31/12/2009

Trato


Então fica assim.


Está combinado.

Está tudo combinado,

plagiando aquele rap.

Para 2010 não vale tristeza,

não adianta desesperança.

Só conta cada sorriso,

verdadeiro, feito criança.

Marca ponto ser autêntico,

ou pelo menos tentar sê-lo.

Rende ao relacionamento,

um mero afago no cabelo,

daquele que a gente ama,

do que é companheiro.

E se der aquela vontade

de cantar no banheiro,

e que por um momento,

sejamos estrelas no chuveiro.

Não. Não quero sorriso forçado,

quero algo natural.

Não quero camuflar a boca

e olhar fugir sorrateiro,

denunciando-me a angústia,

instalando-se por inteiro.

Que a brisa seja sentida

e não apenas vislumbrada.

Que a contemplação seja engolindo

o ar puro pelas narinas

e quando menos se esperar,

impregnar na retina,

aquele cheiro de mar.

E não se possa fazer nada

que não integrar-se ao todo,

deixar vir aos borbotões

a energia que emana

da divindade, presente

em cada um de nós.

Não, eu não quero ouvir,

que a paz não é possível,

que verdades podem ser construídas,

que utopia é perda de tempo.

A construção de cada humano

revestido de ternura

implica na parte de Deus,

inscrita em cada criatura.

Que se insere todos os dias,

sem que se possa perceber.

A evolução sai devagarinho

e não dá para saber

qual foi o momento exato

da alma prevalecer,

sobrepujar o instinto,

recobrir-se da matéria pura,

tão leve que não imaginamos.

Tão sutil que não percebemos.

Tão límpida que não sentimos

o transcorrer da evolução.

Terra, eu te peço

para 2010 e entre tantos que virão,

mais paciência conosco,

mais resistência com os ataques

que a humanidade te impõe.

Seja na violência contigo,

seja com seus habitantes.

Que se inicie o caminho de volta,

ao paraíso de antes.

29/12/2009

Um lugar para conhecer antes de morrer


Um frio de 10 graus positivos nos recebeu em Bogotá. Para Marluce e eu, oriundas do calor amazônico, o ventinho acolhedor era de gelar os ossos. Ceci, nossa anfitriã, era dona do El Goce Pagano, uma casa noturna de música caribenha. Um mojito preparado por ela pôs fim à tremedeira e nos deu as boas vindas.


A época da viagem era explosiva. Literalmente. Os guerrilheiros do M-19 haviam invadido e incendiado o Palácio da Justiça. No episódio, morreram quase todos os integrantes da Suprema Corte de Justiça do País. No dia anterior à nossa chegada havia explodido o vulcão de Armero, há pouco mais de cem quilômetros da capital. O medo não impediu que perambulássemos pela cidade e conhecêssemos as choperias, usufruíssemos dos belíssimos concertos na Universidad Nacional, da mostra de cinema cubano em pleno isolamento, inclusive cultural da ilha de Fidel. Por toda parte, capacetes sobre os telhados indicavam a presença de franco-atiradores e a Ceci não largava do nosso pé.

A delicada situação impediu que visitássemos o outro destino da nossa viagem: Cartagena. A Colômbia que eu amo não tem cartéis. Tem salsa, tem gente como a Ceci. Nos traços ríspidos da minha amiga colombiana sobressaem-se os olhos. É como se ela emergisse do universo mágico de Gabriel Garcia Marques e enxergássemos dois poços de um verde infindo, como as esmeraldas de lá. Olhos ancestrais, intermináveis. Sós. Tem também o que restou do Museo Del Oro. E olha que sobrou bastante. Imaginemos o que os espanhóis carregaram para o continente europeu? Tem as rosas mais bonitas que eu já vi e a magnífica Catedral de Sal de Zipaquirá, subterrânea, esculpida numa mina desativada de sal mineral. São tantas belezas que guardo na retina, difícil de enumerá-las todas, sem fazer injustiça àquela que porventura ficasse de fora. Mas tem uma que não dá para esquecer: A minha sonhada Cartagena das Índias, com seu mar e seus fortes, protegendo-a dos piratas de outrora, que povoam a minha imaginação e impulsionam o desejo de estar lá. Já se decorreram mais de vinte anos. O sonho permanece e me enche de saudade. Da aventura, da irresponsabilidade em não desmarcar uma viagem mesmo sabendo dos acontecimentos. Dos ímpetos peculiares a quem tem vinte e poucos anos e da atmosfera mágica que parecia cercar aquilo tudo. Talvez os olhos de hoje não sintam a mesma magia, mas Cartagena das Índias ainda é um lugar que eu quero conhecer antes de morrer.

09/12/2009

Não é preciso




Tem certas coisas que até podem acontecer, mas não é preciso que passemos por elas ou que as suportemos. Não é preciso ir de carro até a praia se você está há dois quilômetros dela e pode muito bem aproveitar para caminhar mais este trecho e assim obter melhor condicionamento físico. Afinal, caminhar faz bem em qualquer sentido seja ele estético ou de saúde. Mas podemos usufruir igualmente dos benefícios da caminhada extraindo dela o que ela puder lhe oferecer de melhor. E o melhor pode ser deixar para caminhar na beira da praia que é mais prazeroso e saudável, longe do vaivém dos carros e suas descargas. Nós já enfrentamos stress e buzina o ano inteiro e se pudermos ter a areia do mar, porque se contentar com o cimento?

Não há necessidade de sentir dor física. Sabemos que ela é o sinal de alerta do organismo, que precisamos dar-lhe a atenção necessária para que a doença não se alastre. Se não sentíssemos dor, nosso corpo se deterioraria sem que percebêssemos e não haveria como evitar a morte. A medicina nos mostra que as piores doenças são aquelas em que entre os seus sintomas não se encontra a dor, como o diabetes, por exemplo.

Almejamos sentir o mínimo possível de dor, se viável isto fosse. Mesmo com o físico na idade madura, queremos a vitalidade dos verdes anos e a quase ausência de dor que eles nos proporcionam. Passamos longos anos em busca do bem estar físico e quando vamos refazer a contagem percebemos que os momentos de cansaço ou sofrimento físico foram os companheiros mais fiéis da jornada. Tão presentes, que nos acostumamos com eles e não queremos que vá embora. Geramos assim um círculo vicioso que redunda em mais doença e menos satisfação. Com isto, perdemos a capacidade de usufruir da sensação de bem estar crescente que pode existir em cada momento, em cada atitude positiva nossa.

Não adianta olhar para trás e constatarmos que o instante anterior era melhor que o atual e que ameaçadoramente é o que acontecerá no período seguinte. As dores não podem ser o pretexto para se fechar para a vida. Porque aí alimentamos a dor mais perigosa: A que mina os nossos sentimentos, a nossa mente e nos deixa incapazes de extrair da existência a sensação de plenitude. Envelhecer é preciso. Deixar-se invadir pela dor, não.



13/11/2009

Mau Humor Matinal



Tem dias que achamos que estamos fazendo mais pelos outros do que aquilo que julgamos que eles sejam capazes de merecer. Parece que a nossa cota de gentileza esgotou-se e aqueles que nos rodeiam estão em débito conosco.

Há dias em que acordamos com a cara feia e que temos de concordar que o nosso bom dia sai meio azedo. Não é um bom dia de boca escancarada, acompanhado de um sorriso que vem de dentro. É um balbucio, que preferiríamos até não esboçar, mas que a cortesia do dia a dia nos impõe. O mínimo que esperamos é que o outro enxergue o nosso mau humor matinal, respeite-nos e fique quieto também. Embora nos levantemos às sete da manhã, nosso corpo só vai dar por conta que já está de pé lá pelas dez horas. Aí sim é que vamos entrar no ar como se a inércia sumisse repentinamente e nos invadisse a vontade de cantarolar: “...deixa vida me levar, vida leva eu...” Ô Zeca Pagodinho filósofo que só. O rádio a estas alturas já está ligado ou o fone de ouvido e então abrimos o melhor sorriso para quem estiver em volta. Simples, assim. Tão fácil de entender, pensamos.

É difícil ser gentil sempre, seja em casa, no trabalho ou com os amigos. Quanto mais íntimos, mais cremos que eles são capazes de nos entender nos momentos difíceis, que estamos “fechados para balanço” ou que são traços da nossa personalidade, peculiaridades do nosso funcionamento. Aí é que a coisa pega. O outro lado também espera o mesmo de nós e o que dizemos abruptamente nessas horas, sem pensar, magoa e fica remoendo. Tira o sabor dos bons momentos compartilhados.

Lembro-me de uma cena de um filme de desenho animado da Disney, onde coelhinho de nome Tambor faz troça das pernas desengonçadas do Bambi que está aprendendo a andar. É quando mamãe coelha diz mais ou menos assim: - Tambor, lembre-se do que seu pai lhe disse: Se não puder dizer uma coisa agradável, então é melhor que não diga nada – Pode ser uma boa saída.

06/11/2009

A medida da vaidade




A vaidade é um dos elos indesejáveis na corrente do bem. Para que as pessoas sejam estimuladas a engajar-se numa boa ação é preciso que elas saibam que esse modelo existe para que possam empenhar seu tempo e esforço agregando valor a essa cadeia possibilitando que o bem se expanda. Mas o pecado está na vaidade. Ao se expor, mesmo que com a melhor das intenções estamos dizendo ao mundo que somos bonzinhos, que fazemos isso e aquilo e cá prá nós, traz uma satisfação ímpar ao nosso íntimo. Esta fogueira de estímulos se propaga ao ponto de inviabilizar ações benéficas se duradouras, pois o que era para ser um trabalho altruísta acaba se tornando uma guerra de egos.


Todos gostamos do aplauso, faz parte da nossa natureza de ser social estar buscar sinais de aprovação onde quer que eles estejam, mesmo que sutis e que o nosso íntimo possa exultar e sentir: "alguém me viu". Vaidade misturada com poder, a dupla que anda sempre junta na demarcação do espaço que julgamos ter direito.


