14/04/13

A Lei de acesso à informação. Cuba e Angola: Empréstimos com carimbo de "SECRETO"


 

Aproveitando o debate que tivemos hoje em aula sobre a abertura ou não dos arquivos dos tempos da repressão, comentamos matéria publicada em 09/04/2013, pela Folha de São Paulo, de autoria do jornalista Rubens Valente, intitulada Brasil coloca sob sigilo apoio financeiro a Cuba e a Angola.

A notícia de que o governo federal, através do Ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, classificou como secreta a documentação que trata dos financiamentos do Brasil aos governos de Cuba e Angola surpreende e, poderia passar despercebida de todos nós. Certamente, os meios de comunicação ficaram sabendo disso através do artigo 30, inciso II, da Lei nº 12.527, de 18/11/11, a Lei de Acesso à Informação, que prevê a publicação anual pela entidade máxima de cada órgão responsável do “rol de documentos classificados em cada grau de sigilo. O cidadão comum, que em 2012 festejou a publicação da chamada Lei de Acesso à Informação, pode se indagar:

 “Que tipo de documento pode conter informação classificada como secreta”?

 Em seu artigo 3o a lei 12.527, prevê que o objetivo da classificação dos documentos é “assegurar o direito fundamental de acesso à informação e devem ser executados em conformidade com os princípios básicos da administração pública”. Dentre as diretrizes, a recomendação de que haja a observância da publicidade como preceito geral e do sigilo como exceção. Ou seja, o sigilo não é a regra e está destinado a casos especiais, possui prazos diferentes conforme o tipo de documento. A documentação pode ser classificada como ultrassecreta, 25 anos; secreta, 15 anos e, reservado, 5 anos. Apenas os documentos classificados como ultrassecretos poderão ter sigilo renovado, também pelo prazo de 25 anos.

Bom, e que tipo de informação não pode ser divulgada? Está no artigo 4o, inciso III: informação sigilosa é “aquela submetida temporariamente à restrição de acesso público em razão de sua imprescindibilidade para a segurança da sociedade e do Estado”.

  Por outro lado, o artigo 7o garante que o cidadão tem direito de obter informação, acerca das atividades exercidas pelos órgãos e entidades, inclusive as relativas à sua política, organização e serviços, bem como daquelas informações pertinente à administração do patrimônio público, utilização de recursos públicos, licitação, contratos administrativos, dentre outras.

É claro que, ao classificar o conteúdo dos documentos, a lei procura resguardar as informações imprescindíveis à segurança da sociedade ou do Estado.  São aquelas cuja divulgação ou acesso irrestrito, coloque em risco a defesa e a soberania nacionais ou a integridade do território nacional; prejudique a condução de negociações ou as relações internacionais do País, ou ainda, dados que tenham sido fornecidos em caráter sigiloso por outros Estados e organismos internacionais. São incluídas também, aquelas que ofereçam elevado risco à estabilidade financeira, econômica ou monetária do País; prejudiquem ou causem risco a projetos de pesquisa e desenvolvimento científico ou tecnológico, assim como a sistemas, bens, instalações ou áreas de interesse estratégico nacional.

Na prática, significa que as transações e documentos acerca do apoio financeiro a Cuba e Angola só serão públicos daqui a 15 anos.       A resposta para a pergunta do 3º parágrafo deste texto — Que tipo de documento pode conter informação classificada como secreta? — está na própria lei. Porém, as razões que levaram o Planalto a restringir o acesso aos dados destas operações internacionais especificamente e não de outras da mesma espécie — afinal, não é a primeira vez que o país realiza financiamentos em outros países — são de natureza subliminar, motivos que vão além da retórica da explicação oficial. Talvez, porque o contexto dos apoios financeiros de que tratam a matéria seja injustificável para a nação brasileira; ela própria carente de investimentos internos que alavanquem primordialmente o desenvolvimento do nosso país. 

 

Referências:


13/10/12

Reflexões sobre cérebro e consciência. Parte III

 

Para a neurocientista e baronesa britânica Susan Greenfield, palestrante da conferência Fronteiras do Pensamento, de 22/09/2012, em Porto Alegre, com o tema o cérebro do futuro, o futuro do cérebro, “À medida que evolui, o cérebro humano consegue se libertar da tirania dos genes e se adaptar ao ambiente. A isso chamamos plasticidade, que vem do grego plastikos, que quer dizer ser moldado. Por cem mil anos, tempo em que o homem está no planeta, nenhum outro ser desenvolveu um cérebro como o seu”. 
 
