30/06/2009

Domínio


A luta permanente do vice-presidente brasileiro contra o câncer que o acompanha há anos é motivo de admiração pela maioria de nós. Por mais que sua visão da doença seja irrealisticamente positiva aos nossos olhos é contagiante e digna de aplausos a maneira insistente como ele enfrenta a moléstia, situação em que muitos já teriam entregado os pontos. Mas não. Paralelo à sua obstinação em lutar, nós que o acompanhamos pela mídia, insistimos em procurar naquele sorriso permanente dele, um ar de representação. É inevitável especular sobre qual papel ele está desempenhando, se é para nós ou para ele próprio buscar forças e assim dominar o inimigo instalado em seu corpo. Domínio, esta parece ser a palavra. A doença já o acompanha há doze anos e ele aparenta desdenhar dela. Como quem ignora um espinho no pé e segue caminhando. De vez em quando pára, faz um curativo, ajeita a pisada, mas nem por isso deixa de seguir em frente. A vida continua, apesar da doença. Não fosse um quê de malignidade que um câncer traz, a despeito da evolução da medicina, talvez não fosse o mesmo objeto de admiração e enfrentamento.
Milhares de pessoas convivem diariamente com doenças muito mais dolorosas e incapacitantes por longos períodos e isso lhes tira a qualidade de vida. Mas mesmo assim, insistem em viver, procuram alternativas e seguem num nível razoável de felicidade que minora o seu incômodo e daqueles que estão ao seu redor. Monitoram-se e com isso enfrentam a “companheira” de todos os dias sem se deixar subjugar por ela. Cremos que há uma espécie de competição entre pessoa e doença, porém sem ódio ou autocomiseração por ter sido atacada com o sofrimento que a convivência proporciona. Outros se deixam entrevar dia após dia e rendem-se ao padecimento. Não se quer dizer aqui que transformar as agruras que a doença traz é apenas uma questão de atitude mental derivada da vontade. A ilusão positiva precisa de mecanismos internos, funcionamentos mentais não afetados pela sua estrutura física em si, que viabilizam a competição da(s) parte(s) preservada(s) em prol da cura. Se outras estruturas físicas ou mentais estão danificadas, não há como esperar a postura de enfrentamento pelo doente, já que esse não possui ferramentas para tal. Na pior das hipóteses, a automelhora protege da negatividade que impede a busca pelos mecanismos da cura, mais fortalecidas e confiantes.
No fundo, as pessoas normais e saudáveis distorcem de certa forma a realidade para criar um mundo mais gentil do que na verdade existe. Para quem convive com a enfermidade, como José Alencar, qual o problema de criar para si um raciocínio parecido? Convém lembrar, quando se fala de doenças com um alto grau de letalidade, que a esperança é uma dádiva, mas tem seu lado sombrio: Ela dá mais que toma, mas sem ela essa vida seria um osso duro de roer.
Precisamos manter um senso pessoal de invulnerabilidade e segurança, para continuar vivendo e motivar os outros a fazê-lo. Principalmente quando se é uma pessoa pública como o vice-presidente. É difícil criar um sentido para a nossa existência que nos satisfaça. O mundo nem sempre parece justo e o otimismo, difícil de ser sustentado. A vulnerabilidade é relativa e é insustentável constatá-la todos os dias. Ainda assim, para seguir vivendo, não se pode desistir da esperança, da boa vontade e da alegria. E que venga El toro, não é cidadão José Alencar?

29/06/2009

Decisão


De cisão.
parir ou não?
é hora do troco,
do sufoco.
do roxo.
do arrocho.
de mudar
ou ficar?
de sair
de ir
é um muxoxo.
ainda assim,
chocho.
a vida ruim,
órfã de perspectivas.
até meu jardim,
é só expectativa.
coisa egoista!
para que plantar,
a terra revolvida,
se o pé está na porta,
quando se está de saída?

28/06/2009

Ovelha

Preciso arranjar um jeito,
se não perfeito,
quase.
preciso pôr os demônios
para fora
Senão eles me consomem
Agora.
Preciso subir à tona
de imediato.
Senão vou à lona,
Nocaute de direita
e de fato.
Quero luz e palco
aplausos.
a ribalta me atrai
preciso provar a mim mesma
mundo afora,
que não sou essa mediocridade
que sempre aflora
sufoco-a, empurro-a,
Sou estrela,
que me importa!
se as evidências me contradizem
impiedosas
se a minha cara é comum,
como milhares de outras
se eu sou comum,
como qualquer outra.
Os outros não precisam
concordar comigo.
eu me basto.
estou só.
pasto.

27/06/2009

Amiga

Há dias ensaio
Um telefonema
Não deu.
Dou-te
Um poema
Pretenso verso
De rima nua.
Com os fantasmas
Tergiverso,
Brinco de cabra-cega.
Contigo derramo
Sem pedir licença
As dores, as mesuras,
As amarguras.
Teço, desenrolo,
Teias infindas,
Idéias desencontradas
Que se realizam
Nos meus sonhos.
Pergunto-te cara,
Continuarás a ouvi-los
Na caminhada?