Na esfera institucional, virou moda a responsabilidade sócio-ambiental nas empresas, que combina o binônimo natureza e relacionamento social. A instituição ou empresa que não explicita sua preocupação com o meio ambiente e com as pessoas que interagem com ela está fadada à exposição pública, taxada de politicamente incorreta. A alternativa é fazer, simplesmente, mas dê-lhe mídia para divulgar que está realizando e não raro, gasta mais com a publicidade do que com a atividade em si. “Puxa, mas o que quer então a turma da patrulha? Se não faz é cão danado e se faz é exibida, vaidosa?”. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. O que se defende é o cuidado com o brilho e não se deixar ofuscar por ele. É instintivo, inocente até. "Mas como eu não estou fazendo nada? Eu faço isto, isto e isto. É pouco?". Cada um faz o que pode, o que está ao seu alcance e a visibilidade também faz parte do encadeamento. O difícil é acertar a dose e ser sincero. Podemos calcular racionalmente todos os benefícios que um produto irá proporcionar ao consumidor, mas se não encontrarmos uma forma de atingir o consumidor no seu lado emocional, ele pode até emplacar, mas antes dele vai ter muito produto pior porém mais focado na divulgação que vai cair no gosto do mercado muito antes ou até o ofusque ou destrua quem não teve tanto cuidao assim com a propaganda.


Mesmo ícones do altruísmo, com um histórico incontestável de atitudes de vida voltada para o próximo não escapam dela. Um exemplo nos é trazido na entrevista concedida à jornalista Marília Gabriela por Marcel Souto Maior, biógrafo do falecido médium Chico Xavier. Indagado se havia algo que o incomodava em Chico Xavier, ele afirmou: "Sim. A vaidade. Nos últimos anos da vida dele, aqueles mutirões de caridade e cura seduziam multidões e os meios de comunicação divulgavam maciçamente tais eventos. Mesmo com a saúde frágil, tais ocasiões lhe eram muito agradáveis".


Refletir sobre a vaidade não é suficiente para que sejamos "perdoados" do pecado de conviver com ela admitir que a temos e que de certa forma até, ela faz parte do contexto das boas ações. O próprio ato de repensá-la para saber se está na medida certa para com os propósitos do bem, embora bem intencionado não deixa de ser apenas uma constatação. Significa assumir que somos vaidosos não só no que se refere à imagem como também quando se trata de ações, por mais altruístas que pareçam. Todos nós estamos sujeitos mesmo quando não divulgamos explicitamente o bem que fizemos, não resistimos e avisamos em pensamento ao Deus da nossa crença: "Olha lá, estás vendo que eu fiz uma boa ação, não está?. Vê se põe na minha contabilidade do bem”.

30/10/2009

Além das Aparências



Gente de caráter não se liga com quem emite baixas vibrações. Parece coisa de místico, mas pode traduzir por antipatia simultânea. “Não fui com a cara dele(a)”. Ou sentimentos bem mais terrenos como “não fecha comigo e pronto. Não vou perder meu tempo”.

Pode parecer prepotência, mas todos nós temos o direito de escolher com quem queremos nos relacionar, a menos que as circunstâncias nos obriguem. Nestes casos, apenas suportamos, com um esforço enorme da nossa parte, porque implica se violentar. A zona de atrito é maior quando estão em jogo não somente situações corriqueiras, mas quando por trás da aparente singeleza delas escondem-se caráter e valores incompatíveis com os nossos. A sensação é de desamparo. “Porque é que eu tenho de passar por isto?. O que eu fiz para merecer este castigo?”

A capa de civilidade às vezes ofusca as verdadeiras intenções. Com os broncos é mais fácil. A gente já sabe o que se espera deles. Eles já vão estourando, quebrando os pratos logo de cara. Mas quando a coisa não é nítida, não é mensurável e aparentemente não se tem justificativa lógica, aí é que mora o perigo. A delicadeza no tratamento, adotada para mascarar os verdadeiros propósitos, confunde os incautos. Mas sempre acende uma luzinha lá dentro que a gente não sabe o que é, mas sente que algo está errado. E ela fica piscando, emitindo sinais de alerta como uma onda de calor captada por um equipamento ultra-sensível, mas penosa de se alcançar.

Tudo o que não é aparente é complexo provar. Ficamos com o sentimento de sermos os únicos a enxergar um demônio por trás daquela capa de sedução. Tem que ter muita precisão para perceber que aquele(a) que gosta de “tirar casca de ferida”. Não há antídoto, já que a ausência de escrúpulos demonstra tratar-se de pessoas determinadas, que sabem muito bem o que querem.

Se a convivência não nos é tão dolorosa assim ou se precisamos mantê-la sob pena de outras perdas que nos causariam igual ou maior sofrimento, vale uma partida de xadrez. A gente pode até jogar, mas fica cuidando dos movimentos do outro para poder ver o lance ideal. Só não vale executar jogadas previsíveis, porque aí é xeque-mate na certa. Se a opção for não encarar o relacionamento, uma dica vem do Dalai Lama “Se você achar a pessoa tão desagradável, que seja impossível agüentá-la, talvez seja melhor sair correndo”.
 

26/10/2009

Primeira impressão



Ironicamente alguém comentou que ela era uma pessoa “espaçosa”. Queria dizer onde quer que fosse ocupava todos os lugares, inundava a todos com a sua presença. Uma pororoca visual e falante que não deixava ninguém incólume após sua passagem? Ou alguém do tipo “arrasa quarteirão?”. A semântica pode ser diferente e o sentido era o mesmo. Pessoas deste tipo fazem as coisas acontecerem. Incomodam, deixam todos irrequietos na cadeira e por detrás do sorriso, enxergamos ameaças. E elas dizem a que vieram, deixando-nos perplexos sem saber se são ingênuas demais; ou então se são boas estrategistas que largam de chegada a capa da autenticidade, mas não se afastam um milímetro sequer daquilo a que se propuseram. Provocam antipatia ao primeiro contato e deixam todos com o pé atrás.

É muito bom quando há uma reversão de expectativas em relação a pessoas com quem inicialmente havíamos nos antipatizado. Neste caso a inversão de posicionamentos é positiva e refere-se à síndrome da primeira impressão. Deixamo-nos levar precipitadamente pelo reflexo que o primeiro contato nos causou e por ele passamos a moldar todo o nosso comportamento em relação a alguém.

Vivemos numa gangorra, preocupados demais em não sermos volúveis e aí mantemos posições indefensáveis, pelo simples motivo de que a primeira impressão é que conta. Perdemos com isso a oportunidade de conhecer melhor, descobrir a verdadeira personalidade do recém-conhecido e os benefícios que poderíamos auferir do manancial de conhecimentos únicos que cada ser humano dispõe. Não descartamos o poder da intuição. Mas a proposta é depurar nossos sentimentos, identificar o componente emocional que na maioria das vezes constitui a visão negativa e procurar o que é verdadeiro em si, o que realmente reflete a índole da pessoa e o seu comportamento frente a vida. Olhando o fato em si, podemos racionalmente escolher se queremos compartilhar ou não, relacionarmo-nos ou não com aquela pessoa. Se a impressão continuar negativa, aí sim, podemos concluir que não vale a pena.

É claro que ninguém pára para fazer elucubrações, filosofar, raciocinar e concluir se aquele motorista que nos deu uma fechada no trânsito, nos xingou, merece a nossa consideração ou se vamos riscá-lo do nosso mapa mental. A velocidade das interações não nos permite tais paradas, mas pelo menos podemos fazer um esforço para que o negativo não vinque no cérebro e nos estrague o dia. Principalmente quando a convivência é curta, porém intensa e nos assusta, como é o caso da nossa amiga “espaçosa”. A criatura pode ser alguém com personalidade, apenas. Um doce de pessoa, insegura ao se inserir num ambiente que não conhece, enfim. Só derrubando as barreiras, desarmados é saberemos realmente que tipo de ser humano existe detrás da fachada inicial.


24/10/2009

Gota D'água


“Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa. Que qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota dágua...Pode ser a gota dágua...”A repetição da última frase da música do Chico Buarque fica ecoando em nossos ouvidos. “pode ser a gota d`água...Pode ser a gota d`água...” Vá ser sensível assim mais longe, o Chico. Para perceber com tanta sutileza as nuances da alma feminina... Só pode ser mulher. Ou então travestir-se em sentimentos tipicamente femininos ou que assim transparecem ser. Talvez por isso aquele par de olhos verdes fique grudado na retina das mulheres cinquentinhas, um pouco mais, um pouco menos, anos a fio. Mostrando em canções os matizes dos inevitáveis sofrimentos da existência, como diz um amigo nosso.

Estamos resvalando aqui para o preconceito, ao intitular de feminina a prerrogativa da sensibilidade, mas é de caso pensado. O sentimento é intraduzível na maioria das vezes, por mais que nos esforcemos em transmitir aos parceiros, companheiros, a ponta de mágoa que um gesto, uma intervenção inoportuna provocou em nós. No fundo, é a famosa gota d`água. Represada, uma hora aparece a última gota. Como se houvesse a necessidade de esvaziar permanentemente o copo de mágoas e não deixar a cólera tomar conta.

Ah, Chico, você não pode ser real. Se fosse, estava junto com a Marieta e nosso raciocínio tosco, maniqueísta, iria por água abaixo. Amamos, logo, ficamos juntos. Se não estamos juntos, descuidamo-nos. Portanto, não amamos e em conseqüência nada do resto tem validade. A percepção quase irreal das emoções alheias beirando a perfeição, não passava de um blefe e de uma tacada só, invalidamos tudo. Se não foi perceptível ao outro, entendeu-se que ele não atribuiu a mesma importância que nós e, não raro, rotulou na coluna das bobagens.

A razão nunca tem um lado só. Mas a ótica do rancor é muito particular e não se desvanece com raciocínios lógicos. Ela nos fere e pronto. Se não conseguimos clarificar, transformar em palavras a “gota d´água”, por mais que o outro insista, resta-nos o passar da tempestade para saber se realmente dá para juntar os destroços.

22/10/2009

Ritos de Passagem



A indiazinha tikuna tinha a pele amarelada pela malária e não aparentava mais que doze anos. Mas o que lhe dava um ar mais estranho ainda, era a cabeça, coberta por uma penugem rala. Tivemos contato com ela na Casa do Índio, de Atalaia do Norte-AM, nos anos oitenta, quando trabalhávamos em Tabatinga-AM. Foi quando conhecemos o ritual de passagem da tribo, conhecido como festa da moça nova.


