30/09/2009

Fome de Viver



À medida que a idade avança o sono diminui, Acorda-se cada vez mais cedo qualquer que seja o dia da semana. A massa trabalhadora espera ansiosa pelo final de semana, afinal é quando não se prende a horário e pode descansar o corpo da labuta semanal. Mas alguém se esqueceu de avisar o relógio biológico e ele desperta sempre no mesmo horário indiferente aos planos do dono do corpo.
Na adolescência dorme-se mais e há sempre um familiar para nos acordar, seja porque é hora da escola ou não são horas de estar dormindo quando todos estão de pé ou ainda para se limpar o quarto. Quando conseguem delimitar o espaço, os jovens transformam os seus aposentos num bunker, brandindo o direito à privacidade e ai de quem entrar lá dentro sem bater na porta, condicionado à concordância do pequeno/médio/grande (conforme o percentual de Nescau, coca-cola e pizza da alimentação) ocupante.
Na vida adulta a ausência de sono se explica, afinal o dia tem só 24 horas e haja energia para dar conta de tudo. É de pegar um boi pelas guampas a cada dia. Fazer o quê? É a lei da sobrevivência. Mas na melhor idade não se justifica. Temos todo o tempo pela frente, os filhos já estão criados, os netos estão vindo e o condicionamento adquirido na meia idade, nada de ir embora. Pode ser questão de tempo, do que ainda resta e a ausência de sono seria a fome de viver. Ficamos reduzidos ao necessário. As limitações da máquina se acentuam cada vez mais e exige uma dose de consciência e persistência maior para conviver com as restrições. Justo agora que se adquiriu a alforria para a liberdade da palavra e da ação. As pessoas se tornam mais livres na melhor idade. Vestem o que querem, falam idem e são senhores da própria vontade quando driblam a patrulha dos filhos, como numa revolta a quem foi cerceado pelos genitores. Só que a “patrulha” era o exercício do papel de educar e quem está na aposentadoria entende que já se educou o bastante e pelas suas próprias regras. Justo agora que se acha livre para vivenciá-las, vem uma geração querendo lhe impingir pensamentos que são deles, formas de viver que entendem ultrapassadas sem dar o direito de perguntar se querem se modernizar. É uma volta à infância pois ante a negativa são taxados de ranzinzas e insuportáveis, que só convivem por amor e algum resquício de gratidão. O idoso se sente pressionado pelas artimanhas em troca de afeto e não raro, cede, abrindo mão de prazeres que em outras épocas teve procedimento idêntico por não poder ou por renunciar em favor dos filhos.
Nossos pais nos diziam que um dia iríamos entender isso ou aquilo e referiam-se a uma lógica que a imaturidade não nos permitira vislumbrar. Hoje questionados os pais até percebem que o enfoque pode ser mudado, mas eles não querem grandes feitos, preferem vê-los construídos no dia a dia não é agora que tem tempo, que irá despersonalizar-se e viver a vida do outro. Visões de passado e presente podem conviver harmoniosamente sim, desde que haja respeito e um olhar de reversibilidade para entender o ponto de vista do outro e o seu direito de segui-lo. Rótulos de demência são muito cômodos, mas para isto existem os médicos. Não são filhos, netos, sobrinhos, que vão impingir maneiras sob formas sorrateiras de chantagem emocional. Este é o respeito na sua essência, gurizada.
Na velhice não se dorme tanto e tirando o condicionamento metabólico é uma tomada de consciência do passar do tempo. A ordem do cérebro é aproveitar cada minuto, refazer a contagem e transmitir a sabedoria da experiência, que não necessariamente pode ter sido boa, mas como certeza é exemplo vivo do que tem maior ou menor probabilidade de dar certo. Cabe a quem está por perto, mais jovem, aproveitar ou não estes modelos. O contexto é outro? Pode ser, mas via de regra quem não aproveita a experiência das gerações precedentes perde a oportunidade de aprendizado ou de não repetir os mesmos erros.

29/09/2009

Renúncia, substantivo feminino?



