24/08/2009

Dissimulação


Queremos a supressão da capacidade de ler nas entrelinhas. Dói demais perceber o real sentido das palavras quando elas são combinadas de forma a nos omitir algo, a induzir-nos a raciocinar de forma pré-determinada pelo interlocutor, coisa que o nosso sininho interior se nega a aceitar.
Estamos ficando mais sabidos com as mensagens subliminares. Queremos a faculdade de não olhar nos olhos, porque corremos o risco de enxergar uma máscara por detrás do sorriso e nos perdermos naquilo que virmos. Se nos bastasse perder o instante, o fato em si, não haveria problema. Mas não há como dissociar a pessoa à nossa frente, da atitude que ela está tomando no momento em relação a nós, claramente dissimulatória.
Não precisamos enxergar os meandros de ninguém, já que os nossos próprios nos dão trabalho o suficiente. Tampouco cada um de nós é anjinho o bastante para também não fazer uso das mesmas táticas quando confrontados, instados a fazer aquilo que não queremos. A tendência é encararmos como defesa e minimizarmos o impacto que possa ter causado aos outros, a dicotomia entre palavra e expressão fisionômica, entre intenção e ação.
Corroborar com uma proposta de melhoria e transparência nas relações é tarefa árdua, que exige prática. O mundo não é condescendente com os ingénuos e demanda cada vez mais, gente esperta e inteligente, para os quais todos tiram o chapéu. Reunir estas duas qualidades não é privilégio de instrução, classe social ou meio ambiente. É nato, mas pode ser aprimorado. Existem pessoas de boa índole que fazem uso delas para viver melhor, mais saudável e tornam-se seres humanos cuja convivência é prazerosa. Não precisam de subterfúgios. Seu princípio é a abertura às informações para depois fazer uma crítica delas, sem necessariamente encarar como uma ofensa pessoal ou deixar-se atingir pela sensação de estar sendo ludibriado.
Outra maneira é não levar tão a sério as expressões de quem se relaciona conosco, nos momentos em que elas são externadas. Elas não deixam de ser um reflexo de sinceridade vindo do mais fundo do íntimo e espelham a verdade e a realidade que os sentimentos, naquele exato momento estão provocando na pessoa. Captá-las pela sinceridade que trazem embutida é ponto a favor. Interpretá-las somente à luz do momento é simplista e precipitado. Relaxemos.

