21/08/2009

Rebobinando a fita



Andarilhos profissionais costumam ser acometidos por surtos de saudosismo. Nas andanças vê desfilar aos seus olhos o filme de uma vida ao deparar-se com a cumplicidade atávica que encontra em cada uma das comunidades onde vive por certo período. Não raro, deixa-se invadir por um misto de inveja daqueles que partilham uma história comum com tudo a que tem direito e que lhes confere compreensão imediata entre seus membros. A comunicação, por exemplo, se faz de maneira instintiva, sem palavras até. Um olhar, um cenho franzido é suficiente para que se compreenda o contexto, os sentimentos, o que se quer transmitir. É ou não é de dar inveja, num mundo minimalista em afetos como o nosso essa sensação de clã que quem vive muito tempo junto compartilha?
Se nascer, crescer, constituir família e morrer no mesmo lugar era característica de um Brasil rural, hoje a pirâmide se inverteu. A desocupação do campo inchou a periferia das grandes cidades e de favela em favela, alguns escapam da redoma da pobreza, tem acesso à educação e vão galgando postos na escala social. Mas para isso é preciso encerrar o passado, negar origens e assimilar costumes do meio que alcançou. E a pessoa que nos tornamos civiliza-se até certo ponto, ao mostrar que sabe manobrar as regras do convívio social urbano, mesmo que essa adaptação por força das situações a torne hipócrita.
Mas não podemos nos iludir. O limiar entre a franqueza e a grossura é tênue e ninguém externa com sinceridade angelical aquilo que pensa ou é. A reserva de franqueza está limitada pela capacidade de absorção do outro e disponibilizá-la significa abrir um canal para que venha uma resposta direcionada a nós. Quando se sente acuado o ser humano contra ataca e o faz devolvendo o problema, os defeitos apontados para quem os indicou. Feed-back se recebe, mas não se justifica, diz a teoria, mas na prática não estamos preparados para receber e logo desqualificamos quem nos dá o retorno.
A rede de hipocrisias existe em qualquer sociedade, seja ela pequena ao ponto de ser cúmplice ou grande num jogo selvagem de aparências e busca pelo poder. Mas a cada dificuldade lá vamos nós de volta à infância, morrendo de saudades da polenta com leite tirado na horinha, do pão caseiro, do fogão à lenha e aquele cheirinho maravilhoso da comida sendo feita sem pressa. É claro que não dura muito. Saindo dos devaneios, não abrimos mão do chuveiro quentinho, sem contar que leite integral tem muita gordura e não faz bem a nossa saúde e boa forma. Que centauro dos pampas que nada, melhor o carrinho 1.0, mesmo, que nos leva para onde queiramos desde que o tanque esteja cheio. Ah! morremos se a TV não tiver controle remoto.
Uma rede de amizade é uma rede de ajudas. Mas compartilhar em tempo integral é aceitar ser invadido pela disponibilidade que a ausência de privacidade proporciona. Somos seres sociais, sim e precisamos da convivência. Interagir propicia o aprendizado e a evolução. Mas convêm não sermos crédulos demais a ponto de achar que as maldades humanas são inerentes à modernidade ou aos grandes aglomerados urbanos. Elas existem em qualquer parte. Um grupo identificável e unido por traços de comunidade se policia mais, se expressa mais e de certa forma molda o comportamento de quem o integra. É solidário com seus membros o que dá a sensação de conforto, de proteção e é só isso que conta quando nos sentimos desamparados. É uma volta ao útero, ao colo. Só que nem sempre isso é possível e nos resta guardar as lições, valorizar as conquistas e seguir em frente.

Um comentário:

  1. Eu me considero uma andarilha...por gosto. E já bem pouco saudosista, pois me esforço bastante para ganhar atributos conscienciais melhores do que a média do meu grupo cármico.Na próxima vida, espero não nascer na mesma árvore, mas se não der que seja, pelo menos,no galho mais alto.

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