22/01/12

Chegadas e Partidas


Há trinta anos em dezenove de janeiro o Brasil perdeu a inesquecível “Pimentinha”. Em 1989, calou-se a voz de Nara Leão, a musa da bossa nova, coincidentemente nascida em um dezenove de janeiro. Em 2001, também em janeiro se foi Cássia Eller.

Ninguém em sã consciência é louco de dizer que a Elis Regina ficou eternizada entre nós porque morreu cedo. Perto dos 40, linda e no auge da carreira, um furacão interior que não tinha tamanho e que não conseguiu domar. Convenhamos, ela estava na plenitude e daquilo que não é perene, se pudéssemos escolher, nos retiraríamos no auge.

De comum entre essas três figuras femininas da música brasileira o fato de partirem ainda jovens, reconhecidas e amadas pelo público, o janeiro marcando suas vidas. Ao contrário de Nara Leão que faleceu em razão de uma doença, Cássia e Elis se foram de surpresa, gerando comoção nacional, deixando-nos a eterna pergunta:

— Por quê?

Junto com o ápice da nossa existência, de contrapeso, acumulam-se as dúvidas que nos afrontam na vida adulta. Na maturidade se inicia a decadência do corpo nos sinalizando a hora de partir. Por outro lado, o aguçar do espírito está ali, piscando, nos alertando para a posse da inteligência, do subconsciente, do domínio das nossas aptidões. As buscas se tornam maiores, temos cada vez menos respostas e pouquíssimas certezas. E as raras unanimidades se esfacelam no turbilhão  que o cotidiano  — com sua aparente mesmice — impõe a todos os mortais.  

Puxando a brasa para a nossa sardinha, senhoras; ousamos afirmar que o nosso quinhão de dúvidas sempre é maior que o da ala masculina.  Não podemos nos arvorar de mais sensíveis que os homens, claro. Mas que temos uma maneira peculiar de ver o mundo, ah! temos. Insegurança, mania de esmiuçar, querer coerência em tudo...

Será que não nos tornamos questionadoras recorrentes das minúcias do cotidiano? Somos exigentes, eternas insatisfeitas — dizem os rapazes — quer sejamos uma estrela ou uma cidadã anônima. Queremos tudo a que temos direito: — príncipe encantado, amor eterno? Pode ser. Porém, tem que ter beijo na boca e cafuné na nuca incluídos no pacote, quer estejamos alegres ou tristes. — E ainda por cima, sermos boas profissionais, excelentes mães e ótimas companheiras. É mole?

 Para fecharmos uma página e estarmos prontas para abrir outra, dependemos do nosso ritmo particular. Algumas de nós aparentam maior capacidade de resposta ao transpor esse limiar. Outras, sem tal prontidão partem para um enfrentamento, misto de recusa à juventude que se vai; em contrapartida à chegada da sensação de finitude. Não nos assustemos, meninas. Trata-se da fase de preparação para a outra metade das nossas vidas. É quando a mente tem mais condição de submeter o corpo já que ele e suas habilidades não são mais a nossa principal arma. Aliás, deixou de ser arma para se tornar o nosso companheiro, não o nosso fardo.

Janeiro, eterno símbolo de chegada, também o é de partidas. Seja do que não queremos mais para as nossas vidas, seja de buscar forças para a próxima etapa. Nara Leão, de certa forma, vivenciou a proximidade da partida. Quando nos sentimos no intervalo da vida — que pode ser aos trinta, quarenta, cinquenta — para nós mulheres é sinônimo de ápice.

Pois é, Elis, Cássia Eller, geniais e humanas, são exemplo do quanto é difícil enfrentar as transições. Duas estrelas que ao partirem precocemente, quem sabe, podem ter perdido a melhor parte da festa.




17/10/11

Fliporto

10/08/11

É preciso ter fé

Existem diversos assuntos com os quais todos nós, em alguma medida, temos dificuldade de lidar. A lista é longa, mas se nos pedissem para reduzi-la a um mero item, creio que escolheríamos a dificuldade de lidar com a morte.