26/06/2009

Gurus


Gurus estão na moda no universo profissional, mesmo que o adepto esteja bem no trabalho, mas sente que precisa de algo mais para crescer que não consegue achar em si próprio. É a senha para que entre em cena o guru. E não é só aquele que ministra palestras motivacionais, mas o que está ali do lado, no ambiente de serviço mesmo. É que no fundo, precisamos de referências para saber por onde seguir e buscamos isso nos outros. Às vezes nem conhecemos pessoalmente alguém, mas gostamos dessa ou daquela característica dela. Podemos discordar em alguns pontos ou mesmo acreditar em tudo que diz, mas é quem nos passa a sensação de “um dia quero ser tão bom(boa) quanto ele(a)”...Pronto, criamos o guru, que pode ser para o campo pessoal, profissional ou religioso.
Alcançando o que pretendemos com determinado modelo, temos a sensação de estar no caminho certo. Todavia, corremos o risco de iniciar o círculo vicioso de mal superarmos um mestre, já nos submetermos a outro. Deixamo-nos convencer por idéias alheias, embora pareçam sob medida para resolver um problema imediato que temos. Sem maiores reflexões se aquele princípio é viável de acordo com as nossas crenças ou modo de vida, somos sob certos aspectos inexperientes ou estamos sob cochilo mental ao adotar a primeira idéia que vislumbramos genial. Apressadamente permitimos o roubo das nossas idéias, o que não quer dizer que sejamos tolos, mal intencionados ou que isto ocorra quando se é jovem. Acontece com qualquer um e independe do grau de instrução ou mesmo das boas intenções.
No auge das carências não fugimos do incomum, o impulso fala mais forte, não nos deixando perceber a intenção dos outros permitindo que nos subtraiam o que é significativo, nosso tesouro interno, enfraquecendo o sentido de identidade. Pode ser uma interferência ou interrupção de algo que nos é vital, como esperança, crença na bondade e vem de onde menos esperamos. O entusiasmo ofusca uma leitura mais racional do cenário. O afã de encontrar um caminho nos faz ingênuos. A percepção falha quanto às motivações dos outros e nos torna inexperientes em projetar o futuro, perceber todas as pistas do ambiente, já que o destino nos proporciona lições ocultas não apreendidas numa análise superficial.
Aqueles a quem seguimos podem não ter completado o seu processo de aprendizado. Muitas vezes, ditos gurus, ao propagar suas idéias, estão em processo de convencimento, não maduros o suficiente para saber como prosseguir. Se sua iniciação no assunto está incompleta, vão nos omitir variáveis importantes ainda não dominadas, causando estragos em seus adeptos. Na prática trata-se de uma idéia já inicialmente fragmentada e por isso contaminada de uma forma ou de outra.
No outro extremo, quem passou pela experiência do furto das idéias, luta por ter maior domínio da situação, mas desnorteou-se e ignorando outros aspectos a serem observados completar o aprendizado, voltam ao primeiro estágio, o de ser submetido ao roubo, repetidas vezes. A certeza de nossos valores pode ser a forma de nos mantermos inteiros, sem se fechar para o ato de aprender. Quem ensina ainda não sabe tudo. Substituir o conhecimento que já incorporamos, pelo de outrem tem um custo para nós. Não é o que perdemos, mas é um cheque a descoberto, que contaminou nossas crenças e não depositou nenhuma certeza em troca.
É possível fazer do aprendizado um referencial que não descartamos, simplesmente. Apenas acumulamos, agradecemos os ensinamentos, mesmo que seja só pelo exemplo dado.

24/06/2009

Rotina


Manter o equilíbrio não é fácil. Exige vigilância. Como na canção do Osvaldo Montenegro – Quem se lembra dele? – “Cuidar de amor exige maestria. E Léo e Bia souberam amar...” A estabilidade não é nossa característica. A mudança é como ser diferente a cada instante, premido pelas circunstâncias e ainda assim, manter o todo íntegro. Cremos que só é possível percebendo o que é importante, o que é imutável para nós. Cedendo no que não nos violenta, talvez. Mas se de pedaço em pedaço desfizermos o núcleo, o todo?
É fácil ser instável. Ficamos todos de sobreaviso. “Não fala nada com àquele(a) lá, porque ele(a) te larga as patas sem a menor cerimônia”. É muito cômodo fazer só o que se quer. “Eu sou assim e pronto. Quem quiser que me aceite!” E os outros que se virem em adaptar-se à figura. Até que alguém se canse e afaste-se da criatura. Ou então, o que é pior, comece a retaliá-lo(a) e que quando menos perceber, o chão já fugiu dos pés e é o(a) último(a) a saber.
Qualquer dia nosso, por mais comum que possa parecer, revela a batalha que travamos todas as horas para que seja tranqüilo. Se você trabalha fora o dia inteiro e quer que os legumes sejam suficientes para a semana toda, garantindo a tranqüilidade alimentar da família, teve que se desdobrar no sábado anterior. Foi à feira do produtor às 8:00 horas para ter os melhores espécimes “made in roça”. Abriu mão de dormir até tarde no sábado, mas tem o domingo te esperando. Não adianta. Aí é o seu relógio biológico que se encarrega de ter acordar às 7:00 horas. Ele faz isso a semana toda e qualquer coisa diferente, seu organismo ativa o mecanismo de defesa.
Gostamos do previsível. A rotina aparentemente nos chateia, mas se ela não ocupar a maior parte do nosso tempo, entramos em pânico.
Que tédio essa proposta de vida, hein? Não mesmo. As quebras de rotina também fazem parte do equilíbrio e precisam existir. Elas são como o sal, o sabor. Se colocarmos demais estraga. Mesmo o melhor perfume, se usado em excesso, incomoda. Sem contar que a ausência de programação, a vida em aventura, também não deixa de ser uma rotina, quando adotada como norma. Só temos que estar bem preparados física e psicologicamente. Os prazeres são em dose maior quando se vive intensamente? Até pode. Mas chega uma hora em que cremos que vá enjoar também. Sem contar que o preço é sempre mais caro do que se imagina.