Renúncia não se contabiliza. Quem a exerce no sentido amplo da palavra sequer o percebe, pois considera sua atitude parte da sua contribuição para com aqueles que o rodeiam. O dicionário Aurélio denomina renúncia, substantivo feminino, “a ação ou ato de renunciar, recusa, rejeição, negação, demissão”, o que nos soa incoerente. Abrir mão em extremo lembra traição, quando todos sabem que alguém foi enganado, menos ele. Quem o faz, leva como cruz a carregar. Não estamos apregoando aqui a vocação para mártir, nem que o mundo deva ser desprovido de altruístas. Se fosse só cada um para si ainda estaríamos na caverna ou talvez já tivéssemos nos destruído mutuamente. Algum sentimento tem que haver em prol do outro. É difícil aceitar que a humanidade chegou aos dias de hoje pela subjugação. Nenhuma idéia ou invento sobreviveria sem desapego, vontade de partilhar ou até quem não agüentasse ter uma inovação só para si. O comichão na língua seria incontrolável. Que graça tem ser um gênio se ninguém sabe? O desejo da fama não deixa de ser uma forma de garantir a continuidade das descobertas. A diferença é que os bem intencionados sabem que expor é passar adiante, significa contar com a contribuição adicional e ter seus objetivos atingidos. Quem quer só o aplauso perde-se no controle da revelação, orgulho ferido e não aceita agregar idéias, logo, não evolui.
Renunciar é recusar-se a compactuar com terceiros. É negar uma realidade que lhe é dolorosa, criando um mundo interior onde se refugia e arquiva seus desejos mais recônditos. É viver externamente de uma maneira que não imaginou ser possível, mas tendo a máscara como a alternativa que lhe resta. Nem sempre é uma tragédia. Pode se tratar apenas de um leque pequeno de alternativas. Quantas pessoas lamentam o ideal não concretizado sem fazer um balanço de perdas e ganhos daquela aspiração e perceber que esteve no lucro a maior parte do tempo? Não vislumbram o que teriam construído se não tivessem conduzido a vida olhando pelo retrovisor. Com isso, atazanam a vida que têm e a dos outros achando que deram tudo de si. Não percebem o quanto é difícil agüentar lamentações de quem acha um pecado abandonar um sonho. O ser humano pode adequar sua trajetória e provar sua capacidade de adaptação sem agredir seus valores. Perdemos energia em não enxergar que os objetivos se concretizaram, porém com a roupagem que o tempo lhes deu.
A comerciante bem sucedida, que na provação foi o alicerce da família quando o marido teve dificuldades ou doenças que impediram seu pleno desenvolvimento, pode bater no peito e se orgulhar de ter ajudado o companheiro a enfrentar suas limitações e orgulhar-se do negócio que ajudou a construir. Compelida a aguçar os sentidos, sabia que tinha de manter-se alerta e estava consciente de relegar prioridades pessoais. Sem este esforço, talvez não tivesse desabrochado qualidades inatas, que o trabalho e a disciplina ajudaram a forjar e florescer.
Podemos enfrentar os obstáculos como problema ou como oportunidade de aprendizado e superação. A mulher personifica isto, mas renúncia não é privilégio de mulher. O patriarcado ocultou uma dimensão nossa que de mansa não tem nada. Mesmo com força física inferior desenvolvemos outras habilidades essenciais que nos permitiram inúmeros papéis, de guerreiras a mães-leoas. Mas não sabemos fazer isto sem parceria. Vivemos no plural, precisamos do outro e não temos vergonha de admitir. Em quaisquer das circunstâncias preservamos a capacidade de amar, chorar, renunciar, sim, mas nunca deixar de ser... Mulher!

26/09/2009

A Saga do Planeta Atlântida - Parte II

Não basta levar os filhos ao Planeta Atlântida(o festival de música que acontece todo fevereiro na praia de Atlântida, aqui no Rio Grande do Sul.), tem que gostar. Céus, isto é vivenciar a própria sugestão, aquela coisa de usufruir o momento, respeitar escolhas, enfim. Pois é.
Passemos da teoria à prática. Decisão de acompanhar os filhos ao festival em Atlântida tomada, o que nos resta é fazer o possível para entrar no clima. Menos mal que a galera aceita numa boa a turma da terceira idade. Já fomos no ano anterior sob uma chuva torrencial e um lamaçal de fazer dó. Mesmo assim valeu pelo Herbert Viana, Ivete Sangalo e até aplaudir o Charlie Brown Jr. É claro que o instinto de mãe se aguçou quando o telão mostrou a cara crispada do vocalista Chorão fazendo malabarismos com um skate e com aquele peso todo. Mas não seria com decibéis à vontade que iríamos fazer, digamos, elucubrações filosóficas.
Nesse ano, entramos no site do Planeta, respondemos o quiz no CLICRBS concorrendo a ingressos, quase torcendo para ganhar e não deu. Mas que idéia. O foco é a gurizada e como é que alguém que diz a idade da certidão de nascimento vai ter resposta premiada num lance destinado a adolescentes & Cia? Mas temos que vivenciar de alguma maneira. Indiretamente talvez queiramos trazer de volta os verdes anos e levar os filhos seja a desculpa perfeita para quem no fundo nunca deixou de ser pop rock e gostar de multidões. O efeito é um pouco diferente da nossa adolescência distante. Jamais nos contentaríamos no passado em ver de longe, no telão.
Se não fosse a fila do gargarejo, não valia, não seria a mesma emoção. Esta vontade bateu novamente no show do Rappa e do Jota Quest. No primeiro até tentamos ver o Falcão mais de perto, mas uma parede de braços e cabeças como que em transe e cantando em uníssono com o vocalista nos fizeram desistir.
Não dava para competir com aquela emoção. O tempo passou e a razão permeia nossa cabeça. Não viemos para os shows em sua plenitude., viemos pelos nossos filhos, esforçando-nos para sermos iguais e compartilharmos a emoção deles de viver este momento, como nós tantas vezes fizemos outrora. A emoção é desviada para a preocupação de saber se eles estão seguros, se estão felizes, se divertindo e isto nos realiza. O evento é cercado e o policiamento é ostensivo. Melhor para nós pais que se aventuramos a ir ao espetáculo e para aqueles que ficaram em casa apreensivos rezando para que tudo corresse bem e os filhotes retornassem felizes e incólumes. Quem gosta de música como nós esperou que o crescimento dos filhos para ter o pretexto de levá-los e cuidá-los, mas chegada a hora o cansaço bate e o sentimento já não é mais o mesmo. Curte-se sim, mas constata-se que as emoções precisam ser vividas na época certa, sob pena de perdermos a sua plenitude.
“Quando a gente gosta é claro que a gente cuida...” diz o Peninha pela voz do Caetano Veloso. Ninguém cuida ou vigia ninguém. Presença paterna ou materna não vai inibir eventuais bobagens se não houver paz no cotidiano ou pelo menos a vontade férrea de mantê-la a qualquer custo. Não podemos perder a oportunidade de estar por perto. Talvez eles preferissem estar sozinhos, mas vai chegar uma hora em que terão que fazer isto. Estas experiências iniciais são só um treino, para dar segurança a eles e a nós que os amamos tanto. Não podemos mantê-los debaixo das asas para o resto da vida, mas se pudermos compartilhar seus rituais de iniciação, ótimo. Para isto vale até ficar acordado além do suportável, achar graça do desconforto e ter história para contar depois.