Os tikunas, tribo do alto Solimões, com grupos espalhados também pela Amazônia peruana e colombiana, tem entre seus hábitos, a festa da moça nova,  Quando a menina tem sua primeira menstruação é dado conhecimento á tribo que entre eles há uma nova mocinha, preparando-se para ser mulher. Ela então é retirada do convívio dos demais e levada para um lugar reservado sob a guarda das mulheres mais velhas, onde ficará confinada durante aproximadamente um mês, tempo normal até que venha a próxima regra.   Quando ela menstrua outra vez, há uma grande festa e é apresentada como uma nova mulher na aldeia. Durante as comemorações, seus cabelos são arrancados fio a fio pelas mulheres da tribo. Na ocasião, seu pai escolhe aquele que será seu marido. Há todo um ritual com bebidas e  danças com vestimentas feitas de casca de árvore e máscaras que identificam cada família, feitas de uma madeira muito leve a tingidas com pigmentos naturais.

As comunidades católicas e algumas evangélicas realizam cerimônias de primeira eucaristia para crianças, geralmente pré-adolescentes. Participamos há tempos, de um destes rituais e presenciamos o desfecho de uma preparação que dura de dois a três anos, conforme a comunidade. Elementos como a oração, estudo dos evangelhos, temas como o sal da terra, a luz do mundo, são reforçados nas celebrações, que não deixa de ser um rito de passagem dentro da religião. A criança é apresentada à sua igreja e está verbalizando para todos que está apta a receber o Cristo em seu coração, através do rito da comunhão. Comum união. Passa a fazer parte de uma grande família que defende os mesmos princípios, valores e crenças.



Outros povos têm os seus ritos. Eles são estranhos e até cruéis a quem não conhece o contexto, como no caso da tribo tikuna. Não existem fronteiras físicas na Amazônia a não ser o Rio Solimões e marcos isolados ao longo da fronteira, que são guardados pelas nossas Forças Armadas, mas de resto, se estende pela Colômbia e pelo Peru, indiferente ao traçado dos mapas.

Não existem fronteiras para o ser humano dizendo claramente que uma fase terminou e que se iniciou outra. Mesmo que internamente saibamos quando a mudança se deu, precisamos comunicar aos nossos comuns, o que está acontecendo conosco e para isto criamos os ritos. São cerimônias que nos marcam, fortalecem-nos e nos dão identidade. Quando os perdemos é porque não precisamos mais deles ou porque os substituímos por outros que melhor nos tocaram, preencheram-nos, fazendo rever nossas crenças e buscar outros caminhos para dar sentido à vida.


21/10/2009

Projetos



É bom iniciar projetos, buscar soluções que ninguém pensou antes, que nos diferenciam frente aos nossos pares, à nossa comunidade.

Mas existem aqueles projetos que transcendem ao individual, ao ambiente de trabalho e envolvem a coletividade. Estes padecem de um problema crônico: a falta de continuidade na sua execução quando o autor da idéia passa o cargo adiante. A maioria não resiste a uma troca de diretoria, de mandato. Rei morto, rei posto. Quando se trata do setor público, temos o hábito de atribuir-lhe todas as mazelas de uma comunidade. Raciocinamos como se o Poder Público fosse uma entidade etérea, composta só por seus governantes e os edifícios que os abrigam.

Como se não houvesse cérebros, pessoas que se encarregassem de dar forma às ações. Eles lá e nós cá, quando é o contrário. Há um todo do qual fazemos parte e no qual temos que oferecer nossa contribuição enquanto cidadãos. É fácil ter algo incorpóreo para atribuir a culpa. A empresa, a escola, a prefeitura, a direção. Ao invés de nominarmos a quem se responsabiliza ou deveria fazer o quê, atiramos para o impessoal. Mesmo na personalização a tendência é sempre para o abstrato: “Eles não querem que se faça assim”. Eles quem? É a medida da sociedade às escuras, onde indicar responsáveis significa antes de tudo a possibilidade de atribuir culpados. Resquícios da ditadura, preocupação com o réu e não com a tarefa de sanar o erro corrigir os rumos e seguir em frente.

A maioria dos bons projetos não está à espera de ser criado. Já existe e precisa tão somente que mais alguém entre no barco e ajude a remar. O próprio Poder Público não existe sem uma coletividade que o apóie, que coadune com suas propostas, que esteja alimentando-as com suas idéias. E principalmente, que esteja atento àquilo que foge dos propósitos globais, que não surtiu os efeitos desejados e que precisa ser reavaliado. Criar o novo demanda esforço, convencimento e dinheiro para erguer toda a nova estrutura. Examinar pelo menos aquilo que o antecessor fez é no mínimo questão de bom senso. Às vezes, encampar uma idéia e aperfeiçoá-la conferindo-lhe uma roupagem mais solidificada, preservando o objetivo inicial, poupa tempo e desgaste. Sem contar que por não ser habitual, forja imagem de altruísmo e coerência de quem, antes da paternidade de um feito, quer saber se ele é viável ou não, à luz da racionalidade e do bem comum.

20/10/2009

MATRIX - Qual realidade você quer?


Só a MATRIX cria ilusões para a maioria dos humanos. No mundo real muitas vezes também somos levados a escolher em qual realidade queremos acreditar: Real ou virtual? A pílula azul ou a vermelha, como no filme MATRIX Reloaded. Admitir, mesmo que em tese mais de uma realidade é cutucar com vara curta conceitos já vincados em nosso cérebro e para os quais o defensor antes de ser identificado como pretendente a criação de um novo conceito é simplesmente rotulado de louco. Não é compreensível defender junto aos incautos a idéia de contrapontos consolidados. Não existem “metades”. Há “metade” e pronto. É raciocínio pacífico. Fugir disto é inventar outro modelo e partir em direção a raciocínios de multidimensionalidade, ramo hoje mais entregue aos místicos, mas secretamente pesquisado, exaustivamente estudado pela ciência. Como o modelo atual da ciência é fisicalista, o próprio resultado da pesquisa só é divulgado por aqueles cientistas de vanguarda ou pelos claramente dispostos a quebrar o paradigma vigente. Foi assim com Einstein e a teoria da relatividade, embora ela não seja exatamente um exemplo novo, porque se valeu dos conceitos da ciência atual.

Quando se trata de definir o que é a verdade, os limites da polêmica já estão mais maleáveis. Dá até para se valer de Einstein, quando se admite cientificamente que o tempo é relativo, dependendo do espaço e da “realidade”, onde nos encontramos. Verdade pode ser admitida como mais de uma, dependendo de quem a defende. É uma questão de ângulo, de enfoque, diretamente ligada à existência de fato para aqueles que a sustentam.

Por isso, é admissível crer que é possível escolher a realidade em que queremos acreditar e viver o nosso mundo particular. Nossas crenças são os valores que construímos. Nossa MATRIX pessoal se conecta à grande MATRIX. E a escolha da pílula a tomar é nossa. Vai uma pílula azul, da realidade normal e glamourosa ou a vermelha, do real e da dificuldade? Escolhamos. Mas será que não deveria haver um meio termo?







19/10/2009

Ausência de motivação ou de vontade?



Enquanto motivação é a ação de tudo o que pode impelir uma pessoa a um comportamento, a vontade é a tendência ou inclinação espontânea, agir livremente, querer fazer. Relutei em começar este texto, quando a idéia me veio à cabeça, mesmo sabendo que se não lhe desse forma o tema me fugiria. Falta de motivação ou de vontade?

Você trouxe frios do supermercado e não os acomodou logo, pois apareceu algo mais urgente. Raciocina que quem vá usar primeiro, guarde da forma habitual. Porém, a maioria dos nossos anjinhos deixa-os abertos, os plásticos escancarados, o presunto escorrendo à espera do nosso ataque de nervos. Mas é tão fácil. Frios no pote, plásticos no lixo seco e pronto. Mas cadê a vontade?

Você presenteou alguém com um processador de alimentos que só falta voar. Tem pecinha para tudo. “Que pena, sujar tanta peça... e eu moro só”, retruca a presenteada. Ponto para ela. Pouca gente se dispõe a enfrentar qualquer equipamento, sem que se faça a relação esforço-benefício.

Você está no trabalho e precisa daquele relatório que imprimiu, mas não sabe onde está e não lembra o nome do arquivo. Mesmo assim, prefere procurar no computador, imprimir um calhamaço de folhas, antes de dar uma olhadinha na gaveta. Mas isso é a impressora que faz...

Experimente pedir aos filhos para atar os cadarços dos tênis ou pisar dentro deles, ao invés de estragar a parte traseira de tanto pisar em cima. Eles vão discutir à exaustão a falta de importância do ato, quando seria muito mais fácil gastar menos de um minuto calçando o tênis direito e atando-o e poupar a sua paciência.

Territorializamos nossas vidas em cima do conhecido, do conveniente no momento. Para abrir mão de uma vontade ou da ausência dela, gastamos energia desnecessária e na prática deixamos de satisfazê-la. Não é jogando para debaixo do tapete ou postergando que resolvemos. Em contrapartida à nossa vontade, existem outras tão férreas quanto a nossa. Uma delas é a consciência e o remorso cobrando um tema perdido, como acontece sempre comigo. A continuidade é o drama de cada dia. A rotina é o desafio. Precisamos começar sempre e ter a desculpa para não terminarmos. Iniciar é estimulante. Continuar é entediante.

Questionado sobre seu imenso poder, o personagem principal de um filme infantil da década de noventa, O rei Leão diz: “Existem mais coisas que temos que fazer além da própria vontade”.

12/10/2009

Pedidos a Deus



Se a personificação de Deus tivesse uma agenda, ele teria um trabalho danado para atender os nossos pedidos de todos os dias. Não há nome tão lembrado e, diga-se de passagem, em vão. Qualquer sustozinho que tenhamos, lá vem um Oh! Meu Deus!. Parece até que copiamos dos filmes americanos a mania do Oh! My god e por pouco não saímos por aí dizendo I love you, já que este é outro bordão que não falta em filme made in USA. Sim, porque americano diz Oh! My god e I love you para tudo, o que não quer dizer que quando usam estas expressões estejam lembrando sinceramente de Deus ou que estejam amando de fato alguém ou ao supremo.