21/08/2009

Rebobinando a fita



Andarilhos profissionais costumam ser acometidos por surtos de saudosismo. Nas andanças vê desfilar aos seus olhos o filme de uma vida ao deparar-se com a cumplicidade atávica que encontra em cada uma das comunidades onde vive por certo período. Não raro, deixa-se invadir por um misto de inveja daqueles que partilham uma história comum com tudo a que tem direito e que lhes confere compreensão imediata entre seus membros. A comunicação, por exemplo, se faz de maneira instintiva, sem palavras até. Um olhar, um cenho franzido é suficiente para que se compreenda o contexto, os sentimentos, o que se quer transmitir. É ou não é de dar inveja, num mundo minimalista em afetos como o nosso essa sensação de clã que quem vive muito tempo junto compartilha?
Se nascer, crescer, constituir família e morrer no mesmo lugar era característica de um Brasil rural, hoje a pirâmide se inverteu. A desocupação do campo inchou a periferia das grandes cidades e de favela em favela, alguns escapam da redoma da pobreza, tem acesso à educação e vão galgando postos na escala social. Mas para isso é preciso encerrar o passado, negar origens e assimilar costumes do meio que alcançou. E a pessoa que nos tornamos civiliza-se até certo ponto, ao mostrar que sabe manobrar as regras do convívio social urbano, mesmo que essa adaptação por força das situações a torne hipócrita.
Mas não podemos nos iludir. O limiar entre a franqueza e a grossura é tênue e ninguém externa com sinceridade angelical aquilo que pensa ou é. A reserva de franqueza está limitada pela capacidade de absorção do outro e disponibilizá-la significa abrir um canal para que venha uma resposta direcionada a nós. Quando se sente acuado o ser humano contra ataca e o faz devolvendo o problema, os defeitos apontados para quem os indicou. Feed-back se recebe, mas não se justifica, diz a teoria, mas na prática não estamos preparados para receber e logo desqualificamos quem nos dá o retorno.
A rede de hipocrisias existe em qualquer sociedade, seja ela pequena ao ponto de ser cúmplice ou grande num jogo selvagem de aparências e busca pelo poder. Mas a cada dificuldade lá vamos nós de volta à infância, morrendo de saudades da polenta com leite tirado na horinha, do pão caseiro, do fogão à lenha e aquele cheirinho maravilhoso da comida sendo feita sem pressa. É claro que não dura muito. Saindo dos devaneios, não abrimos mão do chuveiro quentinho, sem contar que leite integral tem muita gordura e não faz bem a nossa saúde e boa forma. Que centauro dos pampas que nada, melhor o carrinho 1.0, mesmo, que nos leva para onde queiramos desde que o tanque esteja cheio. Ah! morremos se a TV não tiver controle remoto.
Uma rede de amizade é uma rede de ajudas. Mas compartilhar em tempo integral é aceitar ser invadido pela disponibilidade que a ausência de privacidade proporciona. Somos seres sociais, sim e precisamos da convivência. Interagir propicia o aprendizado e a evolução. Mas convêm não sermos crédulos demais a ponto de achar que as maldades humanas são inerentes à modernidade ou aos grandes aglomerados urbanos. Elas existem em qualquer parte. Um grupo identificável e unido por traços de comunidade se policia mais, se expressa mais e de certa forma molda o comportamento de quem o integra. É solidário com seus membros o que dá a sensação de conforto, de proteção e é só isso que conta quando nos sentimos desamparados. É uma volta ao útero, ao colo. Só que nem sempre isso é possível e nos resta guardar as lições, valorizar as conquistas e seguir em frente.

19/08/2009

Paradoxo

Alma minha,
Essência que me anima
Estás tão gelada,
Quanto a geada que me cerca?
Será, maninha
Que queres que eu me perca
Em tantas madrugadas
Que povoam minha existência
Gelada?
Como podes estar gélida,
Se eu aqui estou?
És tu que me soltas,
Que acende em mim a faísca
Que faz com que eu siga à risca,
O que o destino me traçou.
Mas que destino é este,
Que mais parece peste,
Com este caos que se abate,
Às vezes sobre mim?
Que me faz ter mil anos,
Cometer tantos enganos?
Resta ser caldo ainda,
Cultura em início de vida
Borbulhando desencontradas,
Alma por ser nascida
Na negritude do começo,
Mas que, ao primeiro tropeço,
Vislumbra a caminhada,
Que aparece de repente,
Uma eternidade inteirinha,
Que se tem pela frente.