            O máximo de avanço que conseguimos em relação à morte é um misto de medo ou fingida indiferença. Por mais firmes que sejam as nossas convicções _ na prática, são esboços de convencimentos para nos mesmos _ basta uma dor mais aguda que a habitual ou um nódulo mínimo apontado por uma ressonância magnética, para disparar o alarme. Temos pavor de morrer, ninguém está imune a esse sentimento.  A tecnologia médica não nos serve nessa hora. A ciência pode nos dar respostas técnicas, mas não possui remédio que desate o nó que o horror da morte põe na nossa garganta. O que se quer mesmo é buscar sentido para a vida, uma explicação que nos atenue o medo de sermos apenas uma tabela periódica ambulante, como uma pedra a mais a vagar pelo cosmo. Essa dimensão espiritual, só é encontrada na crença religiosa, como nos diz o filósofo Luiz Felipe Pondé.
            O consolo vem da fé em Deus. Com todo o respeito aos céticos, é melhor acreditar em Deus do que crer em uma bobagem qualquer, numa teoria materialista ou até acreditar em si próprio. Esse último, o máximo da vaidade, da confiança na nossa potência, do otimismo exacerbado, que nos distancia daqueles que julgamos mais fracos que nós.

             Qualquer alternativa ao Divino explica, explica, mas não nos justifica enquanto seres pensantes, perdidos num cantinho da via láctea. Mesmo admitindo a possibilidade de termos companhia no universo, gostamos de acalentar a esperança de sermos os únicos privilegiados com o mistério da vida inteligente e a ciência não nos basta. Ela não diminui a nossa solidão.

            Estamos vivendo um momento em que a tecnologia se dispõe a prolongar a vida. Ela, contudo, não nos fará mais bondosos, mais compassivos com as mazelas alheias. O sofrimento físico, que de certa forma nos faz mais próximos, companheiros de jornada, uma vez controlado pela tecnologia, não extirpa outras espécies de padecimento. Nossas angústias, nossas dúvidas, continuarão dentro de nós em busca de um sentido que a fé nos dá.
            Os progressos da humanidade dependem da crença, sim, mas também da nossa capacidade de realimentá-la, renová-la, de duvidar dela, até. A fé pode ser imutável. Nosso olhar atento, contudo, é imprescindível, a fim de que não voltemos a se apaixonar demais por nossas potências e nos desumanizemos sem perceber.

31/07/11

A Ambiguidade da Riqueza


Nenhum de nós sabe precisar em que momento o dinheiro se insidia na nossa vida como facilitador dos relacionamentos.  O dinheiro torna as pessoas mais contentes com quem o proporcionou e nos sentimos mais a vontade com quem está satisfeito conosco. Seja sob a forma de um presente, um agrado, ou quando damos uma boa gorjeta a quem nos prestou um serviço. Uma vez, tendo a chave da confiança, relaxamos. Fixamos um ponto de corte. Somos objeto do agradecimento de alguém pela nossa gentileza inata. Uma afeição sincera, porque repousada em bases sólidas.
             O dinheiro, funcionando como mecanismo tradutor da nossa vontade, das nossas emoções, descomplica os vínculos que mantemos ao nosso redor. A amizade é estabelecida, consolidada sem que prestemos atenção a eventuais motivos obscuros. É às claras, respaldada pelo nosso desapego às qualidades financeiras _ estas impronunciáveis _ mas presentes o tempo todo, conferindo solidez às conexões.
            Quando exageramos na gentileza e generosidade, na ânsia de colecionarmos amigos, convém pensar se os queremos sempre perto de nós, elegendo aqueles dos quais esperamos lealdade. Como todo instrumento de atração, o dinheiro e suas manifestações não funciona isoladamente.
            Podemos desmistificar um pouco, ter uma relação sincera com o uso que fazemos do dinheiro. Um raciocínio mais direto, menos fantasioso, não é tão cínico assim. O que não evita o nosso amedrontamento só de pensar em encará-lo sem rodeios, esquecendo-se que nós, humanos, somos o pai da criança. Nós o inventamos como base das infinitas trocas que realizamos pela nossa sobrevivência. Ok. Quando nascemos, o dinheiro já existia, era tarde demais para reinventar a roda. Tudo bem. Só que ninguém, ao longo da história da humanidade conseguiu barrar o dinheiro como energia reguladora das relações humanas. Como mantenedora dos vínculos entre pessoas e povos, sejam esses, elos culturais, religiosos, de sobrevivência ou financeiros, propriamente ditos. 
            Não dá para recuar. Não nos tornamos mais desumanos por usufruir dele. Talvez seja necessária uma precaução quando à ambiguidade da riqueza, do poder, do manejo com o dinheiro. Essa ambiguidade é a fonte última. É a face palpável de uma relação de escravidão, que, como nos primórdios da civilização, permanece dividindo-nos em dominadores e dominados. Essa imprecisão nos desafia à racionalidade. Quem sabe, não seja o nosso desafio maior, a prova final que nos outorgaria o direito de nos denominarmos seres morais, éticos e humanos.