Pedidos na cultura religiosa estão diretamente ligados à oração à comunhão com o ser supremo, que o homem em desespero implora e eleva as mãos aos céus pedindo, apoio e satisfação de suas necessidades. O Deus da nossa crença é um repositório de tudo aquilo que a nossa natureza humana considera insolúvel ou que embora contido na partícula divina que temos conosco, não descobrimos direito o código fonte. Necessitamos então, de uma mãozinha do sagrado para descriptografar a mensagem que sabemos que está dentro de nós, mas que no fundo não nos sentimos tão Deus assim e apelamos para a Porção Maior. E exemplos é que não faltam a nos estimular. Vejamos Cristo ao secar a figueira, mostrando aos discípulos o quão poderosa é a fé em si e no sagrado. Mas a Bíblia nos diz para pedir direito, senão a gente corre o risco de não receber porque não pediu, ou não receber porque não mereceu ou ainda, não receber porque pediu mal. Até para fazer requerimento ao Divino a gente precisa saber o que quer. Não há como perder o sacrossanto tempo com quem não atinou para que lado vai, não está fazendo uso do livre arbítrio e quer pôr nas mãos do Senhor a responsabilidade por um destino que é de cada um de nós. Deus não está a postos para providenciar tudo. Queremos mão beijada e não fazemos a nossa parte. A gente também tem que dar uma mãozinha e acreditar que somos imagem e semelhança Dele. Senão o Todo Poderoso terá desperdiçado a chama sagrada que incutiu em nós. “Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.”, está em na Epístola de Tiago, 4-3. E se Deus é refúgio e fortaleza, socorro presente na angústia, é natural que o procuremos na hora do aperto. Por isso, nossa cota de pedidos é sempre maior que a de agradecimentos.

Todos os povos invocam o Divino na necessidade de ajuda e todos eles também o fazem para agradecer. É uma forma de comunhão, é uma forma de conversar, que pode ser com ou sem intermediários. Mas seja como for, profundamente válida quando sozinhos não somos realmente capazes de resolver nossas mazelas do cotidiano e lidar com o inevitável sofrimento da existência.

O que você não pode pedir



Há pedidos que não podem ser feitos. São os que constrangem a quem são dirigidos e não deixam nenhuma alternativa senão a concordância. Pedido assim é ordem dissimulada.


Você trabalhou o ano todo, em todos os momentos em que foi demandado, mesmo que fosse fora de hora. Mas agora surgiu o convite de bodas de prata daquele amigo, que sequer pensa na possibilidade de uma negativa da sua parte. Seria normal se o local do acontecimento não fosse Curitiba, uma semana antes do carnaval e você não fosse gerente de eventos de um clube da Capital, famoso por seus carnavais. Quem está constrangendo quem? O seu amigo, quando marca a festa quando você não pode ir? Sua mulher lembrando as inúmeras vezes que o clube precisou de você e você compareceu, mesmo abrindo mão de compromissos particulares? Ou você, indo para cima do presidente do clube, dizendo que pelo menos uma vez na vida, você pode deixar de lado o trabalho e fazer algo que no fundo, também quer? Você sabe que não vai perder o emprego por isso, portanto sua posição é cômoda. Poder, você pode. Mas será que deve, que tem este direito?

Tudo o que cria teias que levam os outros a ter que “optar” sob coação é desagradável. Amigo que não se coloca no lugar do outro para saber se vai conseguir o que quer sem subterfúgios não é amigo, é opressor. Empregado que se aproveita das circunstâncias inegáveis é aproveitador. E a premissa vale para o patrão também. Mas se você passou a vida servindo de burro de carga para o chefe, filho, marido/mulher, amigo, eles vão ficar ofendidíssimos com uma negativa sua, mesmo que tenha aquiescido todo esse tempo a contragosto. É sinal que ninguém olhou para a sua cara antes ou se preocupou em saber se estava agradando.

Circunstâncias como pedir esmola, solicitar emprego a político, ou favor, inferiorizam quem solicita e, coagem quem concede. Ficam duas pessoas em situação incômoda. Uma delas, impelida por uma espécie de necessidade que a leva a depender da boa vontade de alguém e outra que é pega de surpresa e fica obrigada a decidir em prol do pedinte, mesmo que não seja essa a decisão que tomaria.

Mas uma estrela cadente rasgando o céu num clarão fugaz, também evoca pedidos. Saúde, sorte no amor, dinheiro, vale o que a nossa carência estiver necessitando mais. Pedir ao incorpóreo, ao Deus de nossa crença é comum, intrínseco, automático. Aliás, este é assunto para outro artigo. Pedidos a Deus.



09/10/2009

Vida de Novela




Existem características e posturas que se incorporam à pessoa e formam a visão que temos dela, até os mais íntimos. Há quem saiba ser sedutor em público, passar uma imagem maravilhosa e ser um desastre na intimidade. Passamos a vida representando então? Buscando o melhor para si no intuito de construir um personagem para representar? Seria simplista concordar que conscientemente o ser humano possa fazer isso. Mas sabemos que não é difícil nos emaranharmos nas teias que construímos e passamos a incorporá-las, acreditamos nelas e vendemos essa imagem para os outros.
Uma novela de TV tem de 30 a 50 personagens, exceto a figuração. Se a história acontece no interior, há um bar, uma farmácia, uma religião, uma determinada loja, um salão de beleza, deixando o resto dos personagens para a imaginação do telespectador. Está implícito. Na vida real são os familiares, os amigos, os colegas de trabalho, a padaria, o supermercado de sempre. O resto é figuração, não tem importância para nós. Só nos chama a atenção quando precisamos deles. O hospital X, por exemplo.
Olhamos para as pessoas e acontecimentos ao redor do nosso mundo com lentes desfocadas. O acidente, o casamento, o vestibular além das fronteiras que delineamos, são elementos de uma vitrine na qual os nossos sentimentos não ultrapassam, exceto se nos ameaçarem. Da mesma forma, elaboramos um “eu” fictício, que com o tempo passa a fazer parte de nós. Construímos um mundo ideal, para o qual fixamos limites que nos confortam e tranqüilizam.
Enquanto não consolidado, o halo de força pode ser rotulado de hipocrisia, duas caras, falsidade, por incorporarmos um papel que não somos nós por inteiro. Após absorvido pode significar uma mudança de personalidade, uma pessoa diferente daquela que as pessoas conheceram há tempos atrás.
Quando revemos alguém após muito tempo e retomamos o convívio, percebemos que a mudança não foi só externa. Não permanecemos os mesmos por tanto tempo. Quando mudamos, não se trata de assumirmos papéis que foram criados ao longo da vida, mas da incorporação gradativa de um ideal que sempre fomos. O convívio propicia as trocas e com elas mudamos. Se nos modificamos radicalmente é porque sempre fomos aquilo que nos tornamos. Apenas invertemos o iceberg.

08/10/2009

Amar-se


Amar-se é tentar ser livre, o mais livre que puder. Pode ser pintar o cabelo, da cor que bem lhe aprouver. Ou deixá-lo branquinho, se assim lhe convier. Mesmo que depois de algum tempo der vontade de desassumir os brancos, possamos fazê-lo com a serenidade de quem sabe o que quer. Uma coisa a cada tempo, coerente apenas com a vontade interior. Mesmo que em determinados momentos a correnteza nos conduza para outros caminhos, que se possa conscientemente optar por correr riscos desde que se tenha a certeza de só até onde se possa voltar.
Amar-se é dar vazão à verdade inconsciente, ao intuitivo ancestral que mora em nós e dar-lhe ouvidos quando ele começa a bater o sininho de alerta, quase que imperceptivelmente, chamando-nos à razão, que não pode ser a dos outros, mas a nossa. É aquela razão que se preocupa principalmente com a nossa natureza essencial e nos cerca de todos os meios para que evitemos violentá-la. Ir de encontro à natureza selvagem que habita em nós é matar os resquícios do primitivo, do caldo original que se encastela em nós e que se encarrega de manter coeso o nosso núcleo vital.
Amar-se é acreditar em nossos propósitos e nos mantermos firmes nas crenças e valores que cultivamos e fizemos amadurecer. Porque eles aderem a nós como a casca protege a árvore e vão se consolidando ao longo da nossa existência protegendo o nosso conteúdo. Como um vinho de boa cepa cuja qualidade começa a ser estampada no material de que é feita a rolha que o protege. Ao invés de retalhos de cortiça aglomerados, um vinho de qualidade possui o esmero de uma rolha em bloco único. Nela se contam os invernos que a árvore viu desenhada no seu corpo. Indeléveis, como prova de maturidade e serenidade esperadas.
Amar-se é orgulhar-se das marcas que o tempo imprime no nosso corpo físico, levando-nos a exibi-las não com tristeza, mas como troféus de batalhas vencidas e atestados de etapas que se transpôs com louvor.
Amar-se é dar valor a si antes de qualquer outro, mesmo que à primeira vista possa parecer egoísta. Amando-nos tornamo-nos vaso depositário do amor universal e podemos dali tirar amor sem reservas, para distribuirmos aos companheiros de jornada nesta etapa da existência.