25/09/2009

LIMITES (ou a saga do Planeta Atlântida)



É incrível como nossos filhotes de classe média estão entendidos de leis. São pequenos rábulas, os anjinhos. Pelo menos para saber o que já dá para ser liberado e em qual idade e a partir daí fazer analogias de deixar nós pais e mães de cabelo em pé.
Eles também sabem que existe Estatuto da Criança e do Adolescente, leis de proibição ao trabalho do menor; que aos dezesseis já podem votar; a partir dos dezoito podem ganhar carro e dirigir. Concomitantemente ao carro que imaginam ganhar vem no porta-malas a carta de alforria na tão sonhada maioridade. Aí então, vai ser uma festa, não vão precisar dar satisfação para ninguém, já que serão “de maior”. É uma sabedoria só, tudo na ponta da língua, do mesmo jeito que gostaríamos que soubessem aquelas questões da prova de física ou escrever na internet sem maltratar a língua portuguesa.
Alto lá. Alguém se esqueceu de dizer que tudo tem uma contrapartida. Quer ser livre? Ótimo. Mas precisa pagar todas as contas, as emocionais e as financeiras. E antes que nos chamem de egoístas e chantagistas, estudar nada mais é que uma atribuição curricular da criança e do adolescente e tirar boas notas, idem.
Quem é que está sendo explorado? O filho ou os pais quando o primeiro se nega a juntar as roupas que ele mesmo deixou pelo chão, reclama que não acha o tênis que deixou atirado e que os pais devem encontrar para ele? Coincidência ou não a maioria de nós pais está na faixa dos quarenta, sem a forma física dos vinte, com estresse em dobro e louco para que alguém faça por ele as pequenas tarefas domésticas. E ainda precisa cumprir o que é atribuição dos mais novos da casa, porque esta geração se nega a ser “explorada” para o “trabalho familiar”, quando na verdade é a sua contrapartida no núcleo do qual faz parte.
A cada fase que eles completam começa a requisição de direitos: “tenho doze, já posso ir ao Planeta Atlântida (o festival de música que acontece todo fevereiro na praia de Atlântida, aqui no Rio Grande do Sul.) Lá no site diz que a idade mínima é de doze anos”. E agora? Só com pai ou mãe junto, dizemos. Aí é pagar mico. Todos os amigos vão sem os velhos. E a terceira idade vai fazer o quê lá? Estão querendo vigiar, não confiam, estes papos.
É recorrente a idéia que nós, a geração pós-ditadura inconformados com o excesso de cuidado que tivemos na adolescência, ficamos de coração partido ao impor limites aos nossos filhos. E a palavrinha mágica está em todos os manuais de educação de criança e adolescentes. Principalmente esta última que é uma fase particularmente conturbada. Podemos até não admitir para eles que também tivemos nossos períodos que o Nenhum de Nós canta em uma das suas músicas: “...adolescência vazia, eu tinha quase dezesseis. Ninguém me compreendia e eu não compreendia ninguém...” Faz parte. Mas daí a não enfrentar as dificuldades não ajuda em nada na formação dos homens e mulheres do futuro. O que os livros não dizem é na prática, fazemos o quê mesmo? Não imaginamos com antecedência o que os nossos advogados em causa própria vão dizer no calor da argumentação. E saber o que responder e que decisão tomar parece roteiro de planejamento estratégico e eles não são adversários a enfrentar. São apenas os nossos filhos, aqueles mesmos que embalamos e babamos a cada feito deles na infância. E aí ele vale bater o pé na idade mínima, enquanto a analogia da galerinha tem pontos falhos e soltar aos poucos, sob controle. Tudo tem seu preço. Talvez tenhamos que ir ao Planeta Atlântida sim, embora ficar horas acordados no meio da gurizada, possa causar arrepios. Mas se acompanhamos no primeiro ano, fica mais fácil aceitar no segundo e acreditar que pai e mãe são bons companheiros sim. E vai que gostemos?