13/07/11

Seria o pessimismo mais inteligente?

 

            O filósofo Luiz Felipe Pondé, professor da PUC-SP e da FAAP, autor de inúmeros livros, sendo o mais recente, O Catolicismo Hoje, (Benvirá) é tido como polêmico no meio intelectual. Pondé não se furta ao contato com o público de fora da Academia; lança mão dos meios que a mídia lhe dispõe para divulgar suas idéias, seja como colunista da Folha de São Paulo, seja como palestrante da FLIP-Feira Literária de Paraty-RJ, seja nas páginas amarelas da Revista VEJA desta semana.

            Pondé foi o conferencista do ciclo de palestras “Fronteiras do Pensamento”, desta semana  na capital gaúcha, onde se propôs a responder à pergunta que foi o título da sua exposição: “Seria o pessimismo mais inteligente? Trazemos aqui as respostas de Pondé a algumas das perguntas da platéia, após a palestra, realizada por ele no salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, na noite de 11 de julho de 2011:


Pergunta: O avanço das ciências, por possibilitar o conhecimento das nossas limitações, não colabora com o pessimismo, com o nosso desencanto com o mundo?

Pondé: A ciência desencanta o mundo, sim. A angústia de fundo está ligada à tristeza cotidiana. Quando alguém pergunta ao médico por que o seu filho de quinze anos tem câncer, por exemplo, o profissional dá as razões técnicas. Na prática, o que se procura é conforto. Quem nos dá o consolo são os religiosos. A ciência tem o seu próprio otimismo. Ela avança na saúde, oferece o remédio, mas não consegue dar sentido para a vida. O pessimismo tem uma função de vigília na filosofia e nas ciências humanas. O debate filosófico aqui é sobre o mal estar, a tentativa de reencantamento, de divindade. A ciência, de vez em quando, produz uma espécie de solidão.


Pergunta: O pensamento pessimista está relacionado com o fomento dos movimentos fundamentalistas?

Pondé: O fundamentalismo religioso é fenômeno disputado pelos cientistas da religião. Religião é um sistema de sentido que reúne pensamentos, prática cotidiana, narrativa histórica e que funciona para muitas pessoas. Fundamentalismo é um termo da década de 20, reação protestante, crítica ao darwinismo. Em nossos dias ganhou conotação negativa. É tido como reação à modernização, que teria provocado o distanciamento dos valores originais. A modernização em si é uma experiência de desencanto. O fundamentalismo é um olhar negativo que se alimenta do desencanto e oferece outro encantamento da vida, uma sensação de pertencimento.


Pergunta: Existem razões para ser otimista ou pessimista nesse início de século?

Pondé: Tanto o otimismo como o pessimismo exigem doses equilibradas de uso. Tudo é contraditório.  É difícil ser pessimista o tempo todo. Ser alegre, ser triste, tem um sentido mais largo. Somos mais livres agora, temos sucesso, tecnologias. Ser pessimista para quê? Por outro lado, os vínculos ficam mais difíceis, acredita-se em si e não nos outros. O sucesso desumaniza, nos tira a paciência com quem chora demais, reclama demais. O otimismo assim é um perigo.  Cabe a reflexão do pessimismo como parceiro do maior cuidado com o ser humano, quando estamos apaixonados demais por nossas potências. É terrível esperar a redenção. A maturidade tem a ver com o mundo despedaçado, fora e dentro de nós.


Pergunta: Qual o grande problema do Pensamento Politicamente Correto?