18/08/2009

Jogo de Palavras




Dizer que foi o receptor da comunicação quem se equivocou é uma atitude cômoda para o emissor, porém arriscada, já que a conversa pode se encerrar por ali. Quando lançamos mão do tradicional “você é que não me entendeu”, estamos transferindo para o outro a responsabilidade pelo equívoco que nós mesmos provocamos. Na prática, a nossa atitude em si é arrogante, pois não admite a possibilidade de erro e ainda por cima se exime das conseqüências, como se fôssemos donos da verdade e só a nossa versão é que contasse. Seria muito mais humilde e receptivo trocar a mensagem por “eu não me fiz entender”. Acalma o interlocutor e de quebra nos dá fôlego para uma segunda chance.
Ocorre que na maioria das vezes nos utilizamos dessa tática com a melhor das intenções e com o honesto propósito de esclarecer a idéia que queríamos transmitir. Como a resposta vem de imediato à nossa mente, estamos convictos que esta forma de se expressar é correta e tanto cremos nisso que a reação é automática e não entendemos que possa ser de outra forma. Mas corremos o risco de ir tudo por água abaixo quando cedemos ao impulso de não perder o controle da situação, de nos permitir a continuidade do poder. Às vezes precisamos realmente que o outro entenda, que seja o nosso parceiro naquela idéia, mas inabilmente deixamos a oportunidade escapar das mãos.
Cada ser humano tem um jeito próprio de pensar, de conduzir as situações e principalmente uma maneira peculiar de se “doer”. Se a nossa forma de falar coincide com aquela que o outro também utiliza, o impacto tende a ser menor, porém não deixa de existir a ponta de ressentimento, quando alguém nos insinua transferir a culpa pela dificuldade de entendimento. “Quem és tu que enxergas o cisco no olho alheio não enxerga o tijolo no teu olho?”. Está na Bíblia. Achamos nossas desculpas mesmo que num ataque de parcialidade venhamos a constar que elas servem somente para nós, nunca para os outros.
Em qualquer relação íntima ou não, precisamos preservar a nossa intimidade e a do outro. Quando se trata de um início de conversa, exposição ou relacionamento, todo cuidado é necessário. Ao mesmo tempo em que vamos discorrendo sobre o que queremos transmitir, o outro lado está velozmente fazendo associações que nos é impossível visualizar, já que nem sempre sua expressão traduz o que lhe vai por dentro e o nosso trabalho de se fazer entender vai ser dobrado. Também não vale ficar perguntando a toda hora: “Entendeu?”. Indispõe da mesma forma o interlocutor. “Esta criatura está subestimando minha capacidade de raciocínio”, pensa o outro. O que fazer, então? Algumas pessoas são mais transparentes e ao emissor atento ficar de olho colado na face de quem nos ouve, pode nos ajudar a redirecionar a forma de comunicação para que ela atinja o objetivo que pretendíamos.
Um pouquinho de humildade não faz mal a ninguém e quando a comunicação degringola, o mínimo que se pode fazer é gentilmente transformar o “você não me entendeu”, por “não foi isso que eu queria transmitir. Por favor, deixe-me tentar de novo e clarear os fatos”. Talvez ainda dê tempo de consertar o mal entendido e dar às palavras o entendimento comum ao emissor e ao receptor.

15/08/2009

Certezas


Há momentos em que o interlocutor quer arrancar de nós uma resposta a todo custo. Só que não é uma resposta qualquer. Além da nossa afirmativa ele procura se convencer e exige que tenhamos argumentos que o satisfaçam, que tiremos todas as suas dúvidas. De quebra, ainda se reserva o direito de esboçar o famoso sorrisinho irônico de Mona Lisa do século vinte e um e lançar o golpe de misericórdia: “Tem certeza?”. Antes que o rosto fique num vermelhão, a boca mais rápida que o cérebro e lancemos um monte de impropérios para cima do convencido, respiramos fundo e com esforço contido dizemos: “Certeza só a morte. Ainda assim para quem não acredita em Deus”, acrescentamos ao tradicional bordão que se lança mão quando alguém nos coloca contra a parede.
A vida parece nos exigir certezas continuamente. Como se fosse vital acertar a cada atitude que tenhamos. Vamos juntando um amontoado de valores e a certo ponto nos perguntamos o quê daquilo tudo sobra para acreditarmos mesmo, o que é certo. Se por verdade entendermos o que o tempo se encarregou de solidificar poderíamos dizer que ele é capaz tanto de ratificar posicionamentos quanto de desmontá-los. Daí a necessidade de rever nossas crenças, a fim de que elas se situem dentro de nós no limiar da dúvida. Crença é sinônimo de fé e passa pela sabedoria. Só se torna sábio pelo conhecimento. Ao contrário do que preceitua Platão em A República ao prever uma elite erudita, constituída de cidadãos especiais a governar a Polis, ou seja, nós o povo; entendemos que não há um guardião da verdade, mas que ela está um pouco em cada um de nós.
A postura de defensores da fé, dentre outras, permitiu à Igreja católica coesão e lhe garantiu a sobrevivência. Doutores da Igreja como Santo Agostinho, por exemplo, solidificaram o ideal platônico do privilégio da sabedoria, na figura dos sacerdotes que são educados e formados para viver exclusivamente na defesa da Igreja.
O equilíbrio das nossas convicções é que determina se estamos pendendo para a ausência de respeito com a fé alheia ou se admitimos a dúvida como forma de amadurecimento. Se nossa fé é tão fechada que não admite ouvir o outro, ela é um indicador da nossa fragilidade. Temos tanto medo que o outro nos convença, que blindamos olhos e ouvidos para não absorver o que nos contradiga.
O oposto ocorre quando nos deixamos levar por espertinhos que se acham herdeiros de Sócrates e podem extrair conhecimento dos outros, como se fosse uma maiêutica às avessas. É implícito ter instrumentos e capacidade para tal, senão o perguntado não aceita submeter-se a um tribunal que para o qual não vê motivo em ser inquirido. Por outro lado, quem de nós não se irrita com alguém que só responde por evasivas, que não se posiciona sobre nada nem tem segurança de coisa alguma? Sair sempre pela tangente pode significar um turbilhão de dúvidas, onde o sujeito está mais falando para si, sendo incapaz de convencer alguém.
O ser humano evolui pela experiência, sempre alerta para rever conceitos, sem ser impulsivo demais, sincronizando o passo do conhecimento com o seu universo particular. Vale aqui o pensamento de Alvin Toffler, Doutor em Letras, Direito e Ciência e estudioso do impacto das tecnologias em nosso tempo: “Os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não podem ler e escrever, mas aqueles que não podem aprender, desaprender e aprender novamente.