23/09/2009

Supérfluo é Imprescindível?




É constrangedor admirar uma obra e não entender nada, ficar “devendo”. Isto é freqüente quando se trata de arte contemporânea. Dificilmente as expressões artísticas são entendidas no seu tempo. Nossos olhos e ouvidos precisam se acostumar com a vanguarda. Arte também é um mercado e precisa ser vendável. Assim como é igualmente complicado entender o mundo da alta costura, o paralelo pode ser aplicado às artes.
Nem tudo que se vê num desfile de modas é usável. É como se os estilistas colocassem um binóculo invertido. Ao invés de pessoas normais desfilando, o que vemos é uma explosão de fantasias unidas por um tema central, que definirá a tendência desta ou daquela estação. O que vai para as ruas é a inspiração daquela parafernália toda que inundou os olhos do mundinho fashion e de poucos privilegiados, ora pela grana, ora por ser o jogador namorado da modelo da hora. Pouquíssimos afortunados podem adquirir um modelo único. O que sustenta mesmo a máquina da moda é o pret-a-pôrter, a produção em série que vende em versões e releituras infinitas o que se firmar como moda na estação. É assim que passamos a pagar caro por calça rasgada, cintura baixíssima e se cobrir com cores como rosa e pink, mesmo que as detestemos. É moda, baby, relaxe. Não importa se o nosso manequim não é 36 e se a nossa coxa tem mais diâmetro que a cintura da modelo. Ai de nós se não arranjarmos um jeito de caber naquele número a menos.
Alguém poderia perguntar de que adianta tanto esforço investido para gerar o supérfluo, para não se construir... nada? É a mania do lado utilitário do conhecimento. Só valorizamos se for para dar forma ao concreto que satisfaz necessidades básicas. Comida, moradia, emprego e saúde não são suficientes para aplacar nossa ânsia. Prazer e lazer também caminham juntos e fazem parte do inevitável primordial, contribuindo para a harmonia das demais condições que cremos imprescindíveis.
O conceito de supérfluo versus básico, de dinheiro jogado fora, é relativo. Varia de pessoa para pessoas, é óbvio. Mas fazendo coro com a gritaria que rotula isto ou aquilo como desnecessário, só contribuímos para o desentendimento. Se não temos noção do todo é leviano julgar pelas partes.
O mundo das corridas de carro, que nos transparece sem muito sentido fora do círculo dos aficcionados, é um laboratório de tecnologias que algum tempo depois estão presentes no carro popular que roda nas ruas.
Atrás de cada supérfluo existe uma necessidade satisfeita. Essa energia que se chama dinheiro precisa ser movimentada para gerar sobrevivência, emprego, prazer e satisfação de nossas demandas. Não se aplica a tudo, naturalmente, mas é de se pensar um pouco mais antes de atirar a primeira pedra.
Moda não é uma perdição. É uma indústria que movimenta milhões vendendo sonhos e idéias, que sustentam pessoas, que trabalham ajudando a construir aqueles sonhos. É inevitável a disseminação das demandas que são criadas na ânsia do novo. No afã de sermos únicos vestimo-nos iguais. A vanguarda nos distingue e quando menos esperamos queremos o novo para nós. Assimilamos e aí não é mais supérfluo, é necessidade.

22/09/2009

Sentir-se só



Palavrinha batida que como a companheira saudade, dizemos só existir em português – e que alguém nos corrija, por favor – solidão rima com desilusão e até com frustração. É um equívoco apostar que ela vá rimar com desamor, a reação mais óbvia ao visualizarmos algum solitário, crendo que o olhar distante característico seja indício de não estar nem aí para o resto da população do planeta. É um autômato o solitário, indiferente ao universo ao redor como se bastasse a si mesmo e nada mais importasse. O mundo interior é muito rico e às vezes é o único reduto de compreensão que nos sobra. Nós e ele, o eu interior. Meio louco, não? Mas é como se conversássemos duas partes da mesma matéria. Uma compacta, física e outra imanente, fluída, que por assim ser tem condição de captar impressões mais refinadas da substância densa e conduzir o Eu físico ao entendimento de um processo que aparenta ser um turbilhão de onde não se consegue sair, por isso o isolamento.
O curioso é que dificilmente a solidão é percebida como tal. Como bons masoquistas de carteirinha, miramos a cara alheia e por conta própria diagnosticamos o que ali vemos como raiva da gente nos devem explicações. Ninguém traz uma placa na testa dizendo o porquê do semblante fechado e alguns se arvoram na arte de adivinhar, principalmente nós mulheres. Acostumamos a entender o que os nossos filhos querem desde pequeninhos pela expressão não-verbal e já nos julgamos capazes de fazer o mesmo com tudo e todos. Ok. A intuição e percepção femininas são trunfos, mas não nos esqueçamos que podemos mascarar nossa avaliação com sentimentos que são nossos e a interpretação apressada “enfia” literalmente, palavras na boca do outro. Para quem já está com a sensibilidade desordenada explicar é o que menos interessa. Ao invés de ajudar, contribuímos para enredar ainda mais quem de uma forma toda peculiar, está muito bem obrigado, com o seu mutismo. O problema são os outros que está se incomodando com a cara dele. Ele próprio não está e isto é o suficiente.
Solidão não é só o pesar amoroso pela distância da pessoa amada que nos punge a alma e nos consola. Na sua amplitude é o sentimento de ausência de si próprio, de não ter com quem contar e até a sensação de bastar-se estar indo embora. Não é uma recusa à proximidade. Podemos perfeitamente sentirmo-nos sós numa casa ou trabalho cheio de gente. É a sensação de incompletude e de incompreensão para levarmos adiante planos, projetos que são do coletivo onde estamos inseridos, mas que parecem ser só nossos, já que ninguém nos entende. Nessa faceta da solidão, há que se esperar o tempo, este velho e bom companheiro passar, sem deixar-se seduzir pela satisfação do ascetismo. A contemplação é prazerosa e sozinha não supre a necessidade de convivência. Estar só implica diminuir as demandas. A face demonstrada já afasta os outros e só temos que lidar conosco e conosco a gente se entende, nem que seja para lamber as próprias feridas. O mundo não gira em torno do nosso umbigo e mais dia menos dia precisamos voltar a interagir, aprender, trocar, solucionar. E aí vai nos invadir uma leva de sentimentos de realização, de etapa cumprida e de percalços que dela fazem parte. Os ciclos se repetem e nos cabe vivê-los em sua plenitude, pois sabemos que renovar é preciso, levantar sempre.