06/10/2009

FRAGILIDADE (ou experiências de solidariedade)



A angústia não é privilégio de poucos, a maioria a tem. Num maior ou menor grau ela nos avassala vez por outra insistindo em perturbar os dias e prejudicar a sanidade buscada. Nos dias atuais a palavra ansiedade revestida do aval científico veio dar outro nome à ancestral sensação de nó no peito que sentimos quando não conseguimos entender ou resolver algo a tempo e a hora ou quando os acontecimentos não tomam o rumo que esperávamos.
Sendo uma constante é inócuo ignorar a angústia. Racionalizar seria a melhor medida, mas não é assim que funciona na prática. A ansiedade extrema paralisa e não há como a pessoa tomar atitudes sadias diante dos obstáculos corriqueiros. Enfrentar a aflição além do caráter tem outras implicações que fogem à vontade. Quem mais opina sobre o problema dos outros, mais leigo é seu parecer, análise inconsciente das próprias atitudes e justificativa do modo de pensar de quem aconselha. Alguns ansiosos até tentam esconder a perturbação, mas o semblante deles não nega e percebe-se fácil quando estão tomados pela impotência em controlar os demônios internos.
É aí que tomamos consciência de quão efêmera é a existência e quão frágil é manter o equilíbrio. Na observação da desgraça alheia quem olha de fora tem a sensação de superioridade e potência. Pode-se tentar, mas não há isenção e é difícil não mergulhar no turbilhão de sensações de quem compartilha conosco o auge de uma crise de angústia. A empatia é necessária para se tentar ajudar. Mesmo de boca fechada socorremos e melhor, pois é o que o outro quer, vibramos na mesma energia, independente do esforço feito para olhar de forma distanciada quem sofre.
Sentimo-nos bem em sermos úteis e a pseudo-superioridade vem da constatação silenciosa: “alguém está pior que nós”. Mas não identificamos quanto custa compartilhar sentimentos alheios invadindo-nos por tabela quando nos prontificamos à solidariedade. Uma força momentânea se apossa de nós e podemos dissertar horas sobre o que poderia ou deveria ser feito. Mas a energia mobilizada em situações de conflito, mesmo o de terceiros, dá um desgaste danado. É energia que tiramos de nós para ajudar e que às vezes não a possuímos e buscamos força para emprestá-la a alguém? Daí a sensação vaidosa de ser melhor que o outro, pelo menos naquele momento.
As experiências de solidariedade nos retroalimentam e nos fazem perceber a existência de diversos níveis de fragilidade. Nosso equilíbrio é momentâneo e só podemos afirmar sua existência na vivência de cada minuto. Daqui a pouquinho não garantimos mais. É outra batalha. Como nas regras ao se livrar de um vício: “só por hoje não fumo mais”. Não adianta fazer planos para um futuro distante. Para um horizonte incerto não se traça planos, se estabelece objetivos. Os planos se refazem minuto a minuto, na perseverança daquilo que se quer. O equilíbrio se mantém quando se faz presente em cada momento da vida.
Somos todos frágeis, apenas alguns de nós estão num nível de vigor maior e aí pode ajudar quem está do lado a reerguer-se. Perceber estes momentos ajuda a crescer. Disponibilizar-se sem interferir ou julgar é o desafio que vai determinar o sucesso da nossa ajuda e nos fortalecer de volta. Depende do estado de alerta da nossa percepção. Mas não custa tentar. Só não vale desperdiçar oportunidades.

01/10/2009

Aí galera, fui!



Mãe boa mesmo, lava, passa e cozinha. De preferência, direito. Onde é que já se viu aquela sua camiseta preferida não estar no lugar, justamente no momento em que você quer? Mãe é para isto. Onde há quem faça o serviço doméstico, a mãe tem que cuidar da infraestrutura necessária para que os seus pupilos não se estressem com coisas tão triviais e consigam dar conta da estafante tarefa de estudar.
Mãe dá colinho, mas longe das vistas da galera. Não dá para pagar mico de dar beijinho em mãe ou admitir que um cafuné é bem bom, mesmo que você já tenha passado de um metro e sessenta de altura.
Mãe de fé é a que mantém a boca fechada. Não há quem agüente aquele buzinar no seu ouvido. Para que usar corretamente todos os talheres se hambúrger, pizza, torrada, cachorro-quente se come com as mãos? E o que é pior – faz você perder aquele clipe maneiro da MTV porque insiste que lugar de comer é na mesa e não na frente da televisão.
Outra coisa que não dá para entender é a incapacidade que mãe tem de entender a sua multiplicidade. Que não há mal algum, estar rádio, TV e internet, ligados ao mesmo tempo, quando você está estudando. Se você está tirando boas notas, qual o problema? É o seu jeito, o seu ritmo.
É bom ser independente, ser dono do próprio nariz, sem ter ninguém lhe dizendo o que fazer, afinal, você sabe quais são os seus próprios limites. Um dos papos que mais enfurecem é quando os pais insistem em dizer que independência só existe quando a gente se banca, quando se tem independência financeira, por mínima que seja. Isso é uma confusão que os velhos fazem. Sustentar é obrigação de pai e mãe. Quis filho, tem que criar. E eles não dizem sempre que estão construindo um patrimônio para você? Pois é. O resto é discurso tirano para lhe obrigar a se enquadrar na vida deles, no sonho deles. Tem que dar um tempo para você fazer suas escolhas.
Pois é gurizada. Mesmo que esteja morando naquela casa de “mãe chata”, pode parecer insólito, mas é o seu último reduto de liberdade. É o lugar da incondicionalidade. Em nome deste amor, seus pais agüentam suas crises além do que deveriam. E continuam amando independentemente das bobagens que você porventura venha a fazer. Mas tem um detalhe. Não se esqueça que eles também tem o direito de, a qualquer hora, fazer suas próprias vontades ao invés das suas de filho e dizer: Aí galera, fui!

30/09/2009

Fome de Viver



À medida que a idade avança o sono diminui, Acorda-se cada vez mais cedo qualquer que seja o dia da semana. A massa trabalhadora espera ansiosa pelo final de semana, afinal é quando não se prende a horário e pode descansar o corpo da labuta semanal. Mas alguém se esqueceu de avisar o relógio biológico e ele desperta sempre no mesmo horário indiferente aos planos do dono do corpo.
Na adolescência dorme-se mais e há sempre um familiar para nos acordar, seja porque é hora da escola ou não são horas de estar dormindo quando todos estão de pé ou ainda para se limpar o quarto. Quando conseguem delimitar o espaço, os jovens transformam os seus aposentos num bunker, brandindo o direito à privacidade e ai de quem entrar lá dentro sem bater na porta, condicionado à concordância do pequeno/médio/grande (conforme o percentual de Nescau, coca-cola e pizza da alimentação) ocupante.
Na vida adulta a ausência de sono se explica, afinal o dia tem só 24 horas e haja energia para dar conta de tudo. É de pegar um boi pelas guampas a cada dia. Fazer o quê? É a lei da sobrevivência. Mas na melhor idade não se justifica. Temos todo o tempo pela frente, os filhos já estão criados, os netos estão vindo e o condicionamento adquirido na meia idade, nada de ir embora. Pode ser questão de tempo, do que ainda resta e a ausência de sono seria a fome de viver. Ficamos reduzidos ao necessário. As limitações da máquina se acentuam cada vez mais e exige uma dose de consciência e persistência maior para conviver com as restrições. Justo agora que se adquiriu a alforria para a liberdade da palavra e da ação. As pessoas se tornam mais livres na melhor idade. Vestem o que querem, falam idem e são senhores da própria vontade quando driblam a patrulha dos filhos, como numa revolta a quem foi cerceado pelos genitores. Só que a “patrulha” era o exercício do papel de educar e quem está na aposentadoria entende que já se educou o bastante e pelas suas próprias regras. Justo agora que se acha livre para vivenciá-las, vem uma geração querendo lhe impingir pensamentos que são deles, formas de viver que entendem ultrapassadas sem dar o direito de perguntar se querem se modernizar. É uma volta à infância pois ante a negativa são taxados de ranzinzas e insuportáveis, que só convivem por amor e algum resquício de gratidão. O idoso se sente pressionado pelas artimanhas em troca de afeto e não raro, cede, abrindo mão de prazeres que em outras épocas teve procedimento idêntico por não poder ou por renunciar em favor dos filhos.
Nossos pais nos diziam que um dia iríamos entender isso ou aquilo e referiam-se a uma lógica que a imaturidade não nos permitira vislumbrar. Hoje questionados os pais até percebem que o enfoque pode ser mudado, mas eles não querem grandes feitos, preferem vê-los construídos no dia a dia não é agora que tem tempo, que irá despersonalizar-se e viver a vida do outro. Visões de passado e presente podem conviver harmoniosamente sim, desde que haja respeito e um olhar de reversibilidade para entender o ponto de vista do outro e o seu direito de segui-lo. Rótulos de demência são muito cômodos, mas para isto existem os médicos. Não são filhos, netos, sobrinhos, que vão impingir maneiras sob formas sorrateiras de chantagem emocional. Este é o respeito na sua essência, gurizada.
Na velhice não se dorme tanto e tirando o condicionamento metabólico é uma tomada de consciência do passar do tempo. A ordem do cérebro é aproveitar cada minuto, refazer a contagem e transmitir a sabedoria da experiência, que não necessariamente pode ter sido boa, mas como certeza é exemplo vivo do que tem maior ou menor probabilidade de dar certo. Cabe a quem está por perto, mais jovem, aproveitar ou não estes modelos. O contexto é outro? Pode ser, mas via de regra quem não aproveita a experiência das gerações precedentes perde a oportunidade de aprendizado ou de não repetir os mesmos erros.

29/09/2009

Renúncia, substantivo feminino?



Renúncia não se contabiliza. Quem a exerce no sentido amplo da palavra sequer o percebe, pois considera sua atitude parte da sua contribuição para com aqueles que o rodeiam. O dicionário Aurélio denomina renúncia, substantivo feminino, “a ação ou ato de renunciar, recusa, rejeição, negação, demissão”, o que nos soa incoerente. Abrir mão em extremo lembra traição, quando todos sabem que alguém foi enganado, menos ele. Quem o faz, leva como cruz a carregar. Não estamos apregoando aqui a vocação para mártir, nem que o mundo deva ser desprovido de altruístas. Se fosse só cada um para si ainda estaríamos na caverna ou talvez já tivéssemos nos destruído mutuamente. Algum sentimento tem que haver em prol do outro. É difícil aceitar que a humanidade chegou aos dias de hoje pela subjugação. Nenhuma idéia ou invento sobreviveria sem desapego, vontade de partilhar ou até quem não agüentasse ter uma inovação só para si. O comichão na língua seria incontrolável. Que graça tem ser um gênio se ninguém sabe? O desejo da fama não deixa de ser uma forma de garantir a continuidade das descobertas. A diferença é que os bem intencionados sabem que expor é passar adiante, significa contar com a contribuição adicional e ter seus objetivos atingidos. Quem quer só o aplauso perde-se no controle da revelação, orgulho ferido e não aceita agregar idéias, logo, não evolui.
Renunciar é recusar-se a compactuar com terceiros. É negar uma realidade que lhe é dolorosa, criando um mundo interior onde se refugia e arquiva seus desejos mais recônditos. É viver externamente de uma maneira que não imaginou ser possível, mas tendo a máscara como a alternativa que lhe resta. Nem sempre é uma tragédia. Pode se tratar apenas de um leque pequeno de alternativas. Quantas pessoas lamentam o ideal não concretizado sem fazer um balanço de perdas e ganhos daquela aspiração e perceber que esteve no lucro a maior parte do tempo? Não vislumbram o que teriam construído se não tivessem conduzido a vida olhando pelo retrovisor. Com isso, atazanam a vida que têm e a dos outros achando que deram tudo de si. Não percebem o quanto é difícil agüentar lamentações de quem acha um pecado abandonar um sonho. O ser humano pode adequar sua trajetória e provar sua capacidade de adaptação sem agredir seus valores. Perdemos energia em não enxergar que os objetivos se concretizaram, porém com a roupagem que o tempo lhes deu.
A comerciante bem sucedida, que na provação foi o alicerce da família quando o marido teve dificuldades ou doenças que impediram seu pleno desenvolvimento, pode bater no peito e se orgulhar de ter ajudado o companheiro a enfrentar suas limitações e orgulhar-se do negócio que ajudou a construir. Compelida a aguçar os sentidos, sabia que tinha de manter-se alerta e estava consciente de relegar prioridades pessoais. Sem este esforço, talvez não tivesse desabrochado qualidades inatas, que o trabalho e a disciplina ajudaram a forjar e florescer.
Podemos enfrentar os obstáculos como problema ou como oportunidade de aprendizado e superação. A mulher personifica isto, mas renúncia não é privilégio de mulher. O patriarcado ocultou uma dimensão nossa que de mansa não tem nada. Mesmo com força física inferior desenvolvemos outras habilidades essenciais que nos permitiram inúmeros papéis, de guerreiras a mães-leoas. Mas não sabemos fazer isto sem parceria. Vivemos no plural, precisamos do outro e não temos vergonha de admitir. Em quaisquer das circunstâncias preservamos a capacidade de amar, chorar, renunciar, sim, mas nunca deixar de ser... Mulher!