14/08/2009

O Pacto


A impotência é uma sensação perigosa e quando ela se instala, o sentimento é de que nossa vida não mais nos pertence e perdemos o controle sobre ela. Sem perceber, abrimos mão da capacidade de interferir no nosso próprio destino, convictos que nenhuma atitude nossa vá mudar o curso dos acontecimentos.
Sucumbimos ao fatalismo, à suposta ausência de sorte, ao pré-determinado por um destino que se incitados a clarificar, não sabemos dar forma ou concretizá-lo. O destino é assim. Cômodo, fácil e nos provoca aquilo que mais queremos fazer nas horas de desespero: Sofrer. Ah! Como um sofrimentozinho faz bem. Quanto mais descemos na nossa angústia, parece que o fundo do poço ainda está longe e incita a curiosidade mórbida de descer mais. Não queremos mais o domínio. É boa a sensação de se deixar levar pelo sabor das ondas. Detalhe: Não somos nós que estamos conduzindo nossa vida. Estamos nos deixando levar.
Daquilo que não tomamos parte, que não fomos chamados a decidir, também não nos compromete o resultado. Mesmo que o produto final seja aquilo que temos de mais sagrado: A nossa vida. Mesmo ela, que apregoamos sopro vital, presente maior da criação, carrega uma ambigüidade perturbadora. Ao tempo em que temos todos os direitos sobre vida, garantidos pelo livre arbítrio inerente ao ser humano, temos o compromisso do zelo. É como se tivéssemos assinado com o TODO, um pacto de gestão nos comprometendo a fazer uso da dobradinha corpo-espírito, durante um certo tempo, mas o melhor uso possível, sob pena de passar o resto da eternidade fazendo o dever de casa.
Independentemente da crença numa espiritualidade ou da não-crença, também é atributo que nos cabe este pacto imaginário ao qual faz bem nos apegarmos, nestes momentos em que nada parece nos dar alento.
Temos um contrato firmado com a vida. Como parte integrante de um TODO que somos, uma faísca dele nos cabe. E isto nos basta para acender no clarão da divindade e retomar o controle de nossas vidas.

13/08/2009

Agosto



Luz, quanta luz!
Se eras tanta
Porque fugiste
Deixando-me só?
A essência não inspiro
Ressecam-me,
Fazem-me fenecer,
Só a noite escura,
A chuva gelada
A garganta ressequida.
Há poucos resquícios
Há pouca vida
Para ser vivida.
Quero um crédito,
Uma cota a mais
Porque este ano?
Por quê me desengano?
Será que é profano
Implorar ao infinito
Que me deixe ficar?
Eu peço, contrito,
Mais tempo...
Há tanto
Que quero fazer.
Há trilhas a percorrer
Preciso do sol,
De novo no rosto
Preciso passar
De novo,
Por este agosto
Aí, com certeza,
Terei em seguida
Onze meses adiante
De mais vida
Inexorável.
Até que o novo agosto
Volte...
Implacável