20/09/2009

Catarse


A arte tem poder e isto não é novo. O filósofo grego Aristóteles registrou um processo que identificou nas tragédias. Foi ele quem chamou de catarse a descarga emocional que a experiência estética proporciona. Quando o expectador de uma peça teatral sente como suas as aventuras e os sofrimentos do protagonista do espetáculo, está trazendo para si vivências, dificuldades que gostaria de superar ou até a mudança que queria que acontecesse em sua própria vida.
Contos, histórias e filmes há tempos são usados como instrumentos terapêuticos. Segundo médico Dr. Jacques Leal Soares, de Canoas, tais recursos “são ativadores de reações bioquímicas e neurotransmissores como dopamina, noradrenalina, serotonina, acetil-colina, melhoram o estado de ânimo geral, pelas reações de prazer que proporcionam”.
Cada pessoa age de uma forma diferente diante de uma história que está sendo contada, num filme e com isto está abrindo uma janela para o inconsciente. Fora isso, cenas nas telas podem servir de exemplo de como reagir na vida diária. Uma identificação a ponto de viver o personagem como se nós estivéssemos fazendo parte do enredo, certamente nos fará liberar emoções represadas. Alguns choram e se liberam entrando de cabeça na ficção e conferindo-lhe caráter de veracidade ao trazê-la para si. Outros conseguem manter um distanciamento onde vislumbram a obra com olho clínico, estético, mas profundamente atento para sentir o momento em que sua sensibilidade é tocada. Se isto ocorre, eles bloqueiam a ação, mas sabem que se ela os atingiu, mesmo que minimamente, com certeza funcionará ao chegar ao grande público. Talvez seja este o mecanismo para tornar comercial, os filmes, novelas. Tocar a emoção para se justificar como indústria, como emprego. Mesmo um produto que exista com um objetivo comercial, tem que atingir o emocional para provocar o impulso, acender a chama da compra até que se torne incontrolável. Ainda que por trás haja um processo racional de assimilação, o desejo já foi despertado pela mensagem subliminar inicial e o consumidor tende a aderir e ser fiel.

19/09/2009

Medida de Valor




Como se mede o trabalho de alguém? Quanto é o tempo que entendemos ser uma jornada razoável a ser distribuída durante o dia? Em três partes, oito horas para o trabalho, oito para o lazer e oito para o descanso? Na prática, ledo engano. Poucos de nós pode se dar ao luxo de ter essa divisão equitativa. Costumamos dizer que temos um trabalho quando há um vínculo empregatício, formal e, quando informal, serviço. Numa gozação tipicamente brasileira, dizemos as pessoas não buscam serviço, procuram emprego. Este último sim, é sinônimo de segurança, sentir-se ao abrigo da lei e proteção quando necessária.
Mesmo no desemprego estamos trabalhando e a procura de emprego é um exemplo. Ninguém ocupa as vinte e quatro horas do dia dormindo ou com lazer. Estudar é outra forma de trabalhar, mais acentuada nas fases da educação formal. O sentimento de quem é questionado sobre se é melhor estar executando uma carga maior no emprego formal do que estar sem emprego, surpreende. Principalmente se vem de alguém de vinte e poucos anos que trabalhou de carteira assinada, e por buscar mais tempo para estudar, exercer outras atividades que gostava, saiu e depois voltou ao mesmo emprego que deixara, com uma motivação excelente.
Não se trata aqui de fazer apologia ao trabalho além da jornada, mas trabalho ainda é uma bênção, não um castigo. E talvez a sensação de pagar os pecados venha da visão literal do Gênesis, quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso. “Ganharás o pão com o suor do próprio rosto”. Pronto, gravou no nosso DNA: ...trabalho é castigo, trabalho é castigo... e é tão forte que no emprego ficamos medindo o desempenho de quem está ao nosso lado, para ver se o castigo dele é menor que o nosso. Se é assim, qual a razão das filas quilométricas na disputa por um emprego de carteira assinada? Uma vez lá, entramos para a redoma dos protegidos.
E nós, os empregados, olhamos de esguelha para o lado e constatamos que damos mais o sangue que o outro, após longos anos de emprego e o colega está sobrevivendo igual a nós ou talvez “viveu” mais, porque soube se esquivar do serviço. E julgamos que usufruiu dele mais em proveito próprio e está aí bem faceiro, nos chamando de burros de carga. E com razão temos uma pontinha de inveja desta faceirice. Mas pensando bem, não convém ir muito fundo nas raízes do sorriso, para não correr o risco de compartilhar uma cota da angústia que não queremos para nós, pois também ele as teve, mas são as dele, não as nossas.
Pode até ser que tenhamos “vivido” bem mais do que imaginávamos, porque intensamente, se tivermos sido intensos no trabalho e gostado dele.