26/09/2009

A Saga do Planeta Atlântida - Parte II

Não basta levar os filhos ao Planeta Atlântida(o festival de música que acontece todo fevereiro na praia de Atlântida, aqui no Rio Grande do Sul.), tem que gostar. Céus, isto é vivenciar a própria sugestão, aquela coisa de usufruir o momento, respeitar escolhas, enfim. Pois é.
Passemos da teoria à prática. Decisão de acompanhar os filhos ao festival em Atlântida tomada, o que nos resta é fazer o possível para entrar no clima. Menos mal que a galera aceita numa boa a turma da terceira idade. Já fomos no ano anterior sob uma chuva torrencial e um lamaçal de fazer dó. Mesmo assim valeu pelo Herbert Viana, Ivete Sangalo e até aplaudir o Charlie Brown Jr. É claro que o instinto de mãe se aguçou quando o telão mostrou a cara crispada do vocalista Chorão fazendo malabarismos com um skate e com aquele peso todo. Mas não seria com decibéis à vontade que iríamos fazer, digamos, elucubrações filosóficas.
Nesse ano, entramos no site do Planeta, respondemos o quiz no CLICRBS concorrendo a ingressos, quase torcendo para ganhar e não deu. Mas que idéia. O foco é a gurizada e como é que alguém que diz a idade da certidão de nascimento vai ter resposta premiada num lance destinado a adolescentes & Cia? Mas temos que vivenciar de alguma maneira. Indiretamente talvez queiramos trazer de volta os verdes anos e levar os filhos seja a desculpa perfeita para quem no fundo nunca deixou de ser pop rock e gostar de multidões. O efeito é um pouco diferente da nossa adolescência distante. Jamais nos contentaríamos no passado em ver de longe, no telão.
Se não fosse a fila do gargarejo, não valia, não seria a mesma emoção. Esta vontade bateu novamente no show do Rappa e do Jota Quest. No primeiro até tentamos ver o Falcão mais de perto, mas uma parede de braços e cabeças como que em transe e cantando em uníssono com o vocalista nos fizeram desistir.
Não dava para competir com aquela emoção. O tempo passou e a razão permeia nossa cabeça. Não viemos para os shows em sua plenitude., viemos pelos nossos filhos, esforçando-nos para sermos iguais e compartilharmos a emoção deles de viver este momento, como nós tantas vezes fizemos outrora. A emoção é desviada para a preocupação de saber se eles estão seguros, se estão felizes, se divertindo e isto nos realiza. O evento é cercado e o policiamento é ostensivo. Melhor para nós pais que se aventuramos a ir ao espetáculo e para aqueles que ficaram em casa apreensivos rezando para que tudo corresse bem e os filhotes retornassem felizes e incólumes. Quem gosta de música como nós esperou que o crescimento dos filhos para ter o pretexto de levá-los e cuidá-los, mas chegada a hora o cansaço bate e o sentimento já não é mais o mesmo. Curte-se sim, mas constata-se que as emoções precisam ser vividas na época certa, sob pena de perdermos a sua plenitude.
“Quando a gente gosta é claro que a gente cuida...” diz o Peninha pela voz do Caetano Veloso. Ninguém cuida ou vigia ninguém. Presença paterna ou materna não vai inibir eventuais bobagens se não houver paz no cotidiano ou pelo menos a vontade férrea de mantê-la a qualquer custo. Não podemos perder a oportunidade de estar por perto. Talvez eles preferissem estar sozinhos, mas vai chegar uma hora em que terão que fazer isto. Estas experiências iniciais são só um treino, para dar segurança a eles e a nós que os amamos tanto. Não podemos mantê-los debaixo das asas para o resto da vida, mas se pudermos compartilhar seus rituais de iniciação, ótimo. Para isto vale até ficar acordado além do suportável, achar graça do desconforto e ter história para contar depois.

25/09/2009

LIMITES (ou a saga do Planeta Atlântida)



É incrível como nossos filhotes de classe média estão entendidos de leis. São pequenos rábulas, os anjinhos. Pelo menos para saber o que já dá para ser liberado e em qual idade e a partir daí fazer analogias de deixar nós pais e mães de cabelo em pé.
Eles também sabem que existe Estatuto da Criança e do Adolescente, leis de proibição ao trabalho do menor; que aos dezesseis já podem votar; a partir dos dezoito podem ganhar carro e dirigir. Concomitantemente ao carro que imaginam ganhar vem no porta-malas a carta de alforria na tão sonhada maioridade. Aí então, vai ser uma festa, não vão precisar dar satisfação para ninguém, já que serão “de maior”. É uma sabedoria só, tudo na ponta da língua, do mesmo jeito que gostaríamos que soubessem aquelas questões da prova de física ou escrever na internet sem maltratar a língua portuguesa.
Alto lá. Alguém se esqueceu de dizer que tudo tem uma contrapartida. Quer ser livre? Ótimo. Mas precisa pagar todas as contas, as emocionais e as financeiras. E antes que nos chamem de egoístas e chantagistas, estudar nada mais é que uma atribuição curricular da criança e do adolescente e tirar boas notas, idem.
Quem é que está sendo explorado? O filho ou os pais quando o primeiro se nega a juntar as roupas que ele mesmo deixou pelo chão, reclama que não acha o tênis que deixou atirado e que os pais devem encontrar para ele? Coincidência ou não a maioria de nós pais está na faixa dos quarenta, sem a forma física dos vinte, com estresse em dobro e louco para que alguém faça por ele as pequenas tarefas domésticas. E ainda precisa cumprir o que é atribuição dos mais novos da casa, porque esta geração se nega a ser “explorada” para o “trabalho familiar”, quando na verdade é a sua contrapartida no núcleo do qual faz parte.
A cada fase que eles completam começa a requisição de direitos: “tenho doze, já posso ir ao Planeta Atlântida (o festival de música que acontece todo fevereiro na praia de Atlântida, aqui no Rio Grande do Sul.) Lá no site diz que a idade mínima é de doze anos”. E agora? Só com pai ou mãe junto, dizemos. Aí é pagar mico. Todos os amigos vão sem os velhos. E a terceira idade vai fazer o quê lá? Estão querendo vigiar, não confiam, estes papos.
É recorrente a idéia que nós, a geração pós-ditadura inconformados com o excesso de cuidado que tivemos na adolescência, ficamos de coração partido ao impor limites aos nossos filhos. E a palavrinha mágica está em todos os manuais de educação de criança e adolescentes. Principalmente esta última que é uma fase particularmente conturbada. Podemos até não admitir para eles que também tivemos nossos períodos que o Nenhum de Nós canta em uma das suas músicas: “...adolescência vazia, eu tinha quase dezesseis. Ninguém me compreendia e eu não compreendia ninguém...” Faz parte. Mas daí a não enfrentar as dificuldades não ajuda em nada na formação dos homens e mulheres do futuro. O que os livros não dizem é na prática, fazemos o quê mesmo? Não imaginamos com antecedência o que os nossos advogados em causa própria vão dizer no calor da argumentação. E saber o que responder e que decisão tomar parece roteiro de planejamento estratégico e eles não são adversários a enfrentar. São apenas os nossos filhos, aqueles mesmos que embalamos e babamos a cada feito deles na infância. E aí ele vale bater o pé na idade mínima, enquanto a analogia da galerinha tem pontos falhos e soltar aos poucos, sob controle. Tudo tem seu preço. Talvez tenhamos que ir ao Planeta Atlântida sim, embora ficar horas acordados no meio da gurizada, possa causar arrepios. Mas se acompanhamos no primeiro ano, fica mais fácil aceitar no segundo e acreditar que pai e mãe são bons companheiros sim. E vai que gostemos?

23/09/2009

Supérfluo é Imprescindível?