11/08/2009

Civilidade


Segundo a consultora de moda Glória Kalil, “estamos em um momento de individualidade que traz coisas positivas, mas ela é perigosa, pois podemos nos esquecer do outro. Temos que olhar, ver o outro e ter o compromisso com a civilidade”.
Traduzindo para o dia a dia das pessoas comuns, não tão glamourosas quanto a Glória, o que seria civilizado para nós? Gentileza, bons modos, estilo? Tudo isso mais uma palavrinha que parece fazer parte só das camadas mais altas da sociedade, porém acessível a todos nós, sim: Elegância. Também é uma palavra diretamente ligada com imagem, transpira futilidade para aqueles cuja batalha maior é garantir a sobrevivência do dia seguinte. Movidos a necessidades básicas, soa gozação falar em elegância com esse público, mas é inerente a quem tem conteúdo, mesmo que sequer tenha conta bancária.
Viemos nesse mundo para evoluir. E como arremata Glória Kalil, na entrevista à revista South Star, “imagem é importante, mas com conteúdo. E conteúdo passa pela civilidade, e civilidade passa pelo reconhecimento do outro. Ninguém é chique sem ser civilizado”.
Quem vive em diversos lugares ao longo da vida paga seu preço por isso, como a ausência de raízes, mas tem a oportunidade de vivenciar diversas culturas e exercitar o aprendizado do respeito. O que é normal numa comunidade não o é noutra. E não estamos nem falando de morar no exterior. É só rodar pelo Brasil mesmo, com suas dimensões continentais para perceber a necessidade de atualizar-se em costumes locais, mergulhar em supostamente “mais civilizada”, leia-se urbana ou industrializada. Entra em cena no nosso processo civilizatório, como diria o saudoso Darcy Ribeiro, a elegância de comportamento.
Não se confunde respeito aos costumes, por criar máscaras de adaptação que quando lançamos mão indiscriminadamente gera um vazio cumulativo. Esse hiato na nossa vida proporciona-nos a sensação amarga de termos sido surrupiados de valores como autenticidade e firmeza, fortalecendo a incapacidade inata do ser humano de dizer não. Não queremos ser incomodados e dizer sim é mais fácil, não precisamos buscar problema à toa. Podemos usar muito bem os talheres à mesa, mas sermos incapazes de dar bom dia para o vigilante, o ascensorista, o porteiro, porque ele está lá para aquilo mesmo e não para ficarmos de trela com todo mundo que passa pela frente. Gente muito popular, muito dada com as pessoas é gente assanhada, introjetamos. Logo temos que ter postura, colocarmo-nos no nosso posto, que é acima dos outros, pensamos como deselegantes comportamentais que somos. E os demais que se ponham no lugar deles. Quanta arrogância, inconsciente até, mas discriminatória, incivilizada.
Evoluamos. Civilizar-se não é impor culturas. Pode ser abrir-se para o novo sem pré-conceito para que possamos entender o seu contexto. Uma vez inserido neles fica muito mais fácil aceitar atitudes alheias, não dar bola para detalhes insignificantes, não envergonhar-se da ignorância, sem necessariamente rebaixar-se. Evoluir é aprender e descobrir que cada aprendizado abre uma nova porta e que não há limites para o saber, para a bondade humana, para a generosidade entre os povos. Utopia? Pode ser. Mas precisamos dela para não perder o prumo, para acreditar no ser humano e divino que somos e na nossa capacidade de crescer de forma harmônica, consistente e sem limites ou medo de aprender.

