12/09/2009

Paixão com sabedoria



O longo período de evolução da humanidade gravou em nossos genes respostas emocionais baseadas em uma duríssima realidade, comparada com os dias atuais. Poucas crianças sobreviviam à infância e os adultos mal chegavam aos trinta anos. Com predadores atacando a qualquer momento, condições climáticas determinando se morreriam de fome ou não, este estado permanente de tensão demandava respostas imediatas e quem sobrevivia passava adiante esta memória através dos genes. De dez mil anos para cá, o domínio da agricultura e as formas de organização social espalharam os avanços e diminuíram as ameaças aos humanos. Minimizada a pressão, reações emocionais perderam a validade. A raiva instantânea no passado era necessária para continuar vivo, mas ser indomável em nossos dias leva a catástrofes.
Paixão é sentimento. Sabedoria é racionalidade. É possível a coexistência? Aristóteles, que em Ética a Nicômano, instiga nossa capacidade de equilibrar razão e emoção ao afirmar que “qualquer um pode zangar-se – isto é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa – não é fácil”.
Cada emoção tem função específica e prepara o corpo para um tipo diferente de resposta. A ciência atribuiu para elas uma divisão clássica, constituída de raiva, medo, felicidade, amor, surpresa, repugnância e tristeza. Mas para nós leigos, é algo que se sente e para descrevê-la precisamos viver o momento e mesmo assim não teria o mesmo sentido quando a verbalizamos. Autoconhecimento é bom, entretanto nos cobra a responsabilidade de identificar e se controlar diante de situações difíceis. Mas se no abalo emocional perturbação as reações são rápidas demais, que esforço demandaríamos para domar o bicho ancestral que há em nós? É muito tempo gravado no cérebro de um, contra a evolução comparativamente incipiente de outro. Submeter-se atiça nossa voz interior com alegações de “olha a hipocrisia, você está se violentando...” Nosso apego à suposta autenticidade, pode ser a obstinação em abrir espaço e coexistir com a razão, o “novo”, de dez mil anos para cá.
Domínio de emoções significa civilidade nas ruas, na vida comunitária. Segundo Paul Ekmann, “a raiva é a mais perigosa delas. Os principais problemas que destroem a sociedade atual envolvem a raiva. É a emoção mais difícil de adaptar-se aos dias atuais, em razão de mobilizar-nos para a luta. Na pré-história, quando se tinha uma raiva instantânea e por um segundo se queria matar alguém, não se possuía tecnologia para fazê-lo. Hoje temos”.
Paixões bem exercidas têm sabedoria, sim. Orientam nosso pensamento, valores e sobrevivência. O problema não é a emocionalidade, mas a adequação da emoção e sua manifestação. Somos capazes de identificar o que não queremos sentir e podemos optar por comportamentos que nos impeçam de levar-nos por determinada emoção e sua expressão em situações parecidas. Não se trata de matar a emoção, mas usá-la sabiamente.
Quando o automóvel não tinha os avanços de hoje, o Jeep bastava e servia para qualquer caminho. Recriou-se o Jeep em versões mais caras, porém adaptadas para a estrada de chão. Mas admitiu-se também carros que são pérolas da tecnologia, perfeitos para boas estradas e sob condições específicas. É possível evoluir, adaptar sem perder a essência. Vale tentar.

3 comentários:

  1. me perdi no seu texto...quer clarear pra mim? o que é a essência Rackel? a carga genética? a emoção? a razão? na adaptação de pedra para homo sapiens, qual a essência que não se perdeu?

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  2. oiii..não sou anônimo...escrevi o nome mas apareceu como anônimo. Olga

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  3. Olga, essência para mim é o primordial, o que dá gosto e tempera a vida. Essência é a emoção.

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