Pondé: O Pensamento Politicamente Correto se origina na corrente filosófica pragmática americana. É um constrangimento invisível, ideológico, típico da nova esquerda americana. A função de estabilização da sociedade, antes centrada no proletariado, hoje se estende a outras minorias. Há mudança do foco dos grupos sociais, abrangendo as franjas da sociedade. O melhor lado do politicamente correto é a educação doméstica, a convivência com os diferentes. Na prática, o pensamento politicamente correto torna-se um controle, um patrulhamento que só se destina a destruir o outro; As pessoas tem medo de escrever. Há uma série de grupos que patrulham quem escreve. O politicamente correto é um modo de constrangimento, controle e ameaça do Pensamento Público, tolhendo a reflexão sobre uma série de discussões necessárias ao mundo atual. É covarde, simplifica a discussão, deixa o Pensamento Público burro, medroso e covarde.  A despeito disso, temos avançado em diversas questões no pensamento público. Como não ser otimista?

29/06/11

POESIA VISUAL: De Simmias a Joan Brossa, Uma Conexão com o Cotidiano


POESIA VISUAL: Uma Conexão Com o Cotidiano
O olhar e o falar nas diversas formas de Arte
    Quando a transmissão de conhecimento era basicamente oral, a realidade era uma só para todos. Se todos diziam as mesmas palavras, não havia diferença. As palavras tinham o status de realidade, desbancando a visão particular. Logo, a verdade era algo sobre o quê a maioria dizia as mesmas frases.
 
    A palavra é a ferramenta básica da poesia, mas isto não impede que no feitio do poema - transcrição de um indivíduo de como ele enxerga a realidade aparentemente única – os poetas agreguem materiais e/ou maneiras de se exprimir diversas, que conferem peculiaridades à poesia, sem perder a essência.
 
    Isso também acontece nas demais espécies de Arte, este amplo território do sensível, materializado em pintura, música, filme, teatro, literatura, escultura e as múltiplas formas de espetáculo. Há sempre um novo fazer artístico sendo agregado.
    Na Arte contemporânea o artista usufrui como nunca do direito de pensar, interrogar e atribuir novos significados às imagens, tanto as tradicionais da história da arte quanto daquelas do cotidiano. Ele não cria novidades. Reprocessa linguagens, aprofunda a sua pesquisa e poética, tendo como instrumental um conjunto de imagens.
    Na Arte em forma de Poesia, deparamo-nos com a substância da linguagem. Poema é esmero e sentimento, aquilo que toca em cada um de nós. Para Júlio Braga, a poesia é arte gráfica, assentada num suporte neutro. "Uma vez descoberta, a essência da linguagem gráfica, ela reencontra seu instrumento autêntico, a palavra, com toda a sua extensão para o logos: verbal, escrita, visual, mímica, prática, filosófica, épica, dramática, coreográfica, mitogênica, cosmogônica, etc", conclui Braga.
De Simmias a Joan Brossa
    O homem ao longo do tempo acrescentou novos significados à escrita. Um exemplo é o poema Ovo, de Simmias de Rhodes, do século IV a.C, que conta o nascimento de Eros a partir do ovo primitivo. É tido como o primeiro modelo de Poesia Visual. A forma (ovo) traduz o sentido e a palavra se torna um atributo da imagem. (Figura 1)
Figura 1