Trivializar o anormal


Sabe aquela sensação que temos diante de algum problema e o nosso íntimo demonstra que não há o que fazer? E não é por preguiça ou covardia. É quando sentimos que só a nossa parte não basta, que por mais que façamos será inútil, não vai mudar um milímetro sequer. É um misto de prepotência com impotência. Prepotência porque ao nos convencermos de que não há nada a fazer, criamos uma visão particular da situação e o mundo ao redor está cego. Portanto, estamos trazendo para nós o papel de donos da verdade. Situações como o momento político atual, acionam a sensação de impotência. É só ligarmos a TV para percebermos que o novelo da crise não termina nunca, confinando-nos à posição de meros expectadores. A coisa está tão bizarra, tão complicada, que a verdade em si há muito se perdeu no emaranhado de versões dos mensalões e mesadões, escândalos no Senado, quem mentiu ou não e por aí vai. O que importa agora é quem consegue construir uma verdade mais consistente que a outra, condizente com a memória subitamente curta dos envolvidos, cada qual preocupado em dar uma interpretação que o incrimine menos, mas que ao mesmo tempo precisa ter um núcleo de informação comum com os demais depoimentos, a fim de que se aproxime do ideal de ”verdade”.
O poder de manipular é um universo distante da realidade do ser humano comum que embora paradoxal, nossa atitude é de respeito até, pela capacidade de quem domina suas regras. Mas onde está nossa competência e idoneidade diante das forças que nos passam informações ao tempo em que nos fazem de marionetes? Entendendo essa crise de ética e moralidade, trazemos o controle para nossas mãos. Respeitar a competência do manipulador não será posicionamento de fuga ou condescendência. Tampouco imperioso. Será honesto sem cair para a bondade extrema, que se confunde com humilhação, para compreender melhor e agir da forma adequada.
Estamos nos acostumando demais, achando tudo natural demais, trivializando o que é anormal. A normalidade excessiva é contagiosa, negligencia a intuição e produz escuridão mental. A intuição trás a dúvida, faz-nos assumir a solidão, desenvolve a conscientização particular quanto ao perigo e as intrigas. Quem se torna alerta sozinho escolhe o que fica, descarta o que não serve e se permite renascer. Fazer uma tradução própria dos acontecimentos permite-nos funcionar como um todo. Somos forçados a lutar pelo que acreditamos, superar nosso desencantamento e terminar o que iniciamos. Transmitindo adiante nossa visão e interagindo, fortalecemo-nos. Compartilhando agregamos força, porque nos juntamos a outras pessoas e quando estamos juntos é mais difícil de sermos quebrados.
É tentadora a vontade de fechar os olhos a essa realidade deformada e conviver com o turbilhão esperando que ele passe. Mas o esforço em aceitar o anormal sufoca o instinto de reagir e isto não é justo conosco. De que serve a impressão de que nada nos incomoda, se estamos impingindo-nos a trivialização do que é anormal? Convivendo com a impotência avalizamos quietos pessoas e grupos que usam nosso santo nome em vão. Somos pasteurizadamente, o “povo brasileiro”. Banalizando irregularidades, podamos a raiva e a capacidade de interferir nos acontecimentos, mesmo que firam nossos princípios.
Quando a letargia toma conta é mais uma voz se cala. E quando o número de pessoas a falar é insuficiente, o mundo também se silencia e com ele aquieta-se a capacidade de consertar, corrigir desvios e seguir em frente. Podemos conviver com isso, mas o silêncio e a resignação mais dia menos dia nos acordará com um “Oh! De novo não!.

05/08/2009

Quem tem medo de Joan Brossa?