Professora da Universidade de Oxford, a neurocientista dedica-se ao estudo da fisiologia das doenças de Alzheimer e de Parkinson, além de trabalhar como divulgadora científica. A baronesa é voz dissonante na comunidade científica e fora dela; por defender que e ambiente virtual afeta de forma negativa o cérebro humano. Ela, inclusive, levou para o parlamento britânico, do qual faz parte; a discussão sobre a regulação do uso da internet e possíveis efeitos nocivos de seu uso sobre crianças. 

Além desses temas, Susan Greenfield se destaca pelos seus estudos acerca das bases neurocientíficas da consciência. Sua teoria das assembléias neuronais é tida por cientistas como Jorge Martins de Oliveira, Professor da UFRJ, Diretor do Departamento de Neurociências do Instituto da Pessoa Humana (RJ); como a ideia mais coerente para a formulação de uma hipótese a respeito da formação da consciência.

Para Greenfield, as assembleias são unidades funcionais, de caráter transitório, compostas por neurônios "cedidos" por unidades anatômicas, de caráter permanente (as colunas neurais). Esse sistema embutido nas nossas estruturas cerebrais acontece, segundo a pesquisadora, nas fronteiras entre os neurônios sempre que o cérebro é ativado por algum estímulo. Manifestado sob a forma de disparos elétricos contínuos, são a fonte de energia necessária para que nas moléculas das membranas neuronais ocorra emissão de fótons. Quando essa emissão atinge uma frequência crítica, as moléculas das membranas de milhões de neurônios vibram em uníssono e entram numa fase condensada. Cria-se, assim, uma única identidade, pré-requisito fundamental para formação da consciência. Então, os neurônios de múltiplas colunas disparam simultaneamente; forma-se uma assembléia e, numa ínfima fração de tempo, a consciência explode.
 
Um grupo de físicos israelenses do Instituto Weizmann, chefiado Amiram Ginvald, trabalhou com contrastes sensíveis à voltagem elétrica, de modo a visualizar os neurônios se acendendo em larga escala. Verificou-se, então, que um mero estímulo visual não provoca uma simples resposta cerebral, e sim, uma que cresce à medida que mais e mais neurônios são recrutados: como Greenfield havia previsto quando propôs a teoria das assembléias neuronais.

Uma equipe Universidade Hebraica de Tel-Aviv, liderada por Eilon Vaadia, confirmou os achados do Weizmann, tendo observado que grupos neurais podem se organizar para realizar tarefas específicas e, depois, se reorganizar para formar novos grupos a fim de executar novas funções.

A ponte invisível entre a indetectável consciência e as detectáveis assembléias neuronais, consiste no ainda desconhecido, mas preciso mecanismo; através do qual, num período de tempo infinitamente pequeno, a vibração da matéria super condensada, formada pelas moléculas dos neurônios, libera a energia que vai se expressar sob a forma de um abstrato pensamento consciente.

Na busca “localizar” a consciência, cientistas como o filósofo britânico Derek Parfit, acreditam existir uma região executiva da consciência, para onde convergem todas as informações geradas no cérebro. Porém, trabalhos como o de Susan Greenfield e dos cientistas israelenses, entre outras evidências mostram que a consciência não está restrita a essa ou aquela área, mas se espalha pelo cérebro, de acordo com uma de suas principais características:
— Ser, simultaneamente, uni-temporal e múltiplo espacial.

De que forma coisas intangíveis, como pensamento e consciência são construídas a partir de elementos detectáveis e mensuráveis, como fases condensadas, atividade elétrica e neurotransmissores?

O que se passa nessa ínfima fração de segundo é tão insondável quanto o que ocorreu no instante inicial do big-bang, em que outra matéria, bilhões de vezes mais condensada, deu origem ao universo. De certa forma, tal proposição só reforça o epíteto de ser o cérebro a última fronteira do pensamento.
Revista Filosofia Ciência e Vida Nº 9, 2007. Artigo do Dr. João de Fernandes Teixeira;O livro do cérebro. Alberto P. Quartim de Moraes. Ed. Duetto, 2009. Jornal “O Sul”, de 22.09.2012
Jornal “Zero Hora”, de 22.09.2012.
 