Ovo - Reproduzido em versão tipográfica
    O poeta catalão Joan Brossa é um dos ícones da inquietude criativa, daqueles artistas que não se conformam com uma única vertente. Seja buscando a ordenação visual dos textos, sua conexão com o cotidiano, inserindo-a nos espaços públicos, seja fazendo uso dos objetos em si, rompendo com o padrão estabelecido, mas ainda assim, mantendo algo da estética tradicional. Ele sacudiu a poeira da Poesia Visual e a trouxe para a contemporaneidade. Antes dele, trilharam este caminho os autointitulados vanguardistas europeus do fim do século XIX e início do século XX, que traziam para si o papel de guias da cultura do seu tempo. Embora tenha bebido nesta fonte, Brossa trilhou o seu próprio caminho, tornando-se um artista multimídia.
Movimentos artísticos, políticos e literários dos séculos XIX e XX
    O Dadaísmo(1916-1922), movimento literário criado em 1916, por escritores e artistas plásticos exilados em Zurique, surgiu para demonstrar como, às vezes, nem a própria arte faz sentido no mundo. A arte perdera todo o seu norte, ante a irracionalidade da guerra. O Dadaísmo manifestava esta decepção Palavras desordenadas, sem sentido eram a tônica do movimento, revoltado com o capitalismo burguês e à literatura tradicional, com a pretensão de ir além do expressionismo, futurismo e cubismo. Ante uma Europa em frangalhos por uma guerra gratuita, desconstruir a arte foi maneira encontrada pelos dadaístas para demonstrar a insatisfação com a realidade incômoda.
    Movimentos posteriores inspiraram-se no Dadaísmo, como o Modernismo e o Concretismo. Este último, na década de 50, quis terminar com a diferenciação entre forma e conteúdo vigentes. No Concretismo, o pensamento é calcado na realidade. Influenciou a música, a poesia e as artes plásticas e seu expoente foi o poeta russo Vladimir Mayakovsky, que incorporou a temática social, inovando a linguagem nos anos 60, numa poesia planificada e racional. No Brasil, Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos foram os pilares do movimento. Aboliu-se o verso tradicional e a poesia composta basicamente de verbos e substantivos. A linguagem era concisa, espelhando a sociedade industrial, sem começo meio e fim. Na folha em branco, a palavra se transforma em objeto visual
e admite múltiplas leituras. Os aspectos geométricos passaram a ser incorporados na poesia, na música e nas artes plásticas. Surge a comunicação visual como carro chefe da poesia Concreta. No poema "beba coca cola", abaixo,
Décio Pignatari dá mostras do vigor de sua obra.
beba coca cola 
babe         cola 
beba coca 
babe cola caco 
caco 
cola 
         c l o a c a 

"beba coca cola" (1957), Décio Pignatari

Joan Brossa e João Cabral de Melo Neto – Um vínculo literário fecundo
    A figura de Brossa(1919-1998) sintetiza, a nosso ver, o perfil da revolução estética do século XX. Seus textos literários e trabalhos verbo-visuais – Poesia Experimental – da década 40, consolidaram a transformação da palavra como objeto visual, ocorrida com o Concretismo, na década de 50. O termo Poesia Visual sequer existia. Sua extensa produção se constituía de livros, poemas visuais, poemas objeto, instalações, dentre outras. Era amigo do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, na época Vice-Cônsul do Brasil em Barcelona, que lhe propiciou o contato com o marxismo e a realidade latinoamericana. Seus dois primeiros livros - o Sonets de caruixa (1949) e En va fer Joan Brossa (1951) - foram feitos numa tipografia artesanal que João Cabral mantinha em casa. Brossa lutou na Guerra Civil Espanhola e sobrevivia vendendo livros proibidos pelo franquismo. Na década de 20 seus poemas já reivindicavam a liberdade da Catalunha. Na condição de diplomata, Cabral oferecia segurança às reuniões dos intelectuais da época perseguidos pelo regime do Generalíssimo Francisco Franco, bem como participava efetivamente da efervescência cultural espanhola.
    Merece aqui, um capítulo à parte, a consistente obra literária de João Cabral de Melo Neto(1920-1999), pernambucano do Recife. No fim da década de 50, já produzira, dentre outros, Pedra do Sono(1942), Os Três Mal-Amados (1943),O Engenheiro (1945), O Cão sem Plumas (1950) Sua obra magna de Cabral é "Morte e Vida Severina" encenada em 1969 pela Companhia Teatral de Paulo Autran:


"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
(Morte e Vida Severina)