12/09/2009

Paixão com sabedoria



O longo período de evolução da humanidade gravou em nossos genes respostas emocionais baseadas em uma duríssima realidade, comparada com os dias atuais. Poucas crianças sobreviviam à infância e os adultos mal chegavam aos trinta anos. Com predadores atacando a qualquer momento, condições climáticas determinando se morreriam de fome ou não, este estado permanente de tensão demandava respostas imediatas e quem sobrevivia passava adiante esta memória através dos genes. De dez mil anos para cá, o domínio da agricultura e as formas de organização social espalharam os avanços e diminuíram as ameaças aos humanos. Minimizada a pressão, reações emocionais perderam a validade. A raiva instantânea no passado era necessária para continuar vivo, mas ser indomável em nossos dias leva a catástrofes.
Paixão é sentimento. Sabedoria é racionalidade. É possível a coexistência? Aristóteles, que em Ética a Nicômano, instiga nossa capacidade de equilibrar razão e emoção ao afirmar que “qualquer um pode zangar-se – isto é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa – não é fácil”.
Cada emoção tem função específica e prepara o corpo para um tipo diferente de resposta. A ciência atribuiu para elas uma divisão clássica, constituída de raiva, medo, felicidade, amor, surpresa, repugnância e tristeza. Mas para nós leigos, é algo que se sente e para descrevê-la precisamos viver o momento e mesmo assim não teria o mesmo sentido quando a verbalizamos. Autoconhecimento é bom, entretanto nos cobra a responsabilidade de identificar e se controlar diante de situações difíceis. Mas se no abalo emocional perturbação as reações são rápidas demais, que esforço demandaríamos para domar o bicho ancestral que há em nós? É muito tempo gravado no cérebro de um, contra a evolução comparativamente incipiente de outro. Submeter-se atiça nossa voz interior com alegações de “olha a hipocrisia, você está se violentando...” Nosso apego à suposta autenticidade, pode ser a obstinação em abrir espaço e coexistir com a razão, o “novo”, de dez mil anos para cá.
Domínio de emoções significa civilidade nas ruas, na vida comunitária. Segundo Paul Ekmann, “a raiva é a mais perigosa delas. Os principais problemas que destroem a sociedade atual envolvem a raiva. É a emoção mais difícil de adaptar-se aos dias atuais, em razão de mobilizar-nos para a luta. Na pré-história, quando se tinha uma raiva instantânea e por um segundo se queria matar alguém, não se possuía tecnologia para fazê-lo. Hoje temos”.
Paixões bem exercidas têm sabedoria, sim. Orientam nosso pensamento, valores e sobrevivência. O problema não é a emocionalidade, mas a adequação da emoção e sua manifestação. Somos capazes de identificar o que não queremos sentir e podemos optar por comportamentos que nos impeçam de levar-nos por determinada emoção e sua expressão em situações parecidas. Não se trata de matar a emoção, mas usá-la sabiamente.
Quando o automóvel não tinha os avanços de hoje, o Jeep bastava e servia para qualquer caminho. Recriou-se o Jeep em versões mais caras, porém adaptadas para a estrada de chão. Mas admitiu-se também carros que são pérolas da tecnologia, perfeitos para boas estradas e sob condições específicas. É possível evoluir, adaptar sem perder a essência. Vale tentar.