09/10/12

Reflexões sobre cérebro e consciência. Parte II




A consciência é uma qualidade da mente. Abrange outras designações, tais como subjetividade, autoconsciência, sapiência, e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente. É objeto de pesquisa no âmbito da ciência cognitiva e suas especialidades, médicas ou não, que vão desde a neurologia, a psicologia, a antropologia, passando pela filosofia da mente, além da inteligência artificial. Descobrir se estados mentais são estados cerebrais é dúvida antiga. O divisor de águas é o pensamento do filósofo e médico, Renè Descartes ao afirmar que estados mentais e estados cerebrais não são a mesma coisa. Ao defender a existência de um centro cerebral da consciência na glândula pineal e que, através dela, a alma se comunicaria com o soma (corpo), Descartes respondeu de forma original para o século XVII, à pergunta que sempre inquietou os humanos: — Quem somos nós?

Três séculos depois, o filósofo da mente, Daniel Dennett contesta a validade da teoria de Descartes. Para Dennett, nosso cérebro pode ser comparado a uma espécie de computador e a consciência – enquanto uma propriedade funcional – a certo tipo de software, uma “máquina virtual” em nosso cérebro. A consciência é, portanto, um fenômeno de terceira pessoa e, por isso mesmo, passível de ser analisado cientificamente. Sua teoria, de caráter reducionista, busca definir e explicar os estados e processos mentais conscientes em termos de atividade funcional específica (não necessariamente exercida pelo cérebro enquanto um órgão biológico). Ou seja, a capacidade de um sistema de receber estímulos ambientais, processar um conjunto de informações e exercer uma resposta comportamental para qual seja requerida algum nível de inteligência.
 
A Dennet se contrapõe o também filósofo John Searle, ao afirmar que os estados de consciência só podem ser revelados do ponto de vista da primeira pessoa. Por ter acesso privilegiado às suas experiências sensoriais, pensamentos, o indivíduo jamais poderia estar errado quanto ao estado de consciência em que se encontra em determinado momento. Conforme Searle, no que se refere à consciência, aparência é igual à realidade e nada que ocorre dentro de um cérebro dá indícios do tipo de pensamento que está ocorrendo. A experiência consciente é intrinsecamente subjetiva e quanto esse aspecto, irredutível a qualquer explicação de caráter científico, cuja formulação se vale do ponto de vista da terceira pessoa. O ato de examinar um eletroencefalograma ou uma neuroimagem, por exemplo, não permite que esse alguém de fora descreva o que acontece dentro do cérebro observado. Um computador recebe uma informação, processa e a devolve, sem em nenhum momento "entender" nada do que está acontecendo. Mudar o programa significa apenas alterar as regras, já que o entendimento continuaria nulo, e a inteligência artificial, impossível. De acordo com Searle, falta à inteligência artificial a intencionalidade intrínseca, elemento essencial à consciência. Ao conferir primazia às qualidades subjetivas da experiência consciente, Searle exclui a possibilidade do erro.
Ao contestar Searle, Dennett e afirma a necessidade de se distinguir aparência e realidade. O ser humano provou ser capaz de aprender com a experiência. Não fazer tal distinção significa estar certo sempre e não aprender com o feed-back negativo, algo que tornaria a própria evolução da vida e da inteligência impossíveis.

Não há, até o momento, nenhuma explicação, plenamente satisfatória, para o mecanismo de formação da consciência. O modelo do computador pode explicar a memória, mas não esclarece a questão da consciência. A máquina, não cria nem sente, tampouco preenche os requisitos necessários para explicar a característica unitária da consciência, a qual se expressa pela fusão, durante um período variável de tempo, de todas as nossas percepções, pensamentos e emoções. Sem essa unidade, a pessoa não experimenta, à medida que "vivencia" as múltiplas experiências do dia a dia, a sensação de individualidade, de ser um ser uno e indivisível.

A consciência representa nossa individualidade e subjetividade. É essa última que confere ao ser humano a possibilidade de refletir, conhecer-se, viver em sociedade e receber dela informações sobre si, além de permitir ao ser humano a capacidade de agir.

