglomerados, um vinho de qualidade possui o esmero de uma rolha em bloco único. Nela se contam os invernos que a árvore viu desenhada no seu corpo. Indeléveis, como prova de maturidade e serenidade esperadas.
Amar-se é orgulhar-se das marcas que o tempo imprime no nosso corpo físico, levando-nos a exibi-las não com tristeza, mas como troféus de batalhas vencidas e atestados de etapas que se transpôs com louvor.
Amar-se é dar valor a si antes de qualquer outro, mesmo que à primeira vista possa parecer egoísta. Amando-nos tornamo-nos vaso depositário do amor universal e podemos dali tirar amor sem reservas, para distribuirmos aos companheiros de jornada nesta etapa da existência.

06/10/2009

FRAGILIDADE (ou experiências de solidariedade)



A angústia não é privilégio de poucos, a maioria a tem. Num maior ou menor grau ela nos avassala vez por outra insistindo em perturbar os dias e prejudicar a sanidade buscada. Nos dias atuais a palavra ansiedade revestida do aval científico veio dar outro nome à ancestral sensação de nó no peito que sentimos quando não conseguimos entender ou resolver algo a tempo e a hora ou quando os acontecimentos não tomam o rumo que esperávamos.
Sendo uma constante é inócuo ignorar a angústia. Racionalizar seria a melhor medida, mas não é assim que funciona na prática. A ansiedade extrema paralisa e não há como a pessoa tomar atitudes sadias diante dos obstáculos corriqueiros. Enfrentar a aflição além do caráter tem outras implicações que fogem à vontade. Quem mais opina sobre o problema dos outros, mais leigo é seu parecer, análise inconsciente das próprias atitudes e justificativa do modo de pensar de quem aconselha. Alguns ansiosos até tentam esconder a perturbação, mas o semblante deles não nega e percebe-se fácil quando estão tomados pela impotência em controlar os demônios internos.
É aí que tomamos consciência de quão efêmera é a existência e quão frágil é manter o equilíbrio. Na observação da desgraça alheia quem olha de fora tem a sensação de superioridade e potência. Pode-se tentar, mas não há isenção e é difícil não mergulhar no turbilhão de sensações de quem compartilha conosco o auge de uma crise de angústia. A empatia é necessária para se tentar ajudar. Mesmo de boca fechada socorremos e melhor, pois é o que o outro quer, vibramos na mesma energia, independente do esforço feito para olhar de forma distanciada quem sofre.
Sentimo-nos bem em sermos úteis e a pseudo-superioridade vem da constatação silenciosa: “alguém está pior que nós”. Mas não identificamos quanto custa compartilhar sentimentos alheios invadindo-nos por tabela quando nos prontificamos à solidariedade. Uma força momentânea se apossa de nós e podemos dissertar horas sobre o que poderia ou deveria ser feito. Mas a energia mobilizada em situações de conflito, mesmo o de terceiros, dá um desgaste danado. É energia que tiramos de nós para ajudar e que às vezes não a possuímos e buscamos força para emprestá-la a alguém? Daí a sensação vaidosa de ser melhor que o outro, pelo menos naquele momento.
As experiências de solidariedade nos retroalimentam e nos fazem perceber a existência de diversos níveis de fragilidade. Nosso equilíbrio é momentâneo e só podemos afirmar sua existência na vivência de cada minuto. Daqui a pouquinho não garantimos mais. É outra batalha. Como nas regras ao se livrar de um vício: “só por hoje não fumo mais”. Não adianta fazer planos para um futuro distante. Para um horizonte incerto não se traça planos, se estabelece objetivos. Os planos se refazem minuto a minuto, na perseverança daquilo que se quer. O equilíbrio se mantém quando se faz presente em cada momento da vida.
Somos todos frágeis, apenas alguns de nós estão num nível de vigor maior e aí pode ajudar quem está do lado a reerguer-se. Perceber estes momentos ajuda a crescer. Disponibilizar-se sem interferir ou julgar é o desafio que vai determinar o sucesso da nossa ajuda e nos fortalecer de volta. Depende do estado de alerta da nossa percepção. Mas não custa tentar. Só não vale desperdiçar oportunidades.

01/10/2009

Aí galera, fui!



Mãe boa mesmo, lava, passa e cozinha. De preferência, direito. Onde é que já se viu aquela sua camiseta preferida não estar no lugar, justamente no momento em que você quer? Mãe é para isto. Onde há quem faça o serviço doméstico, a mãe tem que cuidar da infraestrutura necessária para que os seus pupilos não se estressem com coisas tão triviais e consigam dar conta da estafante tarefa de estudar.
Mãe dá colinho, mas longe das vistas da galera. Não dá para pagar mico de dar beijinho em mãe ou admitir que um cafuné é bem bom, mesmo que você já tenha passado de um metro e sessenta de altura.
Mãe de fé é a que mantém a boca fechada. Não há quem agüente aquele buzinar no seu ouvido. Para que usar corretamente todos os talheres se hambúrger, pizza, torrada, cachorro-quente se come com as mãos? E o que é pior – faz você perder aquele clipe maneiro da MTV porque insiste que lugar de comer é na mesa e não na frente da televisão.
Outra coisa que não dá para entender é a incapacidade que mãe tem de entender a sua multiplicidade. Que não há mal algum, estar rádio, TV e internet, ligados ao mesmo tempo, quando você está estudando. Se você está tirando boas notas, qual o problema? É o seu jeito, o seu ritmo.
É bom ser independente, ser dono do próprio nariz, sem ter ninguém lhe dizendo o que fazer, afinal, você sabe quais são os seus próprios limites. Um dos papos que mais enfurecem é quando os pais insistem em dizer que independência só existe quando a gente se banca, quando se tem independência financeira, por mínima que seja. Isso é uma confusão que os velhos fazem. Sustentar é obrigação de pai e mãe. Quis filho, tem que criar. E eles não dizem sempre que estão construindo um patrimônio para você? Pois é. O resto é discurso tirano para lhe obrigar a se enquadrar na vida deles, no sonho deles. Tem que dar um tempo para você fazer suas escolhas.
Pois é gurizada. Mesmo que esteja morando naquela casa de “mãe chata”, pode parecer insólito, mas é o seu último reduto de liberdade. É o lugar da incondicionalidade. Em nome deste amor, seus pais agüentam suas crises além do que deveriam. E continuam amando independentemente das bobagens que você porventura venha a fazer. Mas tem um detalhe. Não se esqueça que eles também tem o direito de, a qualquer hora, fazer suas próprias vontades ao invés das suas de filho e dizer: Aí galera, fui!