    Um dos expoentes brasileiros da terceira fase do Modernismo(1945-1960), Cabral possuía um rigor estético obsessivo, uma antipoesia. Valia-se de antíteses como "dentro e fora", "fértil e desértico" e do uso sistemático de palavras como faca, esqueleto, vazio, fome, pedra, dentre outras. O resultado era uma poesia crua que paradoxalmente, estranha e atrai. Não há paixão, basta-lhe a construção pensada e elaborada da linguagem, para se extrair poemas concretos, poemas-objetos, fazer poesia com coisas, com o cotidiano, alimentando o mito de autor cerebral.
    O vínculo literário entre os poetas Joões - brasileiro e espanhol – foi profícuo. Com o pé na materialidade, ambos ligaram sua arte ao dia-a-dia, sedimentando a experimentação poética do Concretismo. De um lado, Brossa, artista precursor da multimídia, que batia pernas por Barcelona sem dinheiro e comendo pouco, dono de uma imaginação riquíssima e uma alegria incomum. Do outro, Cabral, diplomata, intelectual, para quem a vida era bela, porém sofrida, poeta que renegava a subjetividade. Em comum a inquietude artística, característica daqueles que não sossegam quando chegam os prêmios e o reconhecimento e mantém uma diversificada produção artística da juventude à velhice. Um enriqueceu o trabalho do outro.
Brossa e a Poesia Visual
    A poesia visual foi agregada à obra de Joan Brossa, na década de 60. Entre a concepção e a execução decorria longo tempo.(figuras 2a, 2b, 2c)
Figura 2a
Poema visual, concebido 1970 - realizado 1978 /serigrafía

Figura 2b
Solstici, 1989 / litografía.

Figura 2c 
Poema visual, concebido 1970 - realizado 1978 /serigrafía
Imagens: Fundació Joan Brossa – Barcelona-Espanha

    O próprio Brossa explicou como passou da poesia visual para o poema objeto: "Foi todo um processo. Eu comecei fazendo literatura com peruca, depois me concentrei na linguagem coloquial e depois passei ao objeto. Para mim a escrita e o trabalho com os objetos são ferramentas que me permitem colher a poesia, que como a eletricidade está em todas as partes, tem é que colhê-la. O poeta constrói pequenos veículos para transmitir a poesia. Eu gosto de alterar os objetos e fazer metáforas. Eu colho um fragmento da realidade mais comum, uma propaganda de um periódico, por exemplo, e gosto de tocá-lo um pouco, intervindo minimamente. Os objetos têm um sentido, eu o pego do cotidiano e lhe dou outro sentido, tratando de resgatá-lo dessa dependência funcional". (Figura 3a,b,c)
Figura 3a

Poema objeto-1969


Figura 3b








Paleta Poética-1989 


 Figura 3c

Senhor – 1975


Imagens: Fundació Joan Brossa – Barcelona – Espanha

    A partir do livro Poesia Rasa(1970), sua obra é publicada regularmente e consagra-se mundialmente em 1991, expondo no Centro de Arte Rainha Sofia, em Madri.
    No museu Nacional Pablo Picasso, em Paris, encontra-se a obra- "Tête de taureau" - (Paris, 1942), ilustrada abaixo, que traduz de forma ímpar a idéia de transformação da arte. Um selim e um guidão de bicicleta velha - símbolo da indústria – unidos se tornaram uma Cabeça de touro – Símbolo da Espanha. A mesma transformação que outros artistas também exercitaram, de Michel Duchamps a Andy Warol. Bastou pendurar na parede do tal museu e se tornou escultura. (figura 4)
Figura 4


"Tête de taureau"-Pablo Picasso – Paris-1942
Imagens: Museu Pablo Picasso – Paris-França


    Joan Brossa compôs um poema tipográfico com o mesmo tema de Picasso. Simplificou o desenho de uma cabeça de boi até que ele se tornasse a letra A. Pegou algo real – a letra A do alfabeto – e a transformou em um objeto – a cabeça de boi. O poema-objeto. (Figura 5)

Figura 5







Cap de Bou, concebido 1969 - editado 1982 / serigrafia



A obra de Joan Brossa visita o Brasil

    Visitamos no MARGS em 2006, a intrigante mostra de Joan Brossa, "De Barcelona ao Novo Mundo". Logo na entrada, correntes pendiam do teto e ocupavam uma sala inteira. Uma placa informava: Correntes de Dâmocles.(Figura 6)
Figura 6

subrossa3.files.wordpress.com2007/04/cadenes-damocles.jpg



     A instalação era parte da parte da retrospectiva de poemas visuais, poemas objeto, cartazes e livros produzidos pelo autor entre 1938 e 1998. Uma obra em particular surpreendeu-nos: Intermedi – cuja imagem está reproduzida abaixo e uma obra desta autora, um poema com o mesmo título em português. Não se trata releitura, pois não conhecíamos o autor ou sua obra. Apenas uma coincidência e um tema comum. Um - poesia visual. Outro - suporte tradicional.(Figura 7)

Figura 7
Intermedi – Joan Brossa – 1991


Fundació Joan Brossa – Barcelona - Espanha



INTERVALO

Eis que chega triunfal!

a cavalleria rusticana

intermezzo:

imobilizai-vos!