11/09/2009

Laços de sangue



Relações familiares são marcas que não se apagam. Mesmo quando alguém resolve trabalhar longe, mais dia menos dia a saudade bate e não há outra alternativa senão pedir arreglo e buscar colo.
Elos só se preservam se forem azeitados, mantidos mesmo à distância. Hoje, com a facilidade das comunicações, não há desculpa para nos esquecermos de alguém. Vale o desejo de continuar tendo a pessoa no rol dos nossos sentimentos mais ternos.
É difícil lidar com os sentimentos de familia. Temos a obrigação de gostar, de ajudar e até de aturar, pela justificativa de que os laços de sangue nos unem. Às vezes isto não é verdadeiro. Desenvolvemos antipatias dentro da família, tão ou mais fortes do que aquelas que acontecem nas demais relações. A convivência familiar nos dá o suposto direito de sermos autênticos. Como se o mundo fosse uma prisão e o lar o único santuário de liberdade possível e ali pudéssemos ser nós mesmos no sentido amplo da palavra. Isto pode ser notado em fatos corriqueiros, como o ato de se arrumar para sair. As roupas mais novas deixamos para quando se está em contato com o ambiente externo e as mais velhas se usa em casa. Nós mulheres, podemos nos maquiar a semana inteira para ir ao trabalho, eventos, mas quando se chega em casa, pouquíssimas se enfeitam de novo para simplesmente estar em casa. É um contra-senso inconsciente. Justamente onde recebemos afeto da melhor cepa, onde nos apoiamos nos momentos difíceis, onde os sentimentos são incondicionais, presenteamos com o lado despojado de enfeite. E não é só no aspecto físico. Os desabafos, a franqueza, também são privilégio do lar. Mas "se eu não puder desabafar ali, vou desafogar onde?". Não podemos correr para um canto xingar ou esperar a vontade passar somente para poupar os nossos. Mas podemos ver qual cota nos cabe e que não precisa ser passada adiante, principalmente quando lá no fundo sabemos que a tempestade passa.
Estabelecemos relações de amizade profundas, independentemente da afinidade sanguínea. São os elos criados espontaneamente ao longo da vida. Abre um vazio no íntimo, quando somos privados da convivência de um amigo. Quando optamos por permanecer a seu lado é porque a presença é cara para nós. Quando as nossas escolhas de vida não nos permitem esta alternativa, a distância não impede que o reencontro seja um "parece que foi ontem" e a empatia permaneça a mesma de outrora. Elos podem estar inseridos no projeto de vida ou não. Ninguém se basta. Seja na continuidade da vida no contexto da comunidade em que se nasceu ou vivendo longe do torrão natal, sem os vínculos familiares ou aqueles construídos ao longo da existência, a vida não tem sentido.

10/09/2009

Perdão, a palavra chave




A historinha é de domínio público e tem pequenas variações de personagem mas a essência é mais ou menos esta: O pai conta ao filho uma metáfora no intuito de ajudá-lo a controlar seu ímpeto e mau gênio. "Cada vez que você tiver um acesso de ira e disser impropérios ou ofender alguém, vá naquela cerca de madeira e finque um prego". E assim o garoto fez. Sempre que não conseguia se conter batia um prego após a ofensa cometida. Passado algum tempo a cerca estava cheia de pregos. O pai pede ao filho que peça desculpas a quem magoou e que cada vez que o fizesse, retirasse um prego da cerca. O garoto passou então a pedir desculpas a quem havia molestado e a cada prego retirado, sentia-se mais forte e mais confiante. Após arrancar todos os pregos o pai levou-o novamente para junto da cerca e chamou a sua atenção para um fato. No lugar dos pregos, agora haviam buracos.
Carregamos as marcas dos nossos erros ao longo da vida, fazendo um esforço muito grande para minimizá-las. Nunca é tarde para voltar atrás e pedir desculpas por erros cometidos. Mais que isso porém, é o esforço de não ficar só nas desculpas e se firmar no propósito do respeito à maneira como aqueles que nos rodeiam escolhem para direcionar suas vidas.
Um outro ditado popular diz que "quem bate esquece, mas quem apanha, não". Remoemos por anos algo que nos desgostou. Somos capazes de repetir com detalhes a cena em que o fato desagradável aconteceu. Mas quando a vidraça é dos outros fica mais fácil imaginar que o agredido mereceu e que fizemos porque estávamos no direito de defender a nossa integridade, os nossos propósitos, a verdade. Que verdade? A nossa? É muito arraigada nas pessoas determinadas a cultura do certo, do meu certo, que não raro descamba para a intolerância com quem pensa diferente. E muito comum as se arvorarem da religião que professam para execrar não acredita no mesmo Deus que o seu. Esquecem-se o Deus de muitos nomes é único e prega igualmente o amor e o perdão, independentemente da língua em que seja invocado.
O perdão é a palavra chave. É mais doce e cômodo o perdoar. Porque as marcas indeléveis ficam com o ofensor. Esta ele irá remoê-las indefinidamente, até que as boas ações se sobreponham aos buracos na tábua e dali renasça um novo ser, que não mais olha para trás e segue em frente sem medo de ser feliz.