É constrangedor admirar uma obra e não entender nada, ficar “devendo”. Isto é freqüente quando se trata de arte contemporânea. Dificilmente as expressões artísticas são entendidas no seu tempo. Nossos olhos e ouvidos precisam se acostumar com a vanguarda. Arte também é um mercado e precisa ser vendável. Assim como é igualmente complicado entender o mundo da alta costura, o paralelo pode ser aplicado às artes.
Nem tudo que se vê num desfile de modas é usável. É como se os estilistas colocassem um binóculo invertido. Ao invés de pessoas normais desfilando, o que vemos é uma explosão de fantasias unidas por um tema central, que definirá a tendência desta ou daquela estação. O que vai para as ruas é a inspiração daquela parafernália toda que inundou os olhos do mundinho fashion e de poucos privilegiados, ora pela grana, ora por ser o jogador namorado da modelo da hora. Pouquíssimos afortunados podem adquirir um modelo único. O que sustenta mesmo a máquina da moda é o pret-a-pôrter, a produção em série que vende em versões e releituras infinitas o que se firmar como moda na estação. É assim que passamos a pagar caro por calça rasgada, cintura baixíssima e se cobrir com cores como rosa e pink, mesmo que as detestemos. É moda, baby, relaxe. Não importa se o nosso manequim não é 36 e se a nossa coxa tem mais diâmetro que a cintura da modelo. Ai de nós se não arranjarmos um jeito de caber naquele número a menos.
Alguém poderia perguntar de que adianta tanto esforço investido para gerar o supérfluo, para não se construir... nada? É a mania do lado utilitário do conhecimento. Só valorizamos se for para dar forma ao concreto que satisfaz necessidades básicas. Comida, moradia, emprego e saúde não são suficientes para aplacar nossa ânsia. Prazer e lazer também caminham juntos e fazem parte do inevitável primordial, contribuindo para a harmonia das demais condições que cremos imprescindíveis.
O conceito de supérfluo versus básico, de dinheiro jogado fora, é relativo. Varia de pessoa para pessoas, é óbvio. Mas fazendo coro com a gritaria que rotula isto ou aquilo como desnecessário, só contribuímos para o desentendimento. Se não temos noção do todo é leviano julgar pelas partes.
O mundo das corridas de carro, que nos transparece sem muito sentido fora do círculo dos aficcionados, é um laboratório de tecnologias que algum tempo depois estão presentes no carro popular que roda nas ruas.
Atrás de cada supérfluo existe uma necessidade satisfeita. Essa energia que se chama dinheiro precisa ser movimentada para gerar sobrevivência, emprego, prazer e satisfação de nossas demandas. Não se aplica a tudo, naturalmente, mas é de se pensar um pouco mais antes de atirar a primeira pedra.
Moda não é uma perdição. É uma indústria que movimenta milhões vendendo sonhos e idéias, que sustentam pessoas, que trabalham ajudando a construir aqueles sonhos. É inevitável a disseminação das demandas que são criadas na ânsia do novo. No afã de sermos únicos vestimo-nos iguais. A vanguarda nos distingue e quando menos esperamos queremos o novo para nós. Assimilamos e aí não é mais supérfluo, é necessidade.

22/09/2009

Sentir-se só



Palavrinha batida que como a companheira saudade, dizemos só existir em português – e que alguém nos corrija, por favor – solidão rima com desilusão e até com frustração. É um equívoco apostar que ela vá rimar com desamor, a reação mais óbvia ao visualizarmos algum solitário, crendo que o olhar distante característico seja indício de não estar nem aí para o resto da população do planeta. É um autômato o solitário, indiferente ao universo ao redor como se bastasse a si mesmo e nada mais importasse. O mundo interior é muito rico e às vezes é o único reduto de compreensão que nos sobra. Nós e ele, o eu interior. Meio louco, não? Mas é como se conversássemos duas partes da mesma matéria. Uma compacta, física e outra imanente, fluída, que por assim ser tem condição de captar impressões mais refinadas da substância densa e conduzir o Eu físico ao entendimento de um processo que aparenta ser um turbilhão de onde não se consegue sair, por isso o isolamento.
O curioso é que dificilmente a solidão é percebida como tal. Como bons masoquistas de carteirinha, miramos a cara alheia e por conta própria diagnosticamos o que ali vemos como raiva da gente nos devem explicações. Ninguém traz uma placa na testa dizendo o porquê do semblante fechado e alguns se arvoram na arte de adivinhar, principalmente nós mulheres. Acostumamos a entender o que os nossos filhos querem desde pequeninhos pela expressão não-verbal e já nos julgamos capazes de fazer o mesmo com tudo e todos. Ok. A intuição e percepção femininas são trunfos, mas não nos esqueçamos que podemos mascarar nossa avaliação com sentimentos que são nossos e a interpretação apressada “enfia” literalmente, palavras na boca do outro. Para quem já está com a sensibilidade desordenada explicar é o que menos interessa. Ao invés de ajudar, contribuímos para enredar ainda mais quem de uma forma toda peculiar, está muito bem obrigado, com o seu mutismo. O problema são os outros que está se incomodando com a cara dele. Ele próprio não está e isto é o suficiente.
Solidão não é só o pesar amoroso pela distância da pessoa amada que nos punge a alma e nos consola. Na sua amplitude é o sentimento de ausência de si próprio, de não ter com quem contar e até a sensação de bastar-se estar indo embora. Não é uma recusa à proximidade. Podemos perfeitamente sentirmo-nos sós numa casa ou trabalho cheio de gente. É a sensação de incompletude e de incompreensão para levarmos adiante planos, projetos que são do coletivo onde estamos inseridos, mas que parecem ser só nossos, já que ninguém nos entende. Nessa faceta da solidão, há que se esperar o tempo, este velho e bom companheiro passar, sem deixar-se seduzir pela satisfação do ascetismo. A contemplação é prazerosa e sozinha não supre a necessidade de convivência. Estar só implica diminuir as demandas. A face demonstrada já afasta os outros e só temos que lidar conosco e conosco a gente se entende, nem que seja para lamber as próprias feridas. O mundo não gira em torno do nosso umbigo e mais dia menos dia precisamos voltar a interagir, aprender, trocar, solucionar. E aí vai nos invadir uma leva de sentimentos de realização, de etapa cumprida e de percalços que dela fazem parte. Os ciclos se repetem e nos cabe vivê-los em sua plenitude, pois sabemos que renovar é preciso, levantar sempre.

20/09/2009

Catarse


A arte tem poder e isto não é novo. O filósofo grego Aristóteles registrou um processo que identificou nas tragédias. Foi ele quem chamou de catarse a descarga emocional que a experiência estética proporciona. Quando o expectador de uma peça teatral sente como suas as aventuras e os sofrimentos do protagonista do espetáculo, está trazendo para si vivências, dificuldades que gostaria de superar ou até a mudança que queria que acontecesse em sua própria vida.
Contos, histórias e filmes há tempos são usados como instrumentos terapêuticos. Segundo médico Dr. Jacques Leal Soares, de Canoas, tais recursos “são ativadores de reações bioquímicas e neurotransmissores como dopamina, noradrenalina, serotonina, acetil-colina, melhoram o estado de ânimo geral, pelas reações de prazer que proporcionam”.
Cada pessoa age de uma forma diferente diante de uma história que está sendo contada, num filme e com isto está abrindo uma janela para o inconsciente. Fora isso, cenas nas telas podem servir de exemplo de como reagir na vida diária. Uma identificação a ponto de viver o personagem como se nós estivéssemos fazendo parte do enredo, certamente nos fará liberar emoções represadas. Alguns choram e se liberam entrando de cabeça na ficção e conferindo-lhe caráter de veracidade ao trazê-la para si. Outros conseguem manter um distanciamento onde vislumbram a obra com olho clínico, estético, mas profundamente atento para sentir o momento em que sua sensibilidade é tocada. Se isto ocorre, eles bloqueiam a ação, mas sabem que se ela os atingiu, mesmo que minimamente, com certeza funcionará ao chegar ao grande público. Talvez seja este o mecanismo para tornar comercial, os filmes, novelas. Tocar a emoção para se justificar como indústria, como emprego. Mesmo um produto que exista com um objetivo comercial, tem que atingir o emocional para provocar o impulso, acender a chama da compra até que se torne incontrolável. Ainda que por trás haja um processo racional de assimilação, o desejo já foi despertado pela mensagem subliminar inicial e o consumidor tende a aderir e ser fiel.

19/09/2009

Medida de Valor




Como se mede o trabalho de alguém? Quanto é o tempo que entendemos ser uma jornada razoável a ser distribuída durante o dia? Em três partes, oito horas para o trabalho, oito para o lazer e oito para o descanso? Na prática, ledo engano. Poucos de nós pode se dar ao luxo de ter essa divisão equitativa. Costumamos dizer que temos um trabalho quando há um vínculo empregatício, formal e, quando informal, serviço. Numa gozação tipicamente brasileira, dizemos as pessoas não buscam serviço, procuram emprego. Este último sim, é sinônimo de segurança, sentir-se ao abrigo da lei e proteção quando necessária.
Mesmo no desemprego estamos trabalhando e a procura de emprego é um exemplo. Ninguém ocupa as vinte e quatro horas do dia dormindo ou com lazer. Estudar é outra forma de trabalhar, mais acentuada nas fases da educação formal. O sentimento de quem é questionado sobre se é melhor estar executando uma carga maior no emprego formal do que estar sem emprego, surpreende. Principalmente se vem de alguém de vinte e poucos anos que trabalhou de carteira assinada, e por buscar mais tempo para estudar, exercer outras atividades que gostava, saiu e depois voltou ao mesmo emprego que deixara, com uma motivação excelente.
Não se trata aqui de fazer apologia ao trabalho além da jornada, mas trabalho ainda é uma bênção, não um castigo. E talvez a sensação de pagar os pecados venha da visão literal do Gênesis, quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso. “Ganharás o pão com o suor do próprio rosto”. Pronto, gravou no nosso DNA: ...trabalho é castigo, trabalho é castigo... e é tão forte que no emprego ficamos medindo o desempenho de quem está ao nosso lado, para ver se o castigo dele é menor que o nosso. Se é assim, qual a razão das filas quilométricas na disputa por um emprego de carteira assinada? Uma vez lá, entramos para a redoma dos protegidos.
E nós, os empregados, olhamos de esguelha para o lado e constatamos que damos mais o sangue que o outro, após longos anos de emprego e o colega está sobrevivendo igual a nós ou talvez “viveu” mais, porque soube se esquivar do serviço. E julgamos que usufruiu dele mais em proveito próprio e está aí bem faceiro, nos chamando de burros de carga. E com razão temos uma pontinha de inveja desta faceirice. Mas pensando bem, não convém ir muito fundo nas raízes do sorriso, para não correr o risco de compartilhar uma cota da angústia que não queremos para nós, pois também ele as teve, mas são as dele, não as nossas.
Pode até ser que tenhamos “vivido” bem mais do que imaginávamos, porque intensamente, se tivermos sido intensos no trabalho e gostado dele.