O calor daqueles últimos dias de janeiro era insuportável e mesmo assim não resistimos ao desejo de visitar o MARGS-Museu de Arte do Rio Grande do Sul-. Estava em cartaz uma exposição do artista catalão Joan Brossa, de Barcelona ao Novo Mundo. Chegamos um pouco antes do horário e de cara encontramos o museu em obras e com o ar condicionado sem funcionar. Na primeira sala de exposição, correntes pendiam do teto instigando-nos a olhar para cima e uma placa na parede indicava o nome da obra: Correntes de Dâmocles. Levamos um susto e veio o pensamento inevitável e quem estava conosco percebeu: “Estas correntes estão prestes a cair sobre as nossas cabeças!” Era uma obra de arte contemporânea. Uma instalação? É difícil imaginar o que o autor queria expressar com a obra, mas se era impacto, conseguiu.
objetos que trazem referências explícitas ao casamento, como as algemas com um de seus lados substituídos por uma pulseira cravejada de pedras que lembram brilhantes.
Este tipo de arte é um mundo muito difícil de penetrar, principalmente para leigos como nós. Quem transcende a realidade e depois a trás para mostrá-la, não necessariamente atinge o seu objetivo.
Joan Brossa angariou entre os espanhóis a fama de catalão mais representativo do século 20. Pouco conhecido na América Latina, o nome da exposição também é uma ironia a este desconhecimento de sua obra. Também pudera. Brossa faz a chamada arte contemporânea, esta que tanto nos instiga e nos põe em dúvida quanto ao seu caráter utilitário, mas que é uma forma paralela à sobrevivência de divulgar principalmente a inconformidade do artista diante da hipocrisia inevitável da existência. O trabalho passeia por vertentes que vão desde objetos, instalações, poemas visuais até livros e cartazes. O artista é apaixonado pelas palavras e procura extrair delas o duplo significado, o medo que elas podem provocar.
O artista lutou na guerra civil espanhola e quando ela acabou passou a se sustentar com a venda de livros proibidos pelo franquismo. Foi admirador do movimento surrealista de Joan Miró e Joan Prats, escreveu para revistas e dedicou-se à poesia. Natural de Barcelona,faleceu em 1998, com quase 80 anos e em plena atividade. Na década de 20 seus poemas reinvindicavam a Catalunha livre de quaisquer submissões, fossem econômicas, políticas ou religiosas. O poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto era seu amigo e lhe apresentou a cultura brasileira e latinoamericana, enveredando pelo cunho social. Nos anos 60 agregou a poesia visual, indo além da palavra e fixando-se na letra. Ao trabalhar desde as letras até a sujeira, Joan Brossa pretendeu provocar a humanidade e seus dilemas. Foi uma espécie de artista multimídia, levando as experiências da poesia até as últimas conseqüências.
A arte é como a alta costura, que não é usável e é o núcleo das idéias que se disseminarão em roupa/arte palpável e aceita/usada por crítica e público. Enquanto o novo paradigma não se impõe o artista sobrevive do suporte tradicional, até que um novo modelo de arte assuma o papel de vanguarda. E começa tudo de novo...

Incautos e impulsivos


Como lidar com os nossos extremos? Supervisão constante ou privação de oportunidades? Escolhas, simplesmente. E só contamos conosco para traçar um mapa mental do terreno a cada decisão, consolidar o sistema até que o cérebro acostume-se a buscar interesses que preencham a sensação de estar perdendo algo quando se diz um não. Por detrás da expectativa da perda há uma diminuição da exposição desnecessária a riscos. E quando se tem uma inaptidão natural para detectar mentiras, somos de certa forma, uma ameaça ambulante à nossa integridade.
Quando as ferramentas internas são insuficientes para lidar com algumas situações, vale apostar na precaução. O mundo interior de quem tem pouco senso espacial é voltado para as palavras e não precisa de imagens, pois a mente formula diálogos sem necessidade delas. Detectar pequenas diferenças em expressões faciais, por exemplo, é quase impossível. Não porque não queira, mas por não ter o artefato necessário.
Quando tomamos decisões sem pensar, cremos naquilo que queremos que seja verdade, revelando nossa natureza impulsiva. Quando há algo em jogo, a tendência a acreditar é reforçada. Criamos um viés inconsciente para ignorar sinais que sustentem a credulidade pessoal e bloqueamos por um momento as indagações que a desafiem.
A predisposição à resposta imediata significa exposição ao perigo e nestas circunstâncias é difícil dizer não a ele. Se não temos habilidades suficientes para detectar farsas, sejam palavras, rostos, corpos ou voz, o mínimo que podemos fazer é limitar o contato. Nem todo mundo com um sorriso esperto é uma boa pessoa. Contudo, se caímos sempre na mesma armadilha e nos desapontamos depois, resta monitorar a sensação de perda de oportunidade. Isto acontece quando somos tentados a fazer algo que uma voz interna nos diz: cuidado! E nós estamos loucos para confiar. É isso: síndrome do cavalo encilhado, que não passa mais e adeus chance de vivenciar e aprender.
Há ainda, o desejo de ser esperto em contraponto ao medo de fazer juízo errôneo sistemático das pessoas ao nosso redor. Não há um roteiro para verdade ou mentira. Saber que o outro mente, ofende. Gostar ou não das pessoas impacta o nosso julgamento e elas percebem. Aqueles que usam conosco das mentiras por omissão são difíceis de notar e fáceis de escapar impunes, pois inexiste ferramenta clara para se avaliar algo que a pessoa não disse. Na maioria das vezes, tudo o que disseram é verdade, mas ficaram só alguns detalhes de fora, presumindo o engano. No fundo sabemos, sentimos e permitimos. Se isso ocorreu, bola prá frente, sem se lamentar se algo tentou-nos, foi instigante e até confortável. A autopiedade é dispensada como justificativa para a ausência de argumentos lógicos para contrapor decisões ilógicas. Temos que dar o desconto para a habilidade alheia e tentar sermos menos incautos e impulsivos da próxima vez.