Dos rostos do povaréu

nenhum calor emana

faces gretadas

palidez mortal

puro pavor.

Mãos crispadas, calos atávicos

ancestral horror.

Sequer as pupilas movem

o inimigo imobiliza

allegro, ma non troppo

solta-se o primeiro músculo

o segundo...

o terceiro...

Todos!

a força injeta-se vital

entra de roldão

a dança flui, a dureza esvai

o populacho dança

o inimigo baila.

A música alcança

o cérebro, as veias,

o calor invade...

tece teias.

E a arena

vira uma festa

que a luz imensa clareia

amnésia para o sofrimento

refresco para o espírito

até que voltem as cadeias.


O fazer contemporâneo da poesia segue em construção.

    Na obra "Vaso Quebrado", da artista plástica Sandra Virginia Scheid. "Quando se fala que vaso quebrado não cola mais, não cola mais na forma que tinha, mas com os cacos quebrados você pode fazer um vaso mais bonito que antes" – diz Sandra.(figura 8).
Figura 8



Vaso quebrado – Sandra Virgínia Scheid – Porto Alegre – RS




Foto cedida pela autora


    Em outra obra - Coração em pedaços - "UM quadro é o recado do coração. Os cacos quebrados rearranjados e colados uns aos outros e na base, formam um coração mais forte, mais coeso, mais guerreiro, não sei se mais feliz, mais com
mais garra e vida, sim" – Reflete a artista. (figura 9)

Figura 9

Coração em Pedaços – Sandra Virgínia Scheid – Porto Alegre – RS



Foto cedida pela autora






    Em "Pulsar da Arte", da artista plástica Patrícia Lettiere,(figura 10) um coração estilizado, simboliza a união de Artes e Artistas.   O sangue que esse coração recebe e transporta é a Inspiração que corre nas veias dos artistas e que se transforma em Arte. Para contemplar a beleza da Arte não é preciso que os olhos procurem pelos detalhes, pois às vezes eles se escondem da visão. É precioso e gratificante sentir o Pulsar da Arte, sublime manifestação dos nobres e puros sentimentos, conclui Patrícia.



O pulsar da arte – Patrícia Lettiere – Petrópolis-RJ





Foto cedida pela autora



 A imagem toma conta do mundo outra vez

    A imagem tomou conta do mundo. Interagiu com a palavra, ganhou outras roupagens e suportes. Podemos dizer que uma arte é atual somente quando ela ganha as ruas, mesmo que o público olhe e diga – Mas afinal, o que é isto? Felizmente, as mostras de arte contemporânea ganham espaço em redutos ditos tradicionais, bienais, exposições, atualizando para as tecnologias do momento o modo de se fazer arte, disseminar literatura, transmitir sentimentos e conhecimento.

    Joan Brossa se dizia poeta, mas o seu conceito de poesia foi muito além do convencional. A arte é como a alta costura, que não é usável no protótipo da criação. Aquilo que é mostrado é o núcleo das idéias que serão discutidas, disseminadas em roupa/arte palpável e aceita/usada por crítica e público. Enquanto o novo paradigma não se impõe o artista sobrevive do suporte tradicional, até que um novo modelo assuma o papel de vanguarda.

Poesia Visual – Um conceito por criar – A Poesia Digital

    O termo poesia visual é controverso, conforme a professora Sheila Maués. Para ela, "uma vez que todas as mentes criativas tentaram atingir formas inventivas em função de poéticas diversas. Hoje se fala em poesia visual como resultante da interseção entre poesia e a experimentação visual pela utilização de signagens simultâneas. Essa dicção contemporânea atribui ao conceito de poesia visual falso ar atual. O conceito de poesia visual, ainda por criar, deve partir da revisão de apreciações históricas, para considerar o todo. Poesia visual é poesia livre, é dizer como nunca foi dito, sem pudores de invadir territórios artísticos vizinhos ou códigos impensados. Poesia visual é formar por formar; quer escreva, desenhe, cole, pinte, digite, publique ou emoldure; quer construa por cálculos, projetos ou acredite em inspiração, instinto, acaso. O essencial é que haja poesia".