09/09/2009

Equalizando a frequência



Às vezes nos dá aquela vontade danada de discutir umas idéias que temos na cabeça e achamos maravilhosas, com alguém que temos certeza que vai nos entender. Tudo bem, se a vontade de telefonar não for às 8:00 horas da manhã e o nosso interlocutor é puro instinto, até passar o mau humor matinal. Até tentamos segurar a ansiedade, mas não é sempre que se consegue. O resultado é inevitável. Tudo o que retorna do outro lado é um balde de água fria. “Oi, tudo bem!”. Você espera e nada daquele “mas que prazer te ouvir!” costumeiro. É o suficiente para abortar seus pensamentos, por mais brilhantes que eles inicialmente tenham parecido. É aí nos convencemos que o melhor lugar para eles é lá no fundo do nosso cérebro.
É complexa a sintonia entre o nosso momento e o do outro, mesmo os mais íntimos. Estamos loucos para conversar e só de olhar para a cara do(a) parceiro(a), dá para ver que “o tempo se armou de fato, lá pras bandas do Uruguai”, e o olhar ferino que nos é dirigido nos desencoraja no ato. Ou então, estamos com uma dorzinha no coração, querendo colo e não sabemos o motivo. A única certeza que temos é de como seria bom alguém nos acariciar os cabelos e dizer que aquela tristeza vai passar. Mas que nada! O interlocutor vem logo dizendo: “Mas também, você não devia ter feito isso, ter dito aquilo”, e assim vai. É aí que nos faltam palavras para retrucar e dizer que não queremos nem precisamos de corte marcial. No fundo se sabe que se está sendo incoerente. Se a gente tivesse certeza e opinião formada, não ia procurar apoio. Estamos simplesmente querendo conversar com alguém.
Se o ouvinte é nosso amigo, vai perceber que não é o momento de julgar. Se tiver intimidade suficiente, pode até fazê-lo em ocasião mais oportuna. Como nos quer bem, vai pelo menos tentar nos compreender, captar o real sentido das nossas palavras e atitudes e ser o que se espera de um amigo: O companheiro de sempre que nos entende como irmão, porque gosta de nós e não dos nossos defeitos. A probabilidade da sintonia se concretizar é imensa, porque conta com a boa vontade dele conosco. É só tentar e se esforçar.

05/09/2009

Aquele que dorme



Quando alguém está de má vontade para fazer algo que lhe pediram é meio caminho andado para a explosão. Pedimos aos nossos adolescentes que ajudem na organização familiar, que juntem suas roupas ou que tomem banho e o fazemos delicadamente. Uma, duas, três. É meu amor pra lá, meu filhinho para cá e nada. Só que os nossos anjinhos estão com os hormônios explodindo em espinhas pela cara e loucos para cantar de galo e enfrentar alguém. Nada que nós também já não tenhamos feito em priscas eras. Agora é a vez deles. Os pais somos nós, os adolescentes são eles é a nossa vez de ter a paciência torrada. Cada um tem o seu papel nesta fase da vida. Podemos do alto da nossa suposta experiência dizer que isto é temporário, que é “aborrecência”, que nós já passamos por isso. Faz parte da afirmação deles contestar os pais e nós não podemos lhes negar este direito. Enganamo-nos quando achamos que embora a delicadeza com que os tratamos para pedir o que eles deveriam fazer por conta própria, o cidadão ronca grosso para encerrar o assunto e aí ninguém chega perto. Principalmente se nós deixamos transparecer que o tom carinhoso de solicitar veio acompanhando de um toque de voz meloso, porém forçado. Pronto, ficou na defensiva. É muito cômoda a estratégia, pois assim não faz o que lhe foi demandado e ainda coloca uma barreira que o protege e impede novos avanços, restando-lhe a alternativa de se fazer de vítima e incompreendido.
Será que explodir é a única maneira possível de se livrar de uma situação incômoda, mesmo que legítima a insatisfação? Botar um “pára-te-quieto” é sinônimo de ser agressivo e grosso. A voz demonstra a contrariedade fazendo com que a pessoa que insiste se sinta ofendida e desmontada, sem forças para ir em frente tornando difícil a retomada do diálogo.
Medimos nosso grau de amadurecimento quando já somos capazes de identificar com clareza os nossos sentimentos. “Estou chorando de raiva porque fui passada para trás, mas sei que não posso descarregar em ninguém porque a boba fui eu que me deixei enrolar e achei cômodo concordar, apostando que o outro ia ser leal comigo, quando estava escrito na cara dele que era da boca para fora”. Ponto final. Chore a vontade mas vá procurar os erros no lugar certo e não amaldiçoar quem percebeu o jogo e se conduziu pelas próprias regras.
Soltar os bichos não é privilégio das nossas crianças. Nós também, que cronologicamente somos mais adultos que eles o fazemos e lançamos mão de armas mais sofisticadas, como o sarcasmo e a ironia. A pessoa faz contrariada aquilo que se pede e depois fica arrancando casquinha de ferida, atazanando com insinuações que só fez por ter sido obrigada, eximindo-se de todas as conseqüências, fazendo papel de vítima e puxando o tapete pelas costas. É quando temos vontade de dizer que não é preciso colaborar se tivermos que pagar o preço de escutar as lamúrias.
A raiva, este dragão que dorme, fica ameaçando se soltar. Aparece sem pedir licença, faz a gente pagar os maiores micos, perder amigos, negócios e nos dá serviço em dobro para recuperar o tempo perdido. Quando a enxergamos nos nossos filhos parece que é fácil diagnosticar e que sabemos a solução para o emburramento constante. Todavia ela nos acompanha por toda a vida, hiberna mansamente até que um ruído possa despertá-la. É aí que vamos pôr a prova nossos sentimentos, descobrir se realmente estamos pensando e agindo como adultos ou se há um bicho hibernando mansamente à espera de um ruído para ser despertado.