04/08/2009

Desajeitados

Para quem é desajeitado o senso espacial e a memória visual são suficientes para andar por aí com segurança. Não se lembra de carros ou rostos que viu pouco e crê piamente que a sua parte do cérebro responsável por espaço e formas só tem só neurônio paralisado. Deve ser por isso que não achamos a menor graça naquele mico que pagamos na infância ou adolescência, quando fomos ridicularizados na frente de todo mundo e aquela amiga insiste ainda hoje em dar gargalhadas homéricas só de lembrar, cada vez que nos encontra.
Quando crescemos numa mesma cidade a adolescência desajeitada é acompanhada por todos aqueles com quem compartilhamos aquela fase. E ela passa muito lentamente, de maneira irritante para nós e percebida pelos companheiros de forma divertida, às vezes deixando um buraco na nossa auto-estima, já naturalmente combalida no período. Se não éramos bons no esporte, por exemplo, levamos a falta de jeito incapacitante vida afora, porque se existe habilidade cuja aquisição não se dá na vida adulta, com certeza a coordenação motora necessária para os esportes está entre elas; aí incluído, andar de bicicleta. Ponto para quem muda de cidade. Neste aspecto, o comportamento arredio é visto por estranhos de uma forma simpática, até, e não necessariamente zombeteiro. Quem conviveu conosco continua a nos notar da mesma forma que antes, num raciocínio cristalizado com pouquíssimas as chances de nos ver com outros “olhos”, que na verdade são aqueles com os quais gostaríamos que nos enxergassem.
Convencemo-nos de que não adianta detalhar internamente e depois externar certas recordações marcantes. Basta-nos o raciocínio formado sobre elas, o lugar que fixamos para nós nas lembranças e a responsabilidade pessoal em todo esse contexto. Assim, cristalizamos nossa opinião somente. Passamos tempo demais formando hábitos, o que torna um martírio quebrá-los de uma hora para outra. O que passa aos outros na verdade é a surpresa do inusitado, o que gera um pouco mais de simpatia nas pessoas.
Na mudança permanecemos os mesmos, mas o interior nos é mais agradável por ser a nossa essência e torna cautelosa a exposição ao novo ambiente. Passado o tempo, outras atitudes ridículas adquiridas vida afora podem muito bem ser percebidas. Para seguir adiante, com pequenas variações de uma pessoa para outra, somos bastante competentes em obstruir da memória, fatos dolorosos e desnecessários.
A competência no bloqueio de lembranças se aplica também quando apagamos alguém da memória e é preciso muito esforço para trazê-la de volta, no que nem sempre somos bem sucedidos na empreitada.
As inabilidades são mais difíceis de lidar e expõem-nos junto a terceiros com algo que não queremos lidar. No fundo, é uma recusa a crescer em todos os aspectos e uma baixa tolerância à frustração. Não é um bicho papão à espreita, são apenas nossas dificuldades nos convidando a enfrentá-las. Outras limitações podem estar mascaradas pela falta de jeito e só temos a ganhar ao nos libertarmos do tempo perdido na briga interior. Não custa começar.