Já se fala em nossos dias de Poesia Digital... E começa tudo de novo...

 

19/06/11

Os Sapatos Sujos da Língua Portuguesa


O texto abaixo nos foi cedido pela advogada Silma Duarte, de Porto Alegre, que gentilmente nos permitiu a publicação neste espaço.

Conhece Mia Couto? Moçambicano, ele estudou medicina e biologia. Mas se dedica às letras. Tem leitores cativos em Europa, França e Bahia. Os brasileiros o prestigiam em lançamentos, palestras e tietagens. Os patriotas também. Outro dia, convidaram-no para abrir o ano letivo do Instituto Superior de Ciências de Moçambique.

O tema: os sapatos sujos da modernidade.
Ele justificou a escolha do assunto assim:

"Não podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos. À porta da modernidade, precisamos nos descalçar”.

Contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos modernos. Haverá muitos. Mas eu tinha de escolher. E sete é número mágico".

O 1º sapato sujo: a ideia de que os culpados são os outros e nós somos sempre vítimas.

O 2º: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.
O 3º: o preconceito de que quem critica é inimigo.
O 4º: a ideia de que mudar as palavras muda a realidade.
O 5º: a vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
O 6º: a passividade perante a injustiça.
O 7º: a ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros.

Xô, imundície!

A língua também tem sapatos sujos. São muitos.
Mas, como Mia Couto, escolhemos sete.
Respondem pela imundície  preconceitos, descuidos, escola ruim.
Que tal descalçá-los?
Primeiro passo: conhecê-los.
Segundo: deixá-los na soleira da porta.

Os sapatos sujos da língua

 O mito de que o  português é uma língua muito difícil. Talvez a mais difícil do mundo.
O português, como o inglês, o francês ou o chinês, é língua de cultura. Tem seu léxico, sua fonética, sua morfologia, sua sintaxe. Dominá-los exige estudo. É como se subíssemos uma escada com muitos degraus. Cada conquista representa um passo pro alto. Como lembra Mia Couto, o sucesso nasce do trabalho.

A ideia de que ler e escrever bem são dons divinos.
Ler e escrever são habilidades. Jogam no time de nadar, correr ou digitar. Todas exigem treino. Muito treino. Para ser campeão olímpico, Cesar Cielo pratica 15 horas por dia. Para ganhar a São Silvestre, Marilson dos Santos se exercita cinco horas de domingo a domingo. Para ler e entender, escrever e ser entendido, impõe-se ler e escrever muito e sempre.

A crença de que quem não aprendeu a norma culta nos primeiros anos de escola não mais aprenderá.
Desculpa de preguiçoso, não? Papagaio velho aprende a falar sim, senhor. Precisa estudar. O Lula serve de exemplo. No início da carreira, tropeçava em flexões, concordâncias, regências. Hoje domina o padrão culto da língua. Viu? O inimigo não é o outro. Somos nós.

A falácia de que não se devem apontar erros.

Apontar falhas ajuda a corrigir rumos. A correção tem hora e vez. Pais educam os filhos com palavras e exemplos. Avós, tios, primos, amigos os ajudam. A escola tem compromisso com a aquisição do conhecimento. Se se furtar a ensinar a norma culta, por exemplo, condenará muitos alunos a ficarem no andar de baixo. Quem critica, lembra o escritor moçambicano, não é inimigo.

5º A ilusão de que as palavras escondem o raquitismo de ideias.
A prosa informativa se inspira na internet. É ágil, curta e fácil de ler. Perder-se no emaranhado de palavras bonitas impressionavanos dias em que tínhamos de ser criativos para matar o tempo. Não é o caso de agora. Hoje, tempo é luxo. Menos é mais. Menor é melhor.

6º A crença de que eufemismo muda a realidade.

Adocicar o termo é como envolver o produto em celofane. A embalagem é bonita. Mas o interior não muda. Dizer "o caixa está indisponível" em vez de "o caixa quebrou" não muda a realidade: falta dinheiro para pagar as contas ou os credores.

7º A ideia de que errar pega mal.

O teatrólogo Samuel Beckett responde: "Erre mais. Erre melhor".