06/07/2009

Serventia


Nossa sociedade contemporânea consolidou os clichês para ratificar o que queremos encerrar peremptoriamente, dar um veredito, sem comportar maiores elucubrações. São armadilhas que lançamos mão num ímpeto de explicar qualquer coisa que apareça e para a qual não tenhamos tempo para um raciocínio mais amplo ou até por incapacidade mental nossa de fazê-lo.
Fruto da nossa ignorância, toma corpo o descarte de tudo aquilo que não enxergamos aplicação imediata. Sinônimo também da impaciência característica dos nossos dias. Só nos serve o que é instantâneo, centrado no que está acontecendo agora e que precisa obrigatoriamente servir para alguam finalidade. Qualquer raciocínio um pouco mais complexo é doideira do interlocutor. O que serve é o aqui e agora.
Na visão utiliária e imediatista há todo um culto ao presente. Passado e futuro perderam a importância e nós a capacidade de rever atos e pensar adiante. As tecnologias digitais forçam o uso do real-time (que também poderiamos traduzir por sincronia) e a medida de valor é a do presente. O On-line não admite ruídos, chiados de rádio ou mal entendidos. É proibida a pausa para o raciocínio. Só vale o que é útil e o uso de clichês. Taxa-se de prolixo, quando na verdade se quer apenas raciocinar e entender o contexto. Há momentos em que mesmo o ruído, o insólito, o aparentemente inútil é necessário para renovar processos, trazer idéias inovadoras e fugir da pasteurização e da mesmice.
Na arte, também não vemos finalidade utilitária, aquilo que Kant chamou de “finalidades sem fim”, Ou seja, “o objeto belo tem a forma da finalidade – achamos que ele é o que devia ser – e, no entanto, não tem fim determinado, pois não nos é possível determinar o que é que devia ser”. Mas nem por isso nos privamos do despertar dos sentidos. O ser humano reage às interações com corpo e mente. Não há resposta isolada e cada um de nós necessita da sua porção de belo, respeitado o nível de entendimento de cada um. Não há como prescindir do necessário á sobrevivência, mesmo que num primeiro momento não identifiquemos onde isso vai dar.
Quando um aluno rejeita informações que não estão dentro do seu leque de interesse, alimenta a pergunta fatídica: “Para que serve isto mesmo?”. Só que ele está repetindo um hábito que é da nossa sociedade como um todo: o conceito arraigado da utilidade das coisas. O Sistema Educacional, por sua vez, cansado de ouvir isto do seu público alvo, se deixa levar pelo útil, alimentando no aluno a predisposição à raiva contra qualquer linha de pensamento que lhe busque ensinar um mínimo de como fazer bem determinada atividade, induzindo-o com algumas técnicas de pensar criativamente.
Toda Filosofia é pensamento, mas nem todo pensamento é Filosofia, diz o filósofo e poeta Antônio Cícero em entrevista à revista Ciência e Vida Filosofia, nr. 25. E se definimos Filosofia como o pensamento abstrato e incisivo, aparentemente é inútil dentro do contexto do utilitarismo. Porquê então torná-la matéria do ensino médio? Mas é sobretudo por ser um pensamento crítico e radical, que a Filosofia pode e deve instrumentar nossos jovens a questionar pressupostos vigentes e fazê-los pensar de forma autônoma.
Tempos pragmáticos, estes nossos, onde a velocidade da informação impõe uma urgência que pode até ser benéfica no presente, mas que foca apenas no ato em si e se esquece do desenvolvimento da capacidade de pensar, o que é prejudicial a longo prazo. Ainda há tempo para não nos reduzirmos a meros repetidores de clichês impostos pela mídia, pela política, onde o fast-food intelectual é absorvido por nós sem que percebamos. O que não nos absolve do pecado da conivência.

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