 

Referências:


Revista Filosofia Ciência e Vida Nº 9, 2007. Artigo do filósofo da USP, Dr. João F. Teixeira.

28/09/12

Reflexões sobre cérebro e consciência - Parte I


Reflexões sobre cérebro e consciência. Parte I.

Consciência no sentido clássico é o estado em que a pessoa está ciente de suas ações físicas e mentais, só ocorrendo quando se está acordado e alerta.

Por volta do século V a.C. o cérebro passou a ser reconhecido como o centro das atividades mentais, mas a idéia da existência de uma substância responsável pela formação da consciência, a dualidade herdada da antiguidade grega, persistiu.

No século XVII, o filósofo e médico René Descartes, afirmou que a alma — mente — (e, por dedução a consciência) se dissociam do cérebro e do corpo. Somos uma mente que interage causalmente com um corpo e esse corpo se comporta como uma máquina. Essa alma não existe nos animais e nos autômatos (sim, Descartes imaginou os robôs). Possuímos comportamento reflexo; e, o cérebro é o local onde nossos pensamentos ocorrem. Estava criado o dualismo moderno, a doutrina segundo a qual mente e corpo são radicalmente distintos.

Desde então dualistas e materialistas (ou monistas) seguem se digladiando.  À neurociência, nos anos 50, coube a herança de decifrar o enigma de Descartes: O cérebro gera uma mente. Ok. Então, como o funciona o processo pelo qual essa mente converte um sinal cerebral num estado mental?

Dos anos 90 para cá, filósofos e cientistas como Daniel Dennet, Roger Penrose, John Searle e Raymond Kurzwei, dentre outros, propuseram diferentes modelos conceituais a fim de compreender a natureza da experiência consciente. O problema mente-cérebro se tornou na atualidade, o problema mente-cérebro-consciência.

Na tradução do cerebral para o mental, psicologia e neurofisiologia se misturam. A definição de consciente usada até hoje tem origem na divisão de Freud do aparelho psíquico: inconsciente, subconsciente e consciente. Correspondendo à zona da razão, o consciente, por intermédio da introspecção, responde pelo contato com o mundo exterior, tornando o indivíduo capaz de descrever as próprias experiências e apresentar determinado padrão de comportamento. Decifrar o código cerebral tem trazido mais dúvidas que resultados à ciência. Serão tais códigos resultado da atividade de um cérebro ou da atividade de uma mente que examina um cérebro. Na causação mental, as mentes podem afetar os corpos. A psicossomática é a ciência que busca encontrar essa relação causal entre fenômenos mentais (psicanálise e psicologia) e fenômenos físicos (medicina tradicional). A consciência de alguns estados mentais ou experiências pode fazer a diferença no comportamento ou nos estados pelos quais o corpo passa? A consciência é o que nos distingue de simples máquinas biológicas e de zumbis?

O inventor Raymond Kurzwei questiona “qual será o papel que no futuro, o homem-ciborgue, capaz de trabalhar inúmeras vezes mais rápido do que o humano de hoje em dia — o processamento de informação nos cérebros primordialmente não-biológicos é mais rápido — será capaz de desempenhar”?

Em algum momento as máquinas se afirmarão conscientes e haverá uma concorrência desleal entre elas e o "ser humano não aprimorado". O indivíduo que não incorporar a inteligência artificial não será capaz de competir em termos de produtividade com os ciborgues. Não se trata de substituir o homem por robôs, mas do processo inverso. O que dizer dos implantes e acessórios que cada vez mais acoplamos ao nosso corpo? De marca-passos a prótese de membros, cada novo avanço tecnológico, distancia-nos da figura humana natural, numa divisa cada vez menor entre homem e máquina.

 

Revista Filosofia Ciência e Vida Nº 9, 2007. Artigo do Dr. João de Fernandes Teixeira;

O livro do cérebro. Alberto P. Quartim de Moraes. Ed. Duetto, 2009.

