25/09/2009

LIMITES (ou a saga do Planeta Atlântida)



É incrível como nossos filhotes de classe média estão entendidos de leis. São pequenos rábulas, os anjinhos. Pelo menos para saber o que já dá para ser liberado e em qual idade e a partir daí fazer analogias de deixar nós pais e mães de cabelo em pé.
Eles também sabem que existe Estatuto da Criança e do Adolescente, leis de proibição ao trabalho do menor; que aos dezesseis já podem votar; a partir dos dezoito podem ganhar carro e dirigir. Concomitantemente ao carro que imaginam ganhar vem no porta-malas a carta de alforria na tão sonhada maioridade. Aí então, vai ser uma festa, não vão precisar dar satisfação para ninguém, já que serão “de maior”. É uma sabedoria só, tudo na ponta da língua, do mesmo jeito que gostaríamos que soubessem aquelas questões da prova de física ou escrever na internet sem maltratar a língua portuguesa.
Alto lá. Alguém se esqueceu de dizer que tudo tem uma contrapartida. Quer ser livre? Ótimo. Mas precisa pagar todas as contas, as emocionais e as financeiras. E antes que nos chamem de egoístas e chantagistas, estudar nada mais é que uma atribuição curricular da criança e do adolescente e tirar boas notas, idem.
Quem é que está sendo explorado? O filho ou os pais quando o primeiro se nega a juntar as roupas que ele mesmo deixou pelo chão, reclama que não acha o tênis que deixou atirado e que os pais devem encontrar para ele? Coincidência ou não a maioria de nós pais está na faixa dos quarenta, sem a forma física dos vinte, com estresse em dobro e louco para que alguém faça por ele as pequenas tarefas domésticas. E ainda precisa cumprir o que é atribuição dos mais novos da casa, porque esta geração se nega a ser “explorada” para o “trabalho familiar”, quando na verdade é a sua contrapartida no núcleo do qual faz parte.
A cada fase que eles completam começa a requisição de direitos: “tenho doze, já posso ir ao Planeta Atlântida (o festival de música que acontece todo fevereiro na praia de Atlântida, aqui no Rio Grande do Sul.) Lá no site diz que a idade mínima é de doze anos”. E agora? Só com pai ou mãe junto, dizemos. Aí é pagar mico. Todos os amigos vão sem os velhos. E a terceira idade vai fazer o quê lá? Estão querendo vigiar, não confiam, estes papos.
É recorrente a idéia que nós, a geração pós-ditadura inconformados com o excesso de cuidado que tivemos na adolescência, ficamos de coração partido ao impor limites aos nossos filhos. E a palavrinha mágica está em todos os manuais de educação de criança e adolescentes. Principalmente esta última que é uma fase particularmente conturbada. Podemos até não admitir para eles que também tivemos nossos períodos que o Nenhum de Nós canta em uma das suas músicas: “...adolescência vazia, eu tinha quase dezesseis. Ninguém me compreendia e eu não compreendia ninguém...” Faz parte. Mas daí a não enfrentar as dificuldades não ajuda em nada na formação dos homens e mulheres do futuro. O que os livros não dizem é na prática, fazemos o quê mesmo? Não imaginamos com antecedência o que os nossos advogados em causa própria vão dizer no calor da argumentação. E saber o que responder e que decisão tomar parece roteiro de planejamento estratégico e eles não são adversários a enfrentar. São apenas os nossos filhos, aqueles mesmos que embalamos e babamos a cada feito deles na infância. E aí ele vale bater o pé na idade mínima, enquanto a analogia da galerinha tem pontos falhos e soltar aos poucos, sob controle. Tudo tem seu preço. Talvez tenhamos que ir ao Planeta Atlântida sim, embora ficar horas acordados no meio da gurizada, possa causar arrepios. Mas se acompanhamos no primeiro ano, fica mais fácil aceitar no segundo e acreditar que pai e mãe são bons companheiros sim. E vai que gostemos?

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