12/09/2009

Paixão com sabedoria



O longo período de evolução da humanidade gravou em nossos genes respostas emocionais baseadas em uma duríssima realidade, comparada com os dias atuais. Poucas crianças sobreviviam à infância e os adultos mal chegavam aos trinta anos. Com predadores atacando a qualquer momento, condições climáticas determinando se morreriam de fome ou não, este estado permanente de tensão demandava respostas imediatas e quem sobrevivia passava adiante esta memória através dos genes. De dez mil anos para cá, o domínio da agricultura e as formas de organização social espalharam os avanços e diminuíram as ameaças aos humanos. Minimizada a pressão, reações emocionais perderam a validade. A raiva instantânea no passado era necessária para continuar vivo, mas ser indomável em nossos dias leva a catástrofes.
Paixão é sentimento. Sabedoria é racionalidade. É possível a coexistência? Aristóteles, que em Ética a Nicômano, instiga nossa capacidade de equilibrar razão e emoção ao afirmar que “qualquer um pode zangar-se – isto é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa – não é fácil”.
Cada emoção tem função específica e prepara o corpo para um tipo diferente de resposta. A ciência atribuiu para elas uma divisão clássica, constituída de raiva, medo, felicidade, amor, surpresa, repugnância e tristeza. Mas para nós leigos, é algo que se sente e para descrevê-la precisamos viver o momento e mesmo assim não teria o mesmo sentido quando a verbalizamos. Autoconhecimento é bom, entretanto nos cobra a responsabilidade de identificar e se controlar diante de situações difíceis. Mas se no abalo emocional perturbação as reações são rápidas demais, que esforço demandaríamos para domar o bicho ancestral que há em nós? É muito tempo gravado no cérebro de um, contra a evolução comparativamente incipiente de outro. Submeter-se atiça nossa voz interior com alegações de “olha a hipocrisia, você está se violentando...” Nosso apego à suposta autenticidade, pode ser a obstinação em abrir espaço e coexistir com a razão, o “novo”, de dez mil anos para cá.
Domínio de emoções significa civilidade nas ruas, na vida comunitária. Segundo Paul Ekmann, “a raiva é a mais perigosa delas. Os principais problemas que destroem a sociedade atual envolvem a raiva. É a emoção mais difícil de adaptar-se aos dias atuais, em razão de mobilizar-nos para a luta. Na pré-história, quando se tinha uma raiva instantânea e por um segundo se queria matar alguém, não se possuía tecnologia para fazê-lo. Hoje temos”.
Paixões bem exercidas têm sabedoria, sim. Orientam nosso pensamento, valores e sobrevivência. O problema não é a emocionalidade, mas a adequação da emoção e sua manifestação. Somos capazes de identificar o que não queremos sentir e podemos optar por comportamentos que nos impeçam de levar-nos por determinada emoção e sua expressão em situações parecidas. Não se trata de matar a emoção, mas usá-la sabiamente.
Quando o automóvel não tinha os avanços de hoje, o Jeep bastava e servia para qualquer caminho. Recriou-se o Jeep em versões mais caras, porém adaptadas para a estrada de chão. Mas admitiu-se também carros que são pérolas da tecnologia, perfeitos para boas estradas e sob condições específicas. É possível evoluir, adaptar sem perder a essência. Vale tentar.

11/09/2009

Laços de sangue



Relações familiares são marcas que não se apagam. Mesmo quando alguém resolve trabalhar longe, mais dia menos dia a saudade bate e não há outra alternativa senão pedir arreglo e buscar colo.
Elos só se preservam se forem azeitados, mantidos mesmo à distância. Hoje, com a facilidade das comunicações, não há desculpa para nos esquecermos de alguém. Vale o desejo de continuar tendo a pessoa no rol dos nossos sentimentos mais ternos.
É difícil lidar com os sentimentos de familia. Temos a obrigação de gostar, de ajudar e até de aturar, pela justificativa de que os laços de sangue nos unem. Às vezes isto não é verdadeiro. Desenvolvemos antipatias dentro da família, tão ou mais fortes do que aquelas que acontecem nas demais relações. A convivência familiar nos dá o suposto direito de sermos autênticos. Como se o mundo fosse uma prisão e o lar o único santuário de liberdade possível e ali pudéssemos ser nós mesmos no sentido amplo da palavra. Isto pode ser notado em fatos corriqueiros, como o ato de se arrumar para sair. As roupas mais novas deixamos para quando se está em contato com o ambiente externo e as mais velhas se usa em casa. Nós mulheres, podemos nos maquiar a semana inteira para ir ao trabalho, eventos, mas quando se chega em casa, pouquíssimas se enfeitam de novo para simplesmente estar em casa. É um contra-senso inconsciente. Justamente onde recebemos afeto da melhor cepa, onde nos apoiamos nos momentos difíceis, onde os sentimentos são incondicionais, presenteamos com o lado despojado de enfeite. E não é só no aspecto físico. Os desabafos, a franqueza, também são privilégio do lar. Mas "se eu não puder desabafar ali, vou desafogar onde?". Não podemos correr para um canto xingar ou esperar a vontade passar somente para poupar os nossos. Mas podemos ver qual cota nos cabe e que não precisa ser passada adiante, principalmente quando lá no fundo sabemos que a tempestade passa.
Estabelecemos relações de amizade profundas, independentemente da afinidade sanguínea. São os elos criados espontaneamente ao longo da vida. Abre um vazio no íntimo, quando somos privados da convivência de um amigo. Quando optamos por permanecer a seu lado é porque a presença é cara para nós. Quando as nossas escolhas de vida não nos permitem esta alternativa, a distância não impede que o reencontro seja um "parece que foi ontem" e a empatia permaneça a mesma de outrora. Elos podem estar inseridos no projeto de vida ou não. Ninguém se basta. Seja na continuidade da vida no contexto da comunidade em que se nasceu ou vivendo longe do torrão natal, sem os vínculos familiares ou aqueles construídos ao longo da existência, a vida não tem sentido.

10/09/2009

Perdão, a palavra chave




A historinha é de domínio público e tem pequenas variações de personagem mas a essência é mais ou menos esta: O pai conta ao filho uma metáfora no intuito de ajudá-lo a controlar seu ímpeto e mau gênio. "Cada vez que você tiver um acesso de ira e disser impropérios ou ofender alguém, vá naquela cerca de madeira e finque um prego". E assim o garoto fez. Sempre que não conseguia se conter batia um prego após a ofensa cometida. Passado algum tempo a cerca estava cheia de pregos. O pai pede ao filho que peça desculpas a quem magoou e que cada vez que o fizesse, retirasse um prego da cerca. O garoto passou então a pedir desculpas a quem havia molestado e a cada prego retirado, sentia-se mais forte e mais confiante. Após arrancar todos os pregos o pai levou-o novamente para junto da cerca e chamou a sua atenção para um fato. No lugar dos pregos, agora haviam buracos.
Carregamos as marcas dos nossos erros ao longo da vida, fazendo um esforço muito grande para minimizá-las. Nunca é tarde para voltar atrás e pedir desculpas por erros cometidos. Mais que isso porém, é o esforço de não ficar só nas desculpas e se firmar no propósito do respeito à maneira como aqueles que nos rodeiam escolhem para direcionar suas vidas.
Um outro ditado popular diz que "quem bate esquece, mas quem apanha, não". Remoemos por anos algo que nos desgostou. Somos capazes de repetir com detalhes a cena em que o fato desagradável aconteceu. Mas quando a vidraça é dos outros fica mais fácil imaginar que o agredido mereceu e que fizemos porque estávamos no direito de defender a nossa integridade, os nossos propósitos, a verdade. Que verdade? A nossa? É muito arraigada nas pessoas determinadas a cultura do certo, do meu certo, que não raro descamba para a intolerância com quem pensa diferente. E muito comum as se arvorarem da religião que professam para execrar não acredita no mesmo Deus que o seu. Esquecem-se o Deus de muitos nomes é único e prega igualmente o amor e o perdão, independentemente da língua em que seja invocado.
O perdão é a palavra chave. É mais doce e cômodo o perdoar. Porque as marcas indeléveis ficam com o ofensor. Esta ele irá remoê-las indefinidamente, até que as boas ações se sobreponham aos buracos na tábua e dali renasça um novo ser, que não mais olha para trás e segue em frente sem medo de ser feliz.

09/09/2009

Equalizando a frequência



Às vezes nos dá aquela vontade danada de discutir umas idéias que temos na cabeça e achamos maravilhosas, com alguém que temos certeza que vai nos entender. Tudo bem, se a vontade de telefonar não for às 8:00 horas da manhã e o nosso interlocutor é puro instinto, até passar o mau humor matinal. Até tentamos segurar a ansiedade, mas não é sempre que se consegue. O resultado é inevitável. Tudo o que retorna do outro lado é um balde de água fria. “Oi, tudo bem!”. Você espera e nada daquele “mas que prazer te ouvir!” costumeiro. É o suficiente para abortar seus pensamentos, por mais brilhantes que eles inicialmente tenham parecido. É aí nos convencemos que o melhor lugar para eles é lá no fundo do nosso cérebro.
É complexa a sintonia entre o nosso momento e o do outro, mesmo os mais íntimos. Estamos loucos para conversar e só de olhar para a cara do(a) parceiro(a), dá para ver que “o tempo se armou de fato, lá pras bandas do Uruguai”, e o olhar ferino que nos é dirigido nos desencoraja no ato. Ou então, estamos com uma dorzinha no coração, querendo colo e não sabemos o motivo. A única certeza que temos é de como seria bom alguém nos acariciar os cabelos e dizer que aquela tristeza vai passar. Mas que nada! O interlocutor vem logo dizendo: “Mas também, você não devia ter feito isso, ter dito aquilo”, e assim vai. É aí que nos faltam palavras para retrucar e dizer que não queremos nem precisamos de corte marcial. No fundo se sabe que se está sendo incoerente. Se a gente tivesse certeza e opinião formada, não ia procurar apoio. Estamos simplesmente querendo conversar com alguém.
Se o ouvinte é nosso amigo, vai perceber que não é o momento de julgar. Se tiver intimidade suficiente, pode até fazê-lo em ocasião mais oportuna. Como nos quer bem, vai pelo menos tentar nos compreender, captar o real sentido das nossas palavras e atitudes e ser o que se espera de um amigo: O companheiro de sempre que nos entende como irmão, porque gosta de nós e não dos nossos defeitos. A probabilidade da sintonia se concretizar é imensa, porque conta com a boa vontade dele conosco. É só tentar e se esforçar.