 

03/06/12

Sobre o ato de escrever cartas

        
            Escrever cartas hoje em dia é um ato totalmente anacrônico. Ninguém escreve estando próximo e a correspondência necessita da distância e da ausência para prosperar. Sendo este o motivo, tampouco se justifica a manutenção dessa forma de se comunicar. Basta uma tela de um celular para romper distâncias e uma tela de computador para visualizar o interlocutor do outro lado do mundo.

            Aqueles poucos que insistem em escrever o fazem por saudosismo e pelo desejo que o destinatário responda também da forma epistolar. Ou seja, cartas assim, se tornam uma camisa de força para quem recebe. Algo parecido com duplicatas, que se recebe e se deve. Pode ser uma alegria receber uma carta, principalmente se for de um amigo. Contudo, o remorso em não respondê-la fica ali, perturbando-nos ao longo dos dias como uma dívida inadimplente, mandando a satisfação da notícia por água abaixo. Se a obrigação é apenas implícita, não há porque se magoar, já que carta não é jogo de frescobol na praia, toma lá, dá cá. Mas que fica uma rusguinha, ah, isso fica.

            A linguagem se modificou ameaçando sepultar a língua culta nos diálogos escritos com o advento do e-mail; dando prosseguimento à primeira pá de cal na correspondência dada inicialmente com o telefone e seu sentido de urgência.   

            A correspondência em si mesma já é uma forma de utopia. Escrever uma carta é enviar uma mensagem para o futuro; falar a partir do presente com um destinatário que não se encontra ali, que não se sabe como estará — em que estado de espírito, com quem — enquanto lhe escrevemos e, principalmente, depois: ao ler-nos. A correspondência é a forma utópica da conversa porque anula o presente e faz do futuro o único lugar possível de diálogo.

            Uma imagem na tela do computador ou o uso do telefone exigem articulação imediata. A ansiedade que a distância física gera pela impossibilidade de contato; impede a tradução espontânea dos sentimentos acumulados.

            Cartas não substituem a convivência entre os amigos espalhados cada qual por lugares e cidades diferentes. Todavia, a palavra escrita tem a peculiaridade de estabelecer uma relação da presença daqueles que amamos. Na solidão da escrita, a conversa se faz acompanhar de fatos, locais, cuja descrição vivifica as palavras e quem recebe imagina o contexto e a emoção que as impregnou.  O testemunho de um amigo, um familiar, nos traz a sua existência inserido nesse lugar ausente e permite a partilha da sua intimidade, seus sentimentos. Mesmo que sejam cartas esporádicas e seu conteúdo, trivial, elas são o retrato da vivência em sua forma mais pura, retratando e compartilhando emoção do momento em que foi escrita, de forma ímpar, que nenhum outro meio pode captar. Um fragmento da vida da pessoa através do qual se pode vislumbrar o todo.

REFERÊNCIAS:

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre. L&PM, 2006

PIGLIA, Ricardo. Respiração artificial. São Paulo. Iluminuras, 2006


15/04/12

Profissões que não escolhemos



            O filme “O primeiro ano do resto de nossas vidas”, de 1985, discute as incertezas de um grupo de jovens recém-formados em relação ao futuro profissional:  
             “Quer saber qual a profissão ideal para você? Descubra algo que faria de graça para o resto da vida e ganhe dinheiro com isso” — diz um dos personagens, traduzindo o espírito dos anos oitenta, do qual os Steve Jobs e Bill Gates da vida são notórios representantes. Aparentemente um bordão como esse serve para relativizar tudo. Quando ao trabalho nos dá prazer, canalizamos para ele com uma vontade que beira o entretenimento; dedicação e disciplina, duas palavrinhas que, não raro, tem conotação de castigo para muitos de nós.
            Viver da nossa vocação é uma tarefa arriscada. No auge da juventude, o que parece supérfluo e ambicioso a olhos alheios, para o obstinado é uma necessidade, orgânica até, que o faz concentrar-se no seu objetivo em si, sem que o foco da remuneração o persiga. Com o tempo, percebemos que nem sempre, fazer o que se gosta é sinônimo de sucesso profissional e, principalmente, que sendo bom no que faz, vá ganhar rios de dinheiro.
            Quando somos convocados a escolher que caminhos trilhar, ante a constatação de que um único grande sonho não preenche uma existência, cabe-nos diferenciar a necessidade pura e simples de prover a subsistência; das implicações que acrescentamos à nossa vida por vontade própria. Há uma série de desejos periféricos, camuflados, sem os quais percebemos que não podemos viver. Latentes, elas afloraram querendo furar a fila dos desejos inadiáveis.  Para abraçar uma profissão que não escolheríamos se tivéssemos outra opção, precisamos ser sinceros conosco mesmos para admitir que outras facetas da nossa vida, adquiriram importância não percebida no começo, sobrepujadas que foram pelo objetivo principal. A ânsia por autonomia é uma delas. Principalmente, se toda a dedicação e disciplina que até então reservamos àquela que cremos ser a nossa vocação mais se assemelhou a murro em ponta de faca. Inclusive, pela constatação honesta de que não tínhamos o talento que julgávamos possuir.
            Não vale a pena nos tornarmos mesquinhos, enrijecidos em nossas profissões, exercendo-as como se fosse um fardo, compartimentadas, desligadas da vida.            Geralmente essa postura se traduz numa atitude defensiva e de desprezo, como recurso para isolar-se das pessoas com quem convivemos e firmar status-quo.  
Quem nos garante que temos uma posição? Nossas profissões são duras, cheias de contradição que nos afetam e as queixas um dia aparecem. E quando elas vêm, não há tranqüilidade. Resta-nos ponderar se todas as profissões não são assim, cheias de exigências, cheias de animosidade contra o indivíduo, repletas do ódio daqueles que se conformaram, resignados e rabugentos com sua obrigação insossa. Se o cargo que ocupamos é um espaço a ocupar, cheio de convenções, preconceitos e enganos a enfrentar; há o mesmo nível de exigência em todas as profissões. Há algumas que proporcionam uma liberdade maior, mas não há nenhuma que seja ampla e espaçosa, que se relacione com as grandes coisas de que a verdadeira vida é constituída.
            A solidão premeditada também é ela própria, um trabalho, um cargo e uma profissão. Quando optamos pela solidão interior, isso seria sentido em qualquer trabalho. Quando sentimos o que acontece do lado de fora da nossa vida, ao final de um dia pleno de acontecimentos, qualquer cargo se desprende de nós como um peso morto, por mais que nos encontremos no meio da vida em plenitude. Tal sentimento opressor ocorreria conosco mesmo que procurássemos um contato com a sociedade, ainda que superficial. É resultado de evitarmos a comunhão entre nós e os que estão ao nosso redor. Não é um privilégio dos solitários por opção. É assim em toda parte. Podemos procurar a proximidade daquilo que não nos abandona. Da natureza e dos animais, por exemplo, plena de acontecimentos em que se pode tomar parte, de pensar acerca da própria vida frente às ambições da juventude. 
            Tudo de palpável e delimitado que hoje faz parte da nossa vida, ganha seriedade e necessidade. O fantasma do fracasso requisita atenção independente e de tempos em tempos nos põem diante de dúvidas recônditas. Para isso, busquemos um distanciamento que nos permita ver a realidade além dos pensamentos que possamos ter alimentado, presos a um sonho supostamente irrealizado. De que nos serve uma lucidez aberrante a não ser para que fujamos do trabalho de equacionar nossas perdas e ganhos e não nos oferecer nenhuma resposta?   Podemos ter perdido a oportunidade de virar a página e perceber a verdadeira dimensão dos projetos que efetivamos, dos nossos dons explorados e do tempo, que se encarregou de tirar do nosso rosto o olhar de desdém e de tédio, daqueles que realmente fracassam: Os que se agarram a uma única opção e não usam a sua inteligência e lucidez para se transformar, mudar de rota, quando a maturidade lhes indica o desvanecer dos sonhos.     

21/03/12

Secura - Conto finalista do Sétimo Prêmio Maximiano Campos de Literatura - Antologia da Editora Carpe Diem - Recife-PE - www.editoracarpediem.com.br




            Sentada na carroceria do caminhão que a levaria à cidade, Ana findara a acomodação das tralhas, do embornal com galinha e jerimuns, enquanto Izabel, no outro braço, fuçava-lhe a teta ressequida; mais por achego que por leite. Dali, não saía nem uma gota. Tirou da trouxa um tiquinho de rapadura, amoleceu na língua, sentiu o gosto da doçura. Enfiou os dedos na boca, lambuzando-os no doce. Depois, melecou o bico do peito e o pôs entre os lábios da menina, que sugou com gosto.

            Era época de chuva. Ana espichou o olhar pelo verde, parecido com sua rocinha. Feijão de corda, jerimum em ponto de comer, milho embonecando, um pouco de tudo, com destino certo: ela, três meninos, mais Izabel. Grudada no peito, a caçula tinha os olhos fixos na mãe. Ana sorriu. Uma menina, depois de anos sem filho. O marido voltou do garimpo, emprenhou-a e sumiu de novo.

            Os moleques se fartavam, trepados nas grimpas; depois desciam de beiço rachado pelo sumo de manga deves. Ela suspirou. Fora-se  o aperreio do feijão ralo com farinha, só de noite, para dormirem sem dor no bucho. Quando se finavam manga, pequi e umbu, a penúria voltava.

                        Ana tinha serviço, raspava macaxeira num quitungo. Da crueira, fazia mingau adoçado com rapadura. Assim criou os três que vingaram. Menos Izabel, nascida na seca; não deu conta de comer, vomitava tudo, mirrando de dar dó. Leite, nunca teve. Para a gente do lugar, era Ana, a seca; que leite não tinha, não chorava nunca e falava sozinha. Ela mesma perguntava, ela mesma respondia.

            Ia até a casa de dona Celeste, na cidade, buscar o leite da Izabel, a cada dois meses. Sua benfeitora tinha nenê pequeno, lhe deu amparo. Até hoje não atina porque ela a ajuda. Agradece à comadre Rita, que suplicou à patroa, um ajutório para a afilhada. A mulher era estúpida. Mandou Rita comprar quatro latas de leite, rápido, entregar para Ana. Celeste, com o canto do olho, dizendo:

— Pago o leite, vem buscar todo mês. Vai, vai — Despachou-a.

            Ana voltou duas semanas depois. Terminara o leite. Os irmãos comeram tudo. D. Celeste que a xingasse, ela merecia — mas que tivesse dó da bichinha. Sentiu a voz furiosa acusando-a de comer o leite e culpar os filhos. Esconderia o leite no mato, como fazia com as rapaduras guardadas para a seca. Finalmente ela concordou em dar o leite. Se Ana comesse de novo, arderia no fogo do inferno. Nem precisava voltar.

            D. Celeste se acalmou um pouco com o passar do tempo, chegava até o portão, fazia gracinha para a nenê.

            Ela ia gostar de ver Izabel? Tomara que sim — torcia — já a caminho da casa da benfeitora. Bateu palmas, Celeste abriu o portão. Ana lhe estendeu o embornal com a galinha raquítica e dois jerimuns:

            —É presente — falou.

            A mulher quase teve um acesso. Que ela levasse de volta, não precisava daquilo, alguma coisa tinha por trás. Rita apareceu, pegou a afilhada no colo. Ana sentiu um troço entalado no peito. Ficaria quieta, por Izabel. Não aguentou, falou baixinho, abrindo o embornal:

            — Eu sou mesmo uma desgraçada, dona Celeste. Esse pouco que tem aqui, que lhe dou de coração, não tem valia para a senhora.

            E seguiu falando de um jeito que Celeste não decifrou, a cabeça baixa, balançando de um lado para outro. Ana só ergueu os olhos quando percebeu Celeste, junto dela, a voz embargada:

            — Não seja boba. Só acho que você precisa mais do que eu. Dá logo aqui senão o bicho vai sufocar aí dentro. Celeste pegou o embornal e o entregou para Rita, que segurou Izabel um pouquinho no colo e a devolveu para a mãe.            Do lado de fora do portão, Ana parou um instante. Seria capaz de apostar que ouvira dona Celeste soluçar.

            À noite, Ana notou aliviada não lhe coçar mais os miolos, em redemoinho. Izabel dormia; a teta doce caída de lado. Ajeitou-lhe a coberta. Os meninos roncavam de bucho cheio. Ana sorriu, fixando o teto do casebre.

            Quieta, assim, percebeu que suava por dentro. O molhadio subira à revelia pela sua garganta até alcançar o nariz, a boca, os olhos. Ana sentiu que tinha de volta a vontade